sexta-feira, 27 de março de 2026

Presidente de operadora elétrica espanhola em causa, devido ao apagão

 

A 25 de março, Beatriz Corredor, presidente da empresa Redeia, ou seja, da antiga Red Eléctrica de Espanha, compareceu perante a comissão do Senado que investiga o “apagão elétrico” de 28 de abril de 2025 e negou qualquer responsabilidade, apesar das gravações que revelam alertas prévios sobre a instabilidade da rede. Porém, a sua comparência nessa comissão ficou marcada pela tardia divulgação de gravações internas que apontam problemas de instabilidade na rede, dias antes do colapso elétrico.

As gravações, ouvidas pelos senadores, após meses de requisições, reportam a conversas entre operadores em que são mencionadas expressões, como “pouca inércia no sistema” ou “a situação está complicada”, em referência a oscilações atribuídas à geração solar.

A gestora, minimizando a importância de tais registos, defendeu, visivelmente tensa, que “não há qualquer responsabilidade por parte da Red Eléctrica”. Para tal asserção, baseou-se em relatórios oficiais, incluindo o de peritos europeus da pela Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E), que sustentam que o apagão foi um fenómeno “multifatorial, inédito e imprevisível”. Além disso, negou ter ocultado informações e garantiu que a empresa agiu com “transparência” perante as empresas energéticas.

Na sessão do dia 25, o senador do Partido Popular Miguel Ángel Castellón, na bancada da oposição, acusou a Red Eléctrica de ter recusado, durante meses, fornecer ao Senado as comunicações completas anteriores ao apagão. Com efeito, de acordo com fontes parlamentares, as gravações revelam que, já em fevereiro, em março e em abril de 2025, os técnicos estavam preocupados com diversas variações de tensão.

Por sua vez, a ex-ministra da Habitação e da Agenda Urbana, na sua intervenção mais recente, identificou uma oscilação registada às 12h03, numa central fotovoltaica de Badajoz, como a “primeira peça do dominó” que levou ao “apagão elétrico”, que abrangeu (ainda que não em exclusivo) a Península Ibérica, embora tenha insistido que os acontecimentos anteriores “não são relevantes”, do ponto de vista técnico.

Após nove meses de trabalho, com um cenário ainda em aberto, a comissão, que ouviu as gravações, a título confidencial e sem possibilidade de conservar cópias, conclui o seguinte: enquanto a Redeia nega qualquer falha própria, os áudios reacenderam as dúvidas sobre se o sistema já dava sinais claros de fragilidade antes do apagão histórico.Parte superior do formulário

Efetivamente, gravações de áudio apresentadas à comissão de inquérito do Senado revelam que o sistema elétrico espanhol registou falhas significativas e oscilações, até 12 dias antes do apagão ibérico de 28 de abril de 2025, que deixou a Espanha e Portugal às escuras, durante horas, reabrindo o debate sobre se este incidente podia ter sido evitado.

Os áudios, divulgados pelos meios de comunicação espanhóis, no dia 23 deste mês, registam as comunicações entre as companhias de eletricidade e a Red Eléctrica, em que estas alertam para oscilações e anomalias na rede, até 12 dias antes do colapso. De acordo com estas conversas, as empresas detetaram alterações relevantes no funcionamento do sistema e transmitiram a sua preocupação ao operador nacional. Numa das chamadas, feita apenas dois dias antes do apagão, um técnico alertou para “muitas oscilações”, ao que o centro de controlo respondeu que o problema estava relacionado com a produção fotovoltaica.

As gravações sugerem que tais incidentes não foram pontuais, mas que se repetiram, ao longo de vários dias, indicando uma situação de instabilidade anterior ao incidente. Ora, estas gravações fazem parte da documentação analisada pelos senadores que investigam as causas do apagão, considerado uma das maiores falhas de energia jamais registadas na Península Ibérica, e constituem novo material que reforça a hipótese de que o sistema apresentava sinais de stresse, antes do colapso total, em linha com relatórios recentes que apontam para a combinação de fatores técnicos e operacionais, reabrindo o debate sobre se o apagão era evitável.

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O painel de 49 peritos criado após o apagão conclui que o colapso foi o resultado de várias falhas técnicas simultâneas e não de uma causa única. O 28 de abril de 2025 foi dia normal de primavera: temperaturas amenas, sol abundante e produção fotovoltaica a níveis normais para aquela altura do ano. Nada nos dados da manhã antecipava o que sucederia horas mais tarde, mas foram necessárias 12 horas para a recuperação da rede, em Portugal, e 16 horas, na Espanha.

A partir das 9h00, a produção renovável crescia e Espanha exportava cinco gigawatts para os vizinhos e os preços do mercado diário tinham descido. Às 12h33 (hora europeia), a rede entrou em colapso. E o que, entretanto, aconteceu é o que um painel de 49 peritos convocados pela ENTSO-E, o organismo que reúne os operadores de rede europeus, tem vindo a investigar, há meses. O seu relatório final, publicado a 20 de março deste ano, é o documento técnico mais completo alguma vez produzido sobre o incidente. Com mais de 400 páginas, reúne dados de dezenas de produtores, de distribuidores e de operadores e chega a conclusão que não admite simplificações: o apagão não teve uma causa única, mas foi a soma de várias falhas que se retroalimentaram, em menos de 90 segundos.

Na manhã de 28 de abril, a tensão na rede de 400 quilowatts começou a apresentar variações, a partir das 10h30. Não eram alarmantes, mas o sistema já se encontrava em situação delicada, havia horas. Os operadores detetaram dois episódios de oscilações no meio período que antecedeu o colapso: um às 12h03, de caráter local e conexo com a instabilidade de alguns geradores de tecnologia inverter; e o segundo entre as 12h19 e as 12h22, uma oscilação de área que afetou toda a rede continental europeia. Para amortecer estas oscilações, os operadores tomaram várias decisões, reduzindo as exportações para a França, religando linhas internas no Sul, alterando o funcionamento da ligação de corrente contínua entre a Espanha e a França, que, embora eficaz na estabilização das frequências, contribuiu para elevar a tensão na Península Ibérica.

Às 12h32, a rede parecia estabilizada. Não se registaram oscilações relevantes. A tensão era inferior a 420 quilowatts. Porém, tudo se desmoronou, 45 segundos mais tarde.

O relatório reconstitui o colapso com a precisão de milissegundos. Às 12h32, a tensão a subia em vários nós da rede elétrica espanhola e a produção das grandes instalações de energias renováveis, com capacidade superior a cinco megawatts, diminuiu cerca de 500 megawatts, em menos de um minuto. Esta redução da potência ativa, em centrais que funcionam com fator de potência fixo, arrastou para baixo a potência reativa que estes geradores absorviam da rede. Por isso a tensão subiu ainda mais.

Às 12h32m57, um transformador de uma subestação na zona de Granada, que alimentava a rede com 355 megawatts, disparou a sua proteção contra a sobretensão. A sua suspensão foi o gatilho visível para a cascata, embora o relatório deixe claro que o sistema já estava no seu limite antes disso. O que se seguiu aconteceu em segundos. Às 12h33m16, duas subestações da zona de Badajoz perderam 727 megawatts de energia fotovoltaica e solar térmica. Às 12h33m17, outros 928 megawatts caíram em Segóvia, em Huelva, em Sevilha e em Cáceres. No total, mais de 2,5 gigawatts desapareceram da rede, em menos de dois minutos. As proteções de defesa do sistema foram ativadas, mas não pararam a cascata.

Às 12h33m19, a rede ibérica perdeu o sincronismo com o sistema continental europeu. Às 12h33m21, as linhas de alta tensão entre a França e a Espanha foram automaticamente desligadas por dispositivos de proteção, evitando que o problema se propagasse ao resto da Europa. Às 12h33m23, as últimas ligações de corrente contínua foram também cortadas. O sistema elétrico na Espanha e em Portugal entrou em colapso total. A França foi marginalmente afetada: cerca de sete megawatts de perda de carga e uma central nuclear que disparou as suas salvaguardas. E o resto da Europa não registou perturbações significativas.

O painel de peritos identificou vários fatores que, em conjunto, tornaram possível o colapso. Nenhum deles, por si só, teria sido suficiente para o provocar.

O primeiro tem a ver com a forma como as energias renováveis funcionavam. As instalações de energia solar e eólica funcionavam com fator de potência fixo, não respondendo às variações de tensão na rede. Assim, quando a tensão subia, estes geradores não absorveram potência reativa adicional para a compensar; ao invés, a redução da sua potência ativa reduziu a sua absorção de potência reativa, agravando o problema.

O segundo fator afeta as centrais elétricas convencionais. Vários grandes geradores síncronos, que dispõem de capacidade de controlo dinâmico da tensão, não respeitavam os valores de referência de potência reativa fixados pelo procedimento de exploração aplicável em Espanha. Assim, mais de 25% das amostras horárias estavam abaixo do limiar exigido. O atual quadro regulamentar não define consequências financeiras para este incumprimento.

A terceiro fator diz respeito aos reatores de derivação, elementos que absorvem a potência reativa da rede para baixar a tensão. Na Espanha, a sua ligação e suspensão são feitos manualmente, o que requer tempo de decisão e execução. Na manhã de 28 de abril, vários reatores tinham sido previamente desligados para compensar as baixas tensões, durante os episódios de oscilação. Quando a tensão começou a subir rapidamente, eles não estavam disponíveis com a rapidez necessária.

O quarto fator é estrutural: a rede espanhola de 400 kV funciona com uma gama de tensões permitida mais ampla do que no resto da Europa. Assim, a margem entre a tensão máxima de funcionamento e o limiar a partir do qual os geradores se podem desligar é muito pequena ou, nalguns casos, inexistente. Quando a tensão excedia determinados níveis, as proteções contra sobretensão de muitas instalações, algumas com limiares inferiores aos requisitos regulamentares, começavam a disparar numa reação em cadeia.

O painel constatou que a conceção das redes locais de produção, que agrupam várias instalações atrás de um único ponto de ligação à rede de transporte, não estava adaptada às necessidades do sistema, o que contribuiu para algumas das instalações se desligarem, mesmo quando a tensão no ponto de ligação estava no intervalo permitido. Porém, a recuperação começou logo após o colapso. Os operadores de rede na Espanha (Red Eléctrica), em Portugal (REN) e na França (RTE) ativaram os planos de restabelecimento. Portugal recuperou o abastecimento às 00:22 de 29 (passadas 12 horas). A Espanha fê-lo 16 horas mais tarde às 4h00. O processo baseou-se nas interconexões com França e com Marrocos e no arranque de algumas centrais elétricas.

O relatório classifica o incidente como de nível 3 na escala ICS, o máximo previsto no regulamento europeu, e formula um conjunto de 23 recomendações dirigidas aos gestores da rede, aos reguladores e aos fabricantes de equipamentos, entre as quais se contam: rever os requisitos do fornecimento de energia reativa, por parte das energias renováveis; estabelecer critérios de comportamento dinâmico para todos os geradores; automatizar o controlo dos reatores shunt; rever os limiares de desconexão, por sobretensão para todas as instalações; avaliar se a gama específica de funcionamento da tensão da rede espanhola é compatível com maior penetração das energias renováveis.

O painel sublinha que o sistema de defesa funcionou bem em termos de isolamento do problema: as linhas entre a Espanha e a França foram desligadas a tempo e o apagão não se propagou ao continente. Porém, salienta que o mesmo sistema de defesa não foi capaz de interromper a cascata interna, quando esta começou. O relatório não o diz nestes termos, mas a leitura é clara: a rede foi concebida para combinação de energias diferente da que tinha nesse dia.

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De acordo com o portal do governo português, o relatório técnico do apagão elétrico, elaborado pela ENTSO-E e validado pela Agência de Cooperação dos Reguladores da Energia (ACER), conclui que a sua origem esteve em Espanha, afastando responsabilidades das autoridades portuguesas e abrindo nova fase de avaliação de eventuais compensações pelo regulador nacional. E a Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, que apresentou as conclusões, em Portugal, sustenta que o incidente resultou de múltiplos fatores técnicos, sem atribuição de responsabilidades legais, remetendo tal avaliação para as autoridades nacionais.

Segundo a governante, das 23 recomendações dos peritos, “90% […] já estão implementadas ou previstas no caso nacional”, nomeadamente, ao nível do controlo de tensão, [da] partilha de dados e [do] reforço da resiliência do sistema”, destacando-se, entre as principais orientações, “o reforço do controlo de tensão e da coordenação entre [a] produção, [a] distribuição e [o] transporte de eletricidade. “Este relatório confirma que as autoridades portuguesas não são responsáveis nem causadoras do apagão”, afirmou Maria da Graça Carvalho, vincando que, do ponto de vista técnico, “todas [as causas] estão fora de Portugal”.

A análise identifica uma sucessão de falhas técnicas iniciadas em território espanhol, com episódios em Granada, em Badajoz e em Sevilha, associados a controlo de tensão insuficiente. A propagação da falha ao sistema português ocorreu em menos de 90 segundos, num colapso que deixou a Península Ibérica sem eletricidade, durante várias horas. E o relatório reconhece a complexidade do evento e a inexistência de uma causa única, apontando desafios estruturais ao nível do controlo de tensão, da coordenação entre sistemas e da autonomia de infraestruturas críticas, como as telecomunicações.

Perante estas conclusões, o governo remete para a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) a avaliação das consequências e a definição do enquadramento legal para eventuais compensações, frisando que a natureza excecional do evento pode limitar indemnizações. “Agora é o momento de o regulador nacional fazer a sua avaliação e indicar o caminho a seguir, em relação às compensações”, acrescentou a Ministra do Ambiente e Energia.

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O evento sem precedentes, resultou da combinação de fatores conexos entre si, como “oscilações, lacunas no controlo de tensão e de potência reativa, diferenças nas práticas de regulação de tensão, reduções rápidas de produção e desligamentos de geradores na Espanha, bem como capacidades de estabilização desiguais”. Em conjunto, tais fatores provocaram aumentos rápidos da tensão e falhas em cascata, que culminaram no apagão.

Houve queda na produção de energia renovável, na Espanha, com vários geradores a reduzirem a potência e a desligarem-se automaticamente, numa sequência que provocou a perda de sincronismo entre a rede elétrica da Península Ibérica e a da Europa. E, antes do colapso total, os dois países entraram, temporariamente, em funcionamento isolado, o “modo ilha”. Por isso, A ENTSO-E recomenda o reforço das práticas operacionais, a melhoria da monitorização do comportamento do sistema e a coordenação mais  estreita, com troca de dados.

2026.03.26 – Louro de Carvalho

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