sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Reforma energética da UE prevê cortes seletivos e reduções de consumo

 

A Comissão Europeia está a preparar significativa reforma no sistema de segurança energética, para centralizar e para coordenar as regras das tarifas da rede elétrica, a nível comunitário, bem como para estipular ajustes obrigatórios no consumo de eletricidade e de gás, em tempos de crise, podendo ocorrer, em situações específicas, cortes seletivos de eletricidade e reduções obrigatórias de consumo, em algumas regiões.

A proposta do executivo da União Europeia (UE) visa unificar as regras de segurança energética dos estados-membros. O El Economista vinca a intenção de fortalecer a resposta conjunta a problemas, como crises de abastecimento, sabotagens e ciberataques. E o regulamento unificará normas anteriores da segurança de abastecimento de gás e da preparação para riscos elétricos, abordando a falta de coordenação entre sistemas interligados. De facto, o gás é crucial na flexibilidade na produção de eletricidade, que é vital para infraestruturas de gás.

Uma ferramenta essencial será o “EU Alert”, um alerta regional ou europeu que Bruxelas poderá ativar, face a riscos substanciais, no setor elétrico, mesmo sem necessidade imediata de medidas extraordinárias. E, após consulta ao Grupo de Coordenação da Eletricidade, a Comissão poderá implementar reduções obrigatórias de consumo (que não serão uniformes para todos os países), definindo a proporção, as áreas afetadas e a duração.

Bruxelas usa períodos equivalentes dos cinco anos anteriores como base, ajustando-se a aumentos significativos na eletrificação ou a padrões de consumo atípicos, devendo os estados-membros reportar dados mensais ao Eurostat e justificar as suas medidas.

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Entretanto, os governos dos estados-membros pretendem travar ou suavizar a proposta que daria a Bruxelas mais controlo sobre a rede elétrica do bloco, preferindo manter, nas suas mãos, a forma como as redes de eletricidade são financiadas e geridas.

Estão, pois, em curso, em Bruxelas, numa altura em que a eletricidade passa para o centro da estratégia económica europeia, decisões políticas sobre quem pagará a modernização da rede elétrica do bloco, uma etapa crucial para cumprir a meta de neutralidade climática da UE, em 2050. Efetivamente, a UE quer que famílias e empresas substituam os combustíveis fósseis por eletricidade, esperando que a indústria, os centros de dados, as bombas de calor e os veículos elétricos impulsionem a procura. Todavia, o custo de expandir e de operar as redes de energia reflete-se, cada vez mais, nas faturas de eletricidade.

Em conjunto, as tarifas e os impostos superam, muitas vezes, o preço da eletricidade consumida. Segundo dados da UE, os encargos de rede representam 27% das faturas de eletricidade das famílias e 21% das empresas, enquanto os impostos e taxas nacionais adicionam mais 24% às faturas domésticas e 16% às das empresas. Assim, as faturas de eletricidade em alta na Europa levaram a Comissão a propor, em julho, novas regras para reduzir os custos da energia numa crise crescente desencadeada pelo encerramento do estreito de Ormuz, e a gizar um plano de eletrificação que estabelece, para a UE, a meta de 46%, até 2040.

A presidência irlandesa – a presidência rotativa do Conselho da UE – mantém a ambição da Comissão de tornar a eletricidade mais barata e fácil de adotar e dá margem aos governos nacionais e aos reguladores para decidirem as regras de funcionamento, na prática.

Responsável por mediar as negociações entre a Comissão, o Conselho e o Parlamento Europeu (PE), a presidência irlandesa propõe ampla revisão das tarifas de rede, exigindo estruturas tarifárias que induzam os consumidores a reduzir a procura, nas horas de ponta, a deslocar consumos para outros períodos e a considerar a localização das novas ligações. Porém, as conversações preparatórias, de 23 de setembro, entre os embaixadores da UE, indicam que os governos resistem a transformar tais instrumentos em exigências uniformes para todos.

“As regras relativas à aplicação de uma metodologia de tarifa de referência para a eletricidade devem permitir que as autoridades reguladoras se afastem dessa metodologia de referência, em casos devidamente justificados”, reza um documento do Conselho.

A Polónia, a Itália, a Chéquia, o Luxemburgo, a Lituânia e a Letónia querem que os reguladores utilizem instrumentos, como eletricidade mais barata, fora das horas de ponta, ou incentivos para localizar novos projetos onde a rede tenha capacidade disponível, apenas quando for adequado ao sistema elétrico de cada país, em vez de impor tais regras a toda a UE. Por sua vez, a Espanha, os Países Baixos, a Suécia e Chipre levantaram reservas maiores, quanto à eficácia e às possíveis consequências sociais destes instrumentos e medidas.

Francesco Sassi, professor auxiliar na Universidade de Oslo, em declarações à Euronews, disse que o controlo centralizado por parte da Comissão poderia “contribuir para reduzir o isolamento da Península Ibérica ou [para] impulsionar mais investimentos em interligações de energia com baixas emissões de carbono, na Europa de Leste e no Sudeste europeu”. “Estes países mostram incómodo crescente em ceder poder a Bruxelas, numa segunda crise energética, sob a presidência de Ursula von der Leyen, e perante choques de mercado sucessivos que a Comissão Europeia parece incapaz de controlar”, vincou o professor.

Para a Comissão, regras comuns são uma forma de tornar mais transparente e eficiente o fragmentado mercado elétrico europeu. Contudo, os países da UE resistem a qualquer medida que os obrigue a redesenhar sistemas tarifários nacionais que refletem redes, estruturas industriais e perfis de consumo muito diferentes. O ponto de conflito mais claro é a disposição que permitiria à Comissão estabelecer uma estrutura comum e uma metodologia de referência para as tarifas de eletricidade, ao que a presidência irlandesa responde, frisando que tal serviria para “harmonizar a metodologia”, não as tarifas em si, e que os reguladores nacionais podiam afastar‑se da abordagem de referência, quando houvesse justificação. Porém, vários estados‑membros continuam insatisfeitos. Por exemplo, a França, a Alemanha, a Itália, a Polónia, a Finlândia, a Espanha e os Países Baixos querem que os poderes da Comissão sejam reduzidos ou eliminados, pois a preferência que está a emergir é por orientações, não por abordagem vinculativa.

A decisão dependerá de como são distribuídos os custos da transição energética da UE. “O grande tema que ninguém quer discutir, diretamente, preferindo debater a tecnoeconomia aplicada aos sistemas de rede, ao controlo da rede, às interligações e às tarifas, é que a natureza destas questões é intrinsecamente política e geopolítica”, observou Sassi.

A dimensão política torna‑se mais evidente, quando se trata de novas ligações à rede. A UE enfrenta filas cada vez maiores para acesso à rede, à medida que fábricas, projetos de energias renováveis, centros de dados e outros investimentos intensivos em eletricidade competem por uma capacidade limitada. As regras propostas permitirão que os países da UE estabeleçam prioridades, quando não houver espaço suficiente na rede. E o compromisso mais recente reforça o papel dos estados‑membros na definição da orientação política geral, deixando aos reguladores a liberdade de aplicar as regras.

Um grupo de países – que inclui a Alemanha, a França, a Espanha, Portugal, a Polónia, a Suécia, a Dinamarca, a Finlândia, a Bélgica, a Lituânia e a Letónia – apoia, em termos gerais, dar aos governos um papel mais forte. Estes países defendem que decidir que projetos que recebem capacidade de rede escassa não é apenas exercício técnico, mas implica escolhas políticas na competitividade industrial, na segurança energética e nas prioridades sociais. E a Comissão pensa que definir critérios técnicos e tarifas de rede é uma tarefa regulatória.

A Dinamarca anunciou uma lei de emergência sobre a rede que atribui aos centros de dados a prioridade mais baixa para ligações à rede, depois de Copenhaga ter sido obrigada a travar novas ligações, no início do ano, devido à vaga de pedidos de centros de dados. E vários países da UE receiam que a rápida expansão dos centros de dados, cuja capacidade Bruxelas quer triplicar, até 2035, como parte do esforço para reduzir a dependência dos gigantes tecnológicos e para desenvolver capacidades próprias de inteligência artificial (IA), na Europa, sobrecarregue as redes elétricas e faça subir os preços da energia para os consumidores.

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Para o diretor executivo da Agência Internacional da Energia (AIE), Fatih Birol, investir na eletrificação dos transportes e da indústria pesada é a estratégia energética adequada, se a UE quer preservar a sua soberania económica e reanimar setores industriais em dificuldades. “Podemos produzir eletricidade, a partir de renováveis, energia nuclear e talvez gás natural, e devemos eletrificar as nossas economias, tanto quanto possível, defende Birol, apelando a uma transição dos combustíveis fósseis para uma economia baseada na eletricidade.

Tais declarações surgiram, em fins de maio, quando a UE passou a enfrentar uma crise energética cada vez mais grave, agravada pelo conflito dos Estados Unidos da América (EUA) com o Irão e pelo encerramento do estreito de Ormuz, rota marítima crucial por onde transita cerca de 20% das exportações mundiais de petróleo e de gás. Tal perturbação fez disparar as faturas de energia das famílias e aumentou a pressão na indústria pesada, que já enfrentava altos preços da eletricidade e competitividade em queda. E os industriais avisam que a escalada dos custos de produção obrigará ao encerramento generalizado de unidades.

Em linha com as recomendações da AIE, os líderes da UE têm apoiado, cada vez mais, o investimento em veículos elétricos (VE), em bombas de calor e na substituição, na indústria pesada, dos altos-fornos alimentados a combustíveis fósseis por fornos de arco elétrico. O objetivo é reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, que ainda representam quase 60% das importações de energia do bloco. Não obstante, a aguardada estratégia de eletrificação da Comissão Europeia, que deverá incluir metas para os estados-membros e para a indústria, já foi adiada, por duas vezes, e deveria ser publicada a 22 de julho.

Os críticos afirmam que a transição energética da UE avança mais depressa do que a infraestrutura e os consumidores conseguem acompanhar. Entre as preocupações, contam-se uma rede insuficiente de postos de carregamento para veículos elétricos, o armazenamento, os custos elevados da eletricidade e a congestão das redes elétricas.

Além dos desafios técnicos, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, advertiu que os elevados custos da energia estão a agravar a pressão nas famílias e nas empresas, apelando a Bruxelas para flexibilizar as regras orçamentais de modo a ajudar a baixar os preços.

A França, cujo sistema energético assente na energia nuclear ajudou a protegê-la dos picos de preços, apresentou um roteiro de 22 pontos, para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados de quase 60% do consumo de energia para 30%, até 2035. E o presidente francês, Emmanuel Macron, apelou ao esforço nacional para acelerar a eletrificação e para reforçar o poder de compra, a competitividade e a soberania energética da França.

O construtor automóvel Stellantis tenciona investir mais de mil milhões de euros na fábrica de Mulhouse, para produzir veículos elétricos de nova geração, a partir de 2029. E o governo francês vai instalar mais 240 mil pontos de carregamento e lançar um programa de aluguer de bombas de calor, com subsídio para famílias de baixos rendimentos, que substituam sistemas de aquecimento a gasóleo e gás (os preços da eletricidade na Alemanha são quase o dobro dos praticados na França). “A França pode orgulhar-se de ser uma grande potência elétrica, no atual contexto geopolítico. […] É também por isso que as subidas dos preços da eletricidade têm sido mais limitadas em França do que noutros países”, afirmou o presidente francês.

Apesar dos obstáculos, recente relatório global de investimentos da AIE conclui que a despesa ligada à eletricidade já representa quase 60% do investimento energético mundial, tendência que se aproxima das ambições industriais e regulamentares europeias, e a “era da eletricidade” está a tornar-se um projeto europeu, mesmo com a China a continuar a ser o principal investidor mundial em eletrificação. “Os investimentos em renováveis, [em] energia nuclear, eletrificação e [em] eficiência, na última década, melhoraram, em concreto, a segurança energética, nas principais regiões importadoras de combustíveis, e reduziram as emissões”, sublinha o relatório, que destaca a UE, a par da China, do Japão e da Coreia do Sul.

De acordo com a AIE, na Europa, as vendas de veículos elétricos aumentaram 30% e as de bombas de calor subiram 17%, no primeiro trimestre de 2026, apesar dos cortes nas subvenções, em alguns países. Na Alemanha, as bombas de calor tornaram-se uma das tecnologias de aquecimento mais vendidas, segundo a agência de energia nacional (DENA). Quase metade dos novos sistemas de aquecimento vendidos, em 2025, eram bombas de calor. E 2025 foi o primeiro ano em que as suas vendas ultrapassaram as das caldeiras a gás.

Por fim, o relatório assinala o aumento do investimento europeu em redes elétricas e de armazenamento, focando um problema que Bruxelas vem subestimando: aumentar a produção de eletricidade, sem modernizar as redes de transporte cria novas vulnerabilidades.

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As alterações climáticas e a dependência energética crescente evidenciaram a determinação da UE em se tornar o primeiro continente do Mundo com impacto neutro no clima e em garantir a segurança, a competitividade, a produção local e a sustentabilidade da energia consumida. Por isso, o Pacto Ecológico Europeu (PEE) visa garantir que as políticas da UE nos domínios do clima, da energia, dos transportes e das medidas sejam adequadas para permitir uma redução das emissões líquidas de gases com efeito de estufa (GEE) de, pelo menos, 55 %, até 2030, em comparação com os níveis de 1990, com o objetivo de alcançar a neutralidade climática, até 2050, como obrigação vinculativa, conforme a Lei Europeia do Clima. Os objetivos energéticos são decisivos: produzir energia mais limpa graças, à investigação e à inovação tecnológica, e investir em edifícios renovados e energeticamente eficientes.

Tais objetivos baseiam-se na estratégia para a União da Energia, que, a par do Regulamento (UE) 2018/1999 relativo à governação da União da Energia, define as dimensões da política energética da UE: diversificar as fontes de energia da UE – combustíveis fósseis, energia nuclear e renováveis ​​(solar, eólica, biomassa, geotérmica, hidroelétrica e maremotriz) –, para garantir a segurança energética; realizar o mercado interno de energia totalmente integrado e eficiente, sem entraves técnicos ou regulamentares; melhorar a eficiência energética e a interconexão das redes energéticas e reduzir as emissões; transitar para a economia hipocarbónica, em consonância com os compromissos do Acordo de Paris; promover a investigação nas tecnologias hipocarbónicas e na energia limpa; e dar prioridade à investigação e à inovação, para transferir a transição energética e a cooperação para a competitividade.

O artigo 194.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE) introduz a base jurídica específica no domínio da energia, com base em competências partilhadas entre a UE e os estados-membros, conduzindo-os a uma política energética comum.

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A UE tem de atualizar a sua legislação, em conformidade com as necessidades, mas tem de ser mais ágil e de dar mais voz aos estados-membros e aos cidadãos.

2026.09.25 – Louro de Carvalho


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