sábado, 7 de março de 2026

É urgente parar a ambição ilimitada de Donald Trump

 

No oitavo dia da guerra contra o Irão desencadeada pela coligação dos Estados Unidos da América (EUA) com Israel, secundada pela cumplicidade – explícita ou implícita – de vários países (incluindo Portugal, através da cedência expressa da Base das Lages, nos Açores) e da própria União Europeia (UE), excetuando a Espanha, Donald Trump anunciou a criação de coligação militar com 17 países para “erradicar cartéis”, no hemisfério ocidental, bem como “negociações” com Cuba, país que ele diz estar no “fim da linha”.

No seu discurso, na cimeira “Shield of the Americas”, em Miami, na Florida, no seu resort de golfe, o inquilino da Casa Branca revelou, perante vários líderes de países latino-americanos, como a Argentina, a Bolívia, o Chile, a Costa Rica, o Equador, entre outros, que 17 países já aderiram, formalmente, a esta nova aliança militar, denominada de Coligação das Américas de Combate aos Cartéis, a qual tem o “compromisso do uso da “força militar letal, para destruir os sinistros cartéis e as redes terroristas”, que são uma “ameaça inaceitável”.

“Neste dia histórico, reunimo-nos para anunciar uma nova coligação militar para erradicar os cartéis criminosos que assolam a nossa região. Estamos a chamar a esta parceria militar a Coligação das Américas de Combate aos Cartéis. Vamos acabar com os cartéis sinistros e [com] as redes terroristas, de uma vez por todas”, declarou Donald Trump, citado pelos media nos EUA, encorajando os líderes a usar as forças armadas neste combate aos cartéis.

Em Miami, o presidente dos EUA também revelou que estão a decorrer negociações entre os EUA e Cuba, que classificou como um país em “fim de linha”. “Eles querem negociar. Estão a negociar com Marco [Rubio, secretário de Estado], comigo e com outros, e acho que um acordo com Cuba será feito com muita facilidade”, discorreu.

É de anotar que, a 6 de março, segundo a estação televisiva CNN, o presidente norte-americano afirmou que o governo cubano vai cair “muito em breve” e acrescentou que Havana tem “imensa vontade” de negociar com Washington. E, em declarações, por telefone, à CNN sobre a operação militar contra o Irão, disse que, após uma campanha “bem-sucedida” no Médio Oriente, o regime comunista de Cuba seria o próximo alvo. No entanto, como as autoridades cubanas “querem chegar a um acordo”, para negociar, nomeou o secretário de Estado, cidadão cubano-norte-americano. “Veremos como corre. Por agora, estamos muito concentrados nisto, o Irão. Temos muito tempo, mas Cuba está pronta, ao fim de 50 anos. Há 50 anos que a observo”, afirmou.

No dia 5, o presidente republicano tinha dito que Havana “estava desesperada” para chegar a um acordo com o seu governo, de imediato, e que era só “uma questão de tempo”, até que os EUA voltem, novamente, a sua atenção para a ilha caribenha, dando a entender que a campanha militar contra o Irão desviou, um pouco, os planos da Casa Branca e do Pentágono.

Nesse mesmo dia 5, em entrevista ao jornal digital Politico, o líder norte-americano afirmou que a queda de Cuba seria “a cereja em cima do bolo”, depois do ataque militar de janeiro passado à Venezuela, em que os EUA capturaram o então presidente, Nicolás Maduro, o mais próximo aliado de Havana. E deu como exemplo “a maravilhosa colaboração” com o governo da presidente interina, chavista Delcy Rodríguez, com o qual Washington anunciou, no dia 5 que vai restabelecer relações diplomáticas, após décadas de afastamento de Caracas.

Nas últimas semanas, a comunicação social norte-americana noticiou contactos entre Marco Rubio e Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto do antigo presidente cubano Raúl Castro. Porém, tal notícia refere “contactos”, e não negociações, e indica alegadas conversações sobre possíveis reformas económicas graduais futuras, na ilha, e a retirada faseada das sanções de Washington, cujo agravamento, nos últimos tempos, deixou o país à beira da rutura, à mercê de ajuda humanitária de países vizinhos para suprir necessidades básicas, como alimentação.

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Os EUA e Israel eliminaram o líder supremo do Irão e uma série alargada de autoridades e de funcionários da República Islâmica do Irão. As forças de defesa israelitas, com os EUA, além do Irão, atacaram pontos nevrálgicos do Líbano. E, no oitavo dia da guerra, Donald Trump avisou que o Irão vai ser “duramente atingido. Isto, depois de garantir que as hostilidades não parariam, até à rendição total de Teerão. Porém, o conflito evidencia o alastramento a outros alvos regionais e consequências, aos níveis militar, económico e diplomático.

As autoridades dos Emirados Árabes Unidos (EAU) indicaram, a 7 de março, que os estilhaços causados pela interceção de projéteis do Irão causaram danos menores na fachada de uma torre na marina do Dubai. A situação ocorreu numa zona onde estão localizados muitos arranha-céus, não tendo sido registados, até ao momento, feridos. E, já antes da explicação das autoridades, a CNN noticiou que edifícios na marina do Dubai tinham sido evacuados. Entre as pessoas que foram retiradas, estavam funcionários daquela cadeia televisiva norte-americana.

A Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) disse ter atacado a base norte-americana de Juffair, no Bahrein, como resposta ao alegado bombardeamento “terrorista” dos EUA contra a central de dessalinização iraniana de Qeshm, no Golfo Pérsico. A base norte-americana de Juffair “foi, imediatamente, atacada por mísseis de combustível sólido e líquido, guiados com precisão, da Guarda Revolucionária Islâmica”, enfatizou a IRGC.

Já antes, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, acusara os EUA de terem atacado a instalação de dessalinização numa ilha do Golfo Pérsico. “Com este ataque, os EUA abriram um precedente”, afirmou o governante, salientando que  “o abastecimento de água de 30 aldeias foi afetado” e vincando que “atacar as infraestruturas do Irão é uma medida perigosa com consequências graves”.

Por seu turno, durante a participação da cimeira “Shield of the Americas”, Donald Trump disse que os EUA destruíram, em três dias, 42 navios do Irão (“alguns deles muito grandes”), no âmbito da operação “Fúria Épica” lançada contra Teerão. “Foi o fim da Marinha”, assegurou, tendo referido que as forças norte-americanas destruíram a Força Aérea do Irão.

O governo de Keir Starmer (Reino Unido) informou que as forças norte-americanas começaram a usar as bases britânicas para ações defensivas, no âmbito da operação “Fúria Épica”, para “operações defensivas específicas destinadas a impedir o Irão de lançar mísseis na região”.

A companhia petrolífera nacional do Kuwait anunciou ter reduzido, “preventivamente”, a produção de petróleo, devido aos ataques iranianos e às ameaças que pairam sobre o estreito de Ormuz, ponto de passagem fundamental para os hidrocarbonetos do Golfo. “À luz da agressão contínua da República Islâmica do Irão contra o Estado do Kuwait, incluindo as ameaças iranianas à segurança da passagem de navios no estreito de Ormuz, a Kuwait Petroleum Company (KPC) implementou uma redução preventiva da produção de petróleo bruto e da capacidade de refinação”, precisou, em comunicado a empresa, frisando que esta medida será “reavaliada em função da evolução da situação”.

A ofensiva israelita, que atingiu a “cidade de Nabi Sheet e cidades vizinhas, no distrito de Baalbek, resultou num total de 41 cidadãos mortos e 40 feridos”, indicou, em comunicado, o Ministério da Saúde do Líbano.

Israel tem realizado vários ataques contra posições do Hezbollah no Líbano, em sequência da operação conjunta com os EUA contra o Irão. Entretanto, segundo a Sky News, o Hezbollah avisou os residentes de uma cidade no Norte de Israel, próxima da fronteira com o Líbano, de que devem deixar o local e seguir para o Sul.

Também a Jordânia acusou o Irão de ter atacado instalações estratégicas no reino, disparando 119 mísseis e drones, na semana subsequente aos ataques israelo-norte-americanos que desencadearam a guerra regional. Em conferência de imprensa, o porta-voz do exército jordano, general de brigada Mustafa al-Hayari, disse que o exército intercetou 108 dos projéteis. “Estes mísseis e drones visavam instalações vitais dentro da Jordânia e não estavam, simplesmente, a atravessar o nosso território”, afirmou, observando que o Irão disparou um total de 60 mísseis e 59 drones contra “instalações vitais”, na Jordânia, desde que Israel e os EUA iniciaram o ataque contra o Irão, tendo sido apenas 11 os misseis não intercetados.

Mustafa al-Hayari revelou que os ataques provocaram 19 feridos, todos já recuperados, resultantes da queda de destroços ou de restos de projéteis, após terem sido intercetados. E, segundo a agência oficial jordana Petra, nenhum deles era do tipo de cruzeiro.

Al-Hayari sublinhou que estes ataques ao território jordano ocorreram “apesar de o Reino ter informado todas as partes de que não se tornaria num campo de batalha, nem de que o seu território seria usado como plataforma de lançamento para qualquer ataque”. Em todo o caso, revelou que as Forças Armadas jordanas aumentaram o nível de alerta e de preparação, antes do conflito, equipando os militares no terreno com “dispositivos, equipamentos e armas necessários para fazer face a circunstâncias excecionais”, além de terem ativado “os sistemas de defesa aérea ao seu alcance” e “intensificado a vigilância do espaço aéreo com aeronaves e radares”.

Neste sentido, indicou que o país ativou “acordos de cooperação militar e de defesa com vários exércitos aliados e amigos para fornecer cobertura aérea”, a fim de reforçar a proteção do espaço aéreo do reino. “A Jordânia procurou, desde o início da escalada, evitar a guerra na região, por meios diplomáticos. A principal preocupação do Reino é preservar a sua segurança e a dos seus cidadãos. Os ataques com mísseis e drones que sofreu constituem um ataque à sua soberania”, afirmou.

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Pouco mais de duas dezenas de pessoas manifestaram-se, a 7 de março, em frente à Base das Lajes, na ilha Terceira, nos Açores, contra a utilização da infraestrutura como plataforma para operações militares relacionadas com o ataque dos EUA ao Irão. “Da mesma forma que o governo tem capacidade de criticar as ameaças de Trump a Espanha, nós acreditamos que o governo devia ter a capacidade, ter a clareza, de unicamente permitir a utilização da Base das Lajes, quando se trata de operações militares que derivem de organizações que tanto Portugal como os Estados Unidos são membro. A nosso ver, não foi esse o caso destas operações militares”, afirmou, em declarações aos jornalistas, Laura Alves, porta-voz da manifestação.

De baixo de chuva, num parque de estacionamento a 100 metros da entrada da Base, pouco mais de duas dezenas de manifestantes, incluindo o líder do Bloco de Esquerda /Açores e outros seus dirigentes, gritaram “Lajes para a paz, não para bombardear” e “Nos Açores e no continente, queremos paz no Médio Oriente”. Na faixa principal, lia-se “Açores fora da guerra de Trump” e várias pessoas mostravam folhas com frases como: “Respeitem o direito internacional”, “Trump fora da Terceira”, “Not in my name [Não em meu nome]” e “Nobel Price of War [Prémio Nobel da Guerra]”. E Laura Alves vincou: “O que nos une aqui, na realidade, é a recusa da utilização da Base das Lajes para utilizações que sejam fora do Acordo de [Cooperação e Defesa].”

Laura Alves assegurou que os manifestantes são “claros opositores ao regime iraniano”, que é “autoritário e viola os direitos humanos”, mas também “opositores a narrativas que justifiquem a escalada deste conflito e ignorem a via diplomática e a via das negociações”.

“O que sabemos é que o ataque recente atingiu uma escola, provocando a morte de mais de uma centena de crianças, e qualquer resposta que agrave ainda mais o sofrimento civil é moralmente inaceitável. A única saída responsável e sustentável passa por cessar, imediatamente, a intensificação do conflito, garantir a proteção das populações civis e retomar a via diplomática”, declarou a porta-voz do evento.

Já a 1 de março, no Iémen, manifestantes pró-Irão exibiram cartazes com a imagem do líder supremo iraniano, Ali Hosseini Khamenei, bandeiras do Iémen e do Irão, armas e diziam palavras de ordem, durante um protesto, a condenar os ataques dos EUA e de Israel ao Irão.

Exemplo de firmeza, nos países da UE, é a Espanha, cujo governo recusou a utilização das suas bases pelos EUA, mesmo depois de ameaçado de retaliação por Donald Trump.

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Um relatório confidencial do  Conselho Nacional de Inteligência (NIC) duvida de que a oposição iraniana assuma o poder, após uma campanha militar norte-americana em grande escala, já que, provavelmente, não conseguirá derrubar o poderio militar e clerical iraniano.

O documento, divulgado, pelo jornal “Washington Post”, a 7 de março, revela “uma avaliação preocupante, num momento, em que a administração Trump levanta o espectro de uma campanha militar prolongada que, segundo autoridades, ‘apenas começou’”. E as conclusões foram confirmadas ao “Washington Post” por três conhecedores do conteúdo do relatório, que falaram sob anonimato, e põem em causa o plano declarado por Donald Trump de “limpar” a estrutura de liderança do Irão e de instalar um governante à sua escolha.

O NIC é composto por analistas veteranos, que fazem avaliações confidenciais destinadas a representar o conhecimento desenvolvido pelas 18 agências de inteligência dos EUA. E a Casa Branca não revelou se o presidente foi informado desta avaliação, antes de aprovar a operação militar, que se expandiu, rapidamente, em várias direções, incluindo a guerra submarina no Oceano Índico, tendo-se dirigido mais a Oeste, com confrontos antimísseis nas proximidades da Turquia, país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

A possibilidade de a oposição fragmentada do Irão assumir o controlo do país foi descrita, no documento, como “improvável”, como afirmaram as fontes referidas supra. Também foram referidas ao “New York Times” e ao “Wall Street Journal” as dúvidas do NIC sobre a capacidade de a oposição iraniana tomar o poder, embora não tenham sido divulgados, antes, o envolvimento do NIC e as suas análises dos resultados potenciais de ofensivas em pequena e em grande escala. E não parece que o relatório tenha examinado outros cenários possíveis, como o envio de tropas terrestres dos EUA para o Irão ou o armamento dos Curdos com vista a uma rebelião.

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A ambição trumpiana parece ilimitada. Impõe tarifas. Quer a Gronelândia, o Canadá, o Canal do México. Atacou a Venezuela e ameaçou a Colômbia. Criou o Conselho de Paz, em afronta à Organização das Nações Unidas (ONU). É a segunda vez que ataca o Irão. Agora, está a negociar-ameaçar Cuba. E não se contentará com o hemisfério ocidental. Essa ambição tem de ser travada pela união e força dos países sensatos e decentes, em nome da justiça, dos direitos humanos e do Direito internacional, e pela mobilização da opinião pública. É urgente multiplicar as duas dezenas e meia dos manifestantes açorianos, em todos os países, incluindo os EUA.

2026.03.07 – Louro de Carvalho

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