Numa
altura em que a guerra no Irão entra na terceira semana e sem fim à vista, os
preços do petróleo abriram em alta, devido à baixa de produção, nos países do Médio
Oriente, por não haver garantia de exportação, em razão do boqueio do Estreito de
Ormuz e do aumento brutal dos prémios de seguro cobrados pelas Companhias de Seguros.
Em
condições normais, pelo estreito corredor marítimo que liga o Golfo Pérsico ao
Golfo de Omã e ao resto do Mundo, passa cerca de 20% do comércio mundial de
petróleo e 30% do fornecimento global de fertilizantes. Porém, nas últimas semanas,
passou a campo de batalha central, estando o petróleo e o transporte marítimo
na linha da frente da guerra económica.
Apesar
da promessa dos Estados Unidos da América (EUA) de aliviarem, ali, o
estrangulamento, centenas de navios e de petroleiros estão parados, de ambos os
lados da via marítima, pois ataques com mísseis, ameaças de minas e operações
navais reduziram, drasticamente, o tráfego marítimo, fizeram disparar os custos
de seguros e puseram os mercados de energia em modo de crise. E os consumidores
sentirão o impacto em poucas semanas.
Em
artigo intitulado “Estreito de Ormuz torna-se via marítima mais cara após
prémios de risco subirem 300%”, publicado pela Euronews, a 16 de março,
a jornalista Laila Humairah considera que as ameaças de mísseis, os prémios de
seguro em alta e as viagens suspensas “estão a transformar o comércio que
passava por Ormuz”.
Depois,
citando Marco Forgione, diretor do Chartered Institute of Export and
International Trade, sediado no Reino Unido, refere: “O que, antes, era um
ambiente sensível a perturbações transformou-se, agora, numa zona de operações
persistentemente hostil, onde a viabilidade das viagens, a aceitação por parte
das seguradoras e as condições táticas em tempo real são grandes condicionantes.”
O
seguro de risco de guerra para navios que atravessam o estreito de Ormuz tem
aumentado, dramaticamente, desde o início da guerra. Como diz Marco Forgione,
embora a cobertura tenha sido brevemente suspensa, os prémios aumentaram entre
200% e 300%, um nível impossível de sustentar, a longo prazo. Efetivamente, antes
da crise, o seguro de risco de guerra, por navio que passasse pelo Golfo,
situava-se entre 0,02% e 0,05% do valor da embarcação. Porém, desde o início
das hostilidades, os prémios terão disparado para 0,5% a 1% do valor do navio,
ou mesmo mais. Assim, para um petroleiro avaliado em 120 milhões de dólares, o
prémio de cerca de 40 mil dólares passa a custar entre 600 mil e 1,2 milhões de
dólares, por viagem.
Os
efeitos em cadeia desta subida de preços far-se-ão sentir, dentro de poucas
semanas, nos postos de combustível, nos supermercados e nas faturas de gás. “Estas
pressões já fizeram subir as tarifas de frete dos petroleiros e, à medida que
esses custos se propagam aos insumos das refinarias e às cadeias logísticas,
acabam por chegar aos consumidores, sob a forma de preços de combustíveis mais
elevados”, observou Marco Forgione.
A
nível da reação das empresas, Laila Humairah releva que “alguns dos maiores
armadores mundiais, como a Maersk, a MSC, a CMA CGM e a Hapag-Lloyd,
suspenderam as viagens pelo Golfo, enquanto outros desviam cargas do estreito,
o que pode alongar os tempos de trânsito”. Ao mesmo tempo, muitas empresas
tiveram de incorporar o risco geopolítico no seu planeamento operacional. De
facto, o desvio de rotas tem limitações, devido à geografia do Golfo Pérsico, ficando
as empresas poucas alternativas.
Por
sua vez, Christopher Long, antigo oficial da Marinha britânica e diretor de
inteligência e risco da Neptune P2P Group, citado no artigo, explicou que “isso
implica uma monitorização mais apertada das informações sobre ameaças, a
reavaliação dos horários de trânsito e a garantia de que os navios atravessam
as zonas de maior risco com a devida consciência situacional”. E observou: “As
empresas estão, igualmente, a rever os planos de contingência, a preparação das
tripulações e os protocolos de comunicação, para que os navios possam responder,
de forma mais eficaz, se as condições de segurança se deteriorarem ainda mais.”
Segundo
Marco Forgione, do ponto de vista do comércio, “para as empresas, a mensagem é
clara: reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento deixou de ser
opcional para se tornar uma prioridade estratégica urgente”. Por outro lado, há
que, em seu entender, diversificar a cadeia de abastecimento, o que reduz a
dependência de um único parceiro e permite às empresas absorverem choques com
maior eficácia. “Quando surgem perturbações, as empresas com múltiplas fontes
de aprovisionamento estão mais bem protegidas, porque conseguem ajustar-se
rapidamente e manter a continuidade”, explicou Marco Forgione.
Christopher
Long considerou que “uma maior visibilidade e transparência, ao longo de toda a
cadeia de abastecimento, permite às empresas identificar fragilidades mais cedo
e corrigi-las antes de se agravarem”.
Com,
pelo menos, 16 navios atacados ou danificados, desde o início do conflito, os EUA
comprometeram-se a fornecer escoltas navais a navios e a petroleiros que
atravessem o estreito de Ormuz. E o presidente norte-americano apelou a países
fortemente dependentes dos produtos do Golfo, como a China, o Japão, a Coreia
do Sul, a França e o Reino Unido, para que enviem navios de guerra e garantam
passagem segura às embarcações.
No
entanto, Christopher Long sustenta que as escoltas e as patrulhas navais
oferecem importante camada de segurança, mas que as empresas devem continuar a
encarar esta via marítima como ambiente de alto risco, mesmo com forças de
segurança no terreno. Na verdade, o Irão tem reforçado a ameaça de manter o
estreito de Ormuz praticamente encerrado, avisando que os navios correm o risco
de serem atacados, se o atravessarem. Enfim, estamos perante uma prolongada campanha
de perturbação pode desestabilizar a economia global, com efeitos que poderão
demorar anos a inverter.
Uma
escalada significativa, com ataques a navios comerciais ou uma perturbação
prolongada do comércio marítimo, pode induzir resposta multilateral mais
robusta. “As ameaças a corredores marítimos críticos têm levado a destacamentos
navais coordenados, com o objetivo de restaurar a segurança e a liberdade de
navegação”, recordou Christopher Long.
É
certo que as perturbações em corredores marítimos não são novidade, mas,
se as hostilidades no estreito de Ormuz não abrandarem, e com as tarifas a
subir em todo o Mundo, segundo os economistas, haverá efeitos de arrastamento
alargados e prolongada incerteza.
Especialistas
em comércio vêm apelando a governos e a empresas para que reforcem os esforços de
fortalecimento da segurança económica, que é uma “necessidade estratégica, não
um luxo de política pública”. “Uma das formas mais eficazes de construir essa
resiliência passa por aprofundar e alargar os acordos comerciais com uma gama
diversificada de países e de regiões, ajudando as nações a manterem-se
competitivas num ambiente global cada vez mais protecionista”, concluiu Marco
Forgione, frisando que o acesso a novos mercados alargaria as oportunidades
para as empresas diversificarem as cadeias de abastecimento, pela criação de
fontes alternativas de fornecimento que as ajudassem a superar tempos de
turbulência.
***
Perante
a subida dos preços do petróleo, o presidente dos EUA, Donald Trump, pressiona os
aliados a protegerem o Estreito de Ormuz, mas os investidores reagem.
O
Brent chegou a um máximo de 106,5 dólares, por barril, enquanto o West Texas
Intermediate ou, simplesmente, WTI (petróleo
bruto de alta qualidade, leve e doce, isto é, de baixo teor de enxofre,
produzido nos EUA, principalmente, no Texas e no Oklahoma) atingiu 102,4
dólares, por barril. Esta evolução segue-se aos ataques dos EUA, a 13 de março,
à ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo do Irão, depois
do fecho dos mercados.
Embora
o ataque se tenha centrado na infraestrutura militar da ilha, o bombardeamento
deste terminal-chave é o mais recente de uma série de ações que vêm agravando a
instabilidade num estreito já muito pressionado.
Segundo
o JPMorgan, cerca de 90% das exportações de petróleo do Irão partem da ilha de
Kharg.
A
administração norte-americana mantém a opção de atacar infraestruturas
petrolíferas na região. Numa entrevista à CNN, a 15 de março, Mike
Waltz, embaixador dos EUA junto da Organização das Nações Unidas (ONU), afirmou
que o inquilino da Casa Branca “atingiu, deliberadamente, apenas a
infraestrutura militar, por agora”. E acrescentou: “Diria, certamente, que ele
quererá manter essa margem de manobra, caso decida atingir a infraestrutura
energética.”
No
dia 14, Donald Trump aumentou a pressão sobre aliados europeus e asiáticos para
que se juntem na escolta naval no estreito de Ormuz. Na rede social Truth
Social, apelou, em particular, à China, à França, ao Japão, à Coreia do
Sul, ao Reino Unido e a outros países, aduzindo que estas economias são mais
afetadas pela perturbação do que os EUA.
“Até
agora, não surgiram compromissos firmes, mas a Casa Branca prevê anunciar, já
esta semana, que vários países aceitaram participar na missão de escolta”,
disseram responsáveis norte-americanos ao “Wall Street Journal”.
Entretanto,
o Departamento de Energia dos EUA divulgou os detalhes da sua contribuição de
172 milhões de barris, para a maior libertação de reservas de emergência de
sempre, coordenada pela Agência Internacional da Energia (AIE), num total de
400 milhões de barris.
Ao
contrário de anteriores utilizações das reservas estratégicas, a administração norte-americana
apresentou o processo como “troca” e descreveu o petróleo como emprestado, a
devolver com barris adicionais, como prémio. Assim, sendo esta estrutura de
empréstimo diferente das anteriores, em que as reservas eram colocadas no
mercado, através de vendas diretas, a execução do plano da AIE fica mais
complexa e o seu efeito de alívio mais limitado.
O
Departamento de Energia especificou que a primeira libertação será de 86
milhões de barris, com propostas a apresentar até ao dia 17.
A
AIE precisou, no dia 15, que as reservas da Ásia e da Oceânia estarão
disponíveis, de imediato, enquanto os stocks da Europa e das Américas só
chegarão no final de março.
***
Os
27 ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia (UE) reuniram-se, em
Bruxelas, a 16 de março, para discutirem a possível extensão da missão naval ‘Aspides’
ao Estreito de Ormuz, ou seja, formas de o protegerem, enquanto o presidente
dos EUA exorta os aliados a ajudarem a abrir a via navegável ou enfrentarão um
futuro “muito mau”, no seio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).
Contudo, figuras-chave, como o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros,
Johann Wadephul, manifestaram ceticismo sobre a operação.
Kaja
Kallas, chefe da diplomacia da UE, disse que iria propor a alteração do mandato
da missão naval do bloco, à medida que aumenta a pressão sobre a Europa, para
ajudar a garantir o acesso ao Estreito de Ormuz e para evitar grandes
perturbações no abastecimento de petróleo. “Vamos discutir com os estados-membros
se é possível alterar, efetivamente, o mandato desta missão”, declarou aos
jornalistas, antes de uma reunião Bruxelas, vincando: “É do nosso interesse
manter o Estreito de Ormuz aberto.”
As
discussões centraram-se, especialmente, na operação ‘Aspides’ da UE, criada em
fevereiro de 2024, como operação defensiva, na sequência de repetidos ataques
dos Houthis, alinhados com o Irão, contra a navegação internacional. De
acordo com o Conselho, o seu mandato consiste em “proteger os navios”,
salvaguardar a liberdade de navegação e “monitorizar a situação marítima no
Estreito de Ormuz e nas águas circundantes, incluindo o Mar Vermelho, o Golfo
de Adem, o Mar Arábico, o Golfo de Omã e o Golfo Pérsico”. No entanto, os altos
funcionários dizem que o mandato pode ter de ser revisto, para lidar com uma
crise muito maior, ao longo do Estreito de Ormuz – que transporta cerca de um
quinto do petróleo mundial.
As
declarações de Kaja Kallas surgiram um dia depois de Donald Trump ter aumentado
a pressão sobre a Europa para que ajude a proteger o Estreito de Ormuz,
avisando que a NATO enfrentará um futuro “muito mau”, se os seus membros não
vierem em auxílio de Washington. No entanto, era pouco provável que qualquer
alteração ao mandato da missão ‘Aspides’ da UE obtivesse o apoio unânime dos
países europeus.
No
dia 15, Johann Wadephul disse que as conversações sobre o alargamento do
mandato da ‘Aspides’ estão a ser discutidas a nível europeu, mas excluiu a
participação alemã. E apelou aos EUA e a Israel para que clarifiquem os seus
objetivos no conflito com o Irão.
No
dia 16, o ministro luxemburguês dos Negócios Estrangeiros, Xavier Bettel, fazendo
eco de algumas das reservas da Alemanha, disse que a UE não está envolvida na
guerra.
Como
era de prever, a reunião concluiu que, “por agora, não há vontade em mudar o
mandato da operação ‘Aspides’”, segundo afirmou Kaja Kallas, em conferência de
imprensa.
Só
o presidente francês anunciou nova operação para o Estreito de Ormuz, para
devolver à região alguma “liberdade de navegação e segurança marítima”.
A
chefe da diplomacia da UE referiu que os ministros concordaram em reforçar a
missão, “porque não dispõe de muitos navios”, mas não expandiram o seu mandato
para o Estreito de Ormuz, optando por mantê-la no Mar Vermelho. Com efeito, “embora
o Estreito de Ormuz esteja no centro das atenções, o Mar Vermelho continua,
igualmente, a ser crucial”, observou.
No
entanto, reconheceu que é real o risco de os Houthis (rebeldes xiitas iemenitas)
se envolverem, pelo que é de manter a vigilância, pois é “uma prioridade
urgente” retomar a exportação de fertilizantes, de comida e de energia, através
do Estreito de Ormuz.
Questionada
sobre como conciliará o facto de os estados-membros não quererem expandir a
presença naval para o Estreito de Ormuz, mas defenderem a retoma das
exportações nesse eixo central do tráfego marítimo, respondeu que “ninguém quer
entrar, ativamente, nesta guerra” e que o envolvimento que a UE tenciona ter é,
sobretudo, diplomático, visto que “esta guerra não é da Europa” e os seus objetivos
políticos não são claros.
A
Alta Representante da UE frisou que o encerramento do Estreito de Ormuz, por
onde passa um quinto da produção mundial de gás e petróleo, tem consequências,
a nível energético, sobretudo, na Ásia, e a não exportação de fertilizantes
afeta a África, gerando fome em 2027.
Sobre
o facto de o Irão ter dito que só impede a passagem no Estreito de Ormuz aos
seus inimigos, Kaja Kallas referiu que há vários atores em jogo, como as
seguradoras e as tripulações, que podem recusar navegar no Estreito de Ormuz,
enquanto não houver garantias de segurança. Por isso, adverte que tem de haver
resultados concretos que mostrem que a passagem é pacífica. Não basta a avaliação
de “se somos os inimigos ou não somos inimigos”.
***
Em
suma, a UE, como expectadora, apoiante e cooperante (diplomática) na guerra,
não acautela a economia, nem os direitos dos povos e das pessoas, nem a não
ingerência na soberanias.
2026.03.16
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário