terça-feira, 10 de março de 2026

Força Aérea Portuguesa vai substituir os antigos F-16

Em entrevista publicada pelo Diário de Notícias (DN), a 19 de dezembro de 2025, o general João Cartaxo Alves – então, chefe do Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA) e, atualmente, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) – confirmou que Lisboa planeia adquirir entre 14 e 28 caças de 5.ª geração, ao abrigo da Lei de Programação Militar (LPM), sinalizando o compromisso decisivo com capacidades avançadas de combate aéreo e com a interoperabilidade a longo prazo com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

O então CEMFA vincava o atraso do passado – “a substituição dos F-16 deveria ter sido um processo iniciado há cerca de vinte anos”, em sua opinião –, para afirmar que “estamos, agora, a entrar nos ritmos certos” e para se mostrar convicto de que, em 2026, “teremos novidades sobre a substituição dos F-16”.

A jornalista Diana Rosa Rodrigues, em artigo intitulado “Asas para Portugal: quais os aviões de combate prontos para ingressar na Força Aérea”, publicado pela Euronews, a 10 de março, refere que o processo ainda não arrancou, oficialmente, mas, há vários meses, que se fala da necessidade de o país renovar a sua frota de caças e passar o atestado oficial de reforma aos velhinhos F-16 da Força Aérea.

Na verdade, ainda não há decisão e aguarda-se a abertura formal do processo de compra dos novos caças para a Força Aérea Portuguesa (FAP), mas os candidatos ao fornecimento dos novos aviões de combate a Portugal multiplicam-se. Entre os principais modelos em causa, encontram-se o norte-americano F-35, da Lockheed Martin, o sueco Gripen E, da Saab, e o Typhoon, do consórcio europeu Eurofighter.

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Desenvolvido pela Lockheed Martin, o F-35 Lightning II é um caça de 5.ª geração e, atualmente, um dos aviões de combate mais avançados em operação. A empresa dos Estados Unidos da América (EUA) defende as “capacidades incomparáveis” do avião, que surge, aos olhos de alguns especialistas, como o aparentemente preferido e a opção incontestável, para substituir os F-16 da frota portuguesa.

O F-35 fortalece a segurança nacional, aprimora parcerias globais e impulsiona o crescimento económico. É o caça mais letal, com maior capacidade de sobrevivência e de conectividade do Mundo, proporcionando aos pilotos vantagem contra qualquer adversário e permitindo que executem as suas missões e retornem em segurança. E, à medida que os adversários avançam e as aeronaves legadas envelhecem, o F-35 torna-se crucial para manter a supremacia aérea, nas próximas décadas. Por isso, a equipa do F-35 está a fornecer recursos integrados de sustentação, para garantir que o F-35 esteja pronto para a missão, a qualquer hora e em qualquer lugar, pois, como cada minuto conta, os centros de operações 24 horas, por dia, sete dias, por semana, e os seus engenheiros de sustentação trabalham em estreita colaboração com os clientes, para solucionarem novos desafios e para atenderem às necessidades da linha de voo.

Entre as suas principais vantagens, contam-se a superioridade tecnológica, a furtividade e a integração plena com sistemas da NATO, tornando-o particularmente eficaz em cenários de guerra moderna, com defesa aérea avançada. É, pois, segundo alguns, o símbolo da tecnologia e da fiabilidade norte-americanas.

Porém, apesar das vantagens, este avião de combate representa, como observa a jornalista, uma opção cujo custo de aquisição e de operação é bastante elevado, além de a manutenção ser complexa e de depender muito da infraestrutura e do suporte técnico dos EUA, o que pode constituir outro problema. Por outro lado, a decisão de comprar ou não os F-35, além de técnica, é política, principalmente, num contexto internacional em que a orientação dos EUA pode variar, significativamente. Neste sentido, alguns decisores políticos europeus questionam até que ponto esta dependência pode limitar a autonomia estratégica dos aliados, tendo o ministro português da Defesa, Nuno Melo, questionado a previsibilidade da política externa norte-americana.

Efetivamente, como dizia o governante ao jornal “Público”, em março de 2025, a recente posição dos EUA, no contexto da NATO e no plano geoestratégico internacional, deve induzir as melhores opções, “porque a previsibilidade dos nossos aliados é um bem maior a ter em conta”.

O negócio que ainda nem começou já é alvo da atenção das altas esferas políticas, com o embaixador dos EUA em Portugal a defender que o país deveria optar pela compra dos caças norte-americanos. Aliás, o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e os EUA, em que, pelo menos, na aparência, o bloco europeu se vergou ante Donald Trump priorizava a aquisição de compras aos EUA. Porém, o acordo ainda não ratificado pelos eurodeputados.

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Não obstante, apesar de aparentemente favoritos, os norte-americanos F-35 não são a única opção, até porque, face à imprevisibilidade e à necessidade de redução da dependência dos EUA, a solução “Made in Europe” parece ganhar fôlego.

A sueca Saab está a posicionar as suas peças no tabuleiro estratégico da Europa. Num encontro com a imprensa especializada, na sua sede, em Estocolmo, a fabricante do caça Gripen E reforçou que a OGMA (Indústria Aeronáutica de Portugal) possui “muito potencial” para se tornar um hub produtivo e de manutenção da aeronave, caso o governo opte pelo vetor sueco, para substituir sua frota de F-16AM/BM Fighting Falcon.

Daniel Boestad, vice-presidente de negócios Gripen na Saab, fez o paralelo com a bem-sucedida transferência de tecnologia (ToT) realizada no Brasil. A parceria com a Embraer, que detém o controlo acionário da OGMA, serve de “blueprint” para eventual oferta a Lisboa. Esta estratégia visa mitigar a pressão política dos EUA, que tentam emplacar o Lockheed Martin F-35 Lightning II como sucessor natural dos F-16 na FAP. Ao acenar com a produção local, a Saab foca o retorno industrial e a soberania tecnológica de Portugal. E um dos pontos altos da apresentação de Boestad foi a diferenciação da arquitetura de sistemas do Gripen E. E, em relação aos seus competidores, sobressaiu a agilidade de atualização do caça à de um smartphone.

Diferente das aeronaves, onde o software de missão e o software de voo (flight control) são intrinsecamente ligados, exigindo meses de testes de certificação para qualquer alteração mínima, o Gripen E utiliza uma arquitetura aberta. A agilidade no Ciclo de Atualização permite a rápida integração de novos armamentos e sensores, sem comprometer a segurança de voo, o que gera independência do operador, tendo Portugal maior autonomia para customizar os seus sistemas sem dependência total da OEM (Original Equipment Manufacturer).

O Gripen E, um caça multifunções, é um avião de geração 4.5 (geração 4 com sistemas de radar e sensores avançados e supercruzeiro), concebido com foco na eficiência operacional, de baixos custos de manutenção e de elevada flexibilidade. Este avião pode operar a partir de pistas curtas e de estradas preparadas, caraterísticas que integram a doutrina de defesa sueca.

A recente versão inclui radar AESA (Active Electronically Scanned Array), sistemas avançados de guerra eletrónica e grande compatibilidade com armamento ocidental. “Rede silenciosa e fusão total de sensores em toda uma unidade aérea tática, para cegar e confundir o inimigo”, explica a Saad, que reforçou o interesse em fazer o negócio com Portugal, propondo integrar o país na produção dos aviões, através da OGMA, criando retorno de parte do investimento. 

O Gripen apresenta um custo bastante mais baixo de operação e de manutenção, comparativamente com caças mais pesados ou de 5.ª geração, mas tem algumas limitações, visto que não tem furtividade comparável a outros caças de tecnologia mais avançada, transporta menos combustível e armamento e tem uma base de utilizadores relativamente pequena.

A redução drástica no tempo de upgrade, evita que a aeronave fique indisponível, por longos períodos em manutenção. E, para a Saab, o Gripen não é só vetor de defesa, mas plataforma de cooperação industrial que pode revitalizar o cluster aeronáutico de Alverca.

Porém, cabe ao governo seguir a padronização da NATO com o F-35 norte-americano ou apostar na autonomia industrial e na eficiência operacional do “Smartfighter” sueco. Entretanto, embora não haja processo de licitação formalmente aberto pelo Ministério da Defesa, a Saab utiliza referências de contratos recentes para balizar as expectativas.

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Do coração da Europa chega o Eurofighter Typhoon, um caça desenvolvido por um consórcio industrial que inclui as empresas Airbus, BAE Systems e a Leonardo, sendo operado por vários países europeus, como o Reino Unido, a Alemanha e a Itália.

É classificado como um caça de geração 4.5, originalmente concebido para a superioridade aérea, e destaca-se pela velocidade, pela manobrabilidade e pela capacidade de combate ar-ar. E, segundo o consórcio que o desenvolveu, o Typhoon, que oferece um nível invejável de flexibilidade e de eficiência, dispõe de armas suficientes e de poder de processamento suficiente para suportar, simultaneamente, atualizações de mísseis em voo e em bombardeios em voo, posicionando-se como “uma verdadeira aeronave de combate multifuncional”.

Em outubro, o grupo mostrou-se interessado na corrida do fornecimento dos caças ao Estado, com a Airbus, que integra o consórcio, a assinar um memorando de entendimento com o Cluster para as Indústrias da Aeronáutica, Espaço e Defesa (AED Cluster Portugal) – que contou com a presença do embaixador espanhol em Portugal, Juan Fernández Trigo –, “para identificar oportunidades de cooperação, antes da próxima substituição da frota de caças”.

Altos responsáveis presentes em Lisboa não especificaram o preço do caça europeu, mas prometeram bom preço. “Será uma jornada de dois a três anos. Gostaríamos de organizar todos os elementos básicos para fazer uma oferta atraente que abranja o aspeto militar, o aspeto político e a cooperação industrial”, frisava Ivan Gonzalez Exposito, diretor de vendas da Eurofigter, na cerimónia de assinatura do memorando. O objetivo, como explicou, era oferecer bom preço, o que é importante para um país como Portugal, onde o investimento do PIB (produto interno bruto) na defesa é muito baixo, como na Espanha” (era de pouco mais de 1%”), que é um dos parceiros europeus do Eurofigther e que já encomendou caças para o seu exército.

“É uma oferta convincente e penso que é muito atrativa”, defende Ivan Gonzalez, apontando como um dos fatores favoráveis a esta opção, a vizinhança com a Espanha, também acionista da Airbus, presente em Santo Tirso, em Lisboa e em Coimbra, produzindo, com 1660 funcionários, componentes para os A350. Com efeito, para o responsável da Eurofighter, o fator proximidade com a Espanha permite vislumbrar potenciais sinergias para treino e operações conjuntas”.

O programa Eurofighter é um projeto de cooperação multinacional europeu, criado para desenvolver e produzir o avião de combate Eurofighter Typhoon, sendo os seus parceiros originais o Reino Unido, a Alemanha, a Itália e a Espanha.

Ao abrigo do referido acordo, a Airbus e a AED estabeleceram as bases de início de um conjunto de pesquisas, a fim de se desenvolver uma proposta industrial de valor para a substituição da atual frota portuguesa, para uma solução europeia. E José Neves, presidente da AED, frisou que “a Airbus é um parceiro internacional de referência” de fornecedores portugueses, gerando receitas anuais, junto destes, no montante de 70 milhões de euros.

Os responsáveis da Airbus salientam a relevância de uma das maiores motivações da Europa, no âmbito de Rearm Europe, de comprar mais e de comprar em conjunto. E, apesar de haver outras alternativas europeias, para Portugal, no âmbito dos caças, o Eurofighter “é o verdadeiro programa de parceria” (dizem). “Num momento em que a soberania europeia e a autonomia industrial estão no centro da nossa estratégia, a Airbus acredita que o Eurofighter é a melhor opção para esta substituição”, diz José Luis de Miguel, diretor para a região europeia da Airbus Defence and Space, vincando: “A nossa ligação com Portugal baseia-se em décadas de cooperação, não apenas no setor civil, mas também no militar, através do programa C295 de Transporte Tático Médio, e a nossa intenção é continuar a fortalecer esta relação de confiança mútua.”

No entanto, o Typhoon tem desvantagens. Apresenta elevados custos operacionais, além da logística pesada, que envolve um consórcio multinacional e que pode tornar upgrades mais complexos. Além disso, não possui furtividade comparável à dos caças de 5.ª geração. Em cenários de guerra aérea altamente tecnológicos, pode depender mais de apoio externo ou de outras plataformas para competir com aeronaves furtivas.

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Falando em defesa, o tempo é de investimento. O governo revelou, em novembro, ter solicitado, “formalmente, ao mecanismo europeu de empréstimo para a defesa SAFE (Security Action for Europe) um montante de 5,8 mil milhões de euros”, que incluirá a aquisição de navios, de veículos blindados, de satélites, sistemas de artilharia e de defesa antiaérea, de munições de diversos calibres e de sistemas aéreos não tripulados e antidrone. Porém, os novos caças que Portugal poderá adquirir não constam dos custos planeados, apresentados a Bruxelas.

O montante do custo do negócio aos cofres portugueses dependerá do modelo escolhido, do número de unidades compradas e dos moldes completos do negócio. Ora, de acordo com o general João Cartaxo Alves, o número de caças oscilará entre os 14 e os 28 caças. E, no atinente aos custos, seja o F-35, seja qualquer outra capacidade, os valores são muito semelhantes: entre os três mil milhões e os 4,8 mil milhões de euros.

A decisão deve ter em conta os custos que a longevidade do aparelho acarretará. Operar um avião de combate custa muito dinheiro. Para comparar caças e o respetivo impacto financeiro, um dos indicadores a utilizar é o custo, por hora de voo (“cost per flight hour”), que inclui variáveis, como combustível, manutenção, peças e pessoal necessários para operar a aeronave.

O estudo “Fighter Aircraft Through Life Costs”, da Aviation Week Network, de 2023, que analisa estimativas da indústria, refere custos na ordem dos 46282 dólares, por hora de voo, para o F-35, 22174 dólares, para o Gripen E/F, e 28965 dólares para o Eurofighter Typhoon, no custo combinado entre operações e manutenção. Neste parâmetro, o Gripen surge em vantagem. Além disso, o Gripen E/F surge como o aparelho mais barato, em termos de preço de aquisição por unidade entre os três modelos neste artigo analisados.

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Não se entende como é que, parecendo que a FAP estava inclinada para os caça F-35, a Airbus assinou um memorando de entendimento com a AED e o governo não definiu uma política que balize as opções. Além disso, adquirir 28 caças (no máximo), não constitui frota suficientemente dissuasora, em caso de grave necessidade de reforço da defesa do nosso território. E, já agora, porque é que a aquisição dos caças não consta dos nossos planos do SAFE?

2026.03.10 – Louro de Carvalho


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