Foi
a terceira vez que um governo liderado por Luís Montenegro foi alvo de uma
moção de censura. As outras duas foram debatidas a 21 de fevereiro e a 5 de
março de 2025, por iniciativa do partido do Chega e do Partido Comunista
Português (PCP), respetivamente, tendo sido ambas rejeitadas, pelo que o
governo sobreviveu e só caiu por força da apresentação de uma moção de
confiança, que mereceu o voto contra do Partido Socialista (PS).
A
debatida e rejeitada a 8 de setembro – em férias parlamentares – é inoportuna e
despropositada, mas explicável, só para o partido proponente, o Chega, marcar a
agenda política. Com efeito, uma moção de censura, obviamente, apresentada por
partido(s) da oposição, visa o derrube do governo, por questões que põem em
causa a governabilidade, e não a ação de um ministro, para mais estando em
causa funções que exerceu antes da entrada na governação.
A
governação atual, certamente, merece reparo e mesmo censura. Porém, os partidos
políticos, para não serem acusados de criação de crise política – que penaliza
os seus autores –, vêm-se contendo, a não ser o partido da extrema-direita
xenófobo e anti-imigração, que faz tudo por tudo para ter espaço privilegiado
na arena política.
O
ministro da Administração Interna, Luís Neves, tem condições políticas para
estar no governo? Obviamente, não. Por menores e menos numerosas suspeitas
outros governantes caíram em tempos idos. A sua gestão na Polícia Judiciária
(PJ) surgiu, nos últimos tempos, embrulhada numa série de casos capeados de
informalidade ou de irregularidade, embora se levante a dúvida se não houve
mesmo ilegalidades.
Cresce
a ideia de que tudo isto veio à tona, porque o Chega se sentiu incomodado com
antigas diligências investigatórias conduzidas pela PJ e porque houve elementos
daquela polícia que se terão sentido ultrapassados na sua pretensa ascensão
interna. Também o agora ministro diz que nunca prejudicou o Estado e que,
embora tenha cometido erros, de que pediu desculpa e que não repetiria, sabendo
o que sabe hoje, esteve sempre do lado do bem.
Ora,
nenhuma destas circunstâncias justifica, política e eticamente, a permanência
do visado no executivo, pois são tantos os inquéritos instaurados, uma
averiguação preventiva e um julgamento anunciado que seria bom que tudo ficasse
devidamente esclarecido, a bem da causa pública e do próprio visado. No
entanto, não é adequada, para obviar a esta situação a moção de censura, mas a
demissão por iniciativa do primeiro-ministro ou do próprio, sendo desejável que
fosse o visado a colocar o seu lugar à disposição.
Contudo,
o primeiro-ministro (PM), Luís Montenegro, segurou o ministro da polémica e
anunciou uma medida de redução fiscal, bem como um mísero bónus nas pensões
baixas.
A
moção de censura contra o governo Aliança Democrática (AD), de centro-direita,
formada pelo Partido Social Democrata (PSD) e pelo partido do Centro
Democrático Social (CDS), não passou, pelo que o executivo se mantém em
exercício. Apenas o Chega (com os seus 60 deputados), o partido de
extrema-direita que apresentou a moção, votou a favor. Os outros partidos
votaram contra ou abstiveram-se. Mas foi a abstenção do Partido
Socialista (PS, de centro-esquerda), o terceiro partido com representação
parlamentar, que evitou a queda do governo.
A
moção teve 104 votos contra, das bancadas do PSD, do CDS da Iniciativa Liberal (IL),
do Livre e do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), bem como 62 abstenções,
entre os deputados do PS, do PCP, do Bloco de Esquerda (BE) e do Juntos pelo
Povo (JPP).
No
momento em que o presidente da Assembleia da República (AR), José Pedro
Aguiar-Branco, anunciou o resultado da votação, todos os deputados da bancada
proponente se levantaram, repetindo a palavra “demissão”, em uníssono, durante
mais de um minuto. E, ante a perplexidade de alguns deputados, o presidente da
AR frisou que se matéria ali o tempo que fosse necessário, nem que fosse até à
meia-noite, pois, o Chega, que desrespeita o Parlamento, ficará a saber que o
Parlamento, com este seu presidente funciona, tal como a democracia parlamentar,
no que foi aplaudido pelos demais componentes da mesa.
***
Em
causa estão os casos relacionados com o Ministro da Administração Interna,
enquanto era diretor da PJ, a principal polícia de investigação criminal, em
termos de competência genérica.
Os
casos têm vindo a ser divulgados na imprensa, durante o verão, e foram
discutidos na manhã do dia 8, na Comissão Parlamentar de Assuntos
Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias. Entre estes, estão a falta
de entrega das declarações patrimoniais, as relações com uma empresa de
construção que, tendo contratos com a PJ, também fez obras numa propriedade do
ministro. Além disso, o caso de um atrelado, confiscado num caso de tráfico de
droga, que foi levado por esta empresa de construção.
O
governante, nas suas respostas, que pouco adiantaram, em relação ao que já se sabia,
moderou as suas críticas ao Chega, a quem acusava de populismo (que o
governante iria combater por todos os meios) e declarou que não via motivo para
colocar o seu lugar à disposição do PM. Por conseguinte, manter-se-á no governo
a fazer o seu trabalho, até que o governo acabe ou o PM o venha a dispensar.
***
“Chegámos
aqui pela atitude do ‘quero, posso e mando’ de um ministro que se arvorou em
novo xerife da República”, disse o líder do Chega na tarde do dia 8, no
início do debate da moção de censura. “E com todo o respeito, como é que
ainda está aí sentado? Como é que ainda tem a falta de vergonha de estar
sentado na bancada do Governo?”, perguntou Ventura.
Só
cerca de uma hora e meia depois do início do debate é que o PM falou
do ministro Luís Neves, enfatizando: “O atual ministro da Administração Interna
é um excelente ministro e Portugal precisa dele. Está no governo quem o
primeiro-ministro escolheu.”
Luís
Montenegro elogiou Luís Neves no combate ao crime, dizendo que “tem
correspondido ao desafio de sermos um dos países mais seguros”, e defendeu o
trabalho de preparação da época de incêndios. “Fez o trabalho de casa, antes do
pico do verão”, afirmou, para vincar: “Enquanto alguns sonham com demissões,
Portugal tem o melhor desempenho económico da Europa e o maior crescimento
do emprego da Europa.”
O
chefe do governo também aproveitou para fazer dois anúncios de medidas a tomar em
Conselho de Ministros: o imposto sobre o rendimento das pessoas singulares
(IRS) será reduzido até ao sexto escalão, a partir de novembro; e, em
dezembro, os reformados com pensões mais baixas receberão um suplemento
extraordinário.
A
oposição respondeu, mantendo o governo, com votos contra a moção ou com a abstenção.
Contudo, foi muito crítica do Chega e da atuação do governo.
“O
PS não viabiliza esta moção de censura, porque o PS responde às portuguesas e
aos portugueses. As portuguesas e portugueses não querem uma nova crise
política”, disse o líder do PS, José Luís Carneiro, mas pediu explicação dos
casos de Luís Neves.
O PCP,
que também se absteve, decidiu centrar a intervenção na atuação do governo e nas
condições de vida. “A sua propaganda esbarra na realidade da vida, onde
salários, aumentos e pensões são comidos pelo aumento do custo de vida”, disse
o secretário-geral, Paulo Raimundo, dirigindo-se ao
primeiro-ministro.
Jorge
Pinto, do Partido Livre, sublinhou ser o único partido à esquerda a votar
contra. “Nós não alinharemos nunca neste jogo”, disse Jorge Pinto, numa crítica
à moção. “Mas o que há para censurar é muito, senhor primeiro-ministro.”
Mariana
Leitão, da IL, disse que o primeiro-ministro está “a amarrar o seu destino ao
caso de Luís Neves”. Mesmo assim, o partido votou contra, porque “uma moção de
censura não serve para demitir um ministro, é para demitir um governo”.
Também
a deputada do Pessoas-Animais-Natureza (PAN, ecologista), Inês de Sousa
Real, disse que o partido não queria criar uma crise política. Andreia
Galvão, do Bloco de Esquerda (BE), pediu a demissão do ministro da
Administração Interna. E Filipe Sousa, do Partido Juntos Pelo Povo (JPP),
pediu uma comissão parlamentar de inquérito (CPI).
Uma
CPI, que o Chega também pensou exigir, terá âmbito limitado, pois cinge-se a
atos de gestão e de negócios de Luís Neves e de quem tenha colaborado com ele nisso,
o que está sob inquérito e por cujas conclusões é prudente esperar. De resto,
todo o trabalho investigativo da PJ já passou pelo escrutínio judiciário.
Esta
foi a terceira vez que um governo de Luís Montenegro foi alvo de moção de
censura. Na primeira legislatura, no início de 2025, o governo sobreviveu
a duas moções, mas acabou por cair, depois de ter falhado uma moção de
confiança, tendo voltado a ganhar as eleições legislativas, a 18 de maio do ano
passado.
***
O
líder do Chega, na parte final do debate da moção de censura, disse que o
propósito foi “mostrar o caminho da decência” a Luís Montenegro, o que, em sua
opinião, passaria pelo afastamento do ministro da Administração Interna.
Nas
críticas aos restantes partidos da oposição, centrou-se na IL, que tal como o
Livre votou contra, dizendo que o antigo líder Rui Rocha talvez não esteja
presente no momento em que o orador discursava, por não concordar com essa
orientação de voto. E mencionou a “brigada da ética do PSD”, recordando figuras,
como Duarte Pacheco, Fernando Negrão e Rui Rio, para que o antigo diretor
nacional da PJ deixe de ser ministro.
Igualmente
crítico se mostrou para o PS, recordando que os socialistas se juntaram ao seu
partido na rejeição da moção de confiança apresentada por Luís Montenegro, em
2025. “Que saudades de Pedro Nuno Santos”, exclamou Ventura, com o antigo
secretário-geral a manter-se impávido, na última fila da bancada socialista.
Anunciando
que o Chega apresentará projetos de lei para descida de impostos sobre
combustíveis e para o IVA Zero (imposto sobre o valor acrescentado) na
alimentação, André Ventura perguntou-se se “temos um governo assim tão bom, que
não mereça uma moção de censura”. E concluiu que os que a inviabilizam serão “cúmplices
e muletas” deste governo.
Citando
Sá Carneiro, o líder do Chega admitiu que demitir Luís Neves tem riscos: “Mas a
política sem riscos é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha”, sentenciou.
O
ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, encerrando o
debate da moção de censura, em nome do governo, disse que Portugal tem de “dizer
chega ao Chega e dizer basta ao PS”. E, dirigindo-se, sobretudo, ao partido de
André Ventura, atirou: “Não é um partido de governo, é um partido de campanha.”
Para
Rangel, “os tempos não estão para brincadeiras”, o que o leva a criticar quem
poderia lançar Portugal numa crise política, “diante da situação internacional
desafiante e imprevisível”. E, sobre os elogios do Chega à recente vitória
eleitoral da Alternativa para a Alemanha (AfD), Rangel diz que o partido deve
decidir se está a favor da Europa e da NATO (Organização do Tratado do
Atlântico Norte) ou, pelo contrário, “da Rússia de Putin”.
Do
PS, Rangel guarda a “pesada herança dos oito anos de governação socialista” e
diz que esse partido “quer fazer esquecer que a sua atual direção esteve ao
leme”. E, aludindo à entrada de 800 mil migrantes, em quatro anos, com más
consequências, o ministro dos Negócios Estrangeiros apontou a Carneiro a
extinção do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). “Se não foi o pai, foi
o pai adotivo, porque abraçou a extinção e a executou sem reservas”, disse.
***
Conforme
julgo inoportuna a moção de censura, também me parece descabida a crítica do ministro
do Estado e dos Negócios Estrangeiros ao PS, que teve, objetivamente, a
cooperação com o governo. Por isso, deixo uma referência aos três minutos
finais reservados para o PS, que serviram para o secretário-geral subir à
tribuna para, num apelo ao afastamento de Luís Neves, exigir ao PM que “tome as
decisões que se impõem” para que a crise “não se alastre”.
Acusando
o Chega de ajudar o governo a escapar ao escrutínio do governo da AD, José Luís
Carneiro defendeu que 29% da redução de receita de IRS se deve a decisões do
último executivo socialista. E, sobre a abstenção à moção de censura, com que
os deputados socialistas “impedem uma crise política”, o secretário-geral do PS
diz que o governo tem uma oportunidade para dizer o que vai fazer quanto “às
falhas graves” na Saúde ou na Habitação. A esse propósito, acusa o executivo de
ter feito “disparar em flecha” o preço dos arrendamentos com a definição de
2300 euros como renda moderada.
“Vai
continuar refém do Chega e da sua vontade de sobreviver?”, perguntou o
secretário-geral do PS, no final da sua intervenção.
Já
o deputado socialista Marcos Perestrello tinha pegado nas referências ao “Portugal
feliz”, feitas na intervenção inicial de Luís Montenegro, para evocar a rábula
do “Senhor Contente e Senhor Feliz”, protagonizada, há quase meio século, por
Nicolau Breyner e por Herman José.
Depois,
dirigiu-se à bancada do PSD, confessando-se preocupado pelas vezes sucessivas
em que esse partido fez acordos com o Chega, preparando-se para o fazer uma
quinta vez, neste caso na revisão constitucional. “É o masoquismo político do
PSD que alimenta o sadismo do Chega”, disse o deputado, confessando-se “preocupado”
com a “irresponsabilidade” social-democrata, sobretudo, quando considera pôr em
causa o texto fundamental.
Todavia,
o PS não recebeu críticas apenas do PSD e do Chega. Também o líder parlamentar
da IL, Mário Amorim Lopes, defendeu que o PS “é um lobo nas palavras e um
carneiro nas ações”, referindo-se ao facto de os socialistas se absterem na
votação da moção de censura, apesar de criticarem o “oportunismo do Chega”. E atirou:
“José Luís Carneiro veio ensaiar aquela tática muito conhecida do ‘vocês
segurem-me, se não vou a eles’.”
Prevendo
que a moção de censura seria aprovada apenas pelo grupo parlamentar que a
apresentou, André Ventura contava pressionar o primeiro-ministro e os restantes
partidos da oposição, dos quais dizia esperar “consistência e coerência”,
quanto à permanência de Luís Neves no Ministério da Administração Interna – mas
sem qualquer efeito.
Cavaco
Silva foi o único primeiro-ministro que viu cair o seu executivo, devido à
aprovação de uma moção de censura na AR, acabando por obter duas maiorias
absolutas consecutivas. Os governos têm caído, sobretudo, pela não aprovação de
moções de confiança ou pela aprovação de moções de rejeição do seu programa. Desta
vez, o governo não cai, mas nem tudo fica na mesma: o Chega reforça o seu
protagonismo, o governo está mais desnudado, o ministro visado optou por deixar-se
ferver em lume brando e o grande debate será feito em torno do Orçamento do Estado
para 2027. As medidas de redução do IRS até ao 6.º escalão e o bónus nas pensões
baixas pretendem ser almofada social de apoio ao governo, em caso de eventual crise
política.
2026.09.10
– Louro de Carvalho
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