terça-feira, 17 de março de 2026

Responsável dos EUA pela deteção de ameaças terroristas demitiu-se

 

Para o presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, nem tudo vai de vento em popa. A guerra no Irão não é consensual, mesmo entre os colaboradores da administração norte-americana.  O exemplo mais visível, mas revelador do mal-estar geral na organização estatal é a demissão, a 17 de março, do diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo norte-americano, em protesto contra a guerra no Irão.

Efetivamente, Joseph Kent (ou Joe Kent), responsável pela agência encarregada de analisar e de detetar ameaças terroristas, anunciou a sua demissão, com fundamento nas preocupações com a justificação dos ataques militares ao Irão e afirmando que “não pode, em boa consciência”, apoiar esta guerra, pois “o Irão não representa uma ameaça iminente à nossa nação”.

Joe Kent, antigo candidato político, foi confirmado para o seu cargo em julho de 2025, por uma votação de 52-44. Agora, a sua demissão, que é irrevogável, segundo os analistas, reflete o mal-estar existente entre os apoiantes do inquilino da Casa Branca, relativamente à guerra, e mostra que as dúvidas sobre a justificação do uso da força no Irão se estendem, pelo menos, a um alto responsável da administração republicana de Donald Trump.

A mudança de pessoal num dos principais gabinetes de Contraterrorismo ocorre no contexto de crescentes preocupações com o terrorismo no território nacional, na sequência dos ataques da semana anterior, numa sinagoga, no Michigan, e numa universidade, na Virgínia.

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A 12 de março, um homem conduziu um veículo contra o interior da sinagoga Temple Israel, em West Bloomfield, situada a Noroeste de Detroit, no estado norte-americano do Michigan. Foi abatido pela polícia. A sinagoga ficou em chamas, mas não há mais feridos, nem vítimas mortais, apesar de os responsáveis da sinagoga terem referido que 140 crianças, com os funcionários, estavam no centro pré-escolar daquele espaço religioso, aquando do ataque.

Segundo as autoridades, após troca de tiros com os agentes da autoridade, o suspeito foi encontrado morto (pelos vistos, por suicídio), com graves queimaduras dentro do veículo, que tinha grande quantidade de explosivos no banco de trás.

O Departamento de Segurança Interna dos EUA identificou o homem como Ayman Mohamad Ghazali, cidadão de 41 anos, nascido no Líbano e que se naturalizou norte-americano. De acordo com as autoridades locais, citadas pela CNN, um dos agentes que enfrentaram o suspeito foi atropelado pelo veículo usado no ataque, mas deverá recuperar. E, pelo menos, 30 polícias foram transportados para o hospital, por inalação de fumo, como informou o xerife do condado de Oakland, Michael Bouchard.

A governadora do Michigan, Gretchen Whitmer, condenou o incidente, que considerou o “pior pesadelo de qualquer comunidade”.

O Federal Bureau of Investigation (FBI), a principal agência de investigação e inteligência interna dos EUA, classificou o ataque como “ato de violência direcionado contra a comunidade judaica”. E, tendo destacado mais de 100 agentes e analistas para este caso, está a conduzir a investigação, em parceria com entidades estaduais, locais e federais, referiu Jennifer Runyan, agente especial responsável pelo escritório regional do FBI em Detroit, citada pela CNN.

Não são, para já, conhecidas as razões do ataque. O Departamento de Segurança Interna dos EUA indicou que o suspeito entrou nos EUA, em 2011, com um visto de imigrante, e obteve a cidadania em 2016. Segundo fontes policiais, ouvidas pela CNN, estão a ser investigados relatos de que o suspeito contou a algumas pessoas que membros da sua família foram mortos, num recente ataque aéreo de Israel, no Líbano.

As autoridades locais disseram que o local religioso estava em alerta máximo para possíveis atos de violência, nas últimas semanas. E Dana Nessel, procuradora-geral do Michigan, vincando que não é coincidência o suspeito ter decidido atacar uma sinagoga chamada Temple Israel, afirmou que há ligação entre a guerra no Médio Oriente e este episódio de violência.

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Como o próprio escreveu, na sua carta de demissão, a decisão de Joe Kent de se demitir prendeu-se com o raciocínio subjacente aos ataques ao Irão, ou o que ele disse “ser a falta dele”. Com efeito, Donald Trump apresentou razões diferentes para os ataques e rejeitou as alegações de que Israel teria forçado os EUA a atuar.

Em conversa com os jornalistas, na Sala Oval da Casa Branca, no próprio dia 17, Donald Trump disse que sempre pensou que Kent era “fraco, em matéria de segurança” e que, se alguém na sua administração não acreditava que o Irão era ameaça, não o quer. “Não são pessoas inteligentes, ou não são pessoas com conhecimentos. O Irão era uma ameaça tremenda”, vincou.

Um porta-voz da diretora da Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard não respondeu, imediatamente, às perguntas sobre a renúncia de Joe Kent.

Os democratas tinham-se oposto, fortemente, à confirmação de Kent, apontando para as suas ligações passadas a figuras de extrema-direita e a teorias da conspiração. Todavia, após a sua demissão, o senador Mark Warner, da Virgínia, o principal democrata da Comissão de Inteligência do Senado, concordou com Joe Kent sobre a guerra no Irão. “Discordo, totalmente, de muitas das posições que tem defendido, ao longo dos anos, particularmente, aquelas que arriscam politizar a nossa comunidade de informações. Mas, neste ponto, tem razão: não havia provas credíveis de uma ameaça iminente, por parte do Irão, que justificasse precipitar os EUA para outra guerra de escolha no Médio Oriente”, disse Mark Warner.

Também Mike Johnson, político republicano dos EUA, atualmente a servir como presidente da Câmara dos Representantes (Speaker of the House), quando questionado sobre a demissão, numa conferência de imprensa, no dia 17, rebateu as asserções de Joe Kent de que o Irão não representava ameaça iminente. “Recebi todas as informações. Todos nós entendemos que havia, claramente, uma ameaça iminente de que o Irão estava muito perto do enriquecimento da capacidade nuclear e que estava a construir mísseis a um ritmo que ninguém, na região, conseguia acompanhar”, declarou o político republicano, mostrando-se convicto de que, se Donald Trump tivesse esperado, “teríamos baixas, em massa, de americanos, membros do serviço e outros, e a nossa instalação teria sido dramaticamente danificada”.

Joe Kent está a deixar a administração norte-americana, quando três recentes atos de violência aumentaram as preocupações sobre as ameaças à pátria. Na cidade de Nova Iorque, dois homens que as autoridades federais dizem ter sido inspirados pelo grupo Estado Islâmico (EI ou Ísis), levaram bombas caseiras potentes para um protesto de extrema-direita, em frente à mansão do presidente da Câmara. No Michigan, como referimos, um cidadão naturalizado libanês bateu com o veículo numa sinagoga, onde foi alvejado pelos seguranças, antes de se suicidar. E, na Virgínia, um homem, anteriormente preso por condenação por terrorismo, foi ouvido a gritar “Allahu akbar” (grito árabe que significa “Deus é o maior”), antes de abrir fogo numa sala de aula da universidade, num ataque que terminou quando foi morto por estudantes.

Tulsi Gabbard, diretora de Inteligência Nacional dos EUA, john Ratcliffe, diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), e o diretor do FBI, Kash Patel, deverão testemunhar perante os legisladores, no final desta semana, sobre as ameaças que os EUA enfrentam, numa audição anual que deverá ser ocupada por questões relacionadas com a guerra do Irão.

Tulsi Gabbard, veterana e antiga congressista do Havai, criticou, no passado, a possibilidade de ataques militares ao Irão. Há seis anos, afirmou que “uma guerra total com o Irão faria com que as guerras que vimos no Iraque e no Afeganistão parecessem um piquenique”. Porém, desta vez, o seu gabinete não respondeu, quando lhe perguntaram se apoiava os ataques, e o diretor da CIA também não publicou nada sobre o Irão, nas suas contas das redes sociais, desde que os ataques começaram, a 28 de fevereiro.

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O passado militar de Joe Kent e a sua história pessoal de perda e de sacrifício fizeram dele uma figura de destaque em segurança nacional, entre os apoiantes de Donald Trump.

Alistou-se no exército dos EUA, aos 17 anos, e é, agora, veterano aposentado das Forças Especiais dos EUA, os Boinas Verdes – tendo participado em 11 comissões –, com 20 anos de serviço, e viúvo, que criou os dois filhos pequenos em Yacolt, no estado de Washington.

Shanon, a sua primeira esposa, também militar criptologista da Marinha, foi morta por um bombista, em 2019, em combate contra o Ísis, na Síria.

Quatro anos depois, Joe Kent casou com Heather Kaiser. E, após o serviço militar e o trabalho como agente de campo na CIA, trabalhou como consultor de política externa e como gerente de projetos numa empresa de tecnologia, antes de se aposentar com a sua pensão militar, em janeiro de 2023, para se dedicar integralmente à campanha. A sua candidatura ao Congresso dos EUA teve como foco a restauração dos valores republicanos tradicionais.

Trabalhou em estreita colaboração com Joey Gibson, fundador do grupo nacionalista cristão Patriot Prayer, tendo atraído o apoio de diversas figuras da extrema-direita.

Antes de entrar na administração de Trump, fez duas campanhas, sem sucesso, para o Congresso no estado de Washington. E, durante a campanha para o Congresso, em 2022, pagou a Graham Jorgensen, membro do grupo paramilitar de extrema-direita Proud Boys, por serviços de consultoria.

Durante a retirada caótica dos EUA do Afeganistão, em 2021, criticou o que disse ser um desejo equivocado de construção de uma nação, por parte de alguns, em Washington. “É uma prova da nossa arrogância. […] O facto de não termos aprendido com tudo isto só mostra que há pessoas a ganhar dinheiro e a fazer carreira no outro extremo. Têm-no feito à custa das costas e dos cadáveres de soldados americanos”, declarou aos jornalistas.

Foi escolhido por Donald Trump para o cargo de que agora se demitiu, em fevereiro de 2025, e confirmado em julho, com forte oposição dos democratas, devido a ligações passadas com figuras da extrema-direita e a teorias da conspiração.

Agora, entrou em rutura com o líder dos EUA, no pressuposto de que o Irão não representava nenhuma ameaça iminente à nação americana e evidenciando que a guerra foi iniciada, “devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby americano”. Mais sustenta que os argumentos em prol da guerra são usados para enganar, dizendo ser a “mesma tática que os Israelitas usaram para nos arrastar para a desastrosa guerra do Iraque, que custou à nossa nação a vida de milhares de nossos melhores homens e mulheres”. “Não podemos cometer esse erro novamente”, vincou.

Eis o texto de renúncia, na íntegra:

“Após muita reflexão, decidi renunciar ao meu cargo de diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, com efeito imediato. Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irão. O Irão não representava uma ameaça iminente ao nosso país, e está claro que iniciamos esta guerra, devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby americano.

“Apoio os valores e as políticas externas com as quais o senhor [Trump] fez campanha em 2016, [em] 2020 e [em] 2024, e que implementou no seu primeiro mandato. Até junho de 2025, o senhor compreendia que as guerras no Oriente Médio eram armadilha que custou à América as preciosas vidas de nossos compatriotas e drenou a riqueza e a prosperidade da nossa nação. Na sua primeira administração, entendeu, melhor do que qualquer presidente moderno, como aplicar o poder militar, de forma decisiva, sem nos arrastar para guerras intermináveis. O senhor demonstrou isso ao eliminar Qasam Solamani e ao derrotar o ISIS.

“No início desta administração, altos funcionários israelitas e membros influentes dos media [norte-]americanos promoveram uma campanha de desinformação que minou, completamente, a sua plataforma ‘America First’ e incentivou sentimentos pró-guerra, para encorajar um conflito com o Irão. Esse efeito de ‘câmara de eco'’ foi usado para o levar a acreditar que o Irão representava ameaça iminente aos EUA e que, se atacássemos, imediatamente, haveria um caminho claro para uma vitória rápida. Isso era mentira e é a mesma tática que os Israelitas usaram para nos arrastarem para a desastrosa guerra do Iraque, que custou à nossa nação a vida de milhares dos nossos melhores homens e mulheres. Não podemos cometer esse erro, novamente.

“Como veterano que foi enviado ao combate, 11 vezes, e como marido de uma ‘Gold Star’ que perdeu a minha amada esposa, Shannon, numa guerra fabricada por Israel, não posso apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer numa guerra que não traz benefício ao povo americano nem justifica o custo de vidas americanas.

“Rezo para que o senhor reflita sobre o que estamos a fazer no Irão e por quem estamos a fazê-lo. O momento para uma ação corajosa é agora. O senhor pode mudar de rumo e traçar um novo caminho para a nossa nação, ou pode permitir que avancemos, ainda mais, rumo ao declínio e ao caos. A decisão está nas suas mãos.

“Foi uma honra servir na sua administração e servir à nossa grande nação.”

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Antes de Donald Trump falar com jornalistas no Salão Oval, no dia 17, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, respondeu à carta de demissão de Joe Kent, que renunciou ao seu cargo, por discordar da guerra. Em publicação nas redes sociais, Leavitt afirmou que Kent fez “muitas afirmações falsas”, no seu posicionamento. E, sobre a alegação de que “o Irão não representava uma ameaça iminente à nossa nação”, declarou que Trump dispunha de “evidências fortes e convincentes” de possível ataque iraniano contra os EUA. “Essas evidências foram compiladas, a partir de muitas fontes e fatores. O presidente jamais tomaria a decisão de mobilizar recursos militares contra um adversário estrangeiro, isoladamente”, afirmou.

Leavitt observou que o Irão teve “todas as oportunidades possíveis” para recuar das suas ambições nucleares e que o presidente dos EUA determinou que um ataque conjunto com Israel reduziria o risco para as vidas americanas que adviria de um primeiro ataque do regime terrorista iraniano e abordaria a ameaça iminente aos interesses de segurança nacional dos EUA.

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Enfim, Donald Trump reagiu à renúncia de chefe de contraterrorismo dos EUA, que criticou guerra contra o Irão: “Muito fraco em segurança.” “Eu li a sua declaração. […] “Sempre achei que fosse um homem leal, mas sempre achei que era fraco em segurança, muito fraco em segurança. […] Eu não o conhecia bem, mas quando li a sua declaração, percebi que é bom que tenha saído, porque disse que o Irã não era uma ameaça. O Irão era uma ameaça, todos os países perceberam a ameaça que o Irão representava”, perorou o novo dono do Mundo.

O inquilino da Casa Branca persiste, teimosamente, nos seus argumentos e na sua ambição, arriscando pôr em causa a segurança do Mundo inteiro, só porque não quer ouvir a voz prudente de quem sempre esteve com ele (prefere o desdém e o descarte). Ora, não escutar a voz da razão e optar pela mentira pode redundar em tragédia.

2026.03.17 – Louro de Carvalho

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