segunda-feira, 14 de setembro de 2026

“O cristão não pode viver a fazer contabilidade do perdão”

 

A Palavra de Deus que a liturgia do 24.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, marca a exigência do perdão, uma vez que Deus ama sem cálculos, sem limites e sem medida, pelo que, em coerência, nos convida a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado.

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A primeira leitura (Sir 27,33-28,9) evidencia a iniquidade da ira e o do rancor, que impedem a felicidade e a realização do homem, e a índole ilógica da espera do perdão de Deus, quando recusamos perdoar ao irmão. Por conseguinte, não podemos estragar a nossa vida, na Terra, com sentimentos, que só geram infelicidade e sofrimento.

O livro de Ben Sirah (também chamado “Eclesiástico”) é um livro sapiencial que, como todos os livros sapienciais, concita a reflexão sobre a arte de bem viver e de ser feliz.

No início do século II a.C., o helenismo tinha começado o seu influxo pernicioso na cultura e nos valores de Israel. Jesus Ben Sirah, preocupado com a degradação dos valores do seu Povo e com as cedências que, sobretudo, os mais jovens, vão fazendo à cultura grega, procura dar uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, evidenciando a grandeza dos valores judaicos e mostrando que a cultura judaica nada fica a dever à brilhante cultura grega.

O trecho em apreço integra uma secção onde Jesus Ben Sirah tenta mostrar que a “sabedoria” – criatura de Deus, oferecida a todos os homens piedosos – tem especial campo de ação em Israel, o Povo eleito de Deus.

Jesus Ben Sirah ensina que a verdadeira “sabedoria” está em não se deixar dominar pelo rancor, pela ira e pelos sentimentos de vingança. O sábio (o que almeja ter êxito e ser feliz) é aquele que é capaz de perdoar as ofensas e de ter compaixão pelo seu semelhante.

Pertinente e pré-evangélica é a relação que estabelece entre o perdão humano e o perdão divino: quem recusa perdoar ao irmão é incoerente, ao pedir o perdão de Deus. Está sem autoridade para isso. Ao invés, quem perdoa as ofensas dos outros, poderá pedir e esperar o perdão do Senhor para as suas próprias falhas.

A tornar mais sugestivo o seu apelo, Ben Sirah insta os concidadãos a lembrarem-se da morte: “Pensa no teu fim e deixa de ter ódio.” Ante a realidade final que nos espera, não fazem sentido os sentimentos de rancor, de ira, de vingança, que alimentamos, e não podemos, coerentemente, esperar o perdão de Deus, se a nossa vida é vivida na lógica de ódio e de vingança.

Está, pois, diante de nós o apelo à inversão da lógica do “olho por olho, dente por dente”, de forma a que as nossas relações com os irmãos sejam marcadas por sentimentos de perdão e de misericórdia, para podermos rogar a Deus o perdão para as nossas falhas.

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O Evangelho (Mt 18,21-35) fala-nos do Deus cheio de bondade e de misericórdia que derrama sobre os seus filhos – total, ilimitada e absolutamente – o perdão. Por isso, os crentes são convidados a descobrir a lógica de Deus e a deixarem que a mesma lógica de perdão e de misericórdia, sem limites e sem medida, marque a relação com os irmãos.

Continuamos com o “discurso eclesial”, que tem como ponto de partida instruções apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária, mas que Mateus ampliou, de forma significativa. Por trás do trecho em referência, entrevemos a comunidade com tensões e com conflitos que degeneram em ofensas pessoais, que são muito difíceis de perdoar.

Como vimos, o mandamento do perdão não é novo. Os catequistas de Israel ensinavam a perdoar as ofensas e a não guardar rancor contra o irmão que tinha cometido qualquer falha. Porém, os mestres de Israel estavam de acordo em que a obrigação de perdoar existia só em relação aos membros do Povo de Deus, ficando os inimigos excluídos dessa dinâmica de amor e de misericórdia. E a grande discussão girava à volta do número limite de vezes em que se devia perdoar. Todos – desde os mais exigentes aos mais compassivos – sustentavam que o perdão tem limites e é contabilizável, pelo que não é impossível perdoar indefinidamente.

Pedro, o porta-voz da comunidade, lança Jesus no debate acerca dos limites do perdão. Sabendo que Jesus tem ideias radicais, talvez ironicamente, pergunta a Jesus se, na sua perspetiva, se deve perdoar sempre. A expressão “até sete vezes” quer dizer “sempre”, uma vez que o número sete, na cultura semita, indica totalidade”. E Jesus responde que não só se deve perdoar sempre, mas de forma ilimitada, total, absoluta (“setenta vezes sete”). Deve-se perdoar, sempre, a toda a gente, incluindo os inimigos, e sem qualquer reserva, sombra ou prevenção. Isto é, ninguém pode ser excluído do perdão, como ninguém pode ser excluído do amor fraterno.

Neste contexto Jesus propõe aos discípulos uma parábola, que se desenrola em três quadros. O primeiro coloca-nos ante uma cena de corte: um funcionário real, na hora de prestar contas ao seu senhor (provavelmente, de impostos recebidos e não entregues), revela-se incapaz de saldar a sua dívida de dez mil talentos. O senhor ordena que o funcionário e a família sejam vendidos como escravos. Porém, ante a humildade submissa do servo, enche-se de misericórdia e perdoa-lhe a dívida. O que mais impressiona é o montante astronómico da dívida: dez mil talentos. Um talento pesava cerca de 36 quilos, em ouro ou em prata. Dez mil talentos era, pois, soma incalculável. A hipérbole da dívida serve para relevar a misericórdia infinita do Senhor.

O segundo quadro mostra como o funcionário que experimentou a misericórdia do seu senhor recusou, logo a seguir, perdoar a um companheiro que lhe devia cem denários. Um denário equivalia a 12 gramas de prata e era o pagamento diário de operário não especializado ou de trabalhador rural. Cem denários correspondiam, portanto, a uma quantia insignificante para um alto funcionário do rei.

Quando estes dois quadros são postos em paralelo, sobressaem a desproporção entre as duas dívidas e a diferença de atitudes e de sentimentos entre o senhor, capaz de perdoar infinitamente, e o funcionário do rei, incapaz de se converter à lógica do perdão, mesmo depois de ter experimentado a alegria do perdão. É desta diferença que resulta o terceiro quadro. Os companheiros do funcionário real, chocados com a sua ingratidão, informaram o rei do sucedido; e o rei, escandalizado com o comportamento do funcionário, castigou-o duramente.

A parábola é uma catequese sobre a misericórdia de Deus. Mostra como, na ótica de Deus, o perdão é ilimitado, total e absoluto. Por conseguinte, temos o convite a que analisemos as nossas atitudes e comportamentos, face aos irmãos que erram. Com efeito, a nossa lógica está, tantas vezes, distante da lógica de Deus. Ante qualquer falha do irmão, por insignificante que seja, assumimos a pose de vítimas magoadas e atitudes de desforra e de vingança.

Finalmente, a parábola sugere a relação entre o perdão de Deus e o perdão humano. Porém, Mateus não sugere que o perdão de Deus é condicionado e que só se torna efetivo, se aprendermos a perdoar aos nossos irmãos. Diz, sobretudo, é que na comunidade cristã deve funcionar a lógica do perdão ilimitado: a lógica de Deus, que deve ser a nossa. Na verdade, se o nosso coração não bater segundo a lógica do perdão, não terá lugar para acolher a misericórdia, a bondade e o amor de Deus. Fazer a experiência do amor de Deus transforma-nos o coração e ensina-nos a amar os nossos irmãos, nomeadamente, os que nos ofenderam.

Deus não pagará na mesma moeda a quem não for capaz de viver segundo a lógica do perdão e da misericórdia, pois o revanchismo e a vingança não fazem parte dos métodos de Deus. Ao jeito semita, o evangelista usa imagens dramáticas para frisar que a lógica do perdão é urgente e que dela depende a construção da nova realidade de amor, de comunhão, de fraternidade – a realidade do Reino. E nós, ao rezarmos Pai-nosso, comprometemo-nos a perdoar a quem nos ofende, ao pedirmos a Deus que nos perdoe. Que “nos perdoe como nós perdoamos”. Por isso, os padres espirituais dizem que, não perdoando, estamos a pedir a nossa condenação.

O perdão é essencial ao amor do próximo, que é a síntese de toda a lei, mas só haverá próximo, se nós nos quisermos aproximar.

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Na segunda leitura (Rm 14,7-9) Paulo sugere aos cristãos de Roma que a comunidade cristã tem de ser o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, do perdão. Ninguém deve desprezar, julgar ou condenar irmãos que têm perspetivas diferentes, pois algo de fundamental une todos os seguidores de Jesus: o próprio o Senhor, Jesus Cristo. Tudo o resto não tem grande importância.

Os vv. 7-9 são o centro da perícopa. O apóstolo recorda a todos – aos fortes e aos débeis – que pertencem ao Senhor: “Quer vivamos quer morramos, é ao Senhor que pertencemos”. Isso é mais importante do que as opiniões particulares acerca do caminho a percorrer para atingir o objetivo. Os crentes, antes de se deixarem dividir e separar por questões secundárias (que tipo de alimentos se devem comer, que festas se devem celebrar, que jejuns se devem fazer), devem ter consciência do essencial da fé e do que os une: Cristo, que morreu e ressuscitou para a todos dar a vida. A comunidade eclesial é a família de irmãos, reunida à volta do mesmo Senhor.

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Leão XIV, antes da recitação do Angelus com os fiéis reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano, sublinhou o perdão como valor fundamental da vida cristã. Jesus ensinou-o e testemunhou-o até à cruz, onde rezou ao Pai pelos seus perseguidores com as palavras: “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem.”

No Evangelho desta dominga, Pedro questiona o Mestre sobre o tema: “Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?” Na ótica do Pontífice, a pergunta petrina revela um coração generoso, pois o número sete na Bíblia simboliza a plenitude, e “perdoar sete vezes” significa perdoar com grande generosidade. A resposta de Jesus, porém, vai além: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” Quer dizer, “além de qualquer limite, sem medida”.

E o Papa sintetiza a parábola, que referimos, do servo que tinha, para com o seu senhor, dívida tão grande que era praticamente impossível de saldar. “Tendo obtido a remissão, por pura misericórdia, não tinha demonstrado, no entanto, a mesma piedade para com um dos seus companheiros e, por isso, foi repreendido e severamente castigado.” Com isto, Jesus lembra que a dádiva e o perdão estão na base da nossa existência. “Tudo nos é dado por Deus, num ato de puro amor, e nenhum de nós pode dizer-se perfeito na forma como responde a tanta bondade. Por isso, a gratuitidade – a fonte da nossa própria vida – é a melhor regra para a nossa convivência. O perdão é indispensável e, se faltar, não se pode viver em paz: mais cedo ou mais tarde, no coração e entre as pessoas, surgem conflitos, acusações, rancores e vinganças que destroem as relações, dividem as famílias e desencadeiam guerras.”

“Só o perdão liberta e traz de volta a luz, mesmo onde a pobreza material e moral do homem, por um momento, tornou o horizonte sombrio e o caminho incerto. O perdão, como um vento favorável, afasta até as nuvens mais densas, até que o sol volte a brilhar. Pedro experimentou-o várias vezes, em particular quando, após ter negado e abandonado Jesus durante a Paixão, ao encontrá-Lo ressuscitado, à beira do lago, ouviu-Lhe ser dirigida uma pergunta: ‘Simão […], tu amas-me?’, acompanhada de um convite: ‘Segue-me!’ Tal como no início, no dia do seu primeiro encontro, como se quase nada tivesse acontecido. E esta caridade, que esquece e cura, marcará, para o primeiro dos Apóstolos, a confirmação da sua missão.”

Por isso, Leão XIV exorta a que peçamos “à Virgem Maria, Mãe da Misericórdia, que nos ajude a perdoar sempre”, mesmo sendo difícil dar o primeiro passo, “e a difundir, com coragem e perseverança, a luz serena e curativa do amor que vence o ódio e desarma todo o rancor”.

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Em Fátima, a 13 de setembro, na homilia da missa da Peregrinação Internacional Aniversária de setembro, celebrada no Recinto de Oração, o arcebispo de Saurimo e presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, D. José Manuel Imbamba, sustentou que o perdão “não é um sentimento”, mas “uma tomada de decisão” e defendeu que esta atitude é essencial para ultrapassar o ódio e o rancor e para construir a paz. Partindo do trecho evangélico em que Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar ao irmão, frisou que a resposta de Cristo – “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” – revela que o perdão não pode ser “uma conta aritmética de 490 vezes”. “O cristão não pode viver a fazer contabilidade do perdão. O amor não funciona com calculadora”, disse.

O prelado angolano alertou para as consequências das mágoas e de ressentimentos acumulados na relação familiar e social. “Quantas famílias estão desfeitas por causa de uma única palavra mal saída da boca? Quantos pais não falam com filhos, quantos irmãos cortaram relações e quantos casais vivem sob o mesmo teto como estranhos, porque não quiseram ultrapassar uma ou duas ofensas?”, questionou, para estender a mensagem à realidade internacional. Perante um Mundo marcado por conflitos e guerras, D. José Imbamba questionou quantos países permanecem em confronto, “por falta da disponibilidade ao diálogo e ao perdão”.

A propósito da parábola dos dois devedores, criticou os casos em que “alguns países poderosos sufocam e deprimem os países pequenos, através das dívidas injustas”. “Quem experimenta a imensidão do perdão de Deus não pode transformar o próprio coração num tribunal com o direito de julgar e de condenar os outros, sem piedade e sem hipótese de regeneração”, sustentou. Porém, distinguiu perdão de aceitação ou de negação da injustiça: “Perdoar não significa aprovar o erro ou dizer que a injustiça não existiu. Perdoar não é fingir amnésia nem apagar a verdade.”

O perdão impede, na lógica do arcebispo, que a dor determine a vida de quem sofreu. “Existe uma diferença fundamental entre lembrar uma ferida e viver em torno dela. Lembrar com a cicatriz curada é sabedoria; viver a sangrar a mesma ferida é escravidão”, sentenciou.

Nesse sentido, defendeu que o perdão é uma decisão e que cada um pode optar, já hoje, por não viver sob a opressão do ódio e do rancor. “O perdão não muda o passado, mas tem o poder de libertar e transformar o nosso presente e o futuro”, vincou.

A partir do ensinamento de Paulo aos Romanos, sublinhou que, “quando decidimos perdoar do fundo do coração – não apenas da boca para fora ou com um sorriso falso –, Deus começa em nós uma obra inteiramente nova”.

Reconhecendo que há ofensas que exigem “lágrimas, tempo, acompanhamento e muita oração”, D. José Imbamba afirmou que “o perdão de coração cura o que estava bloqueado e permite-nos caminhar de novo e levantar novos voos de realização”.

E, no contexto do tema do biénio do Santuário de Fátima, “Coração de Maria, caminho para ver a Deus”, o arcebispo confiou a Maria as famílias e um Mundo marcado pela divisão e pediu a sua intercessão pela paz. “Essa paz só pode nascer de corações reconciliados que sabem renunciar ao ciclo do ódio e da vingança”, concluiu.

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É, pois, bom reconhecer o perdão de Deus e não o recusar ao irmão, pois isso é essencial ao amor fraterno a que Jesus nos vinculou.

“O Senhor é clemente e compassivo, / paciente e cheio de bondade.”

“Bendiz, ó minha alma, o Senhor / e todo o meu ser bendiga o seu nome santo. / Bendiz, ó minha alma, o Senhor / e não esqueças nenhum dos seus benefícios.

“Ele perdoa todos os teus pecados / e cura as tuas enfermidades. Salva da morte a tua vida / e coroa-te de graça e misericórdia.

“Não está sempre a repreender, / nem guarda ressentimento. Não nos tratou segundo os nossos pecados, / nem nos castigou, segundo as nossas culpas.

“Como a distância da terra aos céus, / assim é grande a sua misericórdia para os que O temem. / Como o oriente dista do Ocidente, / assim Ele afasta de nós os nossos pecados.”

“Aleluia. Aleluia. Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei.”

2026.09.13 – Louro de Carvalho


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