No
oitavo dia da guerra contra o Irão desencadeada pela coligação dos Estados
Unidos da América (EUA) com Israel, secundada pela cumplicidade – explícita ou implícita
– de vários países (incluindo Portugal, através da cedência expressa da Base
das Lages, nos Açores) e da própria União Europeia (UE), excetuando a Espanha,
Donald Trump anunciou a criação de coligação militar com 17 países para “erradicar
cartéis”, no hemisfério ocidental, bem como “negociações” com Cuba, país que ele
diz estar no “fim da linha”.
No
seu discurso, na cimeira “Shield of the Americas”, em Miami, na Florida, no seu
resort de golfe, o inquilino da Casa Branca revelou, perante vários
líderes de países latino-americanos, como a Argentina, a Bolívia, o Chile, a Costa
Rica, o Equador, entre outros, que 17 países já aderiram, formalmente, a esta
nova aliança militar, denominada de Coligação das Américas de Combate aos
Cartéis, a qual tem o “compromisso do uso da “força militar letal, para
destruir os sinistros cartéis e as redes terroristas”, que são uma “ameaça
inaceitável”.
“Neste
dia histórico, reunimo-nos para anunciar uma nova coligação militar para
erradicar os cartéis criminosos que assolam a nossa região. Estamos a chamar a
esta parceria militar a Coligação das Américas de Combate aos Cartéis. Vamos
acabar com os cartéis sinistros e [com] as redes terroristas, de uma vez por
todas”, declarou Donald Trump, citado pelos media nos EUA, encorajando
os líderes a usar as forças armadas neste combate aos cartéis.
Em
Miami, o presidente dos EUA também revelou que estão a decorrer negociações
entre os EUA e Cuba, que classificou como um país em “fim de linha”. “Eles
querem negociar. Estão a negociar com Marco [Rubio, secretário de Estado],
comigo e com outros, e acho que um acordo com Cuba será feito com muita
facilidade”, discorreu.
É
de anotar que, a 6 de março, segundo a estação televisiva CNN, o presidente
norte-americano afirmou que o governo cubano vai cair “muito em breve” e
acrescentou que Havana tem “imensa vontade” de negociar com Washington. E, em
declarações, por telefone, à CNN sobre a operação militar contra o Irão,
disse que, após uma campanha “bem-sucedida” no Médio Oriente, o regime
comunista de Cuba seria o próximo alvo. No entanto, como as autoridades cubanas
“querem chegar a um acordo”, para negociar, nomeou o secretário de Estado, cidadão
cubano-norte-americano. “Veremos como corre. Por agora, estamos muito
concentrados nisto, o Irão. Temos muito tempo, mas Cuba está pronta, ao fim de
50 anos. Há 50 anos que a observo”, afirmou.
No dia 5, o presidente republicano tinha dito que Havana “estava desesperada” para chegar a um acordo com o seu governo, de imediato, e que era só “uma questão de tempo”, até que os EUA voltem, novamente, a sua atenção para a ilha caribenha, dando a entender que a campanha militar contra o Irão desviou, um pouco, os planos da Casa Branca e do Pentágono.
Nesse
mesmo dia 5, em entrevista ao jornal digital Politico, o líder norte-americano
afirmou que a queda de Cuba seria “a cereja em cima do bolo”, depois do ataque
militar de janeiro passado à Venezuela, em que os EUA capturaram o então presidente,
Nicolás Maduro, o mais próximo aliado de Havana. E deu como exemplo “a
maravilhosa colaboração” com o governo da presidente interina, chavista Delcy
Rodríguez, com o qual Washington anunciou, no dia 5 que vai restabelecer
relações diplomáticas, após décadas de afastamento de Caracas.
Nas
últimas semanas, a comunicação social norte-americana noticiou contactos entre
Marco Rubio e Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto do antigo presidente cubano
Raúl Castro. Porém, tal notícia refere “contactos”, e não negociações, e indica
alegadas conversações sobre possíveis reformas económicas graduais futuras, na
ilha, e a retirada faseada das sanções de Washington, cujo agravamento, nos
últimos tempos, deixou o país à beira da rutura, à mercê de ajuda humanitária de
países vizinhos para suprir necessidades básicas, como alimentação.
***
Os
EUA e Israel eliminaram o líder supremo do Irão e uma série alargada de autoridades
e de funcionários da República Islâmica do Irão. As forças de defesa israelitas,
com os EUA, além do Irão, atacaram pontos nevrálgicos do Líbano. E, no oitavo
dia da guerra, Donald Trump avisou que o Irão vai ser “duramente atingido. Isto,
depois de garantir que as hostilidades não parariam, até à rendição total de Teerão.
Porém, o conflito evidencia o alastramento a outros alvos regionais e consequências,
aos níveis militar, económico e diplomático.
As
autoridades dos Emirados Árabes Unidos (EAU) indicaram, a 7 de março, que os
estilhaços causados pela interceção de projéteis do Irão causaram danos menores
na fachada de uma torre na marina do Dubai. A situação ocorreu numa zona onde
estão localizados muitos arranha-céus, não tendo sido registados, até ao
momento, feridos. E, já antes da explicação das autoridades, a CNN
noticiou que edifícios na marina do Dubai tinham sido evacuados. Entre as
pessoas que foram retiradas, estavam funcionários daquela cadeia televisiva
norte-americana.
A
Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) disse ter atacado a base norte-americana
de Juffair, no Bahrein, como resposta ao alegado bombardeamento “terrorista” dos
EUA contra a central de dessalinização iraniana de Qeshm, no Golfo Pérsico. A base
norte-americana de Juffair “foi, imediatamente, atacada por mísseis de
combustível sólido e líquido, guiados com precisão, da Guarda Revolucionária
Islâmica”, enfatizou a IRGC.
Já
antes, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, acusara os
EUA de terem atacado a instalação de dessalinização numa ilha do Golfo Pérsico.
“Com este ataque, os EUA abriram um precedente”, afirmou o governante, salientando
que “o abastecimento de água de
30 aldeias foi afetado” e vincando que “atacar as infraestruturas do Irão é uma
medida perigosa com consequências graves”.
Por
seu turno, durante a participação da cimeira “Shield of the Americas”, Donald
Trump disse que os EUA destruíram, em três dias, 42 navios do Irão (“alguns
deles muito grandes”), no âmbito da operação “Fúria Épica” lançada contra
Teerão. “Foi o fim da Marinha”, assegurou, tendo referido que as forças
norte-americanas destruíram a Força Aérea do Irão.
O
governo de Keir Starmer (Reino Unido) informou que as forças norte-americanas
começaram a usar as bases britânicas para ações defensivas, no âmbito da
operação “Fúria Épica”, para “operações defensivas específicas destinadas a
impedir o Irão de lançar mísseis na região”.
A
companhia petrolífera nacional do Kuwait anunciou ter reduzido,
“preventivamente”, a produção de petróleo, devido aos ataques iranianos e às
ameaças que pairam sobre o estreito de Ormuz, ponto de passagem fundamental
para os hidrocarbonetos do Golfo. “À luz da agressão contínua da República
Islâmica do Irão contra o Estado do Kuwait, incluindo as ameaças iranianas à
segurança da passagem de navios no estreito de Ormuz, a Kuwait Petroleum
Company (KPC) implementou uma redução preventiva da produção de petróleo bruto
e da capacidade de refinação”, precisou, em comunicado a empresa, frisando
que esta medida será “reavaliada em função da evolução da situação”.
A
ofensiva israelita, que atingiu a “cidade de Nabi Sheet e cidades vizinhas, no
distrito de Baalbek, resultou num total de 41 cidadãos mortos e 40 feridos”,
indicou, em comunicado, o Ministério da Saúde do Líbano.
Israel
tem realizado vários ataques contra posições do Hezbollah no Líbano, em
sequência da operação conjunta com os EUA contra o Irão. Entretanto, segundo a Sky
News, o Hezbollah avisou os residentes de uma cidade no Norte de Israel,
próxima da fronteira com o Líbano, de que devem deixar o local e seguir
para o Sul.
Também
a Jordânia acusou o Irão de ter atacado instalações estratégicas no reino,
disparando 119 mísseis e drones, na semana subsequente aos ataques
israelo-norte-americanos que desencadearam a guerra regional. Em conferência de
imprensa, o porta-voz do exército jordano, general de brigada Mustafa
al-Hayari, disse que o exército intercetou 108 dos projéteis. “Estes mísseis e
drones visavam instalações vitais dentro da Jordânia e não estavam,
simplesmente, a atravessar o nosso território”, afirmou, observando que o Irão
disparou um total de 60 mísseis e 59 drones contra “instalações vitais”, na
Jordânia, desde que Israel e os EUA iniciaram o ataque contra o Irão, tendo
sido apenas 11 os misseis não intercetados.
Mustafa
al-Hayari revelou que os ataques provocaram 19 feridos, todos já recuperados,
resultantes da queda de destroços ou de restos de projéteis, após terem sido
intercetados. E, segundo a agência oficial jordana Petra, nenhum deles era
do tipo de cruzeiro.
Al-Hayari
sublinhou que estes ataques ao território jordano ocorreram “apesar de o Reino
ter informado todas as partes de que não se tornaria num campo de batalha, nem
de que o seu território seria usado como plataforma de lançamento para qualquer
ataque”. Em todo o caso, revelou que as Forças Armadas jordanas aumentaram o
nível de alerta e de preparação, antes do conflito, equipando os militares no
terreno com “dispositivos, equipamentos e armas necessários para fazer face a
circunstâncias excecionais”, além de terem ativado “os sistemas de defesa aérea
ao seu alcance” e “intensificado a vigilância do espaço aéreo com aeronaves e
radares”.
Neste
sentido, indicou que o país ativou “acordos de cooperação militar e de defesa
com vários exércitos aliados e amigos para fornecer cobertura aérea”, a fim de
reforçar a proteção do espaço aéreo do reino. “A Jordânia procurou, desde o
início da escalada, evitar a guerra na região, por meios diplomáticos. A
principal preocupação do Reino é preservar a sua segurança e a dos seus
cidadãos. Os ataques com mísseis e drones que sofreu constituem um ataque à sua
soberania”, afirmou.
***
Pouco
mais de duas dezenas de pessoas manifestaram-se, a 7 de março, em frente à Base
das Lajes, na ilha Terceira, nos Açores, contra a utilização da infraestrutura
como plataforma para operações militares relacionadas com o ataque dos EUA ao
Irão. “Da mesma forma que o governo tem capacidade de criticar as ameaças de
Trump a Espanha, nós acreditamos que o governo devia ter a capacidade, ter a
clareza, de unicamente permitir a utilização da Base das Lajes, quando se trata
de operações militares que derivem de organizações que tanto Portugal como os
Estados Unidos são membro. A nosso ver, não foi esse o caso destas operações
militares”, afirmou, em declarações aos jornalistas, Laura Alves, porta-voz da
manifestação.
De
baixo de chuva, num parque de estacionamento a 100 metros da entrada da Base, pouco
mais de duas dezenas de manifestantes, incluindo o líder do Bloco de Esquerda /Açores
e outros seus dirigentes, gritaram “Lajes para a paz, não para bombardear” e
“Nos Açores e no continente, queremos paz no Médio Oriente”. Na faixa
principal, lia-se “Açores fora da guerra de Trump” e várias pessoas mostravam
folhas com frases como: “Respeitem o direito internacional”, “Trump fora da
Terceira”, “Not in my name [Não em meu nome]” e “Nobel Price of War [Prémio
Nobel da Guerra]”. E Laura Alves vincou: “O que nos une aqui, na realidade, é a
recusa da utilização da Base das Lajes para utilizações que sejam fora do
Acordo de [Cooperação e Defesa].”
Laura
Alves assegurou que os manifestantes são “claros opositores ao regime
iraniano”, que é “autoritário e viola os direitos humanos”, mas
também “opositores a narrativas que justifiquem a escalada deste conflito
e ignorem a via diplomática e a via das negociações”.
“O
que sabemos é que o ataque recente atingiu uma escola, provocando a morte de
mais de uma centena de crianças, e qualquer resposta que agrave ainda mais o
sofrimento civil é moralmente inaceitável. A única saída responsável e
sustentável passa por cessar, imediatamente, a intensificação do conflito,
garantir a proteção das populações civis e retomar a via diplomática”, declarou
a porta-voz do evento.
Já
a 1 de março, no Iémen, manifestantes pró-Irão exibiram cartazes com a imagem
do líder supremo iraniano, Ali Hosseini Khamenei, bandeiras do Iémen e do Irão,
armas e diziam palavras de ordem, durante um protesto, a condenar os ataques dos
EUA e de Israel ao Irão.
Exemplo
de firmeza, nos países da UE, é a Espanha, cujo governo recusou a utilização
das suas bases pelos EUA, mesmo depois de ameaçado de retaliação por Donald
Trump.
***
Um
relatório confidencial do Conselho
Nacional de Inteligência (NIC) duvida de que a oposição iraniana assuma o poder,
após uma campanha militar norte-americana em grande escala, já que, provavelmente,
não conseguirá derrubar o poderio militar e clerical iraniano.
O
documento, divulgado, pelo jornal “Washington Post”, a 7 de março, revela
“uma avaliação preocupante, num momento, em que a administração Trump
levanta o espectro de uma campanha militar prolongada que, segundo autoridades,
‘apenas começou’”. E as conclusões foram confirmadas ao “Washington Post” por
três conhecedores do conteúdo do relatório, que falaram sob anonimato, e põem
em causa o plano declarado por Donald Trump de “limpar” a estrutura de
liderança do Irão e de instalar um governante à sua escolha.
O
NIC é composto por analistas veteranos, que fazem avaliações confidenciais
destinadas a representar o conhecimento desenvolvido pelas 18 agências de
inteligência dos EUA. E a Casa Branca não revelou se o presidente foi informado
desta avaliação, antes de aprovar a operação militar, que se expandiu, rapidamente,
em várias direções, incluindo a guerra submarina no Oceano Índico, tendo-se
dirigido mais a Oeste, com confrontos antimísseis nas proximidades da Turquia, país
membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).
A
possibilidade de a oposição fragmentada do Irão assumir o controlo do país foi
descrita, no documento, como “improvável”, como afirmaram as fontes referidas
supra. Também foram referidas ao “New York Times” e ao “Wall Street Journal” as
dúvidas do NIC sobre a capacidade de a oposição iraniana tomar o poder, embora não
tenham sido divulgados, antes, o envolvimento do NIC e as suas análises dos
resultados potenciais de ofensivas em pequena e em grande escala. E não parece
que o relatório tenha examinado outros cenários possíveis, como o envio de
tropas terrestres dos EUA para o Irão ou o armamento dos Curdos com vista a uma
rebelião.
***
A
ambição trumpiana parece ilimitada. Impõe tarifas. Quer a Gronelândia, o Canadá, o Canal do
México. Atacou a Venezuela e ameaçou a Colômbia. Criou o Conselho de Paz, em
afronta à Organização das Nações Unidas (ONU). É a segunda vez que ataca o
Irão. Agora, está a negociar-ameaçar Cuba. E não se contentará com o hemisfério
ocidental. Essa ambição tem de ser travada pela união e força dos países
sensatos e decentes, em nome da justiça, dos direitos humanos e do Direito
internacional, e pela mobilização da opinião pública. É urgente multiplicar as
duas dezenas e meia dos manifestantes açorianos, em todos os países, incluindo os
EUA.
2026.03.07
– Louro de Carvalho
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