sexta-feira, 20 de março de 2026

Ormuz, centro atual de atenção geral, já esteve sobre controlo português

 

Nos últimos tempos, Ormuz tem feito manchetes, mercê do bloqueio ao estreito feito pelo Irão, que está a causar fortes disrupções no transporte de bens energéticos e de outros produtos. Assim, o tráfego comercial de e para a região está parcialmente interrompido, com consequências que podem ser, a longo prazo, devastadoras para a economia mundial.

***

Em artigo intitulado “Ormuz: a ilha de ‘importância estratégica’ que foi controlada pelo Império Português”, publicado pela Euronews, a 20 de março, a jornalista Ema Gil Pires lembra que “a presença portuguesa em Ormuz estendeu-se por mais de um século, no âmbito da expansão do império pela Ásia”, e recolhe as declarações à Euronews do historiador Rui Manuel Loureiro – especialista do ISMAT - Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, em Portimão – sobre  os interesses nacionais de então, na região do Golfo Pérsico.

O Estreito de Ormuz é uma passagem estreita por onde passa cerca de um quinto da produção mundial de petróleo, sendo, também por isso, considerada uma das principais rotas marítimas, a nível global, de expressiva importância económica e geostratégica. Já era estrategicamente relevante, há cerca de 500 anos, quando a ilha com o mesmo nome, localizada nesse estreito, que está sob dependência do Irão e que fica à entrada do Golfo Pérsico, foi controlada por Portugal. A sua posição estratégica mostra como o domínio de uma das vias marítimas globais tem impacto significativo nas dinâmicas de poder entre as nações, em várias épocas da História.

Para Rui Manuel Loureiro, com obra sobre a presença portuguesa em Ormuz, nos séculos XVI e XVII, “controlar Ormuz foi uma das ideias desenvolvidas pela coroa portuguesa, nessa época, para tentar controlar uma parte do comércio internacional no Oceano Índico”.

Numa perspetiva histórica, segundo o investigador, a importância estratégica de Ormuz continua a ser a mesma que era no século XVI, quando os navegadores portugueses chegaram ao Golfo Pérsico, sob comando de Afonso de Albuquerque – o nome que ficou para a História pela conquista de Ormuz, nos tempos do rei Dom Manuel I, “a figura que dirigiu todo o projeto expansionista [de Portugal] até 1521”. Todavia, na ótica do investigador, a presença portuguesa em Ormuz iniciou-se em 1507, tendo-se estendido até 1622. Foi em 1507 que Albuquerque – governador da Índia entre 1509 e 1515, ano da sua morte – liderou a primeira investida à ilha, mas, só em 1515, efetuou a conquista e a ocupação do “Reino de Ormuz”.

Tratava-se de “uma entidade autónoma da Pérsia”, que “possuía pequenos entrepostos territoriais dos dois lados do Golfo”. Então, afirmou o historiador, “os Portugueses apropriaram-se desse reino [...] e Ormuz tornou-se uma espécie de protetorado da coroa portuguesa”. No entanto,  o rei local manteve-se “em funções”, mas sem “poder formal”. Assim, durante mais de 100 anos, os Portugueses controlaram uma fortaleza na Ilha de Ormuz, da qual restam vestígios e que “era a maior fortaleza europeia no continente asiático”, como refere o especialista.

Um território, que – recorda a jornalista – tem sido alvo de intensa mediatização, desde o início da operação militar dos Estados Unidos da América (EUA) e de Israel contra o Irão, é uma ilha deserta, onde “tudo o que é consumido tem de vir do continente”. Porém, a sua importância ia e vai muito além do que pode ser encontrado no local. “Era um local estratégico do ponto de vista comercial, como ainda é hoje. Todo o comércio dos países do Golfo Pérsico com a Índia e com a costa africana passava pelo Estreito de Ormuz”, refere Ema Gil Pires.

O historiador contou que, a partir de Ormuz, o Império Português “controlava e impunha taxas e impostos sobre todo o tipo de comércio que por ali passava”, conferindo à ilha papel central em “parte significativa deste movimento mercantil”, que abrangia “cavalos de origem persa e árabe, que eram transportados para a Índia”, tapetes e especiarias. Os interesses portugueses estavam ligados a este tráfego de mercadorias de luxo que circulavam na região, entre o Golfo Pérsico e a Índia, entre o Golfo Pérsico e África, em ambos os sentidos.

O controlo do Império Português sobre Ormuz deu-se na sequência da chegada dos Portugueses à Índia, em 1498, com a expedição de Vasco da Gama, os quais depressa compreenderam que o envolvimento no comércio local seria mais interessante do que a Carreira da Índia, ou seja, a rota marítima que ligava Portugal e a Ásia pela Rota do Cabo, que passava ao largo do Cabo da Boa Esperança, no Sul do continente africano.

Segundo o historiador, um navio ido Lisboa à Índia, a Goa ou a Cochim (as duas cidades culturais mais importantes onde os Portugueses tinham presença) demorava seis meses para cada lado, o que implicava avultado investimento em navios, em tripulações, em armamento, em alimentação. Em contraponto, o mesmo tipo de lucro que fazia uma armada da Carreira da Índia podia ser obtido numa viagem entre Goa e Macau ou entre Goa e Ormuz, de duração mais reduzida. Daí, a grande aposta na ilha, no seu estreito e na região. O tráfego local era mais lucrativo e exigia menor investimento e menor força militar e naval do que a Carreira da Índia. Por isso, os Portugueses espalharam-se por todo o Oceano Índico, de Moçambique ao Japão e estabeleceram feitorias e entrepostos.

“Os Portugueses conseguiram manter a presença na ilha de Ormuz, porque a Pérsia, o atual Irão, que, nessa altura, já era grande potência, estava, sobretudo, virada para o interior”, explicou Rui Manuel Loureiro, vincando que o Irão era um grande estado continental empenhado em campanhas militares contra os Otomanos, a Ocidente, e contra os Uzbeques, a Oriente. Além disso, um acordo entre Portugueses e Persas possibilitou que Lisboa mantivesse o domínio de Ormuz, durante quase um século – acordo cuja vigência se manteve, “quando Portugal ficou sob domínio espanhol, a partir de 1580”, na sequência da crise de sucessão.

Nessa altura, o Império tentou obter a aliança dos Persas contra o Império Otomano, fortalecendo  as relações diplomáticas entre as duas partes e destacando embaixadas. Assim, a ideia dos soberanos europeus era, no âmbito das lutas que tinham no Mediterrâneo com os Otomanos, encontrarem um aliado do outro lado da região. Todavia, a manutenção de Ormuz pelos Portugueses foi conseguida também com o “pagamento de taxas” às autoridades persas e pela “superioridade marítima dos Portugueses, nesse período, acrescentou o historiador, para quem foi devido a essa maior capacidade “militar e náutica” que o Império logrou “manter o domínio dos mares, nomeadamente, do Golfo Pérsico, do Golfo de Omã, do Mar da Arábia, etc., e ter papel importante em todo este comércio internacional”.

Só em finais do século XVI, a Pérsia, que havia já “mais ou menos consolidado a sua extensão política” e tinha o islamismo xiita como religião oficial, voltou a atenção para o Golfo Pérsico. E foi então que, segundo o especialista, esse Império, sob o comando do xá Abbas I, começou a conquistar os entrepostos que eram dominados ou influenciados pelos Portugueses. Contudo, a perda de Ormuz propriamente dita ocorreu, graças à “aliança entre os Persas e os Ingleses”, cuja superioridade militar e náutica desinstalou os Portugueses de Ormuz, em 1622. Mas importa notar, como recorda o historiador, que, após as tropas do Império Português terem saído do território, “a ilha perdeu a sua importância”.

Por fim, Rui Manuel Loureiro concluiu, dizendo que foi a partir do momento em que chegaram outras potências europeias aos mares asiáticos, sobretudo, a Inglaterra e os Países Baixos, que os Portugueses começaram a sofrer embates de potências que eram equiparáveis e, por vezes, superiores em organização náutica e militar e, obviamente, perderam posições.

***

Também, a BBC News Brasil  publicou, a 17 de março, um artigo intitulado “O passado português do estreito de Ormuz, no centro das atenções pela guerra no Irão”, de Edison Veiga, o qual, citando o historiador João de Barros (1496-1570) descreve Ormuz como cidade situada “quase na garganta de estreito do mar da Pérsia”, anotando  que a ilha era “toda muito estéril e, em grande parte, uma mina de sal e enxofre, sem que, naturalmente, nela cresça um ramo ou uma erva verde”.

“A cidade, em si, é muito magnífica em seus edifícios e próspera no comércio, pois é uma escala aonde chegam todas as mercadorias orientais e ocidentais. […] Dessa forma, embora a ilha não produza nada, por si mesma, por meio do comércio possui todas as coisas estimadas do Mundo”, observou João de Barros, segundo o qual, pela prosperidade local, os moradores diziam que “o Mundo é um anel e Ormuz uma pedra preciosa engastada nele”.

Referindo que o estreito de Ormuz já foi parte do extenso portfólio das conquistas portuguesas de há cinco séculos, que incluíram o território que se tornou o Brasil, o jornalista frisou que a presença portuguesa em Ormuz foi menos duradoura do que no continente americano. Ali o interesse era muito mais estratégico. Os Portugueses estabeleceram uma fortaleza e usavam a cidade localizada na ilha de Gerum, como ponto de escala para as embarcações a caminho das terras que faziam parte do império português no Oceano Índico.

“Embora se tratasse de um território árido, circundado pelo deserto e sem fontes naturais de água potável, Gerum viu nascer, nos seus terrenos, uma cidade cosmopolita”, disse à BBC News Brasil o historiador André Figueiredo Rodrigues, professor na Universidade Estadual Paulista (UNESP), vincando que o motivo era a “sua posição geográfica privilegiada, de enorme importância, tanto estratégica quanto comercial”. Predominava a navegação de cabotagem, com as embarcações a não se distanciarem da costa e com várias paragens para o abastecimento das despensas com alimentos para a tripulação e para estabelecimento de relações comerciais.

“Ter entrepostos comerciais e controlo de territórios nas rotas era fundamental naquele período. As embarcações podiam ir parando e reequipando-se”, afirmou à BBC News Brasil o historiador Victor Missiato, investigador no Instituto Mackenzie, sublinhando que a principal marca da presença portuguesa em Ormuz são os restos do Forte de Nossa Senhora da Conceição, inaugurado, em 1515, cujas ruínas são tombadas pelo órgão de proteção ao património histórico iraniano. “Ainda há vestígios ali. Inclusive com uma placa. A arquitetura militar do período também é de influência portuguesa”, comentou Missiato.

De acordo com o historiador João Luís Ferreira, na “Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa (Séculos XVI-XVIII)”, há registos a apontar para a existência de Ormuz, pelo menos, desde o século II, e com grande relevância comercial, graças à sua posição geográfica privilegiada. Porém, o assentamento ficava na margens do rio Minab, no interior do império persa; e, no século VII, o território foi conquistado por muçulmanos. Quinhentos anos depois, a região sofreu ataques do império mongol, então em expansão. Segundo Ferreira, tais incursões levaram a que, em 1302, a população abandonasse a cidade e se mudasse para a ilha de Gerum.

A partir da nova posição, a cidade firmou a sua predominância comercial e política, no estreito, estendendo a sua influência a várias ilhas do Golfo Pérsico, das quais se destaca o Bahrein, e a alguns territórios e cidades costeiras, como Mascate e Soar. “Por Ormuz passaram a transitar não só a rota que ligava a Ásia à Europa, via Alepo, mas também um importante conjunto de rotas intra-asiáticas, conectando regiões tão distantes entre si, como a Mesopotâmia, a Pérsia, o Bengala, a Índia ou a Insulíndia”, contextualizou o historiador.

O marco fundamental da presença portuguesa na Índia foi a expedição de Vasco da Gama (1469-1524), que desembarcou em Calecute, em maio de 1498. No trajeto, notou a importância da cidade e fez a Coroa portuguesa ter conhecimento deste lugar.

O professor Rodrigues lembra que Ormuz figurava, então, entre os principais elos das redes de comércio do Oceano Índico, que ali se juntavam às rotas marítimas de diversas regiões com as rotas de caravanas que seguiam para a Ásia Central e para o Mediterrâneo Oriental. Além disso, entre “os diversos negócios praticados pelo rei de Ormuz”, sobressaía o comércio de cavalos, que eram animais utilizados, sobretudo, para fins militares. Como não se adaptavam ao clima indiano, raramente se reproduziam por lá. Por isso, crescia a demanda por novos cavalos. Outros produtos eram exportados para a Índia, como prata, aljôfar, pérolas, salitre, enxofre, seda, pedra-ume, sal, almíscar, âmbar, frutas secas,  cereais e tapeçarias.

“Em troca, importavam arroz e diversos tipos de especiarias e produtos aromáticos muito apreciados e consumidos na Pérsia e na Arábia”, diz o historiador Rodrigues.

O rei de Ormuz tinha um acordo com o xá que governava a Pérsia, pagando-lhe um tributo que funcionava como “uma espécie de seguro comercial”.

Para os Portugueses, controlar Ormuz era dominar uma estrutura comercial já consolidada. Por isso, em 1505, o rei D. Manuel I (1469-1521) determinou que fossem empreendidas tentativas diplomáticas para submeter Ormuz ao jugo lusitano, satisfazendo a sanha dominadora, controlando o comércio entre Europa e Oriente e cumprindo a missão cristã de minar o poder económico dos povos islâmicos.

Coube a Afonso de Albuquerque (c.1452-1515) a conquista. Em 1507, a sua armada “tomou e destruiu várias praças, sob o controlo ormuziano”, na costa, como relata o historiador Ferreira; e, ao chegar à ilha de Gerum, não teve dificuldade em subjugar a cidade. A frota do conquistador contava com 400 homens. “A expedição fazia parte da estratégia portuguesa de controlar pontos estratégicos das rotas comerciais do Oceano Índico”, explica Rodrigues.

Ferreira afirma que ficou “estabelecido entre Albuquerque e o rei local um acordo de paz que previa a construção de uma fortaleza lusa, dentro dos limites da cidade”. Contudo, o pacto foi mal desenhado. Se os Portugueses entendiam que oficializaram o rei de Ormuz, mantido no trono, como subordinado ao monarca português, os Ormuzianos interpretaram o acordo como um contrato de livre trânsito comercial, sem ónus para o poder político. Assim, a construção do forte foi iniciada, mas desentendimentos entre os trabalhadores portugueses e os locais forçou a saída de Albuquerque e das suas tropas. O conquistador português foi para a Índia, onde estabeleceu a principal sede das possessões lusitanas no Oriente, mas voltou a Ormuz, em 1515, em contexto mais favorável ao domínio português, pois a sociedade ormuziana vivia conflitos internos. Então, submeteu a cidade com facilidade.

Ao comandar a região, Portugal passou a controlar o fluxo comercial entre o Oceano Índico e o Mar Mediterrâneo, e a exigir o pagamento de tributos aos comerciantes que cruzavam a região, o que lhe garantia o monopólio das rotas das especiarias. O período português foi de prosperidade para o entreposto, porque a cidade estava no caminho do império marítimo de Portugal e era um elo entre as rotas do Oriente e os mercados do Ocidente.

Essa posição estratégica foi alvo de disputas, da parte dos Otomanos. O controlo luso do estreito durou até 1622, quando uma flotilha com mais de três mil homens cercou a fortaleza. Os Persas ofereceram aos Portugueses o controlo da cidade, mediante boa indemnização monetária, mas estes não aceitaram. E, após meses de combates e de bloqueio, os Portugueses renderam-se e foram expulsos, encerrando-se a presença portuguesa no Golfo Pérsico, espaço que, agora, é palco de luta bélica e comercial, com consequências globais.

2026.03.20 – Louro de Carvalho


Sem comentários:

Enviar um comentário