domingo, 1 de março de 2026

Ataque dos EUA e de Israel ao Irão terá consequências

 

Os meios de comunicação social estatais do Irão confirmaram que o líder supremo iraniano, o Ayatollah Ali Khamenei, foi morto nos ataques da manhã de 28 de fevereiro, em Teerão, depois de o presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, ter anunciado o facto, na noite do mesmo dia, assim como anunciaram 40 dias de luto público e sete dias de feriado, por causa da morte de Khamenei. A notícia surgiu, no dia 28, à noite, depois de o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, Netanyahu, ter dito que havia “muitos sinais” de que o Ayatollah Ali Khamenei estava morto.

De acordo com informação do Canal 12, antes da declaração de Donald Trump, foi mostrada ao primeiro-ministro israelita uma fotografia do corpo de Khamenei, depois de este ter sido recuperado dos escombros da sua residência. E um alto funcionário israelita partilhou a mesma informação com os meios de comunicação internacionais.

O presidente dos EUA disse que Khamenei foi morto, no início do dia, após vários relatos e declarações de autoridades israelitas de que morrera como consequência dos ataques dos EUA e de Israel, nesse dia. “Khamenei, uma das pessoas mais maléficas da História, morreu”, escreveu o líder norte-americano, no Truth social. E, numa entrevista telefónica à NBC, no dia 28, à noite, Donald Trump disse que muitos dos principais líderes do Irão desapareceram. “Não sabemos tudo, mas uma grande parte dos grandes decisores foi-se embora”, declarou.

Questionado sobre quem poderia assumir as rédeas em Teerão, o inquilino da Casa Branca, o timoneiro desta guerra de sucessão, respondeu, de forma claramente sarcástica: “Não sei, mas, a dada altura, vão telefonar-me a perguntar quem eu gostaria de ter.”

O exército israelita disse que sete altos funcionários iranianos, incluindo o general Mohammad Pakpour, o líder da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC), também foram mortos nos ataques. O brigadeiro-general Effie Defrin, porta-voz das forças armadas israelitas, fez o anúncio, numa declaração transmitida pela televisão que mostrava fotografias de algumas das pessoas mortas.

O Pentágono, que designou a ofensiva por “Operação Fúria Épica”, alertou para o risco de a ofensiva alargar o conflito no Médio Oriente.

Em contraponto, os ataques levaram Teerão a disparar uma barragem de mísseis contra várias cidades do Médio Oriente, com drones a atingirem alvos civis, no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos (EAU) na noite do dia 28, obrigando os residentes a abrigar-se.

Em 1989, Khamenei tornou-se o ayatollah do Irão, após a morte de Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica do Irão, pois Khamenei desempenhara um papel importante no movimento que derrubou o Xá Mohammad Reza Pahlavi, na revolução de 1979. E, aos 86 anos, era o comandante em chefe do Irão, com a última palavra em todas as questões políticas e religiosas. O Conselho dos Guardas da Revolução, força sujeita a severas sanções dos EUA e da União Europeia (UE) e considerada o pilar militar do regime de Teerão, respondia diretamente perante ele. Ao comando da repressão nas manifestações, no Irão, desde o final do ano passado, afirmou,

recentemente, que o Irão estava pronto a retaliar contra qualquer ataque norte-americano.

Um dos primeiros ataques do dia 28 atingiu-o perto dos seus escritórios, em Teerão. Não ficou, imediatamente, claro onde Khamenei se encontrava, na altura, uma vez que não era visto, há dias.

Os meios de comunicação social estatais de Teerão negaram a notícia da morte de Khamenei, citando fontes próximas do seu gabinete e assegurando que permaneceu, “firmemente, no comando”. E o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, afirmou que Khamenei estava vivo, “tanto quanto sabia” – uma versão, agora, negada pela própria comunicação social iraniana.

Durante a operação, Donald Trump, aconselhou os Iranianos a procurarem abrigo e afirmou, num vídeo partilhado nas redes sociais, que o Irão persiste em expandir o seu programa nuclear e que pretende construir mísseis capazes de atingir os EUA.

As tensões entre Washington e Teerão intensificaram-se fortemente após a última ronda de negociações nucleares em Genebra, a 26 de fevereiro, com o objetivo de finalizar um novo acordo. E, ainda no dia 28, Emanuel Macron instou o regime iraniano a “entrar em negociações de boa-fé”, para pôr fim aos seus programas nucleares e balísticos, o que, em seu entender, “é absolutamente essencial para a segurança de todos, no Médio Oriente”.

A UE adotou sanções extensas, em resposta às violações dos direitos humanos do Irão, ao apoio militar do país à guerra da Rússia contra a Ucrânia e às suas atividades de proliferação nuclear. Assim, em janeiro, impôs novas sanções contra membros do regime iraniano, depois de milhares de pessoas terem sido mortas na repressão do regime contra manifestantes, e acrescentou o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC) do Irão à lista de terroristas da UE.

Depois de ter sido noticiada a morte de Khamenei, na noite de 28 de fevereiro, ecoaram aplausos, em algumas zonas de Teerão, com residentes a saíram à janela para aplaudirem e para tocarem música de celebração. De acordo com várias testemunhas e registos, os festejos começaram pouco depois das 23 horas locais, galvanizaram muita gente e prolongaram-se pela noite.

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Os líderes europeus reagiram com um misto de alarme e de cautela às primeiras notícias dos ataques militares conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irão.

A presidente do Parlamento Europeu (PE), Roberta Metsola, alertou contra “uma espiral que pode ameaçar o Médio Oriente, a Europa e não só”.

Numa declaração conjunta, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, apelidando os acontecimentos de “muito preocupantes”, instaram todas as partes a evitarem medidas que possam inflamar, ainda mais, as tensões ou enfraquecer o quadro mundial de não proliferação. Ao mesmo tempo, reafirmaram “compromisso firme da UE em salvaguardar a segurança e a estabilidade regional”. “Apelamos a todas as partes para que exerçam a máxima contenção, protejam os civis e respeitem, plenamente, o direito internacional”, escreveram Ursula von der Leyen e António Costa, numa declaração publicada no X.

A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, adotando tom um pouco mais comedido e caraterizando a situação como “perigosa”, escreveu que o regime iraniano “matou milhares de pessoas” e que “os seus programas de mísseis balísticos e nuclear, juntamente com o apoio a grupos terroristas, representam uma séria ameaça à segurança global”. Garantindo que “a proteção dos civis e do direito internacional humanitário é uma prioridade”, relevou que a força naval “Aspides” da UE permanece “em alerta máximo”, no Mar Vermelho, e “está pronta a ajudar a manter o corredor marítimo aberto”.

O presidente francês Emmanuel Macron classificou os ataques como uma “escalada de guerra” que “acarreta graves consequências para a paz e para a segurança internacionais”, pelo que a França vai pedir uma “reunião urgente” do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ministros dos Negócios Estrangeiros europeus manifestaram preocupação com os ataques.

O chefe da diplomacia espanhola, José Manuel Albares, disse que Espanha estava a acompanhar a situação e exigiu respeito pelo direito internacional. “A violência só traz o caos. A desescalada e o diálogo são o caminho para a paz e [para] a estabilidade”, escreveu, nas redes sociais, mas afirmou que todas as embaixadas de Espanha na região continuam operacionais para os seus cidadãos.

Estas declarações foram feitas poucas horas depois de os EUA e Israel terem lançado ataques em larga escala, em todo o Irão, alegadamente, visando um complexo no centro de Teerão que se acredita albergar a residência do líder supremo do Irão, Ali Khamenei.

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A posição de Portugal, face ao conflito, parece a prevista, a partir das meias palavras do nosso chefe de diplomacia, o qual referia que, se os EUA cumprissem o estipulado nos tratados, não tinham de solicitar prévia autorização para o uso da Base das Lages.

Ora, como referi, noutro artigo, o acordo técnico estipula que, no caso de o uso da Base das Lages se destinar a operações que envolvam organizações de que Portugal não faça parte, é exigida a respetiva autorização prévia, que deve ser solicitada em tempo útil. E, eu ressalva que, se o ministro dos Negócios Estrangeiros entendia que tal autorização não era necessária, era porque Portugal era parte interessada ou foi dada, sem conhecimento público.   

Neste sentido, é esclarecedor um artigo intitulado “Governo de Portugal do lado de Trump e Netanyahu no ataque ao Irão”, de Ricardo Figueira, publicado, a 1 de março, pela Euronews, pois, “ao contrário do chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, que condenou a operação israelo-americana, o governo liderado por Luís Montenegro está a tomar claramente o partido dos EUA e Israel, ao condenar as ações do Irão, mas não as da aliança Trump-Netanyahu”.

No dizer do articulista, o presidente do governo espanhol, apressou-se a “condenar, sem reservas, as ações israelo-americanas”, enquanto, o primeiro-ministro português, Luís Montenegro se mostrou, “desde a primeira hora, claramente do lado da administração Trump”. “Os dois vizinhos ibéricos, parceiros e cúmplices em tantos domínios, não poderiam estar mais distantes do que na questão da operação iniciada por Israel e pelos Estados Unidos [da América], na madrugada de sábado [dia 28 de fevereiro], contra o Irão”, escreveu Ricardo Figueira.

O governo português emitiu um comunicado em que condena as ações do Irão. E, no texto que republicou, na sua conta no X, o primeiro-ministro português “condena os injustificáveis ataques do Irão aos países vizinhos da região – entre eles, a Arábia Saudita, o Catar, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e a Jordânia –, que devem cessar imediatamente”, mas não condena, nem critica a ofensiva dos governos de Trump e de Netanyahu. E sustenta que “o fim do programa nuclear iraniano é essencial para alcançar a paz e a estabilidade na região”.

Com esta postura, afasta-se do vizinho espanhol e do secretário-geral da ONU, que o antecedeu, de 1990 a 2001, como chefe do governo português, António Guterres, que também condenou a ofensiva. O líder da ONU disse que o ataque dos EUA e Israel e a consequente retaliação iraniana minam a segurança internacional.

Sustenta Ricardo Figueira que esta posição do executivo português de centro-direita está em linha com a utilização da base das Lajes, por parte das forças norte-americanas. Efetivamente, a base norte-americana na ilha Terceira, nos Açores, tem um papel nas operações, nomeadamente, como base para aviões reabastecedores que estão a ser usados nos ataques. Tanto assim é que, no dia 28, os repórteres no local observaram a descolagem de cinco aviões reabastecedores KC-46 Pegasus da Força Aérea dos EUA.

Lembra o articulista que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, já tinha admitido que “a base poderia ser usada num eventual ataque ao Irão, desde que os tratados com Portugal fossem respeitados”.

Em contraponto, o uso da base aérea açoriana no ataque ao Irão está a ser fortemente contestado pela oposição. O Livre anunciou que irá questionar o governo na Assembleia da República (AR) sobre o tema. Em declarações aos jornalistas, na manifestação do dia 28 contra o Pacote Laboral, o deputado Jorge Pinto, ex-candidato à Presidência da República, vincou: “Não queremos Portugal associado, de qualquer maneira, a um ataque feito ao arrepio dos direitos internacionais, contrário à Carta das Nações Unidas e que, no fundo, crava mais um prego no caixão do direito internacional.”

Sem condenar diretamente o ataque norte-americano e israelita, o secretário-geral do Partido Socialista (PS), José Luís Carneiro, falou do tema, no discurso do mesmo dia, nos jardins da sede do Largo do Rato, em que apresentou a recandidatura, declarando que “as intervenções militares não podem, não devem ocorrer à margem do direito internacional”.

Também o Bloco de Esquerda (BE) se mostrou muito crítico, face à posição do governo. O líder do partido, José Manuel Pureza, classificou a ação dos EUA e Israel como “um ato odioso”.

Já o Chega, embora preocupado com o eclodir do conflito, nas palavras do líder André Ventura, em publicação no X, diz ser necessário “atingir os objetivos” desta operação, nomeadamente, impedindo “o acesso a armas nucleares pela ditadura iraniana” e libertando “o povo iraniano (sobretudo as mulheres) da opressão e da tirania”.

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Entretanto, ao invés da UE, a Alemanha, a França e o Reino Unido admitem intervir na guerra dos EUA e Israel contra o Irão, para defesa dos interesses europeus e dos parceiros regionais, caso Teerão continue a bombardear outros países na região.

O presidente dos EUA imagina que o processo leve cerca de quatro semanas. Numa entrevista, revelou: “Então, por mais forte que seja [o Irão] – é um país grande –, [a ação militar] durará quatro semanas ou menos”, explicou Donald Trump, que garante, num vídeo, que os ataques ao Irão vão continuar, até que os objetivos dos EUA “sejam alcançados”.

Após o assassínio do líder supremo do Irão, em menos de 48 horas, foi formado um conselho de liderança de três membros, de acordo com a Constituição, e o próximo líder do Irão será nomeado pela Assembleia de Peritos.

O objetivo dos EUA e de Israel é a mudança de governo e de regime no Irão, mas, dependendo da resistência do regime e da vontade dos Iranianos, bem como da capacidade de luta dos diversos grupos, o resultado pode desembocar em guerra civil e alastrar a todo o Médio Oriente. Além disso, como foram mortas figuras relevantes do ramo xiita do Islamismo, o Irão já avisou que o Ocidente, em especial, Washington, e países alinhados com os EUA e com Israel contarão com a guerra dos xiitas. E alguns clérigos xiitas já emitiram fátuas de jihad e apelaram aos muçulmanos de todo o Mundo para vingarem o assassínio de Ali Khamenei, atacando os EUA e Israel.

Para já, o Irão confirmou a morte do líder supremo, Ayatollah Ali Khamenei, do ex-presidente iraniano (entre 2005 e 2013), Mahmoud Ahmadinejad, um inimigo declarado de Israel, de Ali Shamkani, secretário do Conselho de Defesa do Irão e conselheiro do líder supremo, e de Mohammad Pakpour, comandante da Guarda Revolucionária Islâmica. E uma fonte dos serviços de informação e uma fonte militar, citadas pela CBS News, referem que cerca de 40 autoridades iranianas foram mortas nos ataques.

Enfim, é a guerra, que nunca se satisfaz com o sangue das vítimas, nem com a poeira dos escombros. E o nosso governo, pobre em efetivos militares e em armas, colabora!

2026.03.01 – Louro de Carvalho

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