quinta-feira, 19 de março de 2026

BCE mantém taxas de juro, mas está preocupado com a inflação

 

O Banco Central Europeu (BCE) concluiu, a 19 de março, a sua reunião de março, sem alterar os custos de financiamento, mantendo a taxa de juro da facilidade permanente de depósito em 2%, o que tinha sido previsto por quase todos os analistas. Outras taxas diretoras, nomeadamente, a das operações principais de refinanciamento e a da facilidade permanente de cedência de liquidez, também permaneceram inalteradas em 2,15% e em 2,4%, respetivamente.

Assim, a autoridade monetária da Zona Euro manteve as suas taxas diretoras em suspenso, uma vez que os novos aumentos dos preços do petróleo e do gás ameaçam fazer descarrilar os recentes progressos na redução da inflação.

O cenário mais severo traçado pelo BCE sobre o impacto da guerra no Médio Oriente projeta um pico, no preço do petróleo, de 145 dólares, por barril, que fica, no cenário base, nos 90 dólares.

Nas previsões económicas divulgadas, a 19 de março, já ajustadas aos efeitos da guerra, considerando o cenário base, a inflação foi revista em alta para 2,6%, em 2026, para 2%, em 2027, e para 2,1%, em 2028, enquanto o crescimento económico foi revisto em baixa, para a média de 0,9%, em 2026, de 1,3%, em 2027, e de 1,4%, em 2028. Contudo, a equipa do BCE também projetou outros dois cenários, o adverso e o severo, ainda que ressalvando que “não atribui probabilidades a esses cenários, que servem para evidenciar as principais incertezas relativas ao impacto do conflito”.

O cenário adverso incorpora efeitos indiretos e de segunda ordem mais fortes do que a projeção de referência, “com o objetivo de capturar possíveis não linearidades, na propagação do choque inicial, nos preços da energia para outros preços, em toda a economia”, pelo que pressupõe um aumento muito mais acentuado nos preços da energia e aumento na incerteza e nos efeitos adversos internacionais. Este cenário induz a previsão de que os preços do petróleo e do gás natural atinjam o pico de 119 dólares, por barril, e 87 euros, por megawatt-hora (MWh), respetivamente, no segundo trimestre de 2026, antes de convergirem para as projeções de referência, no terceiro trimestre de 2027.

“Em relação à projeção de referência, o cenário adverso implica que a inflação seria 0,9 pontos percentuais (p.p.) e 0,1 p.p. maior, em 2026 e [em 2027], respetivamente, mas 0,5 p.p. menor, em 2028, devido às pressões desinflacionárias decorrentes da rápida normalização dos preços da energia nesse ano”, lê-se nas projeções. Por outro lado, o crescimento económico seria menor do que na projeção de referência, em 2026 e em 2027, mas maior, em 2028.

Já o cenário severo considera a hipótese de se verificar um choque de preços da energia mais forte e persistente, maior incerteza e efeitos indiretos e de segunda ordem ainda mais acentuados, com a previsão de que os preços do petróleo atinjam um pico de 145 dólares, por barril, e os preços do gás natural de 106 euros, por MWh, no segundo trimestre de 2026, antes de recuarem a um ritmo muito mais lento e permanecerem, significativamente, acima das premissas dos cenários base e adverso durante o restante do horizonte de projeção.

Face ao cenário base, a inflação seria, significativa e persistentemente, mais alta, ao longo do horizonte de projeção (em 1,8 p.p. em 2026, 2,8 p.p. em 2027 e 0,7 p.p. em 2028), pelo que há significativa diferença na inflação, em 2028, entre o cenário adverso (1,6%) e o cenário severo (2,8%). “A projeção destaca o papel fundamental da evolução do conflito, das interrupções no fornecimento de energia e da magnitude dos mecanismos de propagação desencadeados pelo choque na determinação do impacto sobre a inflação no médio prazo”, salienta o BCE.

O crescimento económico, neste cenário severo, seria 0,4 a 0,5 p.p. menor, em 2026 e em 2027, e subiria, em seguida, para 0,5 p.p. acima da projeção inicial, em 2028, o que reflete o aumento presumido do rendimento e da procura resultante da resposta ascendente dos salários, após o aumento da inflação nos anos anteriores.

O barril de petróleo Brent para entrega, em maio, dispara mais de 10%, a 19 de março, aproximando-se dos 120 dólares, afetado pelo aumento das tensões no Médio Oriente, na sequência dos ataques a instalações de gás natural por Israel e pelo Irão.

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De acordo com o comunicado do BCE, divulgado a seguir à reunião, “a guerra no Médio Oriente tornou as perspetivas significativamente mais incertas, criando riscos de subida para a inflação e riscos de descida para o crescimento económico”, o suscita forte preocupação.

O órgão diretivo da instituição liderada por Christine Lagarde considera que a guerra no Irão terá “impacto significativo na inflação, a curto prazo, através do aumento dos preços da energia”, e que as implicações, a médio prazo, dependerão da intensidade e da duração do conflito e da forma como os preços da energia afetam os preços no consumidor e a economia.

O momento em que a decisão foi tomada é notável. No dia da reunião do BCE, os futuros do gás natural europeu subiram mais de 30%, atingindo 74 euros, por MWh, o preço mais elevado em mais de três anos. O petróleo bruto Brent ultrapassou os 119 dólares, por barril, e o WTI (West Texas Intermediate) ultrapassou os 96 dólares.

Estes movimentos resultam dos ataques iranianos a instalações energéticas críticas no Médio Oriente, o que suscita receios de tensões prolongadas no abastecimento. E os economistas que acompanham a situação observam que, se esses custos se mantiverem elevados, durante vários meses, poderão alimentar as pressões mais amplas sobre os preços e atrasar qualquer flexibilização futura, até 2027.

A decisão tomada, agora, pelo BCE surge após o anúncio de fevereiro, que deixou as taxas inalteradas e reiterou o compromisso do BCE de fazer a inflação regressar, de forma sustentável, ao seu objetivo de 2%, a médio prazo. Desta vez, os mercados financeiros abriram o dia em baixa, com os principais índices europeus a registarem perdas iniciais, visto que os investidores ponderaram o choque energético e a decisão antecipada do BCE. O euro registou uma subida, nas primeiras negociações, ao passo que as taxas de rendibilidade das obrigações do Tesouro registaram aumentos modestos. Para as famílias e para as empresas dos 21 países da Zona Euro, a decisão significa que as taxas dos empréstimos hipotecários e dos empréstimos ligados à política do BCE vão manter-se como estão, por enquanto.

No entanto, o tom de Christine Lagarde poderá influenciar as expectativas, a mais longo prazo. Com efeito, os contratos do mercado monetário já mudaram, à luz da guerra do Irão, prevendo a possibilidade de uma ou mesmo duas subidas das taxas, no final deste ano, em vez dos cortes que dominavam as previsões, há apenas algumas semanas.

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Christine Lagarde admite que, se a guerra continuar, as taxas de juro terão de subir e que os governos devem apoiar as famílias e as empresas, mas com apoios temporários.

As projeções do BCE incorporam, excecionalmente, informação até 11 de março, data posterior ao habitual, e bastaram estes dias da guerra, no Golfo Pérsico, para se ter de refazer as contas para todo o ano de 2026 e para subir, violentamente, a previsão para a inflação anual, de 1,9% (projeções de dezembro) para 2,6%, agora, como explicou a presidente do BCE, na conferência de imprensa que decorreu em Frankfurt, após a reunião das taxas de juro.

A líder da autoridade monetária da Zona Euro, destacando que estamos perante “um choque severo”, avisou que não pode ficar de braços cruzados, pelo que vai ver quanto tempo dura este choque petrolífero e energético e como é que ele se vai “propagar”. Na verdade, segundo julga, o aumento de preços da energia pode levar a subida mais ampla da inflação (colando-a, com mais força, aos preços), via efeitos indiretos e de segunda ordem, o que exigirá “uma monitorização rigorosa” e levará o BCE a ter de atuar e de voltar a subir taxas de juro.

É aí que o BCE será obrigado a atuar com uma política mais dura e restritiva, com aumentos de taxas de juro e/ou com menos concessão de liquidez a custos baixos (via outros instrumentos, como as compras de dívida). Para mais, “as expectativas de inflação nos mercados financeiros aumentaram, significativamente, em horizontes de curto prazo”, segundo Christine Lagarde.

Quanto às respostas imediatas, as dos governos, a presidente do BCE diz que terá de ser, mas que as medidas fiscais só podem ser temporárias e retiradas, logo que possível. É o caso do apoio fiscal, em sede de  imposto sobre os produtos petrolíferos e energéticos (ISP), que existe, por exemplo, em Portugal. Efetivamente, segundo a economista francesa, o BCE sublinha que temos “necessidade urgente de reforçar as economias da Zona Euro, mas mantendo, ao mesmo tempo, finanças públicas sólidas”. Por isso, em seu entender, “quaisquer respostas fiscais ao choque dos preços da energia devem ser temporárias, direcionadas e adaptadas”. E, além do mais, “a atual crise energética reforça a necessidade imperativa de reduzir, ainda mais, a dependência dos combustíveis fósseis”.

Como referido, para já, as taxas de juro da Zona Euro ficam na mesma (a taxa principal, de depósitos em 2%), mas, na próxima reunião, a autoridade sediada em Frankfurt deve, muito provavelmente, aumentar o custo dos empréstimos. Efetivamente, o aumento dos preços da energia, provocado pela guerra, elevará a inflação acima dos 2%, no curto prazo.

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Também a Reserva Federal dos Estados Unidos da América ou Sistema de Reserva Federal (FED) deixou a taxa de juro diretora inalterada, a 17 de março, pela segunda reunião consecutiva, mantendo-a em cerca de 3,6%. Em comunicado, afirmou que as “implicações dos acontecimentos no Médio Oriente para a economia dos EUA são incertas”.

Os funcionários da FED e os decisores políticos afirmam que a guerra no Irão deverá fazer subir a inflação, neste ano, embora tenha pouco impacto no crescimento económico, mas ainda esperam reduzir a sua taxa diretora, uma vez, em 2026. E, ao manterem a previsão de redução da taxa, neste ano e no próximo – as mesmas projeções que tinham feito em dezembro – os responsáveis políticos da FED parecem esperar que o aumento do preço do gás provocado pela guerra no Irão tenha um efeito largamente temporário na inflação e na economia.

Os responsáveis esperam que a inflação volte a cair para 2,2%, em 2027, e que atinja o objetivo de 2% da FED, em 2028. De facto, prevê-se, agora, que a inflação termine, neste ano, em 2,7%, um aumento em relação à previsão anterior. E a inflação subjacente, que exclui os produtos alimentares e a energia, deverá também situar-se em 2,7%.

As autoridades afirmaram que os preços mais elevados dos combustíveis deverão fazer subir a inflação, nos próximos meses, mas que esses aumentos poderão inverter-se, se o conflito abrandar.

A FED também espera que a guerra não tenha um impacto sustentado no crescimento ou no desemprego. As autoridades continuam a prever uma taxa de desemprego de 4,4%, no final deste ano, a mesma que se regista atualmente. E preveem que a economia cresça 2,4%, neste ano, ligeiramente acima dos 2,3%, previstos em dezembro.

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Já a 3 de março, Philip Lane, economista-chefe do BCE, considerava que um conflito prolongado no Médio Oriente podia levar à queda persistente do fornecimento de energia e a um aumento substancial da inflação na Zona Euro.

Em entrevista ao Financial Times, Philip Lane lembrou que a possibilidade de uma escalada do conflito, no Médio Oriente, tem sido um dos principais cenários de risco contemplados pelo BCE, cujas análises anteriores apontam para “aumento substancial da inflação impulsionado pela energia” e para forte queda na produção, caso o conflito provocasse uma queda persistente no fornecimento energético. Além disso, para o economista irlandês, o impacto seria amplificado, se a situação levasse a uma reavaliação do risco nos mercados financeiros.

No caso da Zona Euro, Philip Lane reconheceu que o aumento dos preços da energia exerce “pressão ascendente sobre a inflação”, sobretudo, a curto prazo, sendo negativo para a atividade económica um conflito com estas caraterísticas. De qualquer forma, o economista sublinhou que o impacto e as implicações para a inflação a médio prazo dependem da magnitude e da duração do conflito, pelo que o BCE acompanhará de perto a evolução da situação.

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Enquanto Donald Trump ameaça o Irão com um ataque massivo, destruindo, completamente, o campo de gás South Pars, se este país voltar a bombardear o Qatar, o Conselho de Ministros, em Portugal, aprovou três diplomas para reforçar a soberania e a segurança energética, bem como a proteção dos consumidores mais vulneráveis, em caso de declaração de crise energética resultante do aumento de preços do petróleo e do gás.

O novo mecanismo de proteção do consumidor entra em funcionamento se, no retalho, ocorrer aumento superior a 70% no preço da energia, ou superior a 2,5 vezes a média de preços dos últimos cinco anos, ultrapassando os 180 euros, por MWh. Nestes termos, declarada uma crise energética, o governo pode tomar medidas de apoio a clientes domésticos e a empresas, fixando limites para o preço da energia “abaixo do preço de custo”, um diferencial suportado pelo Estado, mas que será recuperado, mais tarde, no dizer do ministro da Presidência.

O teto no preço da energia terá também de ser acompanhado de medidas de eficiência energética. As famílias terão de reduzir o seu consumo para 80% do que consumiram no ano anterior, e as empresas para 70% do consumo do ano anterior.

O novo mecanismo, segundo o ministro da Presidência, pode ser usado em caso de declaração de crise energética, “o que sucederá, se os preços continuarem a subir”. Nesse caso, os apoios do governo não podem ser considerados auxílios de Estado da União Europeia (UE).

O Conselho de Ministro aprovou medidas de proteção dos consumidores mais vulneráveis, pela adoção de planos de pagamento a prazos dilatados e pela proibição de cortes no fornecimento de energia, nos períodos de elevado consumo, seja no inverno, seja no verão, bem como o reforço da capacidade de produção de energia de fontes renováveis, para aumentar a produção descentralizada e a produção para autoconsumo e, assim, reduzir a dependência energética dos combustíveis fósseis, a nível nacional.

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Israel e os Estados Unidos da América (EUA) lançaram, a 28 de fevereiro, um ataque militar ao Irão, para “eliminar as ameaças iminentes do regime iraniano”, e Teerão respondeu com mísseis e drones contra bases norte-americanas, na região, e alvos israelitas. Mais de duas mil pessoas (militares e civis) morreram nesta guerra, em vários países, desde o início. Só no Irão morreram mais de 1300, segundo embaixador iraniano nas Nações Unidas. O Exército dos EUA confirmou a morte de 19 militares norte-americanos.

Portugal, a França, a Alemanha e o Reino Unido condenaram os ataques do Irão a países vizinhos.

A guerra não se cansa de mentir, de enganar, de desestabilizar, de destruir e de matar.

2026.03.19 – Louro de Carvalho


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