Segundo
o Instituto Nacional de Estatística de Espanha (INE), os nascimentos, praticamente,
não ocorrem aos feriados, nem aos
fins-de-semana, pois os partos são cada vez mais programados – um padrão que
reabre o debate sobre a organização hospitalar espanhola.
Cristian
Caraballo aborda esta problemática em artigo intitulado “Cada vez mais partos
programados: em Espanha, bebés quase não nascem aos feriados e fins de semana”,
publicado pela Euronews, 27 de março, mas sem esquecer a violência
obstétrica.
Como
salienta o jornalista espanhol, a taxa de natalidade em Espanha continua a
diminuir, pois de acordo com o último relatório do INE, foram registados 318005
nascimentos, em 2024, menos 0,8% do que em 2023, e o número médio de filhos,
por mulher, desceu para 1,10. Ao mesmo tempo, o peso dos nascimentos de mães
nascidas no estrangeiro representa um terço do total, sinal de como a
composição da maternidade em Espanha está a mudar.
Apesar
de o nascimento ser um acontecimento biológico, os dados do INE revelam que o
dia escolhido pela Natureza nem sempre coincide com o dia em que o nascimento
ocorre. As Estatísticas de Natalidade do INE são alimentadas pelos Registos
Civis e pelo Boletim Estatístico de Natalidade e, desde 2015, o INE recebe
também informação sobre os nascimentos registados a partir do hospital, através
do serviço ANDES. Por outras palavras, o INE fala a sério: está a recolher o
registo administrativo completo dos nascimentos.
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Na
Saúde, na Espanha, a designação ANDES refere-se, principalmente, à comunicação
telemática de nascimentos, a partir de centros hospitalares para o Registo
Civil, um serviço criado para simplificar a vida dos cidadãos, permitindo que
os pais registem os recém-nascidos, diretamente, no hospital, sem terem de se
deslocar, fisicamente, a um balcão do Registo Civil.
As
suas principais caraterísticas são: a nível da finalidade, facilitar o registo
de nascimentos, através do envio eletrónico dos dados e de documentação
necessária, a partir do hospital; a nível do funcionamento, recolha e envio da
informação, de forma segura, por parte do pessoal sanitário, para o Ministério
da Justiça; em termos de abrangência, implementação na rede de hospitais
públicos de todas as Comunidades Autónomas de Espanha e em diversos hospitais
privados; e, em termos de benefício, redução de tempos administrativos,
eliminação de deslocações desnecessárias e maior eficiência na gestão pública.
Fora
da Espanha, a designação ANDES é muito comum noutros sistemas de saúde. Por
exemplo, na Argentina, refere-se às Aplicaciones Neuquinas de Salud,
uma plataforma digital para gestão de consultas e dados clínicos de pacientes;
e, no Chile, a Andes Salud é uma rede privada de clínicas e de centros
médicos (por exemplo, Clínica Andes Salud Concepción).
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Voltando
ao tema em apreço, a explicação da falta de partos em feriados e em fins de
semana, que aparece repetidamente nas análises jornalísticas é: os nascimentos
planeados concentram-se nos dias úteis. E uma análise dos microdados do
INE, entre 2010 e 2020, concluiu que a probabilidade de nascimento, por
cesariana, era de 28% a 29% de segunda a sexta-feira, mas desceu para 21%. ao
sábado, e para 20%, ao domingo. A mesma análise, como recorda o jornalista, sublinha
que os partos ao fim de semana e ao feriado são reduzidos, porque uma parte
crescente dos nascimentos é programada para ser realizada durante o horário de
trabalho.
O
fenómeno não afeta apenas os fins de semana. Uma análise anterior apontava para
que, em março de 2016, a probabilidade de nascer no fim de semana ou na Páscoa
caísse entre 10% e 25%, para que o dia 15 de agosto registasse menos 19% de
nascimentos, apesar de cair numa segunda-feira, e para que a véspera de Natal,
o dia de Natal, a véspera de Ano Novo e o fim de semana prolongado da
Constituição ficassem até 25% abaixo da média. Assim, quanto mais excecional é
o dia no calendário, menor é a probabilidade do nascimento coincidir com ele.
A
Constituição é celebrada a 6 de dezembro. Como o dia 8 é o feriado da
Imaculada Conceição (La Puríssima), cria-se a ponte, quando estas datas caem junto
do fim de semana.
Observa
Cristian Caraballo que o padrão também se reflete na contagem anual. Com efeito,
um estudo do INE sobre os nascimentos entre 1921 e 2020 coloca o 1 de janeiro
como o dia com mais nascimentos na Espanha, enquanto o 25 de dezembro (dia de
Natal) aparece como o dia com menos nascimentos. Por outro lado, os meses de
dezembro e janeiro concentraram os extremos da série, o que revela até que
ponto os feriados, os fins de semana prolongados e a organização hospitalar
deixam a sua marca nas estatísticas.
A
estatística não é apenas um jogo. Por detrás dela, subjaz uma discussão sobre
a medicalização do parto, a pressão organizacional sobre os hospitais e a
tendência para concentrar, nos dias úteis, procedimentos que, em muitos casos,
poderiam ser efetuados de outra forma. É esse descompasso entre o ritmo
fisiológico e o calendário de atendimento que explica porque é que a curva de
nascimentos cai nos fins de semana e sobe com a rotina.
O
panorama da natalidade, na Espanha, é duplo, como nos diz o jornalista. Nascem
menos crianças do que há uma década e as que nascem fazem-no cada vez mais nos
dias úteis. O INE fornece a base estatística para esta tendência, mas vozes,
como a de Ariane, dão uma imagem de uma realidade em que o nascimento, que
deveria depender da biologia, parece estar condicionado pela logística. A sua
mensagem é um apelo à empatia para com os profissionais: “Respeitem o tempo da
pessoa que está a dar à luz. É o momento mais vulnerável da sua vida e precisa
de compreensão, de ser falado e explicado.”
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O
caso da mulher que sofreu violência obstétrica, apresentado por Cristian Caraballo,
dá rosto a uma realidade que vai além dos dados e que, não sendo exclusiva da Espanha,
é mais frequente do que deveria ser, pois mostra a iniquidade de uma relação com
uma pessoa fragilizada e que deveria pautar-se por categorias legais,
profissionais, éticas e humanizadas.
Para
a vivência de Ariane, vítima de
violência obstétrica, esta estatística tem uma face amarga. A sua experiência
foi interrompida, desde o primeiro momento em que deu entrada no hospital, num
sábado de manhã. De acordo com o seu testemunho, a situação mudou, radicalmente,
assim que lhe colocaram o soro e não a deixaram sair da cama – decisão que,
segundo ela, “foi tomada sem respeitar o plano de parto que tinha previamente
preparado”.
Ariane
tinha concordado com um parto menos medicalizado, pretendendo dilatar com uma
bola e movimentar-se livremente. Porém, o seu relato assegura que as suas
preferências foram ignoradas: “Eu queria uma forma diferente e não tinha dado o
meu consentimento. Fizemos um plano de parto em que eu especificava que queria
dilatar calmamente e não de forma medicalizada, mas eles não me ouviram”, relata,
citada pelo jornalista.
Tendo
sido admitida com um saco roto e tendo testado positivo para estreptococos, a
equipa decidiu iniciar intervenções imediatas. Com a desculpa de que tinha dado
positivo, puseram-na a soro, deixando de receber, a partir desse momento,
informações claras sobre as intervenções. “Nenhuma, nenhuma. Só o soro para o
estreptococo”, referiu.
Perante
testemunhos como este, a visão profissional oferece um contraponto baseado na
norma. Um médico ginecologista sustenta que a diminuição do número de
nascimentos nos feriados não se deve a planeamento deliberado do setor público,
mas ao “acaso”. De acordo com o especialista, os partos programados, por razões
médicas, são efetuados em qualquer dia da semana. “Feriados e fins-de-semana
também são citados”, sublinha.
Contudo,
o médico reconhece que as cesarianas programadas tendem a concentrar-se durante
a semana, por razões de segurança clínica, visto que requerem preparação
prévia, pessoal mais experiente e, em muitas ocasiões, o tempo cirúrgico e os
recursos utilizados são maiores. Não obstante, essas intervenções não são suficientemente
frequentes para explicar a diferença estatística, já que as diretrizes clínicas
oferecem uma ampla margem de tempo: “Normalmente, indicam a interrupção da
gestação durante uma semana específica, não num dia específico”, explica o especialista.
O
processo de Ariane foi prolongado e passou “56 horas para dilatar”, um período particularmente
difícil, durante qual diz que teve febre e lhe foi administrada medicação, cuja
natureza desconhece, porque não lha explicaram, nem consta nos relatórios. “Adormecemos,
embora continuemos a ter contrações, e até tive alucinações”, relatou.
O
parto terminou com uma intervenção instrumental (episiotomia e extração por
vácuo) que provocou laceração de grau quatro e a necessidade de duas
transfusões de sangue. “Diria que o momento em que perdi o controlo do parto
foi por volta das 02h00, mas foi mesmo a partir do momento em que entrei”, referiu.
No
entanto, há contradição de narrativas Ariane acredita que o facto de ser fim de
semana teve influência na espera, pois, como discorre, “se for um parto
complicado e a dilatação for mais lenta, eles mantêm-na lá, porque dão
prioridade aos partos mais rápidos”. Ao invés, o médico ginecologista defende
que as equipas que lá estão são suficientes para fazerem face a eventualidades e
que se regem por protocolos que não se alteram em função do horário. De acordo
com o especialista, as intervenções respondem, exclusivamente, a critérios
clínicos para que a criança nasça saudável e para que a mulher tenha um parto
favorável, negando que o tratamento mude consoante a data. Esta a forma de
narrativa conveniente!
No
entanto, o défice de comunicação de que Ariane se queixa acentuou-se após o
parto. Passou uma semana no hospital sem que ninguém lhe explicasse a gravidade
dos seus ferimentos. Não lhe explicaram que era uma laceração. Sentia muitas
dores e não ativaram nenhum protocolo de apoio psicológico. Mais tarde, ficou a
saber que tinha sofrido uma rutura do esfíncter anal, uma lesão grave que
demorou anos a corrigir.
E,
mesmo quando amamentava, sentia-se forçada a tomar decisões que não eram suas.
Sugeriram-lhe parar de amamentar, fazendo-lhe crer que era ela que decidia não
querer continuar. Ou seja, num momento de extrema vulnerabilidade, a decisão
foi atribuída, nos registos, à sua vontade. Segundo as palavras dos profissionais
de saúde, era ela que não queria continuar.
***
O
caso de Ariane está longe de ser caso único, na Espanha. A violência obstétrica,
no país vizinho, é problema reconhecido,
com estudos a indicar que, entre 34% e 38% das mulheres, se sentiram vítimas de
procedimentos desnecessários ou da falta de consentimento informado. Por isso, tem
sido tema de intenso debate jurídico e social, marcado por condenações
internacionais e internas e por esforços legislativos para o seu reconhecimento
formal e para o respetivo combate nas instituições em que é praticada.
A
Organização das Nações Unidas (ONU) já tomou decisões históricas de responsabilização
do país por casos graves, como cesarianas sem consentimento, destacando a
necessidade de maior respeito pelos direitos das parturientes.
Os
principais aspetos da violência obstétrica, na Espanha, são os seguintes:
*
A nível das práticas comuns, destaca-se a realização de episiotomias, de induções
de parto e de cesarianas sem consentimento informado ou sem justificação médica
clara, frequentemente, devido a uma cultura hospitalar paternalista, assim como
a utilização de expressões verbais despicientes e até ofensivas. E os relatórios
indicam a prevalência elevada de partos programados (induzidos ou cesáreas) que
coincidem com dias úteis, evitando feriados e fins de semana, o que levanta
questões sobre a medicalização excessiva do nascimento.
*
Em termos de reconhecimento internacional, a Comissão da ONU sobre a Eliminação
da Discriminação contra as Mulheres (CEDAW) condenou a Espanha a indemnizar
mulheres, por tratamentos considerados violentos e humilhantes durante o parto,
nomeadamente, intervenções médicas invasivas sem consentimento informado, como
a episiotomia sistemática e induções de parto não justificadas.
*
A nível interno, são de referir algumas decisões judiciais, pois, recentemente,
sentenças nos tribunais espanhóis começaram a utilizar, explicitamente, a
expressão “violência obstétrica”, reconhecendo falhas na prestação de
informação sobre riscos e alternativas.
*
Quanto aos fatores institucionais, a organização hospitalar, com alta taxa
de partos programados e com falta de pessoal, contribui para a desumanização.
*
No âmbito dos movimentos de mudança, sobressai o ativismo de associações, como “El
Parto es Nuestro”, que desempenham papel crucial na denúncia e na luta por
partos mais humanizados e respeitosos e, em termos estruturantes, na
mobilização política e social para transformar o modelo de atendimento
obstétrico no país.
*
No atinente à necessidade de formação, regista-se uma crescente procura por
formação dos profissionais de saúde para adotar práticas baseadas em evidências
e centradas na mulher, evitando a violência obstétrica.
Apesar
dos avanços, a violência obstétrica continua a ser questão estrutural,
frequentemente invisibilizada, que viola os direitos fundamentais das mulheres
no acesso à saúde reprodutiva. Não obstante, o governo espanhol propôs incluir
o termo “violência obstétrica” na reforma da Lei do Aborto, para garantir
o respeito pela autonomia da mulher e a eliminação da práticas desnecessárias.
Para
prevenir situações de abuso, as grávidas, na Espanha, podem recorrer ao Plano
de Parto (Plan de Parto), documento que permite à mulher expressar os seus
desejos e preferências sobre intervenções médicas, embora o seu cumprimento
efetivo ainda varie entre diferentes centros hospitalares. E os especialistas
sugerem que o aumento do número de parteiras (matronas) e o
investimento em centros liderados por estas profissionais poderiam reduzir
taxas de intervenções invasivas.
***
O
que parecia boa conquista no Sistema Nacional de Saúde espanhol conhecido como
um dos melhores do Mundo, com prestação de qualidade superior à da média da União
Europeia (UE) – descentralizado, de cobertura nacional total (estado central e
autonomias), aceitando estrangeiros, desde que registados, e articulado com os
serviços privados, suportados por seguros de saúde e pelos clientes que
pretendem sair das listas de espera, nas especialidades – afinal, parece que a
programação dos partos nem sempre tem em conta a índole biológica da gestação e
do nascimento. Quando a ciência e a tecnologia deveriam colocar-se ao serviço da
melhoria biológica do nascimento e da correção das suas eventuais anomalias,
num dinamismo de apoio à vida, o parto parece programado para fora dos dias em
que o serviço será mais incómodo e caro, com deslavado disfarce do objetivo científico
e de melhor serviço à família. E quem não aceita os parâmetros que lhe propõem sujeita-se
à violência obstétrica.
Entretanto,
em Portugal, continuam os partos na rua, na ambulância e no átrio do hospital.
2026.03.27
– Louro de Carvalho
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