Ulrich
Siegmund, líder da Alternativa para a Alemanha (AfD), chefe eleito do governo
do estado alemão da Saxónia-Anhalt, desencadeou fortes críticas com declarações
sobre a hipótese de recorrer a material de armamento, em futura ofensiva de
remigração e de deportação. O contexto é o projeto de instalação de uma unidade
de produção do grupo israelita de armamento, Elbit Systems, no distrito de
Sangerhausen, da região em causa.
Em
conferência de imprensa, a 12 de setembro, Siegmund estabeleceu conexão entre a
produção de armamento, a segurança interna e a política migratória que a AfD
pretende.
Nas
palavras do seu líder regional, a AfD não descarta, em princípio, a produção de
armamento, que pode ser relevante, entre outras coisas, para a segurança
interna, para a estabilidade do país e para a defesa nacional. Porém, remete
para os objetivos da sua formação em matéria de migração, embora sem diabolizar,
em termos gerais, a produção de armamento, pois, em futuras “ofensivas de
remigração e deportação” os meios adequados serão necessários.
Após
as críticas, Siegmund dourou as suas declarações. Para o líder do partido de
extrema-direita, a produção de armamento é campo vasto que não abrange apenas
armas, mas também veículos, tecnologias de proteção e outros equipamentos de
que dependem a Bundeswehr (forças armadas unificadas da Alemanha e a sua
respetiva administração civil), a polícia e as autoridades de segurança. Na sua
ótica, estes setores devem ser reforçados, também para fazerem cumprir a lei, para
executarem deportações, de forma consequente, e para viabilizarem uma
“verdadeira ofensiva de remigração”. Na perspetiva da AfD, uma instalação que sirva
a defesa nacional, a segurança interna e o cumprimento da lei impõe-se como dever
do Estado. E é curioso como promove uma expulsão de migrantes “protegida” por armamento!
Ao
mesmo tempo, o líder do partido ganhador das eleições regionais frisou que o
partido rejeita fornecer material de armamento para “guerras alheias”. E,
havendo, como disse, grande diferença entre a Alemanha produzir esses bens para
si própria ou entregá-los a conflitos no estrangeiro e, assim, participar neles,
a AfD pretende analisar, com rigor, o que será produzido em Sangerhausen e em
que condições.
A
possível instalação da Elbit Systems em Sangerhausen gera controvérsia, há
algum tempo. O projeto enfrenta protestos da população, apoiados pela BSW (Bündnis
Sahra Wagenknecht – Vernunft und Gerechtigkeit, ou Aliança Sahra Wagenknecht –
Razão e Justiça), fundada em janeiro de 2024. Trata-se de um grupo empresarial
israelita de armamento com sede em Haifa, que desenvolve e produz, entre
outros, drones, obuses, lançadores de foguetes e sistemas de comunicação e de autoproteção
para aplicações militares. Entre os produtos mais conhecidos, contam-se os
modelos de drone Hermes e Skylark. Na Alemanha, a sede principal da empresa
fica em Ulm. E, segundo a Elbit, o grupo já trabalha para a Bundeswehr e
fornece, entre outros, sistemas de autoproteção para aeronaves.
Para
a sua instalação em Sangerhausen, está previsto um terreno industrial com cerca
de 130 hectares. Torsten Schweiger, presidente da câmara de Sangerhausen, da
União Democrata-Cristã (CDU), afirmou que ali não deverá haver montagem final
de drones, nem de granadas, nem de munições. Ainda não foi tomada decisão
definitiva sobre a instalação. E Siegmund explicou que o seu partido ainda não
assumiu uma posição final. Para lá das questões de segurança e de política
externa, é preciso ponderar os impactos económicos para a região.
Entretanto,
as declarações do líder regional da AfD desencadearam fortes reações. Katja
Pähle, líder da bancada do Partido Social-Democrata (SPD) no parlamento da
Saxónia-Anhalt, classificou as afirmações de Siegmund como ameaça política. Em sua
opinião, não se trata de formulação equívoca. “Quem, no contexto da anunciada
expulsão em massa de pessoas, traz à colação material de armamento, fala de
violência como instrumento da política”, afirmou Pähle, instando a BSW a
pronunciar-se sobre as declarações daquele líder da AfD.
Também
a BSW reagiu com críticas. Fabio de Masi, copresidente do partido, a nível
federal, acusa a AfD de apoiar o rearmamento e de justificar a instalação do
grupo israelita de armamento com o uso de tecnologia militar para a remigração.
Isto mostra, segundo Masi, que a AfD não pretende governar e procura uma saída,
com provocações.
As
declarações são politicamente sensíveis também porque a BSW é, no novo
parlamento da Saxónia-Anhalt, o único partido disposto a manter conversações
com a AfD. Porém, não está decidida a cooperação. Após as eleições regionais, a
BSW sinalizou disponibilidade para discutir uma colaboração baseada em projetos
e temas específicos, ao passo que a CDU, o SPD, os Verdes e a Esquerda
continuam a excluir qualquer cooperação com a AfD.
Nas
eleições para o parlamento da Saxónia-Anhalt, a AfD tornou-se, de longe, a
força mais votada. Obteve 43,8% dos votos, mas não a maioria absoluta. E Siegmund
reiterou, de imediato, a intenção de formar governo, sem excluir um executivo
com uma maioria muito estreita, porque o objetivo é “um governo tão estável
quanto possível”.
***
Logo
a 10 de setembro, no Bundestag, parlamento federal da Alemanha, os
deputados debateram a proposta de orçamento da Chancelaria para 2027. A intervenção
mais aguardada era a do chanceler federal, Friedrich Merz, da CDU, por causa do
revés que as eleições da Saxónia-Anhalt significaram para a sua formação partidária.
Não
obstante, o debate abriu com a intervenção da copresidente da AfD, Alice Weidel,
recebida com intensos aplausos da sua bancada, a maior da oposição. E Weidel, referindo-se
à coligação governativa, declarou: “Preto-vermelho acabou.” E chamou ao
orçamento do Chancelaria uma “declaração de capitulação” da coligação governativa,
pois, apesar de “receitas fiscais recorde”, o governo não consegue “gerir, de
forma responsável, o dinheiro dos cidadãos”. Como causas, Weidel aponta “os
grilhões da ideologia verde, da migração em massa, promovida pela esquerda, e
da redistribuição socialista”.
Na
sua opinião, o governo federal está a empurrar a Alemanha para a “bancarrota do
Estado”. Por isso, exige a expulsão de mais de um milhão de refugiados que vivem
na Alemanha e “cujos pedidos de asilo já foram recusados mais do que uma vez”. Efetivamente,
como enfatizou, “os cidadãos sofrem com as consequências da migração: têm de
viver com ruas inseguras e [de] criminalidade crescente, com o aumento massivo
de crimes sexuais e de violência e com mais de 750 violações coletivas por
ano”.
A
transição energética, na ótica de Weidel, está a arrastar a Alemanha para o
“abismo” e é uma das principais razões para a economia enfraquecida do país. As
centrais nucleares seguras e baratas foram desmanteladas e, por consequência,
os preços da energia subiram.
Depois
de Weidel, interveio o chanceler federal. Friedrich Merz afirmou que a AfD alcançou
um “resultado eleitoral notável”, na Saxónia-Anhalt, mas que o objetivo do
partido, a maioria dos mandatos, ficou por cumprir, visto que 56% dos eleitores
regionais não votaram nesse partido. Insinuou que, pouco depois do encerramento
das urnas, Weidel terá instado o cabeça de lista da AfD na Saxónia-Anhalt,
Ulrich Siegmund, a cometer “fraude eleitoral”. Com efeito, antes da votação, a
AfD tinha enfatizado que pretendia governar sozinha, mas, após as eleições,
Siegmund anunciou que, afinal, iria procurar apoio noutras forças políticas.
E
o chanceler, falando em nome do país, reiterou o apoio à Ucrânia, “porque
também está a defender a nossa liberdade”, e acusou a AfD de se pôr ao lado da
Rússia, tratando-se de defender a liberdade da Alemanha, e de apoiar campanhas
russas de desinformação.
Depois,
embora tenha admitido erros de governação, salientou o facto de o crescimento
económico de 1,3% previsto para este ano mostrar que as reformas da coligação
preto-vermelha estão a produzir efeitos, mas que são precisas novas reformas.
Disse
que o governo federal trabalha numa estratégia para a utilização de
inteligência artificial (IA), de modo que “todos serão afetados por esta quarta
revolução industrial”. Assim, a Alemanha estará na linha da frente, razão pela
qual estão a surgir centros de dados no país.
Merz
enfatizou que o governo leva a sério as preocupações do setor artesanal, que, “todos
os dias”, se trabalha para reduzir os elevados encargos que pesam sobre as
empresas e que, no artesanato, trabalham muitas pessoas com origem migrante:
uma em cada seis tem passaporte estrangeiro. Portanto, classificou a remigração
exigida pela AfD como “limpeza étnica, em função da cor da pele e da origem”. O
ambiente aqueceu no Bundestag e multiplicaram-se as interrupções vindas da
bancada da AfD. Porém, Merz avisou que, se os planos da AfD fossem aplicados,
faltariam trabalhadores no artesanato, na restauração e nos cuidados de saúde.
Face
à divulgação do estudo PISA (Programme for International Student Assessment), com
resultados desastrosos para a Alemanha, Merz propôs aos governos regionais
novas reuniões para trabalharem numa solução para o sistema educativo. “Temos
de dar à geração jovem uma resposta convincente sobre aquilo que o nosso país
representa.”
O
chanceler recordou que, poucos dias antes das eleições, Ulrich Siegmund disse à
organização de juventude da AfD: “A Alemanha é um marginal preguiçoso que
cheira a dope.” Dope é um sinónimo de marijuana. A citação mostra, para Merz, o
que a AfD pensa.
E,
sustentando que, após a II Guerra Mundial, três gerações confiaram na promessa
de prosperidade alemã feita pelos partidos moderados, mas que a geração jovem
duvida dessa promessa, disse que o governo federal tem de criar novas
perspetivas e que as “reformas servem a coesão, o progresso e o desenvolvimento
contínuo do país em liberdade e em paz”.
***
É
de recordar que, após o desaire da CDU nas regionais da Saxónia-Anhalt, o
chanceler se apresentou aos jornalistas, com o cabeça-de-lista da CDU em
Saxónia-Anhalt, Sven Schulze, a verificar que, “com o dia de ontem [o das
eleições regionais], não mudou apenas alguma coisa em Saxónia-Anhalt, mas em
toda a Alemanha”. Efetivamente, na ótica do chanceler, quase 60 % dos eleitores
a votar em partidos que põem em causa a democracia infligiram a “derrota
eleitoral mais dura” que a CDU sofreu em muitos anos. “Tudo isto terá de ter
consequências”, afirmou o chanceler, mas sustentando que os valores da Lei
Fundamental não estão em causa nas urnas, pois as instituições alemãs são
resilientes e estáveis.
Apesar
dos fracos índices de popularidade e da derrota eleitoral em Saxónia-Anhalt,
Merz mantém a sua linha política. Reconhece que o principal motivo para o
descontentamento é o facto de o governo federal não ter conseguido transmitir
as suas propostas com suficiente carga emocional, mas pretende, no futuro, em
conjunto com o SPD, construir uma “narrativa” mais eficaz para o conseguir. E,
nas próximas semanas, Merz quer “dar resposta pessoal” ao resultado eleitoral,
porque, vendo a sociedade uma “ânsia de disrupção” e de “mudança de fundo”, tem
de ser mais enfatizada a necessidade de compromisso.
Garantiu
que, em termos gerais, a AfD terá de se orientar, em grande medida, pela
linha do governo federal, o que se aplica à política de estrangeiros e de
migrações. Porém, o ministro-presidente eleito parece disposto a minar o Estado
Federal, a partir de Magdeburgo.
Também
Sven Schulze afirmou querer tirar consequências dos resultados.
Nos
últimos dias, multiplicaram-se os apelos à demissão de Schulze. A Juventude da
União (JU) de Saxónia-Anhalt reclamou a saída de toda a liderança da CDU no
estado.
Schulze
sublinhou que o mandato para formar governo cabe, agora, à AfD, a qual declarou
que, apesar de não ter maioria absoluta, quer formar mesmo um governo. E o ainda
ministro-presidente considerou que não haverá deserções a partir da CDU e que
membros da BSW ajudarão Siegmund a chegar ao cargo de ministro-presidente.
***
O
partido Rassemblement National (RN) reagiu à vitória da formação de
extrema-direita alemã AfD com um silêncio evidente, gesto que traduz as
relações complicadas com essa força política. De facto, Marine Le Pen e Jordan
Bardella, que estão a fazer campanha, respetivamente, para serem a presidente e
o primeiro-ministro de França, não fizeram qualquer referência à AfD
Já
o Reconquête, ainda mais à direita do que o RN e integrado no mesmo grupo que a
AfD no Parlamento Europeu (PE), saudou a vitória, espelhando as divergências
políticas na extrema-direita francesa.
Bardella,
quando jornalistas presentes no Fórum Ambrosetti – conferência económica e
geopolítica anual realizada em Itália – o questionaram, sobre a possibilidade
de o RN retomar laços com a AfD, disse que tal não estava “previsto”, mas frisou
que “a pressão eleitoral exercida pela AfD na Alemanha contribuiu para alterar
o cenário político no governo de Merz, já que o país repôs os controlos
fronteiriços, há alguns meses”.
A
divisão da extrema direita francesa, face à vitória da AfD, não é algo hipócrita.
Se o RN, que sobe nas sondagens, precisa de ganhar as próximas eleições, não
pode colar-se às ideias da AfD, pois o grosso do eleitorado francês não é
radical. Contudo, o RN, enquanto partido que aspira à governação, não perfilha,
na plenitude, as ideias da AfD, nomeadamente, as atinentes à remigração. É
certo que os partidos tradicionais não têm procurado resolver problemas, como
“imigração em massa, perda de identidade nacional e declínio social e
industrial”, mas não são adequados meios, como, por exemplo, o uso
desproporcionado de armamento.
Por
outro lado, há membros da AfD com posições inaceitáveis sobre questões
históricas e de memória, e há diferenças significativas noutros domínios, como
a política externa.
O
RN e a AfD integravam o grupo Identidade e Democracia, com a Liga italiana e o
Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), entre outros. Porém, a situação
agravou-se antes das eleições europeias de 2024, após uma série de polémicas
envolvendo dirigentes da AfD, potencialmente colados à ideologia nazi.
O
Grupo Identidade e Democracia votou, em maio de 2024, pela exclusão da AfD,
poucas semanas antes das eleições para o PE. Após o escrutínio, a AfD
participou na criação do novo grupo de extrema-direita, Europa das Nações
Soberanas (ESN), constituído em julho.
Também
outro eurodeputado do grupo Patriots for Europe considerou que “nada vai mudar,
antes das eleições francesas”, pois “ninguém quer ser associado à AfD, apesar
de termos alguns pontos em comum e [de] cooperarmos em muitos temas”.
O
RN pode manter-se em silêncio, mas o partido Reconquête, que integra o mesmo
grupo político, o ESN, que a AfD no PE, manifestou apoio aos seus resultados
eleitorais.
***
O
ministro-presidente eleito não perdeu tempo em expor os seus propósitos, o que
lhe pode sair caro, pois, se o voto foi mais de protesto do que de convicção, o
eleitorado não quer ser enganado, nem destratado. Contudo, há que estar de
sobreaviso, porque a AfD pode alastrar na Alemanha. O partido de Adolfo Hitler,
quando obteve 43,9% dos votos, instaurou a ditadura.
2026.09.13
– Louro de Carvalho
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