domingo, 8 de março de 2026

No Dia Internacional da Mulher de 2026, contrastes e preocupações

 

É celebrado, a 8 de março, o Dia Internacional da Mulher e, neste ano, é de salientar, como positivo, que os dados parecem mostrar que as mulheres estão, cada vez mais, a assumir posições de autoridade no mundo empresarial.

Com efeito, na maioria dos países da União Europeia (UE) aumentou o número de mulheres em cargos de gestão, entre 2014 e 2024, mas três países registaram uma diminuição. Na verdade, as estatísticas do Eurostat indicam que 35,2% de todos os cargos de gestão na UE, em 2024, eram ocupados por mulheres, contra 31,8%, em 2014.

A percentagem de cargos de gestão ocupados por mulheres diminui com a idade, com 34,4% das mulheres gestoras com idades entre os 40 e os 64 anos e 26,5% das mulheres com 65 anos ou mais. E a percentagem de jovens gestoras com idades entre os 15 e os 39 anos é mais elevada do que noutros grupos etários: quase 40% das gestoras deste grupo são mulheres.

Os números também variam consoante o país da UE: as maiores percentagens de mulheres em cargos de gestão ocorrem na Suécia (44,4%), na Letónia (43,4%) e na Polónia (41,8%). Ao invés, as taxas mais baixas ocorrem em Chipre (25,3%), na Croácia (27,6%) e na Itália (27,9%). Contudo, os números estão a aumentar na grande maioria dos países da UE, com o Luxemburgo a registar o maior aumento de mulheres gestoras, desde 2014, com 13,7%. Seguem-se Malta (10,1%) e Chipre (7,9%). Em contraponto, na Eslovénia (-3,8%), na Letónia (-0,7%) e na Lituânia (-0,2%) diminuiu o número de mulheres em cargos de gestão, nesse período.

O aumento do número de mulheres a gerirem empresas ocorre numa altura em que cada vez mais mulheres assumem funções em áreas tradicionalmente dominadas pelos homens na UE, como a ciência e a engenharia.

O aumento do número de mulheres gestoras vem também do esforço da UE para garantir maior equilíbrio de género nos conselhos de empresas cotadas em bolsa, nomeadamente, pela aplicação da diretiva relativa ao equilíbrio entre homens mulheres nos conselhos de administração das empresas, a qual estabelece como objetivo as empresas terem 40% do sexo sub-representado entre os administradores não executivos e 33% entre todos os administradores. E, embora o prazo para as empresas cumprirem este objetivo seja 30 de junho de 2026, o prazo para os membros da UE transporem a diretiva era dezembro de 2024, o que mostra que as empresas já faziam pressão para melhorar a diversidade na sua liderança, em conformidade com o Eurostat.

No entanto, independentemente dos cargos de chefia, continua a clara diferença de emprego entre homens e mulheres. Efetivamente, os dados do Eurostat mostram que 80,8% dos homens estavam empregados a tempo inteiro, em todo o bloco, em 2024, caindo para 70,8% das mulheres. Em contraponto, a percentagem de mulheres que trabalham a tempo parcial é muito mais elevada do que a dos homens (27,8% contra 7,7%) e, segundo o Eurostat, a diferença de emprego diminuiu 1,1%, em toda a UE, na última década, tendência registada em 22 países da UE.

Passando da gestão às ciências e às engenharias, é de salientar que as ciências constituem parte significativa dos postos de trabalho, na Europa: em 2024, mais de 73,8 milhões de pessoas com idades entre os 25 e os 64 anos estavam empregadas nos domínios da ciência e da tecnologia, na UE. E o número de mulheres cientistas e engenheiras, na UE, aumentou de 3,4 milhões, em 2008, para 7,9 milhões, em 2024, de acordo com o Eurostat. Porém, continuam as disparidades entre setores individuais. As mulheres investigadoras estão quase em paridade, no setor do ensino superior (44%) e no setor público (45%), mas estão sub-representadas no setor empresarial (22%), de acordo com o relatório da Comissão Europeia “She Figures 2024”. Além disso, as mulheres representam apenas 25% dos profissionais independentes, nos setores da ciência e da engenharia e das tecnologias de informação e comunicação (TIC).

O relatório “She Figures 2024” sustenta que “a segregação de género continua a ser um desafio no mercado de trabalho”, mas que há tendência gradual para inverter a situação, “o que indica um progresso lento, mas constante, no sentido da igualdade de género”.

Entre os países da UE, as percentagens mais elevadas de mulheres cientistas e engenheiras registaram-se na Letónia, com 50,9%, na Dinamarca, com 48,8%, e na Estónia, com 47,9%. Em contraponto, os níveis mais baixos de representação registaram-se na Finlândia, com 30,7%, na Hungria, com 31,7%, e no Luxemburgo, com 32,4%.

Não obstante, nalgumas regiões da Europa, as mulheres estão em percentagem mais elevada na ciência do que os homens. Segundo o Eurostat, há mais mulheres em 11 regiões da Espanha, de Portugal, da Polónia, da Bulgária, da Suécia e da Letónia. Por exemplo, as Canárias, na Espanha, têm a percentagem mais elevada de mulheres cientistas e engenheiras, com 58,8%. Seguem-se, em Portugal, os Açores e a Madeira, com 57,3% e 56,4%, respetivamente.

No outro extremo da escala, a menor proporção de mulheres cientistas e engenheiras foi registada na região húngara de Közép-Magyarország (30,0%), na região finlandesa de Manner-Suomi (30,7%) e em Sud, na Itália (31,1%).

As mulheres nascidas fora da UE têm menos probabilidades de trabalharem como cientistas e engenheiras (36%) do que as nascidas num país da UE (43%) e as nascidas no país da UE onde trabalham (42%). As proporções mais baixas de mulheres nascidas fora da UE a trabalhar como cientistas e engenheiras, na UE, registam-se no Luxemburgo (21%) e nos Países Baixos (26%).

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Porém, o Dia Internacional da Mulher, em 2026, deve fazer refletir os cidadãos portugueses, no que toca ao feminicídio, sobretudo, por violência doméstica. Com efeito, em 2025, pelo menos, 25 pessoas morreram vítimas de violência doméstica.

É certo, que apesar das ocorrências se manterem estáveis (29778), aumentou o número de reclusos por este crime (1560) e de pessoas em programas para agressores (3112). As medidas de apoio às vítimas registaram ligeiras diminuições no número de beneficiários. Porém, o número preocupa.

O número de vítimas de violência doméstica (25), num ano, torna 2025 o ano com mais homicídios, nesse contexto, desde 2022.

Segundo o Portal da Violência Doméstica, da Comissão para a Igualdade e Cidadania (GIG), 11 pessoas – 10 mulheres e uma criança – morreram, no último semestre do ano, somando-se às 11 mulheres, dois homens e uma criança que perderam a vida no primeiro semestre.

Em 2024 tinham morrido 22 pessoas vítimas de homicídio voluntário, em contexto de violência doméstica, o mesmo número registado em 2023. É, pois, 2025 o ano com mais homicídios voluntários por violência doméstica, desde 2022, ano em que ocorreram 28 mortes.

Ao longo de 2025, a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Guarda Nacional Republicana (GNR) registaram 29778 ocorrências conexas com violência doméstica, ligeiramente abaixo do ano anterior (29885). E, no final de 2025, havia 1560 reclusos nas prisões por violência doméstica, dos quais 1184 em prisão efetiva e 376 em prisão preventiva, acima dos números do final de 2024 (1358 reclusos, dos quais 1019 em prisão efetiva e 339 em prisão preventiva).

Havia, no final do ano passado, 1351 suspeitos com medidas de coação em vigor, no âmbito do crime de violência doméstica, mais do que os 1236 do ano anterior.

Também o número de pessoas integradas em programas para agressores aumentou de 2788, no final de 2024, para 3112, no final de 2025. E, no respeitante às medidas de apoio às vítimas de violência doméstica, havia 6100 pessoas com medida de teleassistência, no final de 2025, menos 424 do que no final do ano anterior. Na Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica, estavam acolhidas 1349 pessoas, no final do ano, entre as quais 705 mulheres, 623 crianças e 21 homens, ao passo que, no ano anterior eram 1420 pessoas no total, incluindo 727 mulheres, 669 crianças e 24 homens.

Em referência ao período de 2002 a 2025, o Observatório de Mulheres Assassinadas refere que, pelo menos, 709 mulheres foram assassinadas e 939 foram vítimas de tentativa de homicídio. Dito de outro modo, nos últimos 22 anos, foram mortas, em média, 32 mulheres, por ano, em Portugal, tendo a maioria destes crimes ocorrido na residência partilhada entre vítimas e agressores e com registo de violência prévia.

Desses 709 crimes, 539 foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros das vítimas, em contexto em que a vítima tentava separar-se e os ofensor não aceitava a separação. E, de acordo com a estrutura da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), só em 2025 foram assassinadas 26 mulheres (número superior ao da CIG), em Portugal, e 57 foram vítimas de tentativa de homicídio. Destas mortes, 22 foram feminicídios, “mortes intencionais de mulheres motivadas por questões de género”, todos cometidos por homens.

Quanto às 57 tentativas de homicídio de mulheres, 45 foram no contexto de feminicídio. “Dos 22 feminicídios, 16 foram em contexto de intimidade e as vítimas tinham entre 36 e 56 anos. A maioria destes crimes ocorreu na residência partilhada entre vítimas e agressores”, salientou, citada pela Lusa, a coordenadora daquele observatório, Cátia Pontedeira, a qual chamou a atenção para que, “na maior parte dos crimes de feminicídio, há violência prévia e, em 80% dos casos, esta violência é conhecida por outras pessoas”.

Também é de anotar que, “em quase metade dos casos de homicídio de mulheres, houve uma tentativa de suicídio, por parte do agressor, com sete homens a perderem a vida”.

A presidente da UMAR, Liliana Rodrigues, também segundo a Lusa, frisou que os dados “mostram que a casa continua a ser o lugar mais inseguro para as mulheres”.

Os dados referentes a 2025 permitiram identificar igualmente que 27% das mulheres assassinadas não era de nacionalidade portuguesa, e que, em 23% dos casos, “houve uma tentativa de ocultar o crime” por parte do agressor.

O Observatório de Mulheres Assassinadas contabilizou, nos últimos 22 anos, uma média de 32 homicídios, por ano, o que, segundo Frederica Armada, uma das responsáveis pela estrutura, mostra que “a violência sobre as mulheres não é um fenómeno episódico”. E é durante a noite e madrugada, sobretudo, no verão, entre junho e setembro, que os feminicídios mais acontecem e que, em 55% dos casos de 2025, houve recurso a armas brancas para cometer o crime.

Para a presidente da UMAR, perante o facto de os números apontarem que na maior parte destes crimes há episódios de violência doméstica já denunciados, "é urgente que o sistema de justiça criminal deixe de minimizar o risco".

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No Dia Internacional da Mulher, verificando que as mulheres sofrem mais com o clima e que políticas verdes querem mudá-lo, a Euronews Green destaca entidades políticas que lideram a luta constante contra as alterações climáticas, em todo o Mundo.

À cabeça, vem Hannah Spencer, canalizadora e estucadora, recém-eleita deputada do Partido Verde, no Norte de Inglaterra, caso inédito, que representa o tipo de eleitor que o partido – com a sua base de apoio da classe média, no Sul do Reino Unido – tem, há muito, dificuldade em alcançar. Quer tirar o lixo e as descargas ilegais das ruas. Ora, uma análise de 2019 concluiu que apenas 7% de todos os deputados britânicos tinham origem na “classe trabalhadora”.

Lena Scilling, que deixou a vida de ativista climática do movimento Friday for Future, para se tornar eurodeputada verde austríaca, em 2024, diz que “os insultos sexistas, os ataques pessoais e a perda de privacidade fazem, infelizmente, parte da realidade”, sendo peculiar a forma como a intersecção entre género e clima intensifica os ataques.

De facto, uma investigação norte-americana, publicada na revista “Climatix Change”, verificou a correlação consistente entre sexismo, negação das alterações climáticas e oposição às políticas climáticas, o que se explica pela “justificação do sistema”, ou seja, quando as pessoas lutam pela proteção da ordem socioeconómica existente. Grande parte deste assédio ocorre online, com os guerreiros de teclado a esconderem-se no anonimato e os algoritmos a amplificarem conteúdos divisivos. Um inquérito da HateAid e da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, concluiu que as mulheres são visadas, com mais frequência e de forma mais sexualizada, com cerca de dois terços a relatarem ataques sexistas ou misóginos.

O Partido Verde Europeu é um dos dois europartidos com quotas de género formais (o único com plena paridade de género) e, embora alguns as desvalorizem como discriminação positiva, um estudo, de 2024, do King’s College London concluiu que as quotas são o único método fiável para garantir a representação das mulheres nas direções partidárias.

Na cimeira climática da Nações Unidas COP30, de 2025, as mulheres representavam 40% dos membros das delegações nacionais, uma subida de apenas 9%, em 17 anos, e menos de um terço das delegações era liderado por uma mulher. Ora, os estudos mostram que as alterações climáticas atingem, com mais força, quem tem menos poder para lhes escapar. Assim, mulheres e crianças têm 14 vezes mais probabilidades de morrer do que os homens, na ocorrência de fenómenos meteorológicos extremos; e quatro quintos de pessoas deslocadas por força das alterações climáticas serão mulheres e raparigas.

Porém, quando as mulheres têm poder, os resultados melhoram, para todos. Um estudo que abrangeu 91 países concluiu que a presença feminina nos parlamentos nacionais estava associada a políticas climáticas mais exigentes e a menores emissões de carbono. Por conseguinte, a conclusão é óbvia: mulheres na política podem “mudar o futuro”.

Lena Schilling recorda que a sua motivação para a causa surgiu quando a ministra austríaca do Ambiente dos Verdes, Leonore Gewessler, lutou para salvar a Lei de Restauração da Natureza, mostrando que uma mulher, no lugar certo, pode tomar decisões que mudam o futuro. E adverte que a política não se faz apenas nos parlamentos, mas também nas ruas, nas organizações da sociedade civil, nas comunidades locais e nos movimentos.

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Por fim, cabe a palavra a António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que propõe, no jornal Público (de 8 de março, pág. 16), “oito áreas de ação destinadas a promover os direitos das mulheres e a alcançar resultados concretos”: “corrigir os desequilíbrios de poder”, com vista à igualdade de género e à expansão da liberdade; “fazer da paridade uma prioridade”, contrariando a sub-representação das mulheres nas instituições; “apostar no investimento mais rentável” (pela educação, saúde e apoio social); “assegurar[-lhes] um lugar nas negociações de paz”; “acabar com a discriminação legal”; estipular a “tolerância zero para a violência de género” (bem como para os culpados); “eliminar distorções no setor tecnológico” (nomeadamente, a misoginia online); e “integrar a perspetiva de género na ação climática”.

“Se os líderes levarem a sério a igualdade de género e se se comprometerem com estas ações agora, mudaremos o Mundo”, diz António Guterres.

2026.03.08 – Louro de Carvalho

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