segunda-feira, 30 de março de 2026

Alguns equívocos do 25.º Congresso Nacional do PS

 

Decorreu, entre 27 e 29 de março, em Viseu, o 25.º Congresso Nacional do Partido Socialista (PS) com o mote: “Avançamos todos.” E a prova de vida do partido surgiu, quando o seu recém-reeleito secretário-geral, José Luís Carneiro, lembrou que assumiu a liderança num “momento difícil”, em que “muitos questionavam” o “futuro” e viam o PS “em declínio”.

O líder aludia ao resultado das eleições legislativas de maio de 2025, quando, pela primeira vez, em democracia, a bancada socialista foi atirada para o terceiro lugar no hemiciclo da Assembleia da República (AR), com 58 deputados, tendo o partido do Chega obtido o segundo lugar, com 60 deputados, que têm influenciado a governação de Luís Montenegro, presidente do Partido Social Democrata (PSD), que lidera a coligação com o partido do Centro Democrático Social (CDS), denominada Aliança Democrática (AD), que não tem maioria parlamentar.

O tom comum das diferentes intervenções dos congressistas, alguns na pele de ex-governantes, foi a afirmação da serenidade com que o PS respondeu à crise, na unidade, na responsabilidade e no trabalho. Com efeito, no dizer dos militantes presentes no órgão máximo do partido, da unidade “nasce a esperança”, que permite alcançar os objetivos de reconquista da confiança dos Portugueses e da união de um partido que pretende “governar o país”, o que implica, para isso acontecer, que saiba “unir-se a si próprio”.

Sustentando a ideia de que o partido que lidera é a “grande expressão da pluralidade, da diversidade”, que é o que lhe dá força, José Luís Carneiro, enquanto mostrava provas de vida do PS, lembrou que, na últimas eleições autárquicas, em outubro de 2025, os socialistas confirmaram “essa grande força das nossas ideias do poder local”.

A ideia de justificar o equilíbrio dos resultados das eleições legislativas com os resultados das autárquicas e das presidenciais, vincada no arranque do Congresso, pelo secretário-geral, tinha sido anotada, antes da intervenção de Carlos César, presidente do partido, por Armando Mourisco, líder da Federação Distrital de Viseu, a anfitriã da reunião magna do PS.

Grosso modo, o Congresso atingiu os seus objetivos, como eleger os órgãos internos do partido, como a Comissão Nacional, que foi eleita com 88,9% de votos favoráveis e com a taxa de renovação de 50,2%, entre os 251 membros que a compõem. E reafirmou Carlos César como presidente do PS, que, na intervenção que assinalou esse momento, sustentou que o PS foi o partido de oposição mais escolhido pelos eleitores (?), nas eleições autárquicas, “confinando a extrema-direita a uma representação irrisória na administração local”.

A reforçar a ideia de esperança, César lembrou que as eleições presidenciais apoiaram, “no tempo e no modo adequados, o candidato que se apresentou vindo da esquerda democrática, cuja vitória pessoal é também uma vitória dos democratas e uma vitória” para os socialistas. Porém, as sombras do PSD e do Chega foram afastadas e evocadas, ao mesmo tempo.

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José Luís Carneiro, logo na abertura, não olvidou o bloqueio na eleição dos juízes para o Tribunal Constitucional (TC), que era, até agora, decidida entre o PS e o PSD. Todavia, com o chega em segundo lugar na AR, a negociação é diferente e esteve presente no Congresso. “Cabe ao governo decidir se quer a via da moderação, em que poderá contar connosco, ou se prefere capitular perante a demagogia e o populismo”, alertou o líder do PS, vincando que é tempo de se exigir à AD que se decida. Dito de outro modo, a AD deve optar se pretende manter “o muro de silêncio” com que recebe os contributos socialistas e pactuar com a extrema-direita, ou abrir-se a convergências moderadas com o PS, que “é responsável e é firme”. “Há linhas que não se negoceiam, a Constituição não se relativiza e a democracia não se instrumentaliza”, defendeu José Luís Carneiro, antes de avisar: “Se tentarem desfigurar os equilíbrios do nosso sistema democrático, começando por tentar desequilibrar o Tribunal Constitucional, ouvirão da nossa parte um rotundo não. […] Não por cálculo partidário, mas por dever democrático.”

Alexandra Leitão, vereadora na Câmara de Lisboa e ex-líder parlamentar do PS, diagnosticou a estratégia da direita, que passa por “acantonar o PS na extrema-esquerda e [por] condicionar a sua atuação”. Por outro lado, em modo de ataque, a antiga ministra da Modernização do Estado e da Administração acusou o PSD de “queimar pontes com o PS” e de “fazer pontes com o Chega”, esquecendo que os resultados das últimas legislativas mostram que uma larga maioria de eleitores defende a Constituição.

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A novidade da organização do Congresso foi um espaço alternativo aberto a não militantes onde decorreram debates sobre habitação, saúde e economia. Os oradores congressistas elogiaram a iniciativa, mas pressionaram o PS a ser “consequente” com os contributos.

O secretário-geral, no segundo dia, ao chegar ao Pavilhão Multiusos de Viseu, dirigiu-se, primeiro, não ao palco, mas à “Oficina do Futuro”, onde os socialistas organizaram atividades abertas a não militantes. Aí, aplaudiu a intervenção de Helena Roseta, ouviu a posição de Mariana Vieira da Silva sobre saúde e visitou o “Espaço Criança”, onde se liam, nos desenhos de uma menina de oito anos, títulos, como “o Mundo pode acabar” ou “pode morrer preso ou na guerra”. Foi assim que o tema da política internacional e do papel da União Europeia (UE) entrou no congresso. José Luís Carneiro defendeu uma Europa “mais forte, em termos de defesa e segurança”, e capaz de “reafirmar as alianças fundamentais”. Porém, concluiu que a divisão, o extremismo, a demagogia e o populismo levam à guerra e ao conflito, pelo que, para se construir a paz e a segurança coletiva, há que “dar prioridade aos valores constitucionais”.

Foi do outro lado do palco onde os delegados ao Congresso fizeram as suas intervenções que decorreu esta programação alternativa aberta a não militantes. O escopo era mostrar um partido moderno não “voltado para dentro”, mas aberto a contributos da sociedade civil. Contudo, houve atividades com mais sucesso do que outras. “Este side-event permite mais proximidade entre os militantes, os simpatizantes e os dirigentes socialistas. Os políticos têm muita tendência de falar para a bolha [política e mediática]. Mas só abrindo o partido é que o partido fica mais preparado para ter um projeto de sociedade”, declarou Francisco César, presidente da Comissão Organizadora do Congresso, sustentando que este espaço pode ser “ponto de partida interessante” para os Estados Gerais que o PS quer lançar, como pensou Pedro Nuno Santos.

Estas atividades arrancaram em pleno, no segundo dia do Congresso, com a manhã preenchida com debates sobre temas, como a habitação, a economia e a educação – por vezes a decorrer em simultâneo. Helena Sardinha Pereira foi uma das oradoras convidadas por José Luís Carneiro para falar de educação, num painel partilhado com nomes, como António Costa Silva, ex-ministro da Economia e do Mar. “Não sou militante, sou professora, mas dei os parabéns pela iniciativa, porque considero que é necessária esta aproximação à sociedade civil, às pessoas como eu, que estão no terreno”, vincou, no fim do seu painel.

Nos sete minutos que teve para intervir, a professora que leciona no Barreiro apresentou uma proposta que resultou da auscultação dos seus colegas professores: a criação de um ano zero obrigatório para alunos estrangeiros que não dominam a língua portuguesa, “para, depois, serem integrados em turmas e fazerem o percurso como os outros”. “Isso é integração”, sublinhou a professora, esperando que as ideias não caiam no vazio.

As expetativas são partilhadas por outros oradores, como Maria do Rosário Gama, presidente da APRe! - Aposentados, Pensionistas e Reformados, uma das associações que discursaram, na parte da tarde. À cabeça está o projeto europeu de litigância estratégica, em que a APRe! está envolvida, que tenta levar aos tribunais questões discriminatórias da população idosa.

Os participantes eram convidados a escrever perguntas durantes os debates para serem respondidas pelos dirigentes do PS. Tanto Helena Sardinha Pereira como Maria do Rosário Gama identificam os mesmos problemas técnicos, como o ruído de dois painéis a decorrer em simultâneo, nas costas um do outro. Para já, só a preocupação com o impacto das suas palavras parece ter sido salvaguardada pelo responsável do congresso. “Estas reuniões são todas gravadas, resumidas e acrescentam àquela que é a posição do PS”, garantiu Francisco César.

Se os debates tiveram mais ou menos plateia, conforme o tema ou o horário, houve atividades vazias, praticamente todo o dia. Foi o caso do open-mic, um microfone aberto colocado num canto para os participantes falarem “sem moderador nem guião”, lê-se no site do congresso. À exceção de quatro ou cinco pessoas que intervieram, o espaço serviu para algumas pessoas descansarem as pernas. Também o “muro das ideias”, onde os participantes foram convidados a colar papéis post-it com “sugestões, críticas e propostas”, começou com cinco colagens e acabou o dia com pouco mais. Em sentido oposto, a photobooth foi uma das atrações mais bem-sucedidas com utilizadores uns atrás dos outros. Já os encontros com dirigentes socialistas, quase em versão speed dating, foram adiados para o último dia, por motivos de agenda.

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Na abertura do Congresso, o líder do PS fez o discurso de combate à direita. Ao invés, no fim, apresentou o partido como alternativa. Em consequência, em setembro, lançará a preparação de novo programa eleitoral, mas, no imediato avançou com propostas a levar à discussão, em vez de as enviar ao governo, que não responde. Assim, considerando que, até 2035, Portugal deve convergir com a média salarial europeia e atingir a meta de investir 3% do produto interno bruto (PIB) em investigação e em desenvolvimento, sustenta que as empresas devem receber “incentivos equivalentes às receitas de impostos obtidas pelo Estado por via do aumento real dos salários”. E, para “criar mais e melhor emprego”, propõe para as empresas:

* um programa de apoio à qualificação, dinamização e modernização do pequeno comércio, com apoios majorados no interior do país, a par de um programa de racionalização de taxas e de simplificação administrativa, para reduzir os custos de contexto das empresas;

* redução fiscal mais incentivadora do investimento empresarial no reforço e na qualificação das PME, que representam mais de 96% das empresas portuguesas, na área da inovação, da incorporação tecnológica e da valorização salarial;

* criação de pactos estratégicos para a competitividade empresarial, que promovam a capitalização, a incorporação tecnológica e o conhecimento científico no processo produtivo e a internacionalização, apostando em setores com potencial de competitividade global.

A fim de garantir, “no prazo de dez anos, acesso universal a habitação condigna”, pretende a “estratégia nacional” de aumento significativo do parque público de habitação acessível”, propondo, para já, medidas fiscais, como isenções de imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS) e de imposto sobre o rendimento das pessoas coletivas (IRC), para contratos com rendas acessíveis, e garantia de que 20% das rendas acessíveis fique abaixo da mediana do mercado; e isenção de imposto sobre as mais-valias, na alienação de imóveis destinados a alojamento certo e permanente.

No quadro da política de Juventude, considerando que há “140 mil jovens que não estudam nem trabalham”, propõe “um programa ambicioso de ‘Autonomia Jovem’, que combina habitação acessível, emprego qualificado e formação contínua”, bem como a “criação de mais residências acessíveis para estudantes do ensino superior” e “programas de intercâmbio que conectem os jovens ao Mundo, mas com raízes firmes em Portugal”.

Quanto à Justiça, apresentará, até ao fim de maio, “a sua visão para a reforma, em concreto, do setor da Justiça” e propor “o reforço imediato dos meios utilizados na Estratégia Nacional Anticorrupção”, aprovada por um governo do PS, que envolveu a criação do Mecanismo Nacional Anticorrupção (MNAC).

Na Saúde, José Luís Carneiro promete a “formulação de medidas ousadas e inovadoras” que garantam três princípios: acesso da pessoa necessitada ao contínuo de cuidados, rede de prestação de cuidados muito mais densa e diversificada e repartição de custos, de modo a garantir a acessibilidade de todos. Além disso, recupera a proposta que fizera, numa das cartas enviadas ao primeiro-ministro, de criação de uma “unidade de coordenação e gestão da emergência pré-hospitalar” e defende “forte investimento nos cuidados domiciliários, assim como propõe que os cuidados primários sejam o coração do Serviço Nacional de Saúde (SNS), que exige reforço da saúde pública, dos cuidados preventivos e da oferta de especialidades, de forma a melhorar o acesso, a segurança, a previsibilidade e a qualidade do SNS.

No âmbito da pobreza, urge combater a pobreza energética e a pobreza infantil: a primeira, com a reabilitação energética de 80% das habitações vulneráveis, no prazo de 10 anos; e a segunda, para acabar até 2035, alinhando com a Estratégia Europeia Antipobreza.

No quadro da Função pública, urge uma profunda reforma que valorize os trabalhadores, através da atualização das carreiras e da revisão dos sistemas de avaliação, da implementação de uma “nova geração de SIMPLEX-IA, recorrendo à inteligência artificial (IA) para eliminar a burocracia rotineira”, e da implementação de um modelo de atendimento integrado”.

A nível do Ambiente, o PS quer o ‘Pacto Verde para Portugal’, que compatibilize as metas ambientais e climáticas com a competitividade económica e reduza a dependência energética.

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O PS está vivo, mas os eleitores não o escolheram nas eleições autárquicas; e o encostamento à direita do chega, nessas eleições, não foi tão insignificante como parece. As eleições legislativas não concluíram que o eleitorado quer a Constituição; e as presidenciais não foram a vitória do PS, que apoiou o seu (?) candidato de forma ambígua, mas foram a vitória contra os novos Messias, que se perderam em disputas pessoais e em ideias inconsistentes e, na segunda volta, a vitória foi da moderação contra um radicalismo nefasto.  

Sem que isso conste dos programas eleitoral e de governo da AD, como sucedeu com as leis da emigração e da nacionalidade e com as leis laborais, a AD, o Chega e a Iniciativa Liberal (IL) preparam-se para descaraterizar a Constituição; e o PS ou capitaneia o movimento de prevenção e de combate a tal projeto ou é cúmplice da negação dos valores de Abril.

As propostas devem deixar o formato de PowerPoint e passar a projetos de lei.

O PS não explicou ao eleitorado como desbaratou a maioria absoluta com “casos e casinhos” (que não aponta à AD) e com o combate do ex-chefe de Estado e do topo do Ministério Público. Não se demarcou da suposta governação atrabiliária (e do que a originou) de José Sócrates (que não governou sozinho), nem explicou os reais motivos das três ajudas financeiras externas, bem como os responsáveis efetivos. Não fez contas aos custos da revolução e da reintegração de mais de 500 mil regressados das colónias, às razões da demissão do governo de Pinto Balsemão; à magnitude da crise mundial de 2008; e à receita para a sua debelação dada pela Comissão Europeia, liderada por Durão Barroso. O PS deve assumir as suas culpas, mas apenas as suas.

O PS tem o deve fazer esta autocrítica e apresentá-la ao eleitorado!

2026.03.29 – Louro de Carvalho

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