sábado, 7 de março de 2026

Há desigualdade de género no consumo e nas queixas a ele atinentes

 

A maioria dos consumidores considera que a igualdade de género, em Portugal, permanece baixa e 53% dos inquiridos acredita que as empresas não estão a adotar práticas adequadas para promover a igualdade de género.

A jornalista Bárbara Sousa, em artigo intitulado “Maioria dos consumidores considera que igualdade de género em Portugal ainda é baixa” e publicado, no site grandeconsumo.com, a 6 de março, aborda a questão, com base num estudo divulgado pela ConsumerChoice.

De acordo com o inquérito, 41% dos participantes classifica o nível de igualdade de género como muito baixo, 33% considera-o médio, 18% classifica o nível de igualdade como elevado e, apenas 8% o avalia como muito elevado. Assim, os resultados que mostram que, apesar de haver progressos, parte significativa assinala que é relevante o caminho a percorrer.

A este respeito, Nassrin Majid, diretora-geral da ConsumerChoice sustenta que “a História da evolução da mulher na sociedade é também a História da evolução da própria sociedade”, representando cada conquista, cada oportunidade e cada ultrapassagem de barreira “um avanço para as mulheres” e “um progresso coletivo”. E, na sua ótica, “os consumidores reconhecem esse caminho e valorizam, cada vez mais, contextos onde talento, mérito e oportunidade têm espaço para crescerem, independentemente do género”,

Grande parte dos participantes no inquérito (62%) não tem sentido ou presenciado qualquer tipo de situações de desigualdade de género, enquanto 28% já viveu ou observou essa experiência, sobretudo, no contexto profissional, com as diferenças salariais entre homens e mulheres que desempenham funções similares, com o menor acesso das mulheres a promoções e a cargos de liderança e com as dificuldades na gestão da vida profissional e familiar.

Quanto à evolução da igualdade de género, nos últimos cinco anos, 63% dos participantes pensa que a situação se manteve igual. Todavia, 30% diz que o país registou progressos e 7% acredita que houve retrocesso. Nas justificações aduzidas, sobressaem os avanços graduais, sobretudo, a nível legislativo, da modernização social e do aumento de oportunidades para as mulheres, em especial, no acesso a cargos de liderança.

No atinente ao papel das organizações, 53% contraria a ideia de que “as empresas, em Portugal, estão a adotar práticas cada vez mais adequadas para promover a igualdade de género”. Cerca de 29% assume posição neutra e apenas 19% concorda com tal asserção. Embora algumas empresas tenham implementado políticas específicas, muitos participantes, sustentam que os progressos são moderados e desiguais, indicando lacunas na aplicação prática das medidas, principalmente, em questões, como a igualdade salarial e o acesso a cargos de liderança.

Quanto à perceção geracional, os resultados são díspares: 40% dos inquiridos discorda de que as gerações mais jovens tenham visão mais igualitária sobre o papel das mulheres e dos homens na sociedade, 30% tem posição neutra e os restantes 30% concorda com esta asserção – o revela que alguma evolução geracional por parte dos participantes, apesar de persistir significativa perceção de que a mudança não é tão expressiva ou generalizada quanto seria expectável.

E, questionados sobre qual a principal medida para acelerar a igualdade de género, em Portugal, os inquiridos destacam a maior partilha das licenças parentais (30%). Seguem-se a educação para a igualdade, desde a escola (22%), e a igualdade salarial entre géneros (21%).

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Também o relatório do estudo “O Perfil da Mulher Consumidora em Portugal 2026”, realizado pela Consumers Trust Labs – hub de inteligência de dados, por ocasião do Dia Internacional da Mulher e publicado a 6 de março, revela que mulher portuguesa se tornou a principal auditora do mercado e a voz do consumidor, ou seja, as mulheres já lideram as queixas de consumo, em Portugal, representando 50,09% do total de queixas registadas, em 2025, no Portal da Queixa. 

A fonte de dados são as reclamações registadas no Portal da Queixa; e a metodologia foi a análise quantitativa e qualitativa das reclamações registadas no Portal da Queixa, durante o ano de 2025.

Assim, de 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2025, foram registadas 119564 reclamações apresentadas por mulheres, um marco histórico na monitorização de conflitos de consumo no país. A tendência mantém-se em 2026: só no conjunto dos meses de janeiro e fevereiro, as mulheres representaram 51,86% das queixas, no total de 39380 reclamações registadas.

De acordo com o relatório, este crescimento reflete maior literacia digital, maior consciência dos direitos do consumidor e menor tolerância ante falhas nos serviços, sobretudo em áreas associadas ao comércio eletrónico, à logística e aos serviços públicos. Por conseguinte, a mulher portuguesa tornou-se “uma das principais auditoras da qualidade dos serviços”, utilizando plataformas digitais, para denunciar falhas, para exigir soluções e para alertar outros consumidores.

A relatório especifica os setores em que a fragilidade do mercado mais afeta as mulheres.

A análise dos setores mais reclamados pelas mulheres em 2025 oferece um mapa detalhado das falhas operacionais em Portugal. O setor Correio, Transporte e Logística é a principal fonte de descontentamento, representando 13,92% das queixas femininas, seguido pelos setores Compras, Moda e Joalharia (10,07%) e Serviços e Administração Pública (7,94%).

Entre as entidades mais referidas nas ocorrências, estão empresas, como CTT, GLS, Worten, e Perfumarias Primor; e, nos serviços públicos, o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana  (IHRU) surge como a entidade mais reclamada pelas consumidoras, num contexto marcado por atrasos na atribuição de apoios à renda e a processos administrativos.

O principal motivo de reclamação apontado pelas mulheres relaciona-se com entregas e com atrasos logísticos, que representam 24,66% das queixas, seguido da qualidade do serviço ou do produto (23,62%) e de problemas financeiros e de transações, incluindo reembolsos (22,61%).

O perfil da mulher reclamante online tem a idade média de 40,07 anos, provindo a maioria das reclamações da faixa etária entre 25 e 44 anos, que concentra cerca de 55% das queixas femininas. E, em termos geográficos, a maior parte das reclamações provém dos grandes centros urbanos. Lisboa lidera com 31,74%, seguida do Porto, com 17,94%, e Setúbal com 10,86%, enquanto Aveiro e Braga completam o grupo dos distritos com maior volume de queixas.

O estudo verifica a desigualdade de género, na resolução de conflitos, pois ainda há diferenças na resposta às reclamações de homens e de mulheres: a percentagem das queixas resolvidas apresentadas por mulheres é 55,81%, inferior à dos homens, que atinge 59,47%.

A este respeito, Sónia Lage Lourenço, CEO do Portal da Queixa, afirma: “As conclusões deste barómetro são claras: o perfil da mulher consumidora, em Portugal, é o de uma ‘gestora de crises’ que utiliza a tecnologia, para exigir o cumprimento de direitos básicos. Este relatório evidencia que a qualidade do serviço não é um luxo, mas uma pré́-condição para a estabilidade social e [para] o crescimento económico, num país onde a voz feminina nunca foi tão ouvida, nem tão determinante.”

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Em consonância com o já referido, o Barómetro de Consumo e Análise de Reclamações 2025-2026, estabelece o Perfil da Mulher Consumidora em Portugal, devidamente atualizado.

Em síntese, sustenta que, pela primeira vez, as mulheres lideram o volume total de reclamações, em Portugal, representando 50,09% das queixas – uma mudança histórica no perfil do consumidor português. Registam-se, como se disse, 119564 reclamações femininas, que representam 50,09% do total nacional, sendo a idade média das reclamantes 40,07 anos. E a tendência de aumento da percentagem de reclamações femininas mantém-se, pois, nos meses de janeiro e de fevereiro de 2026, foi de 51,86%.

Em termos de análise setorial, o setor Correio, Transporte e Logística lidera com 13,92% das queixas femininas. Seguem-se os setores: Compras, Moda e Joalharia, com 10,07%; Serviços e Administração Pública, com 7,94%; Comunicações, TV e Media, com 6,78%; Mobiliário, Decoração e Eletrodomésticos, com 5,85%; Informática, Tecnologia e Som, com 5,44%; Beleza, Estética e Bem-estar, com 5,33%; Transportes públicos, Aluguer e Condução, com 5,18%; e Outros, com 39,49%.

Quanto ao perfil de demográfico, verifica-se que a percentagem de queixas de mulheres, por escalão etário, é de 8,21%, dos 18 aos 24 anos; de 28,95, dos 25 aos 34 anos; de 26,04%, dos 35 aos 44 anos; de 21,29%, dos 45 aos 54 anos; de 10,58%, dos 55 aos 64 anos; e de 4,93% dos 65 anos em diante. A idade média das reclamantes é 40,07 anos; a mediana é 39 anos; e a percentagem de reclamações, face às consumidoras nacionais é de 99,01%.

A nível geográfico, as reclamantes concentram-se no litoral. Neste sentido, surge Lisboa, com 31,74%, o Porto, com 17,94%, e Setúbal, com 10,86%, que concentram mais de 60% do total das reclamações femininas – a que se seguem Aveiro, com 5,45%, e Braga, com 5,44%, expondo uma fratura clara entre o litoral urbanizado e o interior do país, que apresenta 28,57%.

É de considerar também a sazonalidade das reclamações femininas. Assim, por ordem crescente, aparece abril, com 6,72% das reclamações. Seguem-se fevereiro (agitação laboral), com 7,13%; junho, com 7,32%; novembro (Black Friday), com 7,42%; março (greves na função pública), com 7,49%; maio, com 7,66%; setembro (regresso às aulas), com 8,08%; outubro (crise IHRU), com 8,16%; agosto, com 8,44%; julho (picos de turismo), com 8,78%; janeiro (saldos de inverno), com 8,96%; e, por último, dezembro (Natal / Logística), com 13,84%.

O pico de atividade é às 11h00 da manhã e a reclamação integra-se na rotina diária de trabalho.

Como é evidente, dezembro destaca-se com 13,84% do total anual. O “Efeito Dezembro” reflete falhas logísticas do período natalício e do comércio eletrónico. Assim, é o mês que concentra a maior contestação feminina, alimentada pela incapacidade operacional das transportadoras em lidar com o volume de encomendas natalícias.

O Barómetro especifica motivos das reclamações femininas, em que entregas e logística lideram com 24,66% – que são o principal motivo de queixa –, seguidas da qualidade do serviço / produto (artigos defeituosos ou impróprios), com 23,62%, e problemas financeiros (reembolsos e cobranças indevidas), com  22,61%. Estes três tipos de queixas criam, respetivamente, perda de confiança, prejuízo material e ansiedade patrimonial.

Também segurança, fraude e privacidade, com 12,38% das queixas, concitam o medo de exposição; questões legais e técnicas, com 9%, acusam frustração burocrática; e queixas sobre atendimento e suporte, com 7,75%, geram sensação de abandono no consumidor.

No âmbito das reclamações, “encomenda” é a palavra mais mencionada (26302 referências). Todavia, há outras, como bilhete, sapatilhas, autocarro, sofá, aplicação, Internet, cartão.

Também há desigualdade de género na satisfação, no tempo de resposta e na resolução.

A satisfação das consumidoras caiu quase 3%, em 2025, um recuo superior ao do público masculino. As marcas demonstram uma “negligência seletiva”, por género.

A satisfação feminina, em 2025, é de 3,59%, contra 3,84% da masculina, representando uma queda de -2,90%, face a 2024. As mulheres avaliam as marcas com pontuação inferior, refletindo uma experiência real de espera.

O tempo de resposta às mulheres é de -3,84%, face a -3,14% do tempo de resposta aos homens. O tempo de resposta piorou mais para mulheres do que para homens, sugerindo enviesamento estrutural no atendimento.

A taxa de resolução feminina é de 55,81%, face a 59,47% da masculina. Nestes termos, 37,37% dos casos femininos ficam sem resolução, face a 33,65% dos casos masculinos.

Os indicadores de satisfação feminina em 2024 e em 2025 (numa escala de 0 a 5) são os seguintes:

Média das avaliações de satisfação, em  2024, é 3,70; em 2025, é 3,59.

Média do comportamento da marca, em 2024, é 4,20; em 2025, é 3,91.

Média do tempo de resposta, em 2024, é 4,12; em 2025, é 3,96.

84,1% das reclamações femininas começam com sentimento negativo. Apenas 13,3% atingem positividade final, contra14,6% das reclamações masculinas.

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O barómetro destaca os casos do IHRU, que se tornou a marca mais reclamada por mulheres, e da moda e cosmética, que revelam a predominância feminina esmagadora nas queixas.

O IHRU – Habitação regista 2,67% das queixas, sendo mais 93% do total delas femininas.

A suspensão de apoios à renda e a demora na aprovação de candidaturas ao Porta 65 deixaram milhares de famílias em vulnerabilidade extrema. E o IHRU, registando  atrasos “gravíssimos”, admitiu que o sistema falhou em responder a mais de 50 mil beneficiários, em mais 93% de reclamações.

O Portal da Queixa tornou-se o canal preferencial para expor a agonia de quem não consegue contactar os serviços públicos.

Das queixas do setor Compras Moda e Joalharia 72,26% são femininas, focando-se em sapatarias online e perfumarias e sendo 51,89% da categoria Beleza e Estética.

Há encomendas que não saem do armazém e há dificuldade de contacto com o apoio ao cliente, bem como falhas de stock, publicidade enganosa. Ora, promessas de prazos de entrega incumpridas geram perceção de desrespeito pela consumidora.

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Concluindo,

Regista-se uma hegemonia feminina, isto é, a mulher portuguesa assumiu o papel de principal auditora da qualidade dos serviços, sendo a reclamação digital, hoje, a principal fonte de informação para empresas e reguladores. Por conseguinte, as marcas que ignorem o fosso de satisfação entre géneros e continuem a oferecer tempos de resposta mais lentos e menores taxas de resolução às mulheres perderão o seu principal grupo de decisores de compra.

O contexto é marcado pela crise habitacional, com o colapso do IHRU e as falhas nos apoios à renda e ao Porta 65 a demonstrarem que os serviços públicos estão a falhar às mulheres, que mais precisam de proteção social e estabilidade.

Está a crescer a cidadania económica das mulheres, ou seja, a mulher consumidora é uma “gestora de crises” que utiliza a tecnologia para exigir o cumprimento de direitos básicos; e a queixa tornou-se um ato de cidadania económica e de proteção mútua, entre consumidoras.

Em termos das perspetivas para 2026, é de considerar que a recuperação da confiança dependerá da capacidade das marcas e do Estado em humanizar o atendimento por género, em automatizar processos de reembolso e em garantir a integridade das entregas em crise.

Porém, a via de resolução é longa, até porque o Barómetro só considera as queixas online.

2026.03.06 – Louro de Carvalho

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