O
recente conflito dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel com o Irão não
demorou a expandir-se aos países vizinhos, com bases militares norte-americanas
e outras infraestruturas a serem atacadas pelos Iranianos, como retaliação aos
ataques conjuntos de Israel-EUA. E Portugal não está livre de alguma forma de
desestabilização, em consequência do ataque, sobretudo, por conivência.
O
embaixador do Irão, Majid Tafreshi, já “veio pedir satisfações ao governo
sobre a nossa alegada cumplicidade no ataque”, questionando-o sobre a
utilização da Base das Lajes.
O
analista do Expresso Tomé Ribeiro Gomes argumenta que esta nova ronda de
ataques contra o Irão “pode criar problemas, mais até do que em junho,
porque, desta vez, houve muito mais preparação, houve muito mais conversa,
antes da operação militar”.
Diana
Rosa Rodrigues explica muito do que se passa, em artigo intitulado “Ameaça
iraniana: “Portugal não é um inimigo prioritário do Irão’”, publicado pela Euronews,
a 2 de março.
A
pretexto da utilização da Base das Lajes pelos EUA, por autorização tácita, o
nosso país pode ser alvo do Irão, mas parece remoto ser atacado diretamente. Ainda
assim, refere a articulista que “os especialistas alertam para a possibilidade
das chamadas ‘ameaças híbridas’, assim como [para] os potenciais impactos na
diplomacia”. Com efeito, a operação “Fúria Épica”, iniciada a 28 de fevereiro,
pela sua dimensão, não é efetuável sem forte apoio logístico. Por isso, as
autoridades iranianas foram céleres a avisar que “todos os locais envolvidos”
nas operações militares dos EUA contra a República Islâmica “são alvos
legítimos”, o que pode incluir a nossa base açoriana, onde circulam, a todo o
gás, aviões norte-americanos.
O
ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, na televisão
iraniana, declarou: “As forças armadas iranianas consideram como alvos
legítimos os locais de onde foram conduzidas as operações norte-americanas e
sionistas [Israel], bem como os locais de todas as ações levadas a cabo contra
as operações de defesa iranianas.”
Face
a esta declaração, João Annes, do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES,
sustenta que o Irão “decidiu tratar Portugal como um inimigo”, o que, em
sua opinião, “o Estado português”, na sua política externa, deve levar “consideração,
nas relações com o Irão”, já que pode haver “reação mais robusta, do ponto de
vista diplomático, com Portugal”. Porém, em termos pragmáticos, defende que “Portugal
não é um inimigo prioritário do Irão”.
Defende
o analista que, “em termos de qualquer tipo de risco de ataque direto cinético,
de mísseis ou drones, a partir, diretamente, do Irão”, isso “não é
plausível, nem é credível que Portugal corra qualquer tipo de risco, nessa
matéria”, pois a distância geográfica e a ausência de contencioso bilateral
entre Portugal e o Irão não apontam para isso, mas há “outras possibilidades de
retaliação, nomeadamente, através do ‘formato híbrido’ e em três dimensões
distintas”: “utilização de proxies, neste caso, [através de] organizações
criminosas locais”; “instrumentalização de personalidades políticas e do foro
mediático para atingir os interesses portugueses, seja a nível nacional, seja a
nível dos nossos interesses políticos externos”; e “utilização do ciberespaço
para atingir, diretamente, Portugal”.
Observa
João Annes que o Irão mantém capacidade intacta, no ciberespaço, para
ciberataques, para espionagem e para outros tipos de ameaças; e tem histórico
de procura de relação (por exemplo, no Reino Unido e na Alemanha) com
organizações criminosas que operam, localmente, na Europa, para atacar
sinagogas, interesses judaicos ou outros. Portanto, a questão terá que ver com eventuais
ameaças internas promovidas pelo Irão.
Segundo
o analista, a ameaça terrorista existe, mas “não é nova, nem deve ser
introduzida apenas no contexto internacional atual”, pois, como recorda, “a ameaça
iraniana, do ponto de vista do terrorismo, dentro da Europa, existe desde 1979”.
Por isso, acredita que as forças de segurança nacionais e europeias acompanham,
“de forma muito próxima, todas as movimentações, seja das organizações
terroristas, patrocinadas, diretamente, pelo Irão, a maior parte delas de
inspiração xiita, seja aquelas com que o Irão consegue estabelecer laços e
ligações, nomeadamente, a Irmandade muçulmana”.
Mais
refere que “Portugal já provou, no caso das ameaças do Estado Islâmico, que
está muito bem preparado e muito bem informado” para “prevenir essas ameaças”.
Porém, adverte que Portugal, são sendo alvo não prioritário, continua, como país
da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e da União Europeia (UE), a
ser um alvo de potenciais vetores terroristas por parte do Irão, porque já
o era antes. Por isso, Portugal deve reforçar os meios de prevenção das ameaças
e priorizar as áreas, dentro das forças e dos serviços de segurança, que lidam
com este tipo de ameaças e aumentar a capacidade de resposta a nível ‘ciber’.
Na
ótica do analista, os alvos prioritários, além dos EUA e de Israel, são, por
exemplo, a França, que está a “espoletar” um porta-aviões, o Charles de Gaulle,
para aquela região, e a prometer multiplicar as ogivas nucleares, na Europa, e
o Reino Unido, que está, neste momento, a atuar como quem reconhece, no Irão,
uma ameaça. No entanto, João Annes avisa: “Não somos um alvo prioritário, mas
não devemos relaxar a guarda.”
***
A
posição de Portugal, em relação à “Fúria Épica” constitui um risco. Nós olhamos
para os EUA, não tanto como um parceiro ou aliado, mas como patrão. Já a
vizinha Espanha depressa condenou os ataques, afirmando tratar-se de decisão
unilateral à revelia do Direito Internacional, pois não decorre de decisão ou
de autorização da NATO ou da Organização das Nações Unidas (ONU), mas de ordem
do presidente dos EUA, sem autorização do seu Congresso.
Assim,
o ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Albares, negou que
os EUA estejam a utilizar as bases militares de Rota, em Cádis, e de Morón
de la Frontera, em Sevilha, para a operação militar no Irão, ou que o
tenham informado, previamente, do ataque: “Não vamos emprestar as nossas bases
para nada que não esteja no Tratado ou para algo que não se enquadre na Carta
das Nações Unidas”, afirmou o chefe da diplomacia espanhola, em entrevista à RTVE,
vincando: “São bases de uso conjunto, mas de soberania espanhola e,
portanto, a Espanha tem a última palavra sobre o uso dessas bases.”
O
governante espanhol admitiu que pode
haver navios de guerra em Rota, “o que não significa que a base esteja a ser
emprestada para esta operação”, e relevou que a decisão agradou ao regime
iraniano, como a embaixada do Irão comunicou nas redes sociais: “O Irão
reconhece e respeita, plenamente, esta posição, que está em conformidade com o
direito internacional.”
“Estamos
perante uma escalada militar com consequências imprevisíveis,
consequências que já estamos a ver diante dos nossos olhos: o Estreito de Ormuz
completamente paralisado, o aumento do preço do petróleo ou o prolongamento da
guerra”, comentou Albares.
Também
Margarita Robles, ministra espanhola da Defesa, negou que as bases americanas
em solo espanhol estejam a ser utilizadas na luta contra o regime dos
Ayatollahs. “Categoricamente não, não foi prestado qualquer tipo
de assistência nas bases de Morón e Rota”, respondeu a ministra da Defesa, num
evento em Granada, esclarecendo que, embora haja um acordo com os EUA para a
utilização das bases andaluzas, este acordo permite que estas operem no
âmbito da legalidade internacional, ao passo que, “neste momento”, Israel e os EUA
“estão a atuar unilateralmente, sem o apoio de uma resolução internacional”.
Em
Portugal, a Base das Lages mantém as movimentações dos aviões norte-americanos,
intensificadas nos últimos dias. O ministro do Estado e dos Negócios
Estrangeiros, Paulo Rangel, confirmou que
os EUA poderiam usar a Base das Lajes para uma operação militar contra o
Irão, desde que respeitassem os termos do tratado assinado com Portugal, aduzindo
que o Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os Estados Unidos,
assinado em 1995, prevê “autorizações tácitas, que são dadas com um prazo
relativamente curto”.
A
2 de março, em entrevista à CNN, o governante revelou que Portugal
concedeu aos EUA uma “autorização condicional” para utilização da Base das
Lajes, mas apenas após Washington ter informado Lisboa de que tinha feito uma
intervenção militar no Médio Oriente, mas sublinhou que nenhum meio militar
envolvido na operação norte‑americana partiu dos Açores (Era o que faltava: é
bastante longe!). Além disso, esclareceu que a autorização dada para eventual
uso das Lajes na intervenção em curso está sujeita a três requisitos essenciais:
só pode ser utilizada em resposta a um ataque, num quadro de defesa ou
retaliação; a ação tem de ser necessária e proporcional; só pode visar alvos de
natureza militar.
É
caso para questionar: Está a querer enganar quem? Faz-me lembrar um antigo
ministro da Defesa, que, ao ser questionado por jornalistas – e, mais tarde,
pelos deputados, na Assembleia da República (AR) – por a OGMA– Indústria
Aeronáutica de Portugal ter reparado motores de aviões indonésios, declarou,
candidamente, que a OGMA não sabia qual era a sua origem, pois os motores não
têm número e marca de origem.
Além
disso, a despropósito, invocou o Decreto-Lei n.º 2/2017, de 6 de janeiro, que,
nos termos do artigo 2.º, se aplica “em tempo de paz”, para dizer que, até 27
de fevereiro, todas as movimentações
aéreas de aeronaves militares norte‑americanas foram autorizadas ao abrigo do
regime geral (entrada cortês de navios e aeronaves no território). Nestes casos, como aduziu, os pedidos são
comunicados e tornam‑se tacitamente válidos, se Portugal não se opuser, no
prazo de 24 horas. Ora, tais movimentações eram preparatórias da gigantesca
operação, como era do conhecimento público. Donald Trump nunca escondeu o seu
intento!
Já
há dias, citei a posição do advogado Ricardo Silva a contrariar tal postura do
governo.
Francisco
Pereira Coutinho, professor catedrático de Direito Internacional na Nova School
of Law, diz que a posição do governo é uma sonsice, pois, segundo o acordo, “tem
de haver avisos” que não requerem autorização, em operações da NATO ou de
outras organizações internacionais, mas uma operação unilateral dos EUA requer
“autorização expressa”.
Também
Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais, na Universidade
Lusíada do Porto, considera que os tratados são “claros” e que os EUA têm
de informar o governo das operações e, nestes casos, solicitar autorização,
revelando a posição de Portugal submissão aos EUA. “Isto é um mau sinal porque
dá a ideia de uma diplomacia de submissão, e não de cooperação. […] Os EUA têm
uma necessidade e nós vamos prover essa necessidade, numa relação que não
é simétrica e não é de parceria”, diz o professor, sustentando que a decisão do
governo coloca problemas na posição portuguesa no Mundo e na neutralidade que diz
mostrar.
“Estamos,
sempre, a rogar que a nossa diplomacia é pela neutralidade, que é uma
diplomacia de cooperação e de pontes com todas as zonas geográficas, mas pontes
não se fazem dando apoio político, que é o que nós demos, a um ataque
unilateral, quando está a decorrer um processo negocial que o mediador dizia
estar a correr bem”, observa o especialista, frisando que o governo não vê que
alianças “não são relações de dependência” e que “o bom aliado chama a atenção
do seu parceiro, quando este erra”.
Sobre
as potenciais consequências para Portugal, no apoio à operação militar
norte-americana, Tiago André Lopes não aponta nenhuma, “para já”, mas adverte
que não podemos excluir que o cenário mude, a médio prazo, nomeadamente, nos
campos económico e diplomático.
Por
exemplo, manter o estreito de Ormuz fechado fará estragos na economia europeia
e, em particular, na portuguesa. Também depois da Guerra dos Seis Dias, em
1967, quando Portugal apoiou Israel, a Organização dos Países Exportadores de
Petróleo (OPEP) embargou a venda de petróleo a Portugal e à África do Sul, o
que “impactou bastante a nossa economia”. E, se Portugal vier a concorrer a um
lugar no Conselho de Segurança da ONU e precisar dos votos do Mundo árabe, pode
não os conseguir, haver por a ideia de que Portugal alinha com agendas muito
específicas.
E
o Presidente da República, em Braga, a 28 de fevereiro, na sua despedida da
Forças Armadas, em discurso inflamado (embora rico de conteúdo), garantiu que os
militares estão, dedicadamente, ao serviço de Portugal, que está sempre com os
aliados. Porém, questionado pelos jornalistas sobre o conflito com o Irão,
remeteu para o comunicado do governo.
***
Supõe-se
que os efeitos do conflito já chegaram à Europa.
Um
drone atingiu a base aérea britânica da RAF (Força Aérea Real) em Acrotíri, no
Chipre, pouco depois da meia-noite de 1 para 2 de março. Os danos materiais são
limitados e não houve feridos,
mas a
situação continua a ser investigada pelas autoridades cipriotas e britânicas.
O
presidente cipriota, Nikos Christodoulides, numa declaração à comunidade
cipriota, em que revelou o incidente, sublinhou o facto de estarmos “numa
região de particular instabilidade geopolítica, com muitos desafios e
problemas, que está a atravessar uma crise sem precedentes”, mas que o país não
participa nem tenciona participar em qualquer operação militar.
Como
a RAF Acrotíri é território ultramarino britânico perto de Limassol, Londres
enviou meios adicionais para a área para “fins defensivos”, incluindo sistemas
de defesa antiaérea e antidrone, radar e caças F-35, e aumentou o nível de
proteção das forças na região. E as bases britânicas aconselharam os residentes
de Acrotíri a ficarem, em local seguro, até nova ordem.
Em
todos os outros locais (Episkopi, Dhekelia, Agios Nikolaos), os locais de
trabalho, as empresas e as instalações permanecerão abertos normalmente, sem
restrições.
Ora,
o incidente ocorreu no contexto de tensões acrescidas no Médio Oriente. Segundo
a AFP, a Grã-Bretanha concordou em autorizar aos EUA a utilização das
bases militares britânicas para ataques “defensivos” destinados a destruir
os mísseis iranianos e os seus lançadores. Porém, o primeiro-ministro afirmou
que o Reino Unido “não esteve envolvido nos ataques iniciais contra o Irão
e não se envolverá agora em ações ofensivas”.
Não
obstante, a AFP refere que o ataque suspeito com drones ocorreu após as
declarações de Keir Starmer sobre a assistência aos EUA, no contexto do
conflito com o Irão.
As
estimativas sobre a possível origem do drone, incluindo cenários que excluem um
lançamento direto a partir de território iraniano, devido à sua distância, ou
relatos de possível envolvimento do Hezbollah, provêm de fontes militares
citadas pelos meios de comunicação social cipriotas, mas não foram oficialmente
confirmadas.
***
Seja
como for, o ambiente está ao rubro e as consequências são imprevisíveis. Tudo
isto é devido à ambição dos EUA, secundada pela cooperação ativa, pela conivência,
pela falsa neutralidade e pela alegação da ação meramente defensiva. E a paz
não tem voz, nem vez!
2026.03.02 – Louro de Carvalho
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