A
10 de março, o Parlamento Europeu (PE) aprovou, com 367 votos a favor e 166
contra, um relatório que vinca o facto de milhões de cidadãos europeus
enfrentarem habitação precária e apela a ação urgente para fazer face ao
aumento dos custo, à escassez de casas e ao declínio do nível de vida em toda a
União Europeia (UE). E a questão que se levanta é se as instituições europeias têm
vontade política para resolverem a crise da habitação que atravessa todo o
bloco europeu, ante a escassez de casas, o investimento estrangeiro – através de
fundos imobiliários, de alojamento local e de nómadas digitais – e o aumento
dos preços.
Em
toda a UE, não há casas suficientes para satisfazer a procura, especialmente,
nas grandes cidades. Tal situação fez subir os preços dos imóveis e das rendas.
Os peritos estimam que a escassez é da ordem dos milhões e que, em algumas
cidades, as rendas aumentaram mais de 30%, nos últimos anos. A construção de
novas casas é difícil, devido ao custo de construção mais alto, à limitação dos
terrenos e à lentidão dos processos de aprovação. E, na maioria das capitais
europeias, os jovens teriam de ganhar mais do que ganham para comprarem casa, visto
que os preços aumentaram muito mais do que os rendimentos, na última década.
As
plataformas de arrendamento de curta duração dificultam a procura de habitação
de longa duração, em muitas cidades; as propriedades de investimento e as
segundas habitações fazem subir os preços para a população local; os governos
enfrentam pressões para protegerem os inquilinos, para incentivarem novas
construções, para expandirem a habitação social e para atualizarem os edifícios
mais antigos; e a escassez de casas a preços acessíveis dificulta a ascensão
económica das pessoas, a ligação às comunidades e a qualidade de vida.
***
Um
artigo de Leticia Batista Cabanas e de Elisabeth Heinz intitulado “Conheça o
plano recentemente aprovado pela UE para resolver a crise da habitação na
Europa”, publicado pela Euronews, a 24 de março, dando conta de que o PE
adotou o seu primeiro relatório sobre a crise da habitação na UE, sustenta que “o
Plano de Habitação Acessível da UE pretende resolver a crise da habitação na UE,
através de habitação acessível e de boa qualidade”, quando os Europeus
enfrentam os preços crescentes das casas e das rendas, e apela a “ação conjunta
da UE para fazer face à crise da habitação”, retirando os cidadãos de condições
de vida precárias.
Entre
as recomendações do documento, constam a redução da burocracia, o reforço dos
setores da construção e da inovação e a mobilização de investimento e de apoio
fiscal.
Com
a crise financeira mundial de 2008, a habitação tornou-se emergência social
pan-europeia, com significativo agravamento, após a pandemia de 2020. O preço
das casas aumentou 60,5%, em relação a 2015, enquanto as rendas aumentaram 28%.
Em 2025, a taxa de propriedade das pessoas com idades compreendidas entre os 24
e os 35 anos diminuiu 6%, desde 2005, e uma em cada dez pessoas não conseguia
pagar a renda. Ora, a falta de habitação a preços acessíveis também põe em
causa o bom funcionamento do mercado único, comprometendo o crescimento
económico da Europa e a competitividade prometida. Neste sentido, como observam
as articulistas, “o Plano de Habitação Acessível da Comissão é o esforço da UE
para mudar esta narrativa”. Com efeito, ao impulsionar a oferta de habitação, ao
mobilizar investimentos e ao ajudar os cidadãos com mecanismos de apoio
imediato, “o plano orienta e apoia a ação dos estados-membros no sentido de uma
habitação mais acessível”.
Para
comprar casa na UE, os Europeus têm de ganhar o que se ganha na maioria das
grandes cidades. Os rácios preço/rendimento excedem, não raro, oito a 10 anos
de salário bruto, superando os 12 a 15 anos, nas capitais menos acessíveis. Para
arrendar casa, em qualquer cidade de grande procura, os cidadãos gastam cerca
de 30% a 40% do seu rendimento, e uma percentagem crescente de jovens
arrendatários ultrapassa esse limiar. “Em muitos países, os salários não
acompanharam a inflação. Depois, o mercado imobiliário fez subir os preços até
60%, em 10 anos. A culpa não é dos cidadãos. É da falta de políticas públicas,
de atenção e de controlo”, diz a eurodeputada e presidente da Comissão Especial
do PE para a Crise da Habitação, Irene Tinagli.
Os
jovens saem de casa mais tarde, a oferta de habitação social é insuficiente, a
sobrelotação persiste em muitas regiões e o número de sem-abrigo está a
aumentar.
A
percentagem do salário gasta com a renda de casa, nas capitais dos países da UE,
em 2025, é de 116%, em Lisboa; de 74%, em Barcelona e em Madrid; de 72%, em Milão;
de 65%, em Roma; de 62%, em Dublin; de 57%, em Atenas; de 56%, em Varsóvia; de
54%, em Praga; de 52%, em Budapeste; de 50%, em Amesterdão; de 46%, em Estocolmo;
de 45%, em Paris; de 43%, em Copenhaga; de 40%, em Berlim e em Bruxelas; de 37%,
em Viena; de 35%, em Helsínquia; e de 34, no Luxemburgo.
Os
preços ultrapassam o crescimento dos rendimentos, enquanto as rendas são mais
de 20% mais elevadas. A tendência varia consoante os países. Os preços subiram
em partes da Europa de Leste e do Sul, como a Hungria, Portugal e a Lituânia,
enquanto países, como a Finlândia registaram aumentos mais moderados ou até
ligeiras descidas. As cidades da Europa Ocidental e do Norte são das mais caras,
em geral. De facto, há 10 anos, ter casa própria era a norma, o que acontecia
com cerca de 70% dos Europeus, percentagem que desceu para cerca de 68%,
enquanto as taxas de arrendamento subiram para cerca de 32%, o nível mais
elevado dos últimos anos.
A
procura de habitação aumenta, de forma constante, graças à urbanização, ao
crescimento da população nas cidades, à migração na UE, ao aumento de agregados
familiares mais pequenos e à instalação fora da residência originária por motivo
de trabalho. Cada vez mais pessoas competem por habitação nas mesmas zonas
urbanas, enquanto a oferta não acompanha o ritmo. Preços dos terrenos, aumento
dos custos dos materiais e da mão de obra, regras de zonamento rigorosas e
lentidão dos processos de licenciamento tornam a construção lenta e
insuficiente.
Outro
motivo para a crise da habitação é dinâmica financeira e do mercado. E o Banco
Europeu de Investimento (BEI) anota o défice de milhões de casas e os níveis de
construção muito abaixo das necessidades anuais.
Entre
2015 e 2022, uma era de taxas de juro ultrabaixas alimentou o enorme boom
imobiliário, fazendo subir os preços das casas na UE em cerca de 63,6%. Porém o
cenário alterou-se a partir de julho de 2022, quando o Banco Central Europeu (BCE)
aumentou as taxas que levaram a taxa da facilidade de depósito de 0% para o
pico de 4%, em setembro de 2023, o que tornou as hipotecas menos acessíveis,
quase quadruplicando as taxas de juro médias, para novos mutuários, em
comparação com os níveis de 2021. Ora, como dizem as articulistas, as taxas de
hipoteca elevadas encarecem muito a compra de casa, pelo que as pessoas ficam
presas ao arrendamento durante mais tempo, aumenta a concorrência e sobem os
preços das rendas.
Em
cidades, como Madrid e Barcelona, a procura de investimento aumenta a pressão.
Em 2024, os compradores estrangeiros representaram 7% das vendas de casas, em
Madrid, e 14,3%, em Barcelona. Os investidores institucionais e os fundos de
investimento representaram mais de 50% do total do investimento imobiliário. E
o boom do arrendamento de curta duração reduziu a disponibilidade de
habitação de longa duração, em zonas de elevado turismo.
Cada
vez mais pessoas vivem juntas para partilharem o custo da habitação, o que gera
sobrelotação. Cerca de 48% dos jovens entre os 18 e os 34 anos vive com colegas
de quarto, embora mais de metade preferisse estar sozinho. Para evitar esta
situação, muitos adiam a saída da casa de família. As mesmas limitações afetam
a habitação social, que não funciona como rede de segurança. A oferta não
acompanhou a procura, o que resultou em longas listas de espera e no acesso
limitado para as famílias com rendimentos baixos e médios. Muitas cidades
restringem a elegibilidade aos mais vulneráveis, pelo que até os agregados
familiares que trabalham e que não têm acesso ao mercado privado não acedem a
alternativas acessíveis. Além disso, grande parte do parque de habitação social
está envelhecido e a necessitar de renovação, sobretudo, para cumprir as normas
de eficiência energética e de habitabilidade.
Cerca
de 1,28% dos cidadãos da UE vive na rua, em abrigo ou em alojamento temporário.
É um aumento de 30%, em comparação com os níveis de 2019, e um aumento de 70%,
na última década. As pessoas são excluídas do mercado, pelo que o problema não
se limita aos mais vulneráveis, mas afeta, cada vez mais, os trabalhadores e as
famílias que não conseguem habitação estável. A escassez de habitação social e
de serviços de apoio torna difícil as pessoas sem-abrigo terem soluções a longo
prazo.
A
habitação continua a ser competência nacional, o que significa que as ações da
UE só podem complementar as políticas nacionais. Os estados-membros têm a
última palavra, em matéria de rendas, de modelos de habitação social, de regras
de zonamento, de proteção dos inquilinos e de tributação da propriedade. Porém,
de acordo com Elizabeth Kuiper, diretora associada do Centro de Política
Europeia em Bruxelas, a Europa tem ignorado a magnitude da crise, nos últimos
vinte anos, considerando-a apenas um problema nacional.
Para
Kuiper, é fundamental a cooperação, a vários níveis, com as autoridades locais
a desempenharem “um papel mais forte e a apresentarem soluções aos políticos da
UE”. A habitação não é só questão de justiça social, mas também questão
económica pan-europeia. E a UE não pode impor uma política comum de habitação e
regular o mercado da habitação em todo o bloco, mas pode influenciar a
habitação, através de financiamento e de instrumentos jurídicos não
vinculativos, fornecendo orientações e apoiando as ações nacionais, segundo o dinamismo
do princípio da subsidiariedade.
Mais
de 43 mil milhões de euros (€) foram mobilizados para 2021-2027, complementados
por mais 10 mil milhões de euros para 2026-2027. Em abril de 2024, a Comissão Europeia
calculou que 100 mil milhões de euros impulsionarão projetos de renovação da
eficiência energética, em todo o bloco, até 2030. E, no âmbito do Mecanismo de
Recuperação e Resiliência (MRR), 15,1 mil milhões de euros são atribuídos à
habitação social e parte dos 26,2 mil milhões de euros do InvestEU apoia a
renovação de edifícios, com vista à poupança de energia. E parte substancial do
Horizonte Europa (95,5 mil milhões de euros) é investida no acesso seguro,
saudável, económico e sustentável à habitação. Parte do Fundo para uma
Transição Justa (17,5 mil milhões de euros) é afetada a investimentos em
eficiência energética, para reduzir a pobreza energética. E a revisão
intercalar de 2025 dos fundos de coesão (392 mil milhões de euros) duplicou o
montante destinado a uma habitação mais acessível e social.
Embora
não aumentem a oferta de habitação, a Diretiva Desempenho Energético dos
Edifícios e a Diretiva Eficiência Energética ajudam a tornar a habitação mais
acessível, melhoram a eficiência energética, reduzem as faturas de energia e
combatem a pobreza energética.
O
Plano Europeu para a Habitação Acessível (2025) é a principal resposta da
Comissão à crise em quatro pilares: aumento da oferta de habitação; mobilização
de investimentos para impulsionar a digitalização e as oportunidades de
crescimento no setor da renovação; avanço as reformas; e proteção dos mais
vulneráveis. E é reforçado pela revisão das regras, em matéria de auxílios
estatais, para facilitar o apoio financeiro nacional à habitação social e a
preços acessíveis, e pelo pacote “Energia para os cidadãos”, destinado a
combater a pobreza energética.
Embora
a Comissão tenha anunciado a primeira Cimeira da Habitação da UE, para 2026, o
plano será aplicado por uma Aliança Europeia para a Habitação, composta por estados-membros,
por cidades, por regiões, por instituições da UE, por fornecedores de habitação
e por associações da sociedade civil. E, complementando o plano, a Estratégia
Europeia para a Construção de Habitação centra-se no aumento da produtividade e
no combate às ineficiências, no setor da construção. A redução da burocracia, a
maior rapidez na concessão de licenças, as novas ferramentas digitais e a
promoção de métodos de construção modernos são os instrumentos da estratégia
para uma habitação mais acessível.
No
âmbito do Pacto Ecológico Europeu, a Vaga de Renovação (2020) aumenta a
acessibilidade e a sustentabilidade da habitação, reduzindo a despesa de
energia. Dado que 40 milhões de Europeus não podiam pagar o aquecimento, em
2022, o projeto visa duplicar a taxa anual de renovação, atingindo 35 milhões
de renovações de edifícios.
Financiado
pelo programa Horizonte Europa com cerca de 120 milhões de euros, por ano, o
Novo Bauhaus Europeu é o roteiro da Comissão para 2025-2027 para a renovação e
a sustentabilidade da habitação, a fim de impulsionar a oferta e a inclusão
habitacional. Do ponto de vista financeiro, a Comissão e o BEI estão a lançar a
Plataforma de Investimento Pan-Europeia, em parceria com bancos de fomento
nacionais europeus e instituições financeiras internacionais. Ora, os fundos
europeus podem tornar mais eficazes os nacionais, dando garantias públicas,
facilitando a atração de capital privado e direcionando-o para a habitação.
***
A
maioria dos governos europeus concede prestações de habitação no âmbito dos sistemas
de proteção social, mas os níveis de apoio variam, consoante as políticas
nacionais, e abrangem intervenções públicas para ajudar os agregados familiares
a suportarem o custo de habitação, incluindo apoio à renda, habitação social e
prestações para proprietários-ocupantes.
A
habitação representou 1,35% da despesa total em proteção social, na UE, em
2024.
As
prestações de habitação, por pessoa, vão de quase zero, na Bulgária, a 755
euros (€), na Irlanda. Em 31 países, a Finlândia surge em segundo lugar, com
484€, seguida do Reino Unido, com 406 euros. A Dinamarca (375€), a Islândia
(335€), a Alemanha (328€) e a Suíça (327€) também atribuíram mais de 300€, por
pessoa, a prestações de habitação. Os Países Baixos (271€), a França (234€) e a
Suécia (200€) completam o top 10.
A
despesa está entre 100€ e 199€ em três países: Chipre (185€), o Luxemburgo (130€)
e Bélgica (110€). Os outros gastam menos
de 100€, por pessoa. E, entre as cinco maiores economias europeias, a Itália
(13€) e a Espanha (36€) destinam montantes bastante inferiores.
***
Seja
como for, não pode uma pessoa pagar mais de renda de casa do que o seu
rendimento mensal. Renda de 2300€ não é renda moderada. A UE tem de saber fazer
parar o apoio ao grande capital e a especulação, desmitificando as regras do
mercado. Os estados-membros devem apoiar, sobretudo, os cidadãos de magros
recursos, não os ricos. Deus nos livre de que a generalidade dos cidadãos tenha
de fazer valer, na rua, a prevalência dos seus direitos básicos. E a habitação é
um deles, como a alimentação, o vestuário, a saúde, a educação e a proteção social.
2026.03.24 – Louro de Carvalho
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