domingo, 22 de fevereiro de 2026

Supremo Tribunal dos EUA anulou as tarifas aduaneira globais

 

O Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América (EUA) anulou, a 20 de fevereiro, as tarifas aduaneiras globais impostas por Donald Trump a quase todos os parceiros comerciais do país, por considerar que o Presidente excedeu a sua autoridade constitucional.

Por seis votos contra três, os juízes concluíram que a Lei dos Poderes Económicos de Emergência Internacional de 1977 (IEEPA) não confere ao Presidente poder para aplicar tarifas de forma unilateral. E John Roberts, presidente do Supremo Tribunal, a sustentar a decisão, escreveu que, “quando o Congresso delegou os seus poderes tarifários, fê-lo em termos explícitos e sujeitos a limites rigorosos”. Ora, “neste contexto de delegações claras e limitadas, o governo interpreta a IEEPA como conferindo ao Presidente o poder de impor, unilateralmente, tarifas ilimitadas e de as alterar à vontade”, interpretação que, nas palavras de John Roberts, “representaria uma expansão transformadora da autoridade do Presidente sobre a política tarifária”.

Também a deputada democrata Elizabeth Warren lamentou que nenhuma decisão judicial pudesse “desfazer os enormes danos que as tarifas de Trump causaram às pequenas empresas, às cadeias de abastecimento americanas e, principalmente, às famílias americanas obrigadas a pagar preços mais altos por tudo, como nas compras domésticas, alimentos e habitação”.

Depois de, segundo a CNN, ter criticado a decisão do tribunal, durante um encontro matinal na Casa Branca com deputados norte-americanos, considerando-a uma “desgraça”, e garantindo ter um “plano B”, Donald Trump reagiu publicamente. Numa conferência de imprensa, qualificou a decisão do Supremo Tribunal como “profundamente dececionante” e uma “decisão terrível” para a nação. Contudo, afirmou não querer desrespeitar a decisão judicial: Quero ser “um bom menino”, ironizou, mas insistindo que as taxas aduaneiras serviam apenas para “tornar a América grande, novamente”, remetendo para a sigla e mote republicano MAGA, aduzindo que os juízes que votaram a favor da anulação das tarifas foram “antipatriotas e desleais” para com a Constituição norte-americana.

Matthew Ryan, chefe de estratégia de mercado da empresa global de serviços financeiros Ebury, anotou que, logo após a decisão judicial, se registou uma venda massiva do dólar americano. E explicou que, certamente, o movimento “reflete preocupações fiscais crescentes, já que os mercados temem que os reembolsos maciços das tarifas possam criar um défice orçamentário significativo nos Estados Unidos, um défice maior e um aumento na emissão de dívida”.

Até agora, o Departamento do Tesouro amealhou cerca de 240 mil milhões de dólares, fruto da aplicação das tarifas desde 2 de abril de 2025, que Donald Trump denominou de “Dia da Libertação”. Ora, como estima a empresa de pesquisa Capital Economics, se o Departamento do Tesouro fosse obrigado a emitir reembolsos, o custo chegaria aos 130 mil milhões de dólares, ou seja, cerca de 0,5% do produto interno bruto (PIB) dos EUA.

Todavia, há quem defenda que Donald Trump pode continuar a aplicar tarifas.

Assim, a agência Lusa refere que Basil Woodd-Walker, sócio do escritório de advocacia global Simmons & Simmons, citado pelo “The Guardian”, adverte que Donald Trump consegue alterar a aplicação das tarifas recíprocas generalizadas para tarifas setoriais, pois “o governo dos EUA pode recorrer a outros regimes tarifários, para compensar a perda de receita”.

E, em entrevista à jornalista do “The New York Times”Ana Swanson, o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, garantiu que, caso o dia desta decisão do Supremo Tribunal chegasse, ele iria começar a trabalhar “no dia seguinte”, para encontrar outra lei que apoiasse a política tarifária. Entre as opções que a Casa Branca poderá ter, garante o “The New York Times”, estão: a Secção 232, que permite ao governo impor tarifas sobre certos setores, em nome da segurança nacional; a Secção 301, que permite a imposição de tarifas por práticas comerciais desleais, como usada, anteriormente, por Trump contra a China, no seu primeiro mandato; a Secção 122, com legislação relacionada com questões de balanço de pagamentos, para implementar uma tarifa de 15%, por 150 dias; e a Secção 338, que permite ao governo impor tarifas, caso países terceiros pratiquem discriminação singular contra os EUA e que poderia ser usada contra países que retaliem as tarifas aduaneiras.

Em todo o caso, Wall Street saudou, com alguma contenção, a derrota de Trump nas taxas alfandegárias. A bolsa nova-iorquina encerrou o dia 20 em alta, com os investidores satisfeitos. Os resultados da sessão indicam que o índice seletivo Dow Jones Industrial Average avançou 0,47%, o tecnológico Nasdaq ganhou 0,90% e o alargado S&P500 subiu 0,69%.

Steve Sosnick, da Interactive Brokers, disse que “é, claramente, uma boa notícia para a economia, no seu conjunto”. Porém, Gina Bolvin, da Bolvin Wealth Management, frisou que “a reação dos investidores […] foi moderada, o que sugere que [a decisão] já era esperada”.

“Ninguém está surpreendido com a capacidade de o governo Trump se gabar da sua capacidade de compensar as perdas de receita que vão resultar da supressão das achas alfandegárias”, disse Patrick O’Hare, da Briefing.com, em declarações à AFP, estimando que o anúncio de Trump de aplicação de taxas de 10%, a somar às existentes, criará “ainda mais incertezas”.

Por seu turno, Mark Malek, da Siebert Financial, admitiu: “As taxas alfandegárias talvez tenham desaparecido hoje, mas a razão que as motivou permanece.”

Devido à decisão do Supremo Tribunal, o governo pode ser obrigado a reembolsar dezenas de milhares de milhões de dólares recebidos indevidamente, mas terá de surgir nova decisão para o efeito. E a perspetiva de uma dívida federal ainda mais agravada fez subir o rendimento proporcionado pelos títulos de dívida federal, a 10 anos, para 4,08%.

Por outro lado, durante a sessão foram conhecidos indicadores económicos, que mostraram um crescimento da economia no último trimestre de 2025 mais fraco do que o previsto, de 1,4%, enquanto o índice de despesas de consumo pessoal voltou a subir, em dezembro, para 2,9%. E, segundo Patrick O’Hare estes indicadores “chocam com as expectativas dos investidores, que esperam um crescimento mais forte e uma inflação mais baixa”.

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No mesmo dia 20, o presidente norte-americano anunciou que imporá  nova tarifa aduaneira global de 10% e acusou o Supremo Tribunal de ter cedido a “influências estrangeiras”, após anular as tarifas previamente impostas por si. “Hoje, vou assinar um decreto para impor uma tarifa global de 10% [...], que se somará às nossas tarifas aduaneiras normais já em vigor”, afirmou, numa conferência de imprensa, sugerindo que a maioria dos acordos comerciais com os EUA continuam de pé. E exemplificou, referindo que “o acordo com a Índia continua válido”, mas acrescentando que “todos os acordos” continuam válidos e que Washington só irá “proceder de forma diferente”, ou seja, doravante outras alternativas serão “utilizadas para substituir as que o tribunal rejeitou injustamente”, podendo tais alternativas render ainda mais dinheiro.

O inquilino da Casa Branca também considerou que a decisão desfavorável do Supremo Tribunal o tornava “mais poderoso”, em termos de regulamentação do comércio e de direitos aduaneiros. E, quanto a eventual reembolso dos direitos aduaneiros considerados ilegais, observou que é uma questão que ocupará os tribunais, durante anos, salientando que essa questão “não foi abordada” na decisão do mais alto tribunal do país.

Dos nove juízes que compõem o Supremo Tribunal seis votaram a favor de anular as tarifas, ao passo que os juízes conservadores Samuel Alito, Clarence Thomas e Brett Kavanaugh votaram contra a anulação das tarifas.

O caso representa o primeiro grande dossiê da agenda de Donald Trump a chegar, diretamente, ao Supremo Tribunal, que o próprio Presidente ajudou a moldar, através da nomeação de três magistrados conservadores, durante o seu primeiro mandato.

A decisão do Supremo Tribunal incide sobre as chamadas “tarifas recíprocas” aplicadas, em abril de 2025, à maioria dos países, bem como sobre outras taxas decretadas com base na IEEPA, que permite ao Presidente regular importações em situação de emergência nacional.

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O acórdão do Supremo Tribunal, em princípio, põe em causa o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e os EUA celebrado em julho de 2025, desde os direitos aduaneiros pagos no passado até às futuras promessas de investimento. Por conseguinte, a Comissão Europeia precipitou-se, antes de Trump falar sobre o caso, ao revelar que está a analisar cuidadosamente a decisão judicial. E está a pedir esclarecimentos à Casa Branca, depois de o Supremo Tribunal dos EUA ter anulado as tarifas impostas por Donald Trump, numa decisão histórica que, supostamente, poderá ter repercussões na UE.

Após a publicação da decisão judicial, o porta-voz adjunto da Comissão Europeia, Olof Gill, afirmou que a Comissão “continua em estreito contacto com a Administração dos EUA, à medida que procuramos esclarecer as medidas que pretendem tomar em resposta a esta decisão”.

O acordo entre a UE e os EUA, assinado, em julho passado, pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e por Donald Trump, estabelece a tarifa geral de 15% sobre as exportações da UE e reduz a zero os direitos sobre os produtos industriais dos EUA, num acordo favorável a Washington. Como parte do acordo, Bruxelas comprometeu-se a comprar 750 mil milhões de dólares de produtos energéticos norte-americanos até 2028 e a investir 600 mil milhões de dólares em setores estratégicos nos EUA. A decisão põe, objetivamente, em causa a validade do acordo, desde os direitos aduaneiros já pagos pelas empresas europeias, agora declarados ilegais pelo Supremo Tribunal norte-americano, até aos compromissos futuros.

“Tomamos nota da decisão do Supremo Tribunal dos EUA e estamos a analisá-la cuidadosamente”, frisou o porta-voz da Comissão.

A decisão do Supremo Tribunal é suscetível de levantar sérias questões sobre a durabilidade do acordo e sobre a legalidade dos direitos aduaneiros já pagos pelas empresas da UE, pelo facto de a imposição de tarifas aduaneiras não ter base numa emergência económica.

A decisão judicial aplica-se às tarifas recíprocas, mas não se refere a medidas setoriais específicas, incluindo as taxas de 50% atualmente impostas ao aço e ao alumínio. Também por isso, a decisão lança dúvidas sobre a aplicação integral do acordo na UE.

Bernd Lange, presidente da Comissão do Comércio Internacional do Parlamento Europeu (PE), convocou uma reunião extraordinária o dia 23, para avaliar as implicações do acórdão, numa altura em que a câmara se prepara para votar a aplicação.

Em mensagem publicada nas redes sociais, Bernd Lange descreveu a decisão do Supremo Tribunal como “um sinal positivo para o Estado de Direito” e disse que os juízes demonstraram que mesmo um presidente dos EUA “não age num vazio legal”. Porém, embora tenha observado que a decisão estabelece limites legais claros e que a “era das tarifas ilimitadas e arbitrárias pode estar a chegar ao fim”, alertou para a necessidade de se avaliar, cuidadosamente, o âmbito da decisão, antes de tomar qualquer iniciativa.

“Devemos pesar, cuidadosamente, a sentença e as suas consequências. Por isso, convoquei uma reunião extraordinária da equipa de negociação sobre o acordo Turnberry para segunda-feira [dia 23], para avaliar o impacto no trabalho em progresso, especialmente, tendo em vista da votação em comissão”, realçou Bernd Lange.

Os eurodeputados estão a procurar alterações que permitam ao bloco terminar o acordo, em 2028, ou suspendê-lo, se Trump voltar a ameaçar a integridade territorial da UE, como fez com a Gronelândia, em janeiro. Todavia, o limbo em torno do acordo pode levar o PE a adiar a votação. Com efeito, a decisão aumenta a incerteza para as empresas europeias, que poderão ver o regime pautal substancialmente alterado ou mesmo serem elegíveis para compensação.

No entanto, poderá criar-se um limbo jurídico para os exportadores que não tenham a certeza de quais as condições aplicáveis. “As empresas de ambos os lados do Atlântico dependem da estabilidade e da previsibilidade das relações comerciais”, afirmou o porta-voz do PE, acrescentando: “Continuamos a defender a aplicação de direitos aduaneiros baixos e a trabalhar no sentido de os reduzir.”

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Em suma, o Supremo Tribunal bloqueou as tarifas, num duro golpe para a agenda da Casa Branca.

Donald Trump, considerando a decisão “profundamente dececionante”, diz-se “envergonhado” do tribunal e alega: “Os países estrangeiros que nos têm roubado, há anos, estão em êxtase. Estão tão felizes que estão a dançar nas ruas, mas não vão dançar por muito tempo, posso garantir-vos.”

O juiz Brett Kavanaugh, um dos que votaram contra, escreveu, na sua declaração de voto: “As tarifas em questão podem ou não ser uma política sensata. Mas, em termos de texto, História e precedentes, são claramente legais.” Além disso, alertou que a questão dos reembolsos se transformaria numa “confusão”. E não está claro se a administração Trump será responsável pelo reembolso das empresas.

A decisão não impede Trump de impor tarifas ao abrigo de outras leis, embora essas tenham mais limitações, quanto à velocidade e à severidade; e altos funcionários da administração disseram que esperam manter a estrutura tarifária em vigor, sob outras autoridades.

A decisão do Supremo Tribunal ocorre apesar de vitórias de curto prazo, na pauta de emergência do tribunal que permitiram a Trump avançar com uma expansão extraordinária do executivo em questões que vão desde demissões de alto perfil a cortes de financiamento federal.

O Presidente tem falado sobre o caso, chamando-lhe um dos mais importantes da História dos EUA, alegando que uma decisão contra ele seria um golpe económico para o país. Contudo, a oposição legal atravessou todo o espetro político, incluindo grupos libertários e pró-empresariais que, normalmente, estão alinhados com o Partido Republicano. E as sondagens revelam que os direitos aduaneiros não são muito populares entre o público, no meio de uma maior preocupação dos eleitores com a acessibilidade dos preços.

A Constituição confere ao Congresso o poder de impor tarifas. Mas Trump argumentou que uma lei de 1977 que permite ao Presidente regular a importação durante emergências lhe permite estabelecer tarifas. Outros presidentes usaram-na, dezenas de vezes, muitas vezes para impor sanções, mas Trump foi o primeiro a invocá-la para impostos de importação.

Os opositores alegam que a lei de poderes de emergência nem menciona “tarifas” e o uso de Trump falha em vários testes legais, incluindo o que condenou o programa de perdão de empréstimos estudantis de 500 biliões de dólares do presidente Joe Biden.

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Enfim, também na Trumplândia, se diverge na interpretação da Constituição e das leis.

2026.02.21 – Louro de Carvalho


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