domingo, 13 de setembro de 2026

Líder da AfD criticado por falar de armamento e de remigração

 

Ulrich Siegmund, líder da Alternativa para a Alemanha (AfD), chefe eleito do governo do estado alemão da Saxónia-Anhalt, desencadeou fortes críticas com declarações sobre a hipótese de recorrer a material de armamento, em futura ofensiva de remigração e de deportação. O contexto é o projeto de instalação de uma unidade de produção do grupo israelita de armamento, Elbit Systems, no distrito de Sangerhausen, da região em causa.

Em conferência de imprensa, a 12 de setembro, Siegmund estabeleceu conexão entre a produção de armamento, a segurança interna e a política migratória que a AfD pretende.

Nas palavras do seu líder regional, a AfD não descarta, em princípio, a produção de armamento, que pode ser relevante, entre outras coisas, para a segurança interna, para a estabilidade do país e para a defesa nacional. Porém, remete para os objetivos da sua formação em matéria de migração, embora sem diabolizar, em termos gerais, a produção de armamento, pois, em futuras “ofensivas de remigração e deportação” os meios adequados serão necessários.

Após as críticas, Siegmund dourou as suas declarações. Para o líder do partido de extrema-direita, a produção de armamento é campo vasto que não abrange apenas armas, mas também veículos, tecnologias de proteção e outros equipamentos de que dependem a Bundeswehr (forças armadas unificadas da Alemanha e a sua respetiva administração civil), a polícia e as autoridades de segurança. Na sua ótica, estes setores devem ser reforçados, também para fazerem cumprir a lei, para executarem deportações, de forma consequente, e para viabilizarem uma “verdadeira ofensiva de remigração”. Na perspetiva da AfD, uma instalação que sirva a defesa nacional, a segurança interna e o cumprimento da lei impõe-se como dever do Estado. E é curioso como promove uma expulsão de migrantes “protegida” por armamento!

Ao mesmo tempo, o líder do partido ganhador das eleições regionais frisou que o partido rejeita fornecer material de armamento para “guerras alheias”. E, havendo, como disse, grande diferença entre a Alemanha produzir esses bens para si própria ou entregá-los a conflitos no estrangeiro e, assim, participar neles, a AfD pretende analisar, com rigor, o que será produzido em Sangerhausen e em que condições.

A possível instalação da Elbit Systems em Sangerhausen gera controvérsia, há algum tempo. O projeto enfrenta protestos da população, apoiados pela BSW (Bündnis Sahra Wagenknecht – Vernunft und Gerechtigkeit, ou Aliança Sahra Wagenknecht – Razão e Justiça), fundada em janeiro de 2024. Trata-se de um grupo empresarial israelita de armamento com sede em Haifa, que desenvolve e produz, entre outros, drones, obuses, lançadores de foguetes e sistemas de comunicação e de autoproteção para aplicações militares. Entre os produtos mais conhecidos, contam-se os modelos de drone Hermes e Skylark. Na Alemanha, a sede principal da empresa fica em Ulm. E, segundo a Elbit, o grupo já trabalha para a Bundeswehr e fornece, entre outros, sistemas de autoproteção para aeronaves.

Para a sua instalação em Sangerhausen, está previsto um terreno industrial com cerca de 130 hectares. Torsten Schweiger, presidente da câmara de Sangerhausen, da União Democrata-Cristã (CDU), afirmou que ali não deverá haver montagem final de drones, nem de granadas, nem de munições. Ainda não foi tomada decisão definitiva sobre a instalação. E Siegmund explicou que o seu partido ainda não assumiu uma posição final. Para lá das questões de segurança e de política externa, é preciso ponderar os impactos económicos para a região.

Entretanto, as declarações do líder regional da AfD desencadearam fortes reações. Katja Pähle, líder da bancada do Partido Social-Democrata (SPD) no parlamento da Saxónia-Anhalt, classificou as afirmações de Siegmund como ameaça política. Em sua opinião, não se trata de formulação equívoca. “Quem, no contexto da anunciada expulsão em massa de pessoas, traz à colação material de armamento, fala de violência como instrumento da política”, afirmou Pähle, instando a BSW a pronunciar-se sobre as declarações daquele líder da AfD.

Também a BSW reagiu com críticas. Fabio de Masi, copresidente do partido, a nível federal, acusa a AfD de apoiar o rearmamento e de justificar a instalação do grupo israelita de armamento com o uso de tecnologia militar para a remigração. Isto mostra, segundo Masi, que a AfD não pretende governar e procura uma saída, com provocações.

As declarações são politicamente sensíveis também porque a BSW é, no novo parlamento da Saxónia-Anhalt, o único partido disposto a manter conversações com a AfD. Porém, não está decidida a cooperação. Após as eleições regionais, a BSW sinalizou disponibilidade para discutir uma colaboração baseada em projetos e temas específicos, ao passo que a CDU, o SPD, os Verdes e a Esquerda continuam a excluir qualquer cooperação com a AfD.

Nas eleições para o parlamento da Saxónia-Anhalt, a AfD tornou-se, de longe, a força mais votada. Obteve 43,8% dos votos, mas não a maioria absoluta. E Siegmund reiterou, de imediato, a intenção de formar governo, sem excluir um executivo com uma maioria muito estreita, porque o objetivo é “um governo tão estável quanto possível”.

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Logo a 10 de setembro, no Bundestag, parlamento federal da Alemanha, os deputados debateram a proposta de orçamento da Chancelaria para 2027. A intervenção mais aguardada era a do chanceler federal, Friedrich Merz, da CDU, por causa do revés que as eleições da Saxónia-Anhalt significaram para a sua formação partidária.

Não obstante, o debate abriu com a intervenção da copresidente da AfD, Alice Weidel, recebida com intensos aplausos da sua bancada, a maior da oposição. E Weidel, referindo-se à coligação governativa, declarou: “Preto-vermelho acabou.” E chamou ao orçamento do Chancelaria uma “declaração de capitulação” da coligação governativa, pois, apesar de “receitas fiscais recorde”, o governo não consegue “gerir, de forma responsável, o dinheiro dos cidadãos”. Como causas, Weidel aponta “os grilhões da ideologia verde, da migração em massa, promovida pela esquerda, e da redistribuição socialista”.

Na sua opinião, o governo federal está a empurrar a Alemanha para a “bancarrota do Estado”. Por isso, exige a expulsão de mais de um milhão de refugiados que vivem na Alemanha e “cujos pedidos de asilo já foram recusados mais do que uma vez”. Efetivamente, como enfatizou, “os cidadãos sofrem com as consequências da migração: têm de viver com ruas inseguras e [de] criminalidade crescente, com o aumento massivo de crimes sexuais e de violência e com mais de 750 violações coletivas por ano”.

A transição energética, na ótica de Weidel, está a arrastar a Alemanha para o “abismo” e é uma das principais razões para a economia enfraquecida do país. As centrais nucleares seguras e baratas foram desmanteladas e, por consequência, os preços da energia subiram.

Depois de Weidel, interveio o chanceler federal. Friedrich Merz afirmou que a AfD alcançou um “resultado eleitoral notável”, na Saxónia-Anhalt, mas que o objetivo do partido, a maioria dos mandatos, ficou por cumprir, visto que 56% dos eleitores regionais não votaram nesse partido. Insinuou que, pouco depois do encerramento das urnas, Weidel terá instado o cabeça de lista da AfD na Saxónia-Anhalt, Ulrich Siegmund, a cometer “fraude eleitoral”. Com efeito, antes da votação, a AfD tinha enfatizado que pretendia governar sozinha, mas, após as eleições, Siegmund anunciou que, afinal, iria procurar apoio noutras forças políticas.

E o chanceler, falando em nome do país, reiterou o apoio à Ucrânia, “porque também está a defender a nossa liberdade”, e acusou a AfD de se pôr ao lado da Rússia, tratando-se de defender a liberdade da Alemanha, e de apoiar campanhas russas de desinformação.

Depois, embora tenha admitido erros de governação, salientou o facto de o crescimento económico de 1,3% previsto para este ano mostrar que as reformas da coligação preto-vermelha estão a produzir efeitos, mas que são precisas novas reformas.

Disse que o governo federal trabalha numa estratégia para a utilização de inteligência artificial (IA), de modo que “todos serão afetados por esta quarta revolução industrial”. Assim, a Alemanha estará na linha da frente, razão pela qual estão a surgir centros de dados no país.

Merz enfatizou que o governo leva a sério as preocupações do setor artesanal, que, “todos os dias”, se trabalha para reduzir os elevados encargos que pesam sobre as empresas e que, no artesanato, trabalham muitas pessoas com origem migrante: uma em cada seis tem passaporte estrangeiro. Portanto, classificou a remigração exigida pela AfD como “limpeza étnica, em função da cor da pele e da origem”. O ambiente aqueceu no Bundestag e multiplicaram-se as interrupções vindas da bancada da AfD. Porém, Merz avisou que, se os planos da AfD fossem aplicados, faltariam trabalhadores no artesanato, na restauração e nos cuidados de saúde.

Face à divulgação do estudo PISA (Programme for International Student Assessment), com resultados desastrosos para a Alemanha, Merz propôs aos governos regionais novas reuniões para trabalharem numa solução para o sistema educativo. “Temos de dar à geração jovem uma resposta convincente sobre aquilo que o nosso país representa.”

O chanceler recordou que, poucos dias antes das eleições, Ulrich Siegmund disse à organização de juventude da AfD: “A Alemanha é um marginal preguiçoso que cheira a dope.” Dope é um sinónimo de marijuana. A citação mostra, para Merz, o que a AfD pensa.

E, sustentando que, após a II Guerra Mundial, três gerações confiaram na promessa de prosperidade alemã feita pelos partidos moderados, mas que a geração jovem duvida dessa promessa, disse que o governo federal tem de criar novas perspetivas e que as “reformas servem a coesão, o progresso e o desenvolvimento contínuo do país em liberdade e em paz”.

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É de recordar que, após o desaire da CDU nas regionais da Saxónia-Anhalt, o chanceler se apresentou aos jornalistas, com o cabeça-de-lista da CDU em Saxónia-Anhalt, Sven Schulze, a verificar que, “com o dia de ontem [o das eleições regionais], não mudou apenas alguma coisa em Saxónia-Anhalt, mas em toda a Alemanha”. Efetivamente, na ótica do chanceler, quase 60 % dos eleitores a votar em partidos que põem em causa a democracia infligiram a “derrota eleitoral mais dura” que a CDU sofreu em muitos anos. “Tudo isto terá de ter consequências”, afirmou o chanceler, mas sustentando que os valores da Lei Fundamental não estão em causa nas urnas, pois as instituições alemãs são resilientes e estáveis.

Apesar dos fracos índices de popularidade e da derrota eleitoral em Saxónia-Anhalt, Merz mantém a sua linha política. Reconhece que o principal motivo para o descontentamento é o facto de o governo federal não ter conseguido transmitir as suas propostas com suficiente carga emocional, mas pretende, no futuro, em conjunto com o SPD, construir uma “narrativa” mais eficaz para o conseguir. E, nas próximas semanas, Merz quer “dar resposta pessoal” ao resultado eleitoral, porque, vendo a sociedade uma “ânsia de disrupção” e de “mudança de fundo”, tem de ser mais enfatizada a necessidade de compromisso.

Garantiu que, em termos gerais, a AfD terá de se orientar, em grande medida, pela linha do governo federal, o que se aplica à política de estrangeiros e de migrações. Porém, o ministro-presidente eleito parece disposto a minar o Estado Federal, a partir de Magdeburgo.  

Também Sven Schulze afirmou querer tirar consequências dos resultados.

Nos últimos dias, multiplicaram-se os apelos à demissão de Schulze. A Juventude da União (JU) de Saxónia-Anhalt reclamou a saída de toda a liderança da CDU no estado.

Schulze sublinhou que o mandato para formar governo cabe, agora, à AfD, a qual declarou que, apesar de não ter maioria absoluta, quer formar mesmo um governo. E o ainda ministro-presidente considerou que não haverá deserções a partir da CDU e que membros da BSW ajudarão Siegmund a chegar ao cargo de ministro-presidente.

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O partido Rassemblement National (RN) reagiu à vitória da formação de extrema-direita alemã AfD com um silêncio evidente, gesto que traduz as relações complicadas com essa força política. De facto, Marine Le Pen e Jordan Bardella, que estão a fazer campanha, respetivamente, para serem a presidente e o primeiro-ministro de França, não fizeram qualquer referência à AfD

Já o Reconquête, ainda mais à direita do que o RN e integrado no mesmo grupo que a AfD no Parlamento Europeu (PE), saudou a vitória, espelhando as divergências políticas na extrema-direita francesa.

Bardella, quando jornalistas presentes no Fórum Ambrosetti – conferência económica e geopolítica anual realizada em Itália – o questionaram, sobre a possibilidade de o RN retomar laços com a AfD, disse que tal não estava “previsto”, mas frisou que “a pressão eleitoral exercida pela AfD na Alemanha contribuiu para alterar o cenário político no governo de Merz, já que o país repôs os controlos fronteiriços, há alguns meses”.

A divisão da extrema direita francesa, face à vitória da AfD, não é algo hipócrita. Se o RN, que sobe nas sondagens, precisa de ganhar as próximas eleições, não pode colar-se às ideias da AfD, pois o grosso do eleitorado francês não é radical. Contudo, o RN, enquanto partido que aspira à governação, não perfilha, na plenitude, as ideias da AfD, nomeadamente, as atinentes à remigração. É certo que os partidos tradicionais não têm procurado resolver problemas, como “imigração em massa, perda de identidade nacional e declínio social e industrial”, mas não são adequados meios, como, por exemplo, o uso desproporcionado de armamento.

Por outro lado, há membros da AfD com posições inaceitáveis sobre questões históricas e de memória, e há diferenças significativas noutros domínios, como a política externa.

O RN e a AfD integravam o grupo Identidade e Democracia, com a Liga italiana e o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), entre outros. Porém, a situação agravou-se antes das eleições europeias de 2024, após uma série de polémicas envolvendo dirigentes da AfD, potencialmente colados à ideologia nazi.

O Grupo Identidade e Democracia votou, em maio de 2024, pela exclusão da AfD, poucas semanas antes das eleições para o PE. Após o escrutínio, a AfD participou na criação do novo grupo de extrema-direita, Europa das Nações Soberanas (ESN), constituído em julho.

Também outro eurodeputado do grupo Patriots for Europe considerou que “nada vai mudar, antes das eleições francesas”, pois “ninguém quer ser associado à AfD, apesar de termos alguns pontos em comum e [de] cooperarmos em muitos temas”.

O RN pode manter-se em silêncio, mas o partido Reconquête, que integra o mesmo grupo político, o ESN, que a AfD no PE, manifestou apoio aos seus resultados eleitorais.

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O ministro-presidente eleito não perdeu tempo em expor os seus propósitos, o que lhe pode sair caro, pois, se o voto foi mais de protesto do que de convicção, o eleitorado não quer ser enganado, nem destratado. Contudo, há que estar de sobreaviso, porque a AfD pode alastrar na Alemanha. O partido de Adolfo Hitler, quando obteve 43,9% dos votos, instaurou a ditadura.

2026.09.13 – Louro de Carvalho

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