A
liturgia do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor (último domingo da Quaresma)
inaugura a Semana Santa ou Semana Maior e convida-nos a contemplar o Deus que,
por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa condição humana de
finitude e de limitações, fez-Se servo dos homens, deixou-Se matar para que o
egoísmo e o pecado fossem vencidos. A cruz, que a liturgia deste domingo, logo
a seguir às palmas e oliveiras, coloca no horizonte próximo de Jesus
apresenta-nos a suprema lição do caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos oferece
e propõe: a doação da vida por amor.
***
No
Ano A, são lidas duas passagens do Evangelho de Mateus: a evocação da entrada
triunfal de Jesus em Jerusalém (Mt 21,1-11); e o relato da Paixão e
Morte de Jesus (Mt 26,14 – 27,66).
Na
primeira passagem evangélica, que enquadra a bênção e a procissão dos ramos, os
cantos e o comportamento dos peregrinos chegados a Jerusalém para a Páscoa
testemunham a sua esperança messiânica. Jesus sobe a Jerusalém para Se submeter
à morte. Rodeado pela multidão entusiasta, pondo-lhe as capas para Ele passar e
cortando ramos de palmeira e de oliveira, Jesus avança em silêncio. Ele, “Filho
de David”, mensageiro da paz, rei manso e humilde de coração, vem “em nome do
Senhor”, para que se cumpra o que foi dito pelo profeta” Zacarias, que exorta a
Filha de Sião à alegria e ao júbilo. A sua entrada na Cidade Santa de Jerusalém
prenuncia a sua gloriosa entronização na Jerusalém celeste, onde todos formarão
um só corpo. Quem hoje o seguir no caminho da Páscoa entrará com Ele na única
glória que não acaba, a que provém de Deus e não dos homens.
É
o triunfo modesto e humilde do rei que vem, não para dominar, mas para servir e
dar a vida em resgate pela Humanidade. O seu triunfo terreno é prelúdio de
martírio.
***
A
segunda passagem evangélica, bastante mais longa, culmina a Liturgia Palavra da
Missa, em que as palmas e os aplausos dão lugar à meditação da Paixão do
Senhor. Assim este Evangelho da vida convida-nos a contemplar a paixão e a morte
de Jesus: é o momento supremo de uma vida feita dom e serviço, a fim de
libertar os homens de tudo o que gera egoísmo e escravidão. Na cruz, revela-se
o amor de Deus, que não guarda nada para Si, mas que Se faz dom total.
A
morte de Jesus tem de ser entendida no contexto da sua vida. Desde cedo, Jesus
apercebeu-Se de que o Pai O chamava a uma missão: anunciar o Mundo novo, de
justiça, de paz e de amor para todos. Para concretizar este desígnio, Jesus
passou pelos caminhos da Palestina “fazendo o bem” e anunciando a proximidade
de um Mundo novo, de vida, de liberdade, de paz e de amor para todos. Ensinou
que Deus é amor e que não exclui ninguém, nem mesmo os pecadores; ensinou que
os leprosos, os paralíticos, surdos-mudos, os cegos, não podem ser
marginalizados, pois não são amaldiçoados por Deus; ensinou que são os
estrangeiros, as mulheres, as crianças, os pastores, os publicanos, os pobres e
os excluídos os preferidos de Deus e aqueles que têm um coração mais disponível
para acolher o “Reino”; e avisou os “ricos” (os poderosos, os instalados), de
que o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, o fechamento só podiam conduzir à
morte. Por conseguinte, o seu projeto libertador entrou em choque – como era
inevitável – com a atmosfera de egoísmo, de má vontade, de opressão que
dominava o Mundo. As autoridades políticas e religiosas sentiram-se incomodadas
com a denúncia: não estavam dispostas a renunciar a esses mecanismos que lhes
asseguravam poder, influência, domínio, privilégios; não estavam dispostas a
arriscar, a desinstalar-se e a aceitar a conversão proposta por Jesus. Por
isso, prenderam Jesus, julgaram-No, condenaram-No e pregaram-No numa cruz.
Na
cruz, tida como patíbulo da infâmia e da escravidão, surge o Homem Novo, o
protótipo do homem que ama radicalmente e que faz da sua vida um dom para
todos. Porque ama, este Homem Novo assume como missão a luta contra o pecado,
cujo escopo final é o arrependimento e o perdão. Isto vai contra todas as
causas objetivas que geram medo, injustiça, sofrimento, exploração e morte.
Assim, a cruz mantém o dinamismo de um mundo novo – o dinamismo do Reino e
transmuta-se em trono de libertação e de redenção, a vitória da liberdade a que
os homens são chamados.
O
sentido geral da paixão e morte de Jesus é explicitado por Ele próprio, na ceia
pascal, aos discípulos: o pão abençoado e repartido que são instados a comer
todos é o Corpo do Senhor entregue por nós; e o vinho abençoado, doado a cada
um e derramado por todos é o sangue da Aliança que persiste até ao fim dos
tempos.
Contudo,
convém notar alguns dados que são exclusivos da versão mateana da paixão.
Ao
longo do relato, Mateus insiste no facto de os acontecimentos estarem
relacionados com o cumprimento das Escrituras. Mesmo quando não refere,
explicitamente, o cumprimento das Escrituras, o evangelista liga os
acontecimentos da paixão de Jesus com figuras e com factos do Antigo
Testamento, a fim de demonstrar que a paixão e morte de Jesus faz parte do desígnio
do Pai, previsto desde sempre. A explicação para esta insistência no
cumprimento das Escrituras deve ser buscada no seguinte facto: Mateus escreve
para cristãos que vêm do judaísmo. Portanto, faz referência a citações e a promessas
do Antigo Testamento – conhecidas de cor por todos os judeus –, a fim de
demonstrar que Jesus era esse Messias anunciado pelos profetas e cujo destino
passava pelo dom da vida.
É
certo que também Marcos e Lucas contam como, no Getsémani, na altura em que
Jesus foi preso, um dos elementos do grupo de Jesus agrediu com uma espada um
servo do sumo sacerdote. No entanto, só Mateus apresenta Jesus a condenar,
explicitamente, o gesto, explicando que o projeto do Pai não passa pela
violência, mesmo contra os agressores. Efetivamente, o caminho do Pai passa
pelo amor e pelo dom da vida. Portanto, os discípulos não podem recorrer à
violência, mesmo que se trate de defender uma causa justa. Este ensinamento
tem, neste contexto, uma força especial: é quando Jesus é vítima inocente da
violência que Ele afirma, de forma clara, a recusa absoluta da violência: o
Reino de Deus nunca passará por esquemas de violência, de imposição, de poder e
de prepotência. Na lógica do Reino, os fins nunca justificarão os meios – um
princípio que a Igreja histórica nem sempre assumiu, antes contrariou. E, ainda
hoje, restam laivos de poderio e absolutismo eclesiástico, a par do esforço da
sinodalidade.
Só
no Evangelho de Mateus aparece o relato da morte de Judas, embora haja uma
outra versão do acontecimento nos atos dos Apóstolos. O episódio deixa clara a
iniquidade do processo e a inocência de Jesus. A forma como Mateus sublinha o
desespero e o arrependimento de Judas deixa clara a inocência de Jesus, por um
lado e, por outro, o desnorte dos responsáveis pelo processo, empenhados em
“sacudir a água do capote” e em declinar responsabilidades.
São
exclusivos de Mateus o sonho da mulher de Pilatos e a lavagem das mãos por
parte do procurador romano. São pormenores que aparecem aqui com uma dupla
finalidade: deixar claro que Jesus é inocente e que os próprios romanos
reconhecem o facto; e clarificar que não foi o império romano, mas o próprio
judaísmo que rejeitou Jesus e a sua proposta de Reino. Os pagãos reconhecem a
inocência de Jesus, mas o seu próprio Povo rejeita-O. A frase que, no contexto
do julgamento de Jesus, Mateus atribui ao Povo (“o seu sangue caia sobre nós e
sobre os nossos filhos”) deve ser entendida neste enquadramento. Mateus explica,
dessa forma, aos cristãos que vêm do judaísmo, porque é que o judaísmo como
conjunto está fora do Reino. O judaísmo rejeitou Jesus e quis eliminar a sua
proposta.
Também
é exclusiva o antigo cobrador de impostos a descrição dos factos que
acompanharam a morte de Jesus: “O véu do Templo rasgou-se em duas partes, de
alto a baixo; a Terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e
muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do
sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade e apareceram a
muitos”. Através destes elementos, Mateus sublinha a importância do momento. É
o tipo de sinais que, segundo a tradição apocalíptica, precederiam a
manifestação de Deus, no final dos tempos. Estes sinais mostram que, apesar do
aparente fracasso de Jesus, Deus está ali, a manifestar-Se como o salvador e
libertador do seu Povo.
Por
fim, só Mateus narra o episódio da guarda do sepulcro. Provavelmente, o relato
tem uma finalidade apologética. Para os cristãos, o sepulcro vazio era a
evidência de que Jesus tinha ressuscitado; mas alguns grupos judeus puseram a
circular o rumor de que o corpo de Jesus tinha sido roubado pelos discípulos.
Mateus explica a origem do rumor e nega-o veementemente.
***
A
primeira leitura (Is 50,4-7) apresenta-nos um profeta anónimo, chamado
por Deus a testemunhar no meio das nações a Palavra da salvação. Apesar da
perseguição e do sofrimento, ele confiou em Deus e concretizou, com persistente
fidelidade, o desígnio de Deus. Os primeiros cristãos viram neste servo a
figura de Jesus.
Ele
não se intitula profeta, mas narra a sua vocação com os elementos típicos dos
relatos proféticos de vocação.
Primeiro,
a missão que recebe de Deus tem a ver com o anúncio da Palavra. Ora, o profeta
é o homem da Palavra, é aquele através de quem Deus fala; a proposta de
redenção que Deus faz a todos os que necessitam de salvação/libertação ecoa na
palavra profética. O profeta é inteiramente modelado por Deus e não opõe
resistência nem ao chamamento, nem à Palavra que Deus lhe confia; mas tem de
estar, continuamente, em atitude de escuta de Deus, para que, depois, apresente
– com fidelidade – essa Palavra de Deus para os homens.
Segundo,
a missão profética concretiza-se no sofrimento e na dor. É um tema assaz conhecido
da literatura profética: o anúncio das propostas de Deus provoca resistências
que, para o profeta, se consubstanciam, quase sempre, em dor e em perseguição.
No entanto, o profeta não se demite: a paixão pela Palavra sobrepõe-se ao
sofrimento.
Terceiro,
vem a expressão de confiança no Senhor, que não abandona aqueles que chama. A
certeza de que não está só, mas de que tem a força de Deus, torna o profeta
mais forte do que a dor, o sofrimento, a perseguição. Por isso, o profeta “não
será confundido”.
***
A
segunda leitura (Fl 2,6-11) é um hino da Igreja primitiva (ou um trecho
dele) em que surge, para nós, o exemplo de Cristo, que, avesso ao orgulho e à arrogância,
prescindiu da prevalência da condição divina, para escolher a obediência ao Pai
e o serviço aos homens, até ao dom da vida. É esse caminho de vida que a
Palavra de Deus nos propõe.
Cristo
Jesus – nomeado no princípio, no meio e no fim – constitui o motivo do hino.
Dado que os Filipenses são cristãos e visto que Jesus Cristo é o protótipo a
cuja imagem estão configurados – têm a iniludível obrigação de comportar-se
como Cristo.
E
o exemplo de Cristo está patente no hino. O hino começa por aludir, subtilmente,
ao contraste entre Adão (o homem que reivindicou ser como Deus e Lhe
desobedeceu) e Cristo (o Homem Novo que, ao orgulho e revolta de Adão responde
com a humildade e a obediência ao Pai). A atitude de Adão trouxe fracasso e
morte; a atitude de Jesus trouxe exaltação e vida.
Em
traços precisos, o hino define o “despojamento” (“kenosis”) de Cristo: Ele não
afirmou, com arrogância e orgulho, a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se
homem, assumindo, com humildade, a condição humana, para servir, para dar a
vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Não deixou de
ser Deus, mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para
garantir vida nova para os homens. Esse abaixamento assumiu foros de escândalo:
Jesus aceitou uma morte infamante – a morte de cruz – para nos ensinar a
suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total da vida.
Porém,
a completa entrega ao plano do Pai não foi perda nem fracasso: a obediência e
entrega de Cristo à vontade do Pai resultaram em ressurreição e glória. Em
consequência da sua obediência, do seu amor, da sua entrega, Deus fez d’Ele o
“Kýrios” (“Senhor” – nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome
impronunciável de Deus); e a Humanidade inteira (“os Céus, a Terra e os Infernos”)
reconhece Jesus como “o Senhor” que reina sobre toda a Terra e que preside à História.
É óbvio o apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida, que Paulo faz
aos Filipenses e a todos os crentes: o cristão deve ter como exemplo esse
Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos. Esse
caminho não levará ao aniquilamento, mas à glória, à vida plena.
***
É
bom é útil ver Jesus sentir o “abandono” da parte do Pai, que deu azo ao
escarnecimento que todos votaram ao Crucificado. Em contraponto é salutar ouvir
o seu propósito de falar do Pai na assembleia e exortar à exultação e à
glorificação de Deus, por parte de todos os seus filhos.
“Meu
Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”
“Matilhas
de cães me rodearam, / cercou-me um bando de malfeitores. / Trespassaram as
minhas mãos e os meus pés, / posso contar todos os meus ossos.
“Repartiram
entre si as minhas vestes / e deitaram sortes sobre a minha túnica. / Mas Vós,
Senhor, não Vos afasteis de mim, / sois a minha força, apressai-Vos a
socorrer-me.
“Hei
de falar do vosso nome aos meus irmãos, / hei de louvar-Vos no meio da
assembleia. / Vós, que temeis o Senhor, louvai-O, / glorificai-O, vós todos os
filhos de Jacob, / reverenciai-O, vós todos os filhos de Israel.”
***
Por
tudo isto, os crentes louvam o Senhor, o Cristo, e assumem, gloriosamente, o
seu reinado.
“Louvor
e glória a Vós, Jesus Cristo, Senhor.”
“Cristo
obedeceu até à morte e morte de cruz. / Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um
nome que está acima de todos os nomes.”
2026.03.30
– Louro de Carvalho
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