domingo, 15 de março de 2026

A IA pode chegar a decisões mais justas e imparciais do que as humanas?

 

Kristina Tikhonova, diretora-geral da Microsoft para a Europa do Sul (‘multi-country cluster’), participou no evento “Building the Future 2026” da Microsoft, que se realizou em Lisboa, nos dias 12 e 13 de março.

Em entrevista ao jornalista Ricardo Simões Ferreira, do Diário de Notícias (DN), publicada a 14 de março, analisou a viragem tecnológica do país e a estratégia para o transformar num “hub” digital de referência, vincando que “Portugal está a bater-se acima do seu peso” na inteligência artificial (IA) e, aludindo ao acordo ibérico para o digital, que avalia como “algo positivo”, observou que “o progresso não acontece em isolamento”.

Sublinha o jornalista que os dados do “Estudo de Impacto Económico e Social do Ecossistema Microsoft em Portugal”, da EY, “desenham o retrato de um país em plena aceleração”. Nestes termos, “o ecossistema da Microsoft gera, hoje, 7,3 mil milhões de euros para a economia nacional, um valor que deverá ascender aos nove mil milhões de euros, assim que o investimento em Sines – que arranca com a instalação de 12600 GPU [o GPU ou VPU, a unidade de processamento gráfico ou visual] – atingir a velocidade de cruzeiro. Com um retorno de 9,6 euros, por cada euro investido, e a sustentação de 35 mil postos de trabalho, Portugal afirma-se como um fast follower da tecnologia que está a revolucionar o Mundo, ao adotar IA a um ritmo superior à média mundial”, explicita Simões Ferreira, citando Kristina Tikhonova.

Da entrevista em apreço, selecionam-se os aspetos mais significativos.

Sobre o modo como a Microsoft, que sustenta 35 mil empregos, em Portugal,  garante a IA como capacitador dos trabalhadores e não como fator de exclusão, por falta de competências, a entrevistada defende que o impacto económico da IA, como tecnologia de uso geral, “virá da adoção e [da] difusão” da parte de pessoas e nações, não só dos inovadores. Assim, o Copilot [IA generativa da Microsoft integrada nos seus produtos e serviços] é a forma como se põe a IA no fluxo de trabalho, isto é, o “Work IQ” – uma interface de IA para cada pessoa, que representa “uma mudança de cultura”.

Do impulso a tal mudança, mormente, a nível das lideranças portuguesas, Kristina Tikhonova, diz que o valor da IA goza do reconhecimento geral. E, mudando “o foco da produtividade genérica para os KPI [Key Performance Indicators / indicadores-chave de desempenho] centrais do negócio – como receita, por vendedor, resolução de problemas à primeira ou ciclos de inovação – o valor torna-se evidente”. É, pois, “o momento de viragem para os líderes”.

Em relação ao que fazem as “Frontier Firms” de diferente, para lograrem o retorno de quase dez euros, por euro investido em soluções Microsoft, aponta a “distribuição de ROI [Return of Investment / retorno do investimento] muito variável”, de modo que, enquanto a média [global] é de 3,5 dólares, por cada dólar investido, em Portugal chega-se aos 9,6 dólares. E, como refere  a entrevistada, empresas com maior ROI têm padrões comuns: abandonaram os usos genéricos em prol de processos de negócio centrais e industriais; e “escalam a IA por, pelo menos, sete funções de negócio, desde o produto e inovação até ao serviço ao cliente”.

Considera que a IA generativa pode ser o “atalho” para a Europa do Sul fechar a lacuna histórica de produtividade. Com efeito, a Microsoft prevê, para a Europa, o “aumento líquido do PIB [produto interno bruto] de 2,5%. Para tanto, são necessários três pilares: “permissão social”, ou seja, confiança das pessoas “na segurança e [na] governação da tecnologia; “formação” (em Portugal, já se formaram 1,5 milhões de pessoas, mas precisa-se de “especialistas em cibersegurança e dados”); e os “dados”, “consistentes e preparados na nuvem”.

Questionada sobre se a infraestrutura e a nossa realidade estão preparadas para o salto, respondeu que “ainda há caminho a percorrer, mas há um bom impulso governamental”, sendo crucial “definir regras, como a política cloud-first em concursos públicos”. Assim, na sua ótica, “o governo deve servir de modelo, implementando a IA e definindo as normas para o mercado”. Contudo, Portugal é um “fast follower” (seguidor rápido), uma posição positiva. E, com a difusão de IA de 24,2%, supera a média mundial (16%).

Quanto à forma de convergência dos planos do “hub” de dados ibérico, acordados na Cimeira Ibérica no fim de semana anterior, com o investimento de 8,6 mil milhões de euros da Microsoft em Sines, a diretora-geral considera que “a IA define a competitividade nacional”; que o país “é um exportador líquido de TI [Tecnologias da Informação] e, ao juntar forças com Espanha”, se torna “ainda mais forte”; que Portugal tem os ingredientes ideais: “rede elétrica robusta, energia verde, conectividade submarina e talento”; e que, em seu entender, “está a bater-se acima do seu peso”. Assim, sustenta que o “investimento em Sines, que arranca com a instalação de 12600 GPU, vai amplificar este papel”. E conclui que “o progresso não acontece em isolamento”, mas na “colaboração”.

No atinente às estratégias de soberania digital da União Europeia (UE), sublinha a importância do equilíbrio o entendimento da soberania como “definição feita pelo cliente”. Nestes termos, a Microsoft oferece um “continuum” de soluções: “desde a nuvem pública com encriptação soberana até nuvens locais ou totalmente desligadas” e o cliente “decide o que é a soberania para si: privacidade de dados, cibersegurança ou inovação em ecossistema fechado”.

Confrontada com a questão se as regras europeias, como o AI Act, têm em conta este cenário, observa que isso está a moldar-se e explica: “O AI Act foca-se na regulação, mas a discussão sobre soberania continua ativa. O nosso papel é garantir que a soberania não signifique falta de escolha, oferecendo um leque completo de opções técnicas.”

Sobre as “Mulheres na Tecnologia” e se pode a IA mitigar o enviesamento que perpetua estereótipos de género, como revela um estudo recente, diz acreditar na possibilidade do uso da tecnologia “para chegar a decisões mais justas e imparciais do que as humanas”, pois o enviesamento não é “efeito secundário inevitável”, apenas reflete quem cria as soluções e os dados escolhidos.” Assim, com equipas e conjuntos de dados diversificados, mitiga-se o risco. “Temos princípios de diversidade ‘por design’ e ferramentas técnicas para verificar a segurança e imparcialidade das soluções. Investimos fortemente na formação de mulheres em IA porque acreditamos que podemos tornar o Mundo mais justo”, rematou.

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A Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA) e o seu modelo de governação foram aprovados pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, de 8 de janeiro, que surge  na sequência da aprovação da Estratégia Digital Nacional (EDN) pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 207/2024, de 30 de dezembro, que “estabeleceu a visão e os objetivos estratégicos para posicionar Portugal entre os países líderes em transformação digital na Europa, até 2030”.

A EDN definiu 16 iniciativas estruturantes, entre as quais ressalta a Iniciativa n.º 10, a Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA) – compromisso reforçado no Programa do XXV Governo Constitucional, para finalizar e implementar a ANIA.

A ANIA, que mais não é do que pôr a IA ao serviço da sociedade e da competitividade de Portugal,

enquadra-se na Ação #20 do Plano de Ação 2026-27 da EDN, assumindo-se como o principal instrumento para operacionalizar a ambição nacional em IA. E visa alavancar a IA, de forma ética e responsável, para aproximar o país da vanguarda da competitividade e da produtividade europeias, garantindo que este avanço tem impacto positivo na sociedade e em valor público – melhores salários, melhores serviços públicos e maior qualidade de vida.

No portal do governo, lê-se que a ANIA “é operacionalizada através de 32 iniciativas, envolvendo políticas públicas, ao longo de todo o ecossistema – universidades, centros de investigação, empresas (incluindo startups) e Administração Pública [AP]”.

A nível de infraestrutura e de dados, visa garantir que o país “desenvolve capacidade computacional estratégica e uma economia de dados robusta, reduzindo a dependência externa”.

Na  inovação e na adoção, há que “proteger a investigação fundamental de IA e acelerar a adoção de IA, em toda a economia”, particularmente, na AP e nas pequenas e médias empresas (PME).

No âmbito do talento e das competências, importa “garantir que Portugal forma, atrai, mobiliza e retém talento à escala necessária para sustentar a competitividade do país”.

Por fim, em termos de responsabilidade e de ética, pretende-se “promover o ecossistema de investigação e de desenvolvimento de IA responsável e um regime regulatório eficaz e eficiente, que protege os cidadãos e permite a inovação das empresas”.

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A 8 de janeiro, o Expresso online publicou um artigo das jornalistas Juliana Simões e Elisabete Miranda intitulado “Governo lança Agenda Nacional de IA: ‘Acredito que teremos grandes ganhos de produtividade”, diz Gonçalo Matias’, em que explicam o alcance da ANIA.

Referem que ação é para desenvolver entre 2026 e 2030 e que a sua agenda “prevê um investimento de 400 milhões, através de fundos europeus e, combinada com a agenda digital e [com] o plano para as competências digitais, permitirá injetar na economia cerca de mil milhões de euros, nos próximos anos”, de forma que Gonçalo Matias, ministro de Estado e da Reforma do Estado, confia que estas medidas, conjugadas com outras políticas públicas, permitirão colocar “Portugal no mapa dos países relevantes na inteligência artificial” e aumentar a produtividade da economia portuguesa.

Uma das prioridades do plano de ação é o aumento da capacidade computacional do país, num contexto em que a procura por computação cresce, “a um ritmo sem precedentes, na ordem dos 41%, ao ano, para Portugal, e 21%, para a Europa”. No entanto, Portugal “enfrenta limitações na sua infraestrutura tecnológica e na capacidade de gerir e utilizar dados em escala”.

Para garantir que o país consegue desenvolver e aplicar sistemas avançados de IA sem depender excessivamente do exterior, o plano prevê o reforço do Deucalion, o supercomputador nacional de alto desempenho, com início no segundo semestre de 2025, de modo a “suportar o treino de modelos avançados de IA e projetos de investigação de grande escala”. Em paralelo, o governo vinca a intenção de atrair e de instalar uma gigafactory de IA, em Portugal, decisão que depende da candidatura a um projeto da Comissão Europeia

Outra prioridade é garantir que as empresas saltam para o comboio da IA, e não ficam para trás.

De facto, a adoção de IA no tecido empresarial é ainda reduzida, sobretudo, entre as PME: Só 9,4% das pequenas empresas utilizam IA, contra 18,2% das médias e 49,1% das grandes”, apesar de as PME representarem “67% do valor acrescentado e 76% do emprego”.

O plano contempla o financiamento de centros de IA organizados por setor, que juntam universidades, empresas e entidades públicas para desenvolver soluções concretas de IA, e a criação da plataforma PME.IA.

Com a procura por profissionais de IA a crescer mais de 20%, ao ano, uma das propostas do governo é a criação de um AI Fast Track – regime acelerado de vistos destinado a investigadores e a profissionais altamente qualificados em áreas de IA.

A estratégia inclui a expansão e o reconhecimento de microcredenciais e de cursos técnicos superiores profissionais orientados para carreiras em IA, a partir do primeiro semestre de 2026, criando percursos curtos e profissionalizantes. A estes instrumentos junta-se a expansão da iniciativa goPortugal, com parcerias internacionais destinadas a promover transferência de conhecimento e apoiar spin-offs deeptech (novas empresas criadas a partir de investigação científica ou tecnológica avançada) ligadas à IA.

Outro foco é o da AP. Gonçalo Matias lembra que “o excesso de burocracia, a lentidão dos processos e a lentidão da decisão têm afastado muito investimento”, e a IA é vista como um grande aliado neste processo, podendo gerar um ganho de produtividade de 1,2 mil milhões de euros, numa década. Assim, neste domínio, o plano prevê  a criação de um centro de excelência em IA na AP, com início previsto no primeiro semestre de 2026, e o lançamento de concursos nacionais de IA para a AP, também a partir do primeiro semestre de 2026.

Os estudos do governo indicam que a IA pode ter um impacto, na próxima década, entre 18 e 22 mil milhões no PIB, equivalente a 2,7% de contributo para o crescimento económico.

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Em suma, a IA atravessa, em Portugal, um momento de aceleração estratégica. Os seus pilares são: os serviços públicos, em que urge implementar IA na AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) e outros serviços, para automatizar tarefas e para acelerar processos de vistos e de nacionalidade; a infraestrutura, pela expansão da supercomputação nacional, reforçando o supercomputador Deucalion, para suportar o treino de modelos avançados de IA; e o apoio à formação, ressaltando a criação do programa ‘Cheque Formação + Digital’, que pode pagar até 750 euros a trabalhadores para cursos na área da IA. 

É de ter em conta o impacto nas empresas e na economia. Já cerca de 41% das empresas portuguesas utilizam IA nas suas operações; estima-se que a adoção plena da IA impulsione a economia nacional em 61 mil milhões de euros; a IA já está a ser usada, para reduzir desperdícios e para colmatar a falta de talento especializado, embora o país ainda enfrente o desafio de escalar estas soluções para todas as PME; e Portugal participa numa das primeiras “fábricas de IA” da Europa, visando atrair investimento tecnológico. 

A nível da promoção da literacia e IA na sociedade, é de considerar que, em 2025, os Portugueses superaram a média da UE, na utilização de ferramentas de IA generativa; que Portugal lidera, na Europa, no atinente à aprovação dos trabalhadores, com 90% a verem a tecnologia de forma positiva; e que o Banco de Portugal (BdP) lançou a ALYA, uma plataforma própria de IA para melhorar o serviço ao cidadão. 

Porém, apesar do entusiasmo, relatórios recentes alertam para o risco de Portugal “perder a vaga” se não acelerar a integração da IA em setores tradicionais, se não resolver a escassez de infraestruturas de grande escala (como gigafábricas de IA) e se não conseguir persuadir a Comissão europeia para a aprovação das candidaturas a projetos que dependam de Bruxelas. 

Será, desta vez, que a  AP se libertará da burocracia e da ineficiência, a economia crescerá quanto deve e a produtividade e a competitividade marcarão o país? Veremos.

Todavia, não é crível que as decisões de IA sejam mais justas e imparciais do que as dos humanos, pois as máquinas podem ter inteligência, mas não têm consciência (nem sentem) e são mais passíveis do reflexo condicionado. E será mau, se a IA provocar a dispensa do fator humano.  

2026.03.14 – Louro de Carvalho

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