Em
entrevista publicada pelo Diário de Notícias (DN), a 19
de dezembro de 2025, o general João Cartaxo Alves – então, chefe do
Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA) e, atualmente, chefe do Estado-Maior
General das Forças Armadas (CEMGFA) – confirmou que Lisboa planeia adquirir
entre 14 e 28 caças de 5.ª geração, ao abrigo da Lei de Programação Militar (LPM),
sinalizando o compromisso decisivo com capacidades avançadas de combate aéreo e
com a interoperabilidade a longo prazo com a Organização do Tratado do
Atlântico Norte (NATO).
O
então CEMFA vincava o atraso do passado – “a substituição dos F-16 deveria ter
sido um processo iniciado há cerca de vinte anos”, em sua opinião –, para
afirmar que “estamos, agora, a entrar nos ritmos certos” e para se mostrar
convicto de que, em 2026, “teremos novidades sobre a substituição dos F-16”.
A
jornalista Diana Rosa Rodrigues, em artigo intitulado “Asas para Portugal:
quais os aviões de combate prontos para ingressar na Força Aérea”, publicado
pela Euronews, a 10 de março, refere que o processo ainda não arrancou,
oficialmente, mas, há vários meses, que se fala da necessidade de o país
renovar a sua frota de caças e passar o atestado oficial de reforma aos
velhinhos F-16 da Força Aérea.
Na
verdade, ainda não há decisão e aguarda-se a abertura formal do processo de
compra dos novos caças para a Força Aérea Portuguesa (FAP), mas os candidatos ao
fornecimento dos novos aviões de combate a Portugal multiplicam-se. Entre os
principais modelos em causa, encontram-se o norte-americano F-35, da Lockheed
Martin, o sueco Gripen E, da Saab, e o Typhoon, do consórcio europeu
Eurofighter.
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Desenvolvido
pela Lockheed Martin, o F-35 Lightning II é um caça de 5.ª geração e,
atualmente, um dos aviões de combate mais avançados em operação. A empresa dos
Estados Unidos da América (EUA) defende as “capacidades incomparáveis” do
avião, que surge, aos olhos de alguns especialistas, como o aparentemente
preferido e a opção incontestável, para substituir os F-16 da frota portuguesa.
O F-35 fortalece a segurança nacional, aprimora parcerias globais e impulsiona o crescimento económico. É o caça mais letal, com maior capacidade de sobrevivência e de conectividade do Mundo, proporcionando aos pilotos vantagem contra qualquer adversário e permitindo que executem as suas missões e retornem em segurança. E, à medida que os adversários avançam e as aeronaves legadas envelhecem, o F-35 torna-se crucial para manter a supremacia aérea, nas próximas décadas. Por isso, a equipa do F-35 está a fornecer recursos integrados de sustentação, para garantir que o F-35 esteja pronto para a missão, a qualquer hora e em qualquer lugar, pois, como cada minuto conta, os centros de operações 24 horas, por dia, sete dias, por semana, e os seus engenheiros de sustentação trabalham em estreita colaboração com os clientes, para solucionarem novos desafios e para atenderem às necessidades da linha de voo.
Entre
as suas principais vantagens, contam-se a superioridade tecnológica, a
furtividade e a integração plena com sistemas da NATO, tornando-o
particularmente eficaz em cenários de guerra moderna, com defesa aérea
avançada. É, pois, segundo alguns, o símbolo da tecnologia e da fiabilidade
norte-americanas.
Porém,
apesar das vantagens, este avião de combate representa, como observa a
jornalista, uma opção cujo custo de aquisição e de operação é bastante elevado,
além de a manutenção ser complexa e de depender muito da infraestrutura e do
suporte técnico dos EUA, o que pode constituir outro problema. Por outro lado,
a decisão de comprar ou não os F-35, além de técnica, é política,
principalmente, num contexto internacional em que a orientação dos EUA pode
variar, significativamente. Neste sentido, alguns decisores políticos europeus
questionam até que ponto esta dependência pode limitar a autonomia estratégica
dos aliados, tendo o ministro português da Defesa, Nuno Melo, questionado a
previsibilidade da política externa norte-americana.
Efetivamente,
como dizia o governante ao jornal “Público”, em março de 2025, a recente
posição dos EUA, no contexto da NATO e no plano geoestratégico internacional, deve
induzir as melhores opções, “porque a previsibilidade dos nossos aliados é um
bem maior a ter em conta”.
O
negócio que ainda nem começou já é alvo da atenção das altas esferas políticas,
com o embaixador dos EUA em Portugal a defender que o país deveria optar pela
compra dos caças norte-americanos. Aliás, o acordo comercial entre a União Europeia
(UE) e os EUA, em que, pelo menos, na aparência, o bloco europeu se vergou ante
Donald Trump priorizava a aquisição de compras aos EUA. Porém, o acordo ainda
não ratificado pelos eurodeputados.
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Não
obstante, apesar de aparentemente favoritos, os norte-americanos F-35 não são a
única opção, até porque, face à imprevisibilidade e à necessidade de redução da
dependência dos EUA, a solução “Made in Europe” parece ganhar fôlego.
A
sueca Saab está a posicionar as suas peças no tabuleiro estratégico da Europa. Num
encontro com a imprensa especializada, na sua sede, em Estocolmo, a fabricante
do caça Gripen E reforçou que a OGMA (Indústria Aeronáutica de Portugal) possui
“muito potencial” para se tornar um hub produtivo e de manutenção da
aeronave, caso o governo opte pelo vetor sueco, para substituir sua frota de
F-16AM/BM Fighting Falcon.
Daniel
Boestad, vice-presidente de negócios Gripen na Saab, fez o paralelo com a
bem-sucedida transferência de tecnologia (ToT) realizada no Brasil. A parceria
com a Embraer, que detém o controlo acionário da OGMA, serve de “blueprint”
para eventual oferta a Lisboa. Esta estratégia visa mitigar a pressão política dos
EUA, que tentam emplacar o Lockheed Martin F-35 Lightning II como sucessor
natural dos F-16 na FAP. Ao acenar com a produção local, a Saab foca o retorno
industrial e a soberania tecnológica de Portugal. E um dos pontos altos da
apresentação de Boestad foi a diferenciação da arquitetura de sistemas do
Gripen E. E, em relação aos seus competidores, sobressaiu a agilidade de
atualização do caça à de um smartphone.
Diferente
das aeronaves, onde o software de missão e o software de voo
(flight control) são intrinsecamente ligados, exigindo meses de testes de
certificação para qualquer alteração mínima, o Gripen E utiliza uma arquitetura
aberta. A agilidade no Ciclo de Atualização permite a rápida integração de
novos armamentos e sensores, sem comprometer a segurança de voo, o que gera
independência do operador, tendo Portugal maior autonomia para customizar os seus
sistemas sem dependência total da OEM (Original Equipment Manufacturer).
O
Gripen E, um caça multifunções, é um avião de geração 4.5 (geração 4 com
sistemas de radar e sensores avançados e supercruzeiro), concebido com foco
na eficiência operacional, de baixos custos de manutenção e de elevada
flexibilidade. Este avião pode operar a partir de pistas curtas e de estradas
preparadas, caraterísticas que integram a doutrina de defesa sueca.
A
recente versão inclui radar AESA (Active Electronically Scanned Array),
sistemas avançados de guerra eletrónica e grande compatibilidade com armamento
ocidental. “Rede silenciosa e fusão total de sensores em toda uma unidade aérea
tática, para cegar e confundir o inimigo”, explica a Saad, que reforçou o
interesse em fazer o negócio com Portugal, propondo integrar o país na produção
dos aviões, através da OGMA, criando retorno de parte do investimento.
O
Gripen apresenta um custo bastante mais baixo de operação e de manutenção,
comparativamente com caças mais pesados ou de 5.ª geração, mas tem algumas
limitações, visto que não tem furtividade comparável a outros caças de
tecnologia mais avançada, transporta menos combustível e armamento e tem uma
base de utilizadores relativamente pequena.
A
redução drástica no tempo de upgrade, evita que a aeronave fique
indisponível, por longos períodos em manutenção. E, para a Saab, o Gripen não é
só vetor de defesa, mas plataforma de cooperação industrial que pode
revitalizar o cluster aeronáutico de Alverca.
Porém,
cabe ao governo seguir a padronização da NATO com o F-35 norte-americano ou
apostar na autonomia industrial e na eficiência operacional do “Smartfighter”
sueco. Entretanto, embora não haja processo de licitação formalmente aberto
pelo Ministério da Defesa, a Saab utiliza referências de contratos recentes
para balizar as expectativas.
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Do
coração da Europa chega o Eurofighter Typhoon, um caça desenvolvido por um
consórcio industrial que inclui as empresas Airbus, BAE Systems e a Leonardo, sendo
operado por vários países europeus, como o Reino Unido, a Alemanha e a Itália.
É
classificado como um caça de geração 4.5, originalmente concebido para a
superioridade aérea, e destaca-se pela velocidade, pela manobrabilidade e pela capacidade
de combate ar-ar. E, segundo o consórcio que o desenvolveu, o Typhoon, que oferece
um nível invejável de flexibilidade e de eficiência, dispõe de armas
suficientes e de poder de processamento suficiente para suportar,
simultaneamente, atualizações de mísseis em voo e em bombardeios em voo, posicionando-se
como “uma verdadeira aeronave de combate multifuncional”.
Em
outubro, o grupo mostrou-se interessado na corrida do fornecimento dos caças ao
Estado, com a Airbus, que integra o consórcio, a assinar um memorando de entendimento com
o Cluster para as Indústrias da Aeronáutica, Espaço e Defesa (AED Cluster
Portugal) – que contou com a presença do embaixador espanhol em Portugal, Juan
Fernández Trigo –, “para identificar oportunidades de cooperação, antes da
próxima substituição da frota de caças”.
Altos
responsáveis presentes em Lisboa não especificaram o preço do caça
europeu, mas prometeram bom preço. “Será uma jornada de dois a três anos.
Gostaríamos de organizar todos os elementos básicos para fazer uma oferta
atraente que abranja o aspeto militar, o aspeto político e a cooperação
industrial”, frisava Ivan Gonzalez Exposito, diretor de vendas da Eurofigter, na
cerimónia de assinatura do memorando. O objetivo, como explicou, era oferecer
bom preço, o que é importante para um país como Portugal, onde o investimento
do PIB (produto interno bruto) na defesa é muito baixo, como na Espanha” (era
de pouco mais de 1%”), que é um dos parceiros europeus do Eurofigther e que já
encomendou caças para o seu exército.
“É
uma oferta convincente e penso que é muito atrativa”, defende Ivan Gonzalez,
apontando como um dos fatores favoráveis a esta opção, a vizinhança com a Espanha,
também acionista da Airbus, presente em Santo Tirso, em Lisboa e em Coimbra,
produzindo, com 1660 funcionários, componentes para os A350. Com efeito, para o
responsável da Eurofighter, o fator proximidade com a Espanha permite
vislumbrar potenciais sinergias para treino e operações conjuntas”.
O
programa Eurofighter é um projeto de cooperação multinacional europeu, criado
para desenvolver e produzir o avião de combate Eurofighter Typhoon, sendo os seus
parceiros originais o Reino Unido, a Alemanha, a Itália e a Espanha.
Ao
abrigo do referido acordo, a Airbus e a AED estabeleceram as bases de início de
um conjunto de pesquisas, a fim de se desenvolver uma proposta industrial de
valor para a substituição da atual frota portuguesa, para uma solução europeia.
E José Neves, presidente da AED, frisou que “a Airbus é um parceiro
internacional de referência” de fornecedores portugueses, gerando receitas anuais,
junto destes, no montante de 70 milhões de euros.
Os
responsáveis da Airbus salientam a relevância de uma das maiores motivações da
Europa, no âmbito de Rearm Europe, de comprar mais e de comprar em conjunto. E,
apesar de haver outras alternativas europeias, para Portugal, no âmbito dos
caças, o Eurofighter “é o verdadeiro programa de parceria” (dizem). “Num
momento em que a soberania europeia e a autonomia industrial estão no centro da
nossa estratégia, a Airbus acredita que o Eurofighter é a melhor opção para
esta substituição”, diz José Luis de Miguel, diretor para a região europeia da
Airbus Defence and Space, vincando: “A nossa ligação com Portugal
baseia-se em décadas de cooperação, não apenas no setor civil, mas também no
militar, através do programa C295 de Transporte Tático Médio, e a nossa
intenção é continuar a fortalecer esta relação de confiança mútua.”
No
entanto, o Typhoon tem desvantagens. Apresenta elevados custos operacionais,
além da logística pesada, que envolve um consórcio multinacional e que
pode tornar upgrades mais complexos. Além disso, não possui furtividade
comparável à dos caças de 5.ª geração. Em cenários de guerra aérea altamente
tecnológicos, pode depender mais de apoio externo ou de outras plataformas para
competir com aeronaves furtivas.
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Falando
em defesa, o tempo é de investimento. O governo revelou, em novembro, ter
solicitado, “formalmente, ao mecanismo europeu de empréstimo para a defesa SAFE
(Security Action for Europe) um montante de 5,8 mil milhões de euros”, que incluirá
a aquisição de navios, de veículos blindados, de satélites, sistemas de
artilharia e de defesa antiaérea, de munições de diversos calibres e de sistemas
aéreos não tripulados e antidrone. Porém, os novos caças que Portugal poderá adquirir
não constam dos custos planeados, apresentados a Bruxelas.
O
montante do custo do negócio aos cofres portugueses dependerá do modelo
escolhido, do número de unidades compradas e dos moldes completos do negócio. Ora,
de acordo com o general João Cartaxo Alves, o número de caças oscilará entre os
14 e os 28 caças. E, no atinente aos custos, seja o F-35, seja qualquer outra
capacidade, os valores são muito semelhantes: entre os três mil milhões e os
4,8 mil milhões de euros.
A
decisão deve ter em conta os custos que a longevidade do aparelho acarretará.
Operar um avião de combate custa muito dinheiro. Para comparar caças e o
respetivo impacto financeiro, um dos indicadores a utilizar é o custo, por
hora de voo (“cost per flight hour”), que inclui variáveis, como
combustível, manutenção, peças e pessoal necessários para operar a aeronave.
O
estudo “Fighter Aircraft Through Life Costs”, da Aviation Week Network, de
2023, que analisa estimativas da indústria, refere custos na ordem dos 46282
dólares, por hora de voo, para o F-35, 22174 dólares, para o Gripen E/F, e 28965
dólares para o Eurofighter Typhoon, no custo combinado entre operações e
manutenção. Neste parâmetro, o Gripen surge em vantagem. Além disso, o Gripen
E/F surge como o aparelho mais barato, em termos de preço de aquisição por
unidade entre os três modelos neste artigo analisados.
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Não
se entende como é que, parecendo que a FAP estava inclinada para os caça F-35,
a Airbus assinou um memorando de entendimento com a AED e o governo não
definiu uma política que balize as opções. Além disso, adquirir 28 caças (no
máximo), não constitui frota suficientemente dissuasora, em caso de grave
necessidade de reforço da defesa do nosso território. E, já agora, porque é que
a aquisição dos caças não consta dos nossos planos do SAFE?
2026.03.10
– Louro de Carvalho
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