segunda-feira, 16 de março de 2026

Preços do petróleo sobem na terceira semana de guerra com o Irão

 

Numa altura em que a guerra no Irão entra na terceira semana e sem fim à vista, os preços do petróleo abriram em alta, devido à baixa de produção, nos países do Médio Oriente, por não haver garantia de exportação, em razão do boqueio do Estreito de Ormuz e do aumento brutal dos prémios de seguro cobrados pelas Companhias de Seguros.  

Em condições normais, pelo estreito corredor marítimo que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao resto do Mundo, passa cerca de 20% do comércio mundial de petróleo e 30% do fornecimento global de fertilizantes. Porém, nas últimas semanas, passou a campo de batalha central, estando o petróleo e o transporte marítimo na linha da frente da guerra económica.

Apesar da promessa dos Estados Unidos da América (EUA) de aliviarem, ali, o estrangulamento, centenas de navios e de petroleiros estão parados, de ambos os lados da via marítima, pois ataques com mísseis, ameaças de minas e operações navais reduziram, drasticamente, o tráfego marítimo, fizeram disparar os custos de seguros e puseram os mercados de energia em modo de crise. E os consumidores sentirão o impacto em poucas semanas.

Em artigo intitulado “Estreito de Ormuz torna-se via marítima mais cara após prémios de risco subirem 300%”, publicado pela Euronews, a 16 de março, a jornalista Laila Humairah considera que as ameaças de mísseis, os prémios de seguro em alta e as viagens suspensas “estão a transformar o comércio que passava por Ormuz”.

Depois, citando Marco Forgione, diretor do Chartered Institute of Export and International Trade, sediado no Reino Unido, refere: “O que, antes, era um ambiente sensível a perturbações transformou-se, agora, numa zona de operações persistentemente hostil, onde a viabilidade das viagens, a aceitação por parte das seguradoras e as condições táticas em tempo real são grandes condicionantes.”

O seguro de risco de guerra para navios que atravessam o estreito de Ormuz tem aumentado, dramaticamente, desde o início da guerra. Como diz Marco Forgione, embora a cobertura tenha sido brevemente suspensa, os prémios aumentaram entre 200% e 300%, um nível impossível de sustentar, a longo prazo. Efetivamente, antes da crise, o seguro de risco de guerra, por navio que passasse pelo Golfo, situava-se entre 0,02% e 0,05% do valor da embarcação. Porém, desde o início das hostilidades, os prémios terão disparado para 0,5% a 1% do valor do navio, ou mesmo mais. Assim, para um petroleiro avaliado em 120 milhões de dólares, o prémio de cerca de 40 mil dólares passa a custar entre 600 mil e 1,2 milhões de dólares, por viagem.

Os efeitos em cadeia desta subida de preços far-se-ão sentir, dentro de poucas semanas, nos postos de combustível, nos supermercados e nas faturas de gás. “Estas pressões já fizeram subir as tarifas de frete dos petroleiros e, à medida que esses custos se propagam aos insumos das refinarias e às cadeias logísticas, acabam por chegar aos consumidores, sob a forma de preços de combustíveis mais elevados”, observou Marco Forgione.

A nível da reação das empresas, Laila Humairah releva que “alguns dos maiores armadores mundiais, como a Maersk, a MSC, a CMA CGM e a Hapag-Lloyd, suspenderam as viagens pelo Golfo, enquanto outros desviam cargas do estreito, o que pode alongar os tempos de trânsito”. Ao mesmo tempo, muitas empresas tiveram de incorporar o risco geopolítico no seu planeamento operacional. De facto, o desvio de rotas tem limitações, devido à geografia do Golfo Pérsico, ficando as empresas poucas alternativas.

Por sua vez, Christopher Long, antigo oficial da Marinha britânica e diretor de inteligência e risco da Neptune P2P Group, citado no artigo, explicou que “isso implica uma monitorização mais apertada das informações sobre ameaças, a reavaliação dos horários de trânsito e a garantia de que os navios atravessam as zonas de maior risco com a devida consciência situacional”. E observou: “As empresas estão, igualmente, a rever os planos de contingência, a preparação das tripulações e os protocolos de comunicação, para que os navios possam responder, de forma mais eficaz, se as condições de segurança se deteriorarem ainda mais.”

Segundo Marco Forgione, do ponto de vista do comércio, “para as empresas, a mensagem é clara: reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento deixou de ser opcional para se tornar uma prioridade estratégica urgente”. Por outro lado, há que, em seu entender, diversificar a cadeia de abastecimento, o que reduz a dependência de um único parceiro e permite às empresas absorverem choques com maior eficácia. “Quando surgem perturbações, as empresas com múltiplas fontes de aprovisionamento estão mais bem protegidas, porque conseguem ajustar-se rapidamente e manter a continuidade”, explicou Marco Forgione.

Christopher Long considerou que “uma maior visibilidade e transparência, ao longo de toda a cadeia de abastecimento, permite às empresas identificar fragilidades mais cedo e corrigi-las antes de se agravarem”.

Com, pelo menos, 16 navios atacados ou danificados, desde o início do conflito, os EUA comprometeram-se a fornecer escoltas navais a navios e a petroleiros que atravessem o estreito de Ormuz. E o presidente norte-americano apelou a países fortemente dependentes dos produtos do Golfo, como a China, o Japão, a Coreia do Sul, a França e o Reino Unido, para que enviem navios de guerra e garantam passagem segura às embarcações.

No entanto, Christopher Long sustenta que as escoltas e as patrulhas navais oferecem importante camada de segurança, mas que as empresas devem continuar a encarar esta via marítima como ambiente de alto risco, mesmo com forças de segurança no terreno. Na verdade, o Irão tem reforçado a ameaça de manter o estreito de Ormuz praticamente encerrado, avisando que os navios correm o risco de serem atacados, se o atravessarem. Enfim, estamos perante uma prolongada campanha de perturbação pode desestabilizar a economia global, com efeitos que poderão demorar anos a inverter.

Uma escalada significativa, com ataques a navios comerciais ou uma perturbação prolongada do comércio marítimo, pode induzir resposta multilateral mais robusta. “As ameaças a corredores marítimos críticos têm levado a destacamentos navais coordenados, com o objetivo de restaurar a segurança e a liberdade de navegação”, recordou Christopher Long.

É certo que as perturbações em corredores marítimos não são novidade, mas, se as hostilidades no estreito de Ormuz não abrandarem, e com as tarifas a subir em todo o Mundo, segundo os economistas, haverá efeitos de arrastamento alargados e prolongada incerteza.

Especialistas em comércio vêm apelando a governos e a empresas para que reforcem os esforços de fortalecimento da segurança económica, que é uma “necessidade estratégica, não um luxo de política pública”. “Uma das formas mais eficazes de construir essa resiliência passa por aprofundar e alargar os acordos comerciais com uma gama diversificada de países e de regiões, ajudando as nações a manterem-se competitivas num ambiente global cada vez mais protecionista”, concluiu Marco Forgione, frisando que o acesso a novos mercados alargaria as oportunidades para as empresas diversificarem as cadeias de abastecimento, pela criação de fontes alternativas de fornecimento que as ajudassem a superar tempos de turbulência.

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Perante a subida dos preços do petróleo, o presidente dos EUA, Donald Trump, pressiona os aliados a protegerem o Estreito de Ormuz, mas os investidores reagem.

O Brent chegou a um máximo de 106,5 dólares, por barril, enquanto o West Texas Intermediate ou, simplesmente,  WTI (petróleo bruto de alta qualidade, leve e doce, isto é, de baixo teor de enxofre, produzido nos EUA, principalmente, no Texas e no Oklahoma) atingiu 102,4 dólares, por barril. Esta evolução segue-se aos ataques dos EUA, a 13 de março, à ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo do Irão, depois do fecho dos mercados.

Embora o ataque se tenha centrado na infraestrutura militar da ilha, o bombardeamento deste terminal-chave é o mais recente de uma série de ações que vêm agravando a instabilidade num estreito já muito pressionado.

Segundo o JPMorgan, cerca de 90% das exportações de petróleo do Irão partem da ilha de Kharg.

A administração norte-americana mantém a opção de atacar infraestruturas petrolíferas na região. Numa entrevista à CNN, a 15 de março, Mike Waltz, embaixador dos EUA junto da Organização das Nações Unidas (ONU), afirmou que o inquilino da Casa Branca “atingiu, deliberadamente, apenas a infraestrutura militar, por agora”. E acrescentou: “Diria, certamente, que ele quererá manter essa margem de manobra, caso decida atingir a infraestrutura energética.”

No dia 14, Donald Trump aumentou a pressão sobre aliados europeus e asiáticos para que se juntem na escolta naval no estreito de Ormuz. Na rede social Truth Social, apelou, em particular, à China, à França, ao Japão, à Coreia do Sul, ao Reino Unido e a outros países, aduzindo que estas economias são mais afetadas pela perturbação do que os EUA.

“Até agora, não surgiram compromissos firmes, mas a Casa Branca prevê anunciar, já esta semana, que vários países aceitaram participar na missão de escolta”, disseram responsáveis norte-americanos ao “Wall Street Journal”.

Entretanto, o Departamento de Energia dos EUA divulgou os detalhes da sua contribuição de 172 milhões de barris, para a maior libertação de reservas de emergência de sempre, coordenada pela Agência Internacional da Energia (AIE), num total de 400 milhões de barris.

Ao contrário de anteriores utilizações das reservas estratégicas, a administração norte-americana apresentou o processo como “troca” e descreveu o petróleo como emprestado, a devolver com barris adicionais, como prémio. Assim, sendo esta estrutura de empréstimo diferente das anteriores, em que as reservas eram colocadas no mercado, através de vendas diretas, a execução do plano da AIE fica mais complexa e o seu efeito de alívio mais limitado.

O Departamento de Energia especificou que a primeira libertação será de 86 milhões de barris, com propostas a apresentar até ao dia 17.

A AIE precisou, no dia 15, que as reservas da Ásia e da Oceânia estarão disponíveis, de imediato, enquanto os stocks da Europa e das Américas só chegarão no final de março.

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Os 27 ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia (UE) reuniram-se, em Bruxelas, a 16 de março, para discutirem a possível extensão da missão naval ‘Aspides’ ao Estreito de Ormuz, ou seja, formas de o protegerem, enquanto o presidente dos EUA exorta os aliados a ajudarem a abrir a via navegável ou enfrentarão um futuro “muito mau”, no seio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Contudo, figuras-chave, como o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, manifestaram ceticismo sobre a operação.

Kaja Kallas, chefe da diplomacia da UE, disse que iria propor a alteração do mandato da missão naval do bloco, à medida que aumenta a pressão sobre a Europa, para ajudar a garantir o acesso ao Estreito de Ormuz e para evitar grandes perturbações no abastecimento de petróleo. “Vamos discutir com os estados-membros se é possível alterar, efetivamente, o mandato desta missão”, declarou aos jornalistas, antes de uma reunião Bruxelas, vincando: “É do nosso interesse manter o Estreito de Ormuz aberto.”

As discussões centraram-se, especialmente, na operação ‘Aspides’ da UE, criada em fevereiro de 2024, como operação defensiva, na sequência de repetidos ataques dos Houthis, alinhados com o Irão, contra a navegação internacional. De acordo com o Conselho, o seu mandato consiste em “proteger os navios”, salvaguardar a liberdade de navegação e “monitorizar a situação marítima no Estreito de Ormuz e nas águas circundantes, incluindo o Mar Vermelho, o Golfo de Adem, o Mar Arábico, o Golfo de Omã e o Golfo Pérsico”. No entanto, os altos funcionários dizem que o mandato pode ter de ser revisto, para lidar com uma crise muito maior, ao longo do Estreito de Ormuz – que transporta cerca de um quinto do petróleo mundial.

As declarações de Kaja Kallas surgiram um dia depois de Donald Trump ter aumentado a pressão sobre a Europa para que ajude a proteger o Estreito de Ormuz, avisando que a NATO enfrentará um futuro “muito mau”, se os seus membros não vierem em auxílio de Washington. No entanto, era pouco provável que qualquer alteração ao mandato da missão ‘Aspides’ da UE obtivesse o apoio unânime dos países europeus.

No dia 15, Johann Wadephul disse que as conversações sobre o alargamento do mandato da ‘Aspides’ estão a ser discutidas a nível europeu, mas excluiu a participação alemã. E apelou aos EUA e a Israel para que clarifiquem os seus objetivos no conflito com o Irão.

No dia 16, o ministro luxemburguês dos Negócios Estrangeiros, Xavier Bettel, fazendo eco de algumas das reservas da Alemanha, disse que a UE não está envolvida na guerra.

Como era de prever, a reunião concluiu que, “por agora, não há vontade em mudar o mandato da operação ‘Aspides’”, segundo afirmou Kaja Kallas, em conferência de imprensa.

Só o presidente francês anunciou nova operação para o Estreito de Ormuz, para devolver à região alguma “liberdade de navegação e segurança marítima”.

A chefe da diplomacia da UE referiu que os ministros concordaram em reforçar a missão, “porque não dispõe de muitos navios”, mas não expandiram o seu mandato para o Estreito de Ormuz, optando por mantê-la no Mar Vermelho. Com efeito, “embora o Estreito de Ormuz esteja no centro das atenções, o Mar Vermelho continua, igualmente, a ser crucial”, observou.

No entanto, reconheceu que é real o risco de os Houthis (rebeldes xiitas iemenitas) se envolverem, pelo que é de manter a vigilância, pois é “uma prioridade urgente” retomar a exportação de fertilizantes, de comida e de energia, através do Estreito de Ormuz.

Questionada sobre como conciliará o facto de os estados-membros não quererem expandir a presença naval para o Estreito de Ormuz, mas defenderem a retoma das exportações nesse eixo central do tráfego marítimo, respondeu que “ninguém quer entrar, ativamente, nesta guerra” e que o envolvimento que a UE tenciona ter é, sobretudo, diplomático, visto que “esta guerra não é da Europa” e os seus objetivos políticos não são claros.

A Alta Representante da UE frisou que o encerramento do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto da produção mundial de gás e petróleo, tem consequências, a nível energético, sobretudo, na Ásia, e a não exportação de fertilizantes afeta a África, gerando fome em 2027.

Sobre o facto de o Irão ter dito que só impede a passagem no Estreito de Ormuz aos seus inimigos, Kaja Kallas referiu que há vários atores em jogo, como as seguradoras e as tripulações, que podem recusar navegar no Estreito de Ormuz, enquanto não houver garantias de segurança. Por isso, adverte que tem de haver resultados concretos que mostrem que a passagem é pacífica. Não basta a avaliação de “se somos os inimigos ou não somos inimigos”.

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Em suma, a UE, como expectadora, apoiante e cooperante (diplomática) na guerra, não acautela a economia, nem os direitos dos povos e das pessoas, nem a não ingerência na soberanias.

2026.03.16 – Louro de Carvalho


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