A
Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema-direita, com a muito
elevada afluência às urnas de 77,8%, assumiu confortável vitória, nas eleições
de 6 de setembro, na Saxónia-Anhalt, mas não obteve assentos suficientes para garantir
maioria parlamentar.
A
AfD obteve 43,8% dos votos, mais do dobro do resultado de há cinco anos, nesta
região de 2,1 milhões de habitantes, a oeste de Berlim, mas ficou a três
assentos da maioria, com 39 deputados, num parlamento de 83 membros. Entretanto,
a União Democrata-Cristã (CDU), do chanceler Friedrich Merz, registou o
resultado desastroso de 17,2% dos votos, conquistando 15 assentos. Os
social-democratas, de centro-esquerda, obtiveram 9,3%, os Verdes 8,9% e o
Partido da Esquerda 8,6%, tendo todos conquistado oito lugares cada. E a Aliança
Sahra Wagenknecht (BSW) obteve cinco.
“Fizemos
história”, afirmou Ulrich Siegmund, candidato a governador pela AfD,
anti-imigração e pró-Rússia, frisando que o partido tem mandato claro para
governar. O político de 35 anos disse à emissora pública ARD que os
eleitores enviaram um sinal de que “as coisas não podem continuar assim”, tendo
o chanceler federal sido “excelente apoiante” do vencedor.
O
resultado redefine o panorama político no Leste da Alemanha, com a AfD a
emergir como a primeira força no parlamento estadual. O líder disse que o
partido não se envolverá em jogos como um governo de minoria, embora não seja
evidente como os opositores, divididos, podem formar governo estável sem ele. E
um primeiro governo estadual representaria a maior conquista, nos 13 anos de História
deste partido, no contexto de frustração da população, face a um governo
nacional que se debate para reanimar a economia estagnada do país.
Assuma
ou não a AfD o poder, o resultado é um revés para Friedrich Merz, cujo partido
de centro-direita lidera a Saxónia-Anhalt, há 24 anos, pois, ao invés de muitos
dos seus vizinhos europeus, a Alemanha moderna ainda não viu um partido de
extrema-direita ou populista de direita liderar um governo nacional, regional
ou de uma grande cidade.
A
AfD é o maior partido da oposição no parlamento federal, obtendo o seu maior
apoio nos estados menos prósperos do antigo Leste comunista. A sua secção
regional na Saxónia-Anhalt está entre as designadas como grupos de
extrema-direita pela agência de informações internas da Alemanha, segundo a
qual os membros denigrem migrantes oriundos de países de maioria muçulmana,
entre outras posições extremas. O partido promove, frequentemente, a remigração
– o que significa deportação em massa de imigrantes –, enquanto o seu líder num
estado vizinho recorreu de duas condenações por ter usado um slogan
nazi. Todavia a AfD rejeita as acusações de extremismo, alegando que tais
rótulos têm motivação política.
Os
16 estados da Alemanha detêm amplos poderes, nomeadamente, na gestão da
segurança interna e na administração educativa. Contudo, a influência da
Saxónia-Anhalt, um dos estados mais pequenos de um país de 83,5 milhões de
habitantes, é limitada.
Ulrich
Siegmund definiu como prioridades “uma ofensiva de deportação” e a eliminação
de incentivos para que migrantes venham para a Alemanha e explorem o sistema
social, assim como pretende iniciar o moroso processo de retirada da
Saxónia-Anhalt da rede regional de radiodifusão pública, a pretexto da sua “desinformação”.
Na educação, defende a legalização do ensino em casa, ilegal na Alemanha, a
proibição de as escolas exibirem a bandeira arco-íris e a inclusão da bandeira
nacional. Além disso, opõe-se a que os fundos dos contribuintes sejam doados à
Ucrânia e pressionará no sentido do levantamento das sanções contra a Rússia,
embora a política externa esteja estritamente fora da jurisdição dos estados
regionais.
***
A
AfD mais do que duplicou o resultado nas eleições na Saxónia-Anhalt, em
comparação com 2021, em que tinha obtido 20,8% – o melhor resultado do partido (43,8%)
até agora, numa eleição de grande dimensão. E a CDU, cujo candidato ocupou o
cargo de ministro-presidente na Saxónia-Anhalt, durante 24 anos, perdeu metade
dos seus eleitores, em comparação com as últimas eleições federais: caiu de
37,1%, em 2021, para 18%, neste ano. O ministro-presidente em exercício, Sven
Schulze, só tinha entrado para o cargo em janeiro de 2026, em substituição do
histórico ministro-presidente, Reiner Haseloff.
A
AFD captou eleitores de diferentes forças políticas. Da CDU passaram quase 83 mil
para a AfD; do Partido Democrático Livre (FDP), 19 mil; do partido A Esquerda,
11 mil; do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), sete mil; e dos Verdes,
dois mil.
Um
editor da NZZ considera que a CDU subestimou a frustração dos eleitores
moderados. Segundo os inquéritos pós-eleitorais, a AfD mobilizou, sobretudo,
antigos abstencionistas. De acordo com a dimap, 56% dos 279 mil novos
eleitores da AfD eram não votantes, em 2021. Com 77,8%, a participação
eleitoral em Saxónia-Anhalt, muito elevada, fica muito acima dos 60,3% das
eleições regionais de 2021. Só perdeu cerca de doi mil eleitores para a BSW –
que, na campanha eleitoral, criticou a ajuda à Ucrânia. E, segundo a dimap,
fica à frente, em todos os grupos de eleitores: reformados, operários,
empregados e trabalhadores independentes.
Numa
campanha emocional e bem-disposta, ganhou pontos nas zonas rurais e conquistou
novos eleitores nas cidades. No círculo eleitoral Magdeburgo I, a AfD é a força
política mais votada, com 38,8% dos votos. Entre os novos eleitores, lidera com
42%, enquanto a CDU tem ainda pior desempenho do que entre os mais velhos. A
Esquerda perde vários deputados no parlamento regional. Ao invés do que se
temia, o SPD mantém-se estável. E os Verdes ganharam eleitores e mais dois
deputados. É este o panorama parlamentar em Magdeburgo.
Porém,
o vice-líder da bancada da CDU no Bundestag, Sepp Müller, natural de
Saxónia-Anhalt, afirmou, na noite eleitoral, em Magdeburgo, que o
ministro-presidente Sven Schulze permanece só em gestão corrente. E muitos
observadores políticos interpretam a expressão quase petrificada de Schulze
como sinal de demissão iminente.
Durante
a campanha, Ulrich Siegmund tinha declarado que só queria governar com maioria
absoluta de lugares no parlamento em Magdeburgo. Ao invés, na noite eleitoral
falou de “mão estendida” em direção aos outros partidos, mas todos, com exceção
da BSW, excluem uma coligação com a AfD, tendo a cabeça de lista da BSW,
Claudia Wittig, afirmado à ARD que estava aberta à cooperação com a AfD
em questões políticas específicas.
Porém,
Siegmund rejeitou aliança com o BSW, ao afirmar: “Nos últimos meses, vimos que
o BSW não é parte da solução, mas parte do problema. […] Foi anunciado que não
votariam em mim como chefe do governo da Saxónia-Anhalt. Foi anunciado que não
haveria conversações. Já há um ano, tínhamos apresentado propostas de diálogo,
que foram rejeitadas.”
***
A
forma como Friedrich Merz e o seu governo de coligação responderem à histórica
vitória do partido de extrema-direita nas eleições regionais será decisiva para
o futuro do governo federal. “Antes de mais, trata-se de uma vitória
verdadeiramente histórica para a AfD e de um autêntico terramoto para os
restantes partidos”, afirmou Nicolas Spohn, politólogo especialista na política
dos estados da Alemanha de Leste.
A
vitória deste partido pró-Kremlin e anti-imigração marca a primeira vez, desde
a II Guerra Mundial, que um partido de extrema-direita fica tão perto de
exercer o poder, a nível regional. Multiplicam-se as dúvidas sobre o que isto
representa para a política nacional. Thorsten Frei, líder da bancada da CDU no
parlamento federal, o Bundestag, rejeitou que este resultado tenha
consequências, a nível nacional. Porém, no dizer de Spohn, é isto que frustra
as pessoas, pois ignorar avisos como este dará mais votos à AfD.
O
incumprimento das promessas pré-eleitorais de 2025, nomeadamente, o compromisso
de relançar a economia estagnada da Alemanha, fez cair a popularidade de Merz,
que só é favorável para 16% dos alemães. Por isso, a CDU tem de corrigir o rumo
político, a nível nacional. De facto, a economia está pior do que antes das
últimas eleições federais.
É
certo que escapam ao controlo da CDU fatores, como as guerras na Ucrânia e no
Irão, mas os alemães sentem-nos. E o descontentamento é visível na
Saxónia-Anhalt, onde a popularidade de Merz desceu para pouco mais de 9%. “Não
se trata de apoio genuíno ao programa da AfD, mas à [ideia ligada ao partido]
de fazer tudo de maneira diferente”, sustenta Spohn.
A
Saxónia-Anhalt, que integrava a República Democrática Alemã (RDA), registou a
maior quebra demográfica de todos os estados alemães, nos últimos 35 anos,
perdendo um quarto dos habitantes, desde a reunificação. A situação é muito
visível nas zonas rurais e entre os jovens, que sofrem com a falta de
professores e com fracas perspetivas de carreira.
Já
a 20 de setembro, as eleições regionais em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental
serão o próximo teste de resistência. Face aos fortes resultados da AfD, nas
sondagens, aumenta também aí a pressão sobre Friedrich Merz e sobre a CDU. E veremos
se os votos na extrema direita se repercutirão, gradualmente, a nível nacional.
Na
estação WELT, o deputado da CDU Alexander Räuscher defendeu: “Estamos a
cometer o erro de aceitar um parceiro de coligação como o SPD, que celebrou a
transição energética, até ao último dia antes das eleições, e se convence de
que isso torna a vida melhor para os cidadãos. […] Deveríamos ter mostrado um
perfil mais nítido da CDU. Há muito, devíamos ter levantado um sinal de stop
e dito: ‘Com isso não contamos’. Na ampliação das áreas reservadas às
energias renováveis, devíamos ter-nos defendido mais, enquanto Estado
federado.”
Também
o SPD reconsidera as reformas conjuntas ao nível federal. O líder do partido,
Lars Klingbeil, afirmou, na ZDF: “Sei bem que decisões tomadas em Berlim
também provocaram debates no terreno. Por isso, este resultado é também um
sinal para Berlim. É um motivo para refletir sobre a política, aqui, em Berlim,
sobre o rumo reformista do governo federal. E esteja certo de que o vamos
fazer.”
***
Ulrich
Siegmund nasceu, a 25 de outubro de 1990, em Havelberg, na Saxónia-Anhalt. Aos
35 anos, é deputado no Landtag de Saxónia-Anhalt, desde 2016, e preside, desde
agosto de 2022, juntamente com Oliver Kirchner, à bancada da AfD no parlamento
regional. Em 2025, foi eleito cabeça de lista da AfD para as eleições regionais
de 2026.
Concluiu
a formação em comércio grossista e externo; licenciou-se em Psicologia Económica
e Gestão de Empresas; e, antes de entrar na política, ganhava a vida com
perfumes.
Em
2014, aos 23 anos, com um parceiro de negócios, fundou a “Berlin duftet”,
empresa do setor de marketing olfativo, comercializando, entre outros,
essências aromáticas, acessórios de fragrâncias e tecnologia de aromatização e dava
consultoria em marketing e vendas. Os estudos de psicologia económica e de
gestão de empresas tinham ligação direta ao negócio: a tese de licenciatura
analisou o impacto psicológico do marketing olfativo no comportamento de
compra. A ideia era usar fragrâncias ambientais de forma dirigida, para tornar
mais agradáveis, entre outros locais, as estações de metro e de comboio urbano
da BVG e da S-Bahn, reduzindo o stresse, as agressões e o vandalismo. Em
reportagem da WELT, na altura, explicou que pensava, por exemplo, num
aroma relaxante, como o de lavanda.
Primeiro,
foi militante da CDU. Aos 24 anos, aderiu à AfD. Dois anos depois, entrou, pela
primeira vez, no Landtag (Parlamento) da Saxónia-Anhalt. Hoje, é um dos
políticos da AfD mais conhecidos na Alemanha. Parte essencial do seu sucesso advém
da estratégia nas redes sociais. No Instagram, tem mais de 400 mil
seguidores e, no TikTok, com mais de 763500, é um dos políticos mais
notórios do país. Aparece, muitas vezes, com imagem amistosa, descontraída e
próxima das pessoas, posa para fotografias com apoiantes e aposta, fortemente,
em campanha, em festas de família, em diálogos com cidadãos e em encontros
pessoais.
A
imprensa internacional descreve-o como o “rosto radioso” da AfD. O Financial
Times carateriza a sua campanha como orientada para a comunidade e centrada
na família.
É
casado e tem uma filha. A mulher, Julia, já apareceu diante das câmaras de
televisão, embora não em contexto político. Participou no programa de docu-reality
sobre casamentos da VOX “Zwischen Tüll & Tränen” (“Entre tule e lágrimas”),
onde escolheu o vestido de noiva para o casamento com Ulrich Siegmund.
Na
comunicação política, recorre a conceitos, como pátria, segurança, família e
mudança. Em 2017, deixou a Igreja Católica. Diz levar “no coração” os seus
valores, mas rejeitar a instituição alemã que os representa. No seu gabinete
está pendurado um retrato de Otto von Bismarck, oriundo da vizinha Schönhausen,
sob o qual se lê a frase: “Um pensamento verdadeiro não pode ser derrubado com
mentiras para sempre.”
A
ascensão política de Siegmund ocorreu em poucos anos. Em 2016, entrou, pela
primeira vez, no Landtag; em 2022, assumiu, com Oliver Kirchner, a liderança da
bancada da AfD. Em 2025, o partido deu-lhe o primeiro lugar na lista regional
para as eleições de 2026.
***
Bispo
alemães dizem ter “grande preocupação” com a vitória da AfD, nesta eleição
estadual. De facto, o serviço de inteligência interna classificou a filial do
partido na Saxónia-Anhalt como extremista de direita, o que a AfD contesta na
Justiça. A classificação equivalente, a nível federal, foi suspensa em tribunal,
em fevereiro, aguardando a decisão final.
O
bispo de Magdeburgo, Gerhard Feige, em declaração conjunta com líderes
protestantes, pediu aos vencedores que “respeitem integralmente a Constituição
do nosso Estado, assim como a Lei Fundamental, e que defendam a dignidade de
todas as pessoas”. “Qualquer pessoa que deseje assumir responsabilidade
governamental também assume responsabilidade por todas as pessoas em nosso
Estado”, disse Feige, vincando que as igrejas veem os resultados “com grande
preocupação” e que a eleição “alterou, profundamente, o panorama político” do
Estado.
Em
comunicado separado, Heiner Wilmer, bispo de Hildesheim, uniu-se a outros
líderes cristãos: “Os nossos piores temores concretizaram-se, mas devemos
aceitar o resultado”.
Os
líderes religiosos dizem que vão “monitorizar, de perto, e avaliar,
criticamente, as ações políticas do futuro governo estadual”.
O
cardeal Gerhard Ludwig Müller, ex-prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé,
criticou as declarações dos bispos, escrevendo para o site kath.net que,
“em hipótese alguma, devem pôr a sua autoridade espiritual na balança”, pró ou
contra um partido político, pois devem ser pastores espirituais e não cometer “abuso
de autoridade espiritual para fins políticos”.
****
É
óbvio, se a população da Saxónia-Anhalt não tem genuína adesão à AfD, é justo
que a hierarquia eclesial se preocupe com o novo panorama político. A
remigração é anticristã. E o cardeal, que o sabe, não pode aconselhar mera fé
de sacristia. A Igreja não pode calar-se ante situações anti-humanas. Que diria
o hierarca, se um partido comunista fosse ganhador? Entraria na duplicidade de critérios?
2026.09.09 – Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário