A
26 de setembro, a Euronews publicou um artigo intitulado “Itália: frase
das ‘saias compridas’ deixa Tajani alvo de memes e da imprensa”, em que o
jornalista Fortunato Pinto, refere que o italiano Antonio Tajani, vice-primeiro-ministro
e ministro das Relações Exteriores, vem sendo alvo de críticas, após dizer, num
discurso proferido num evento político, em Formello, perto de Roma, na Itália,
preferir mulheres “sérias” de saias compridas, pelo que senadoras da oposição
protestaram de saia e memes se espalham além-fronteiras.
Apesar
do pedido de desculpa, apresentado, a 21 de setembro, pelas palavras proferidas
na semana anterior, e da tentativa de Giorgia Meloni, primeira-ministra, para
pôr fim à polémica, as declarações do governante, sobre a escolha da
companheira de vida, com base em critérios, como o comprimento da saia que deve
usar, geram reações contra o ministro, fora das fronteiras de Itália,
transformando-o em protagonista de memes que circulam nas redes sociais.
Numa
entrevista no festival “Itaca”, em Formello (pelos vistos, não num discurso,
como aponta Fortunato Pinto), Tajani disse que recomendaria a um homem (em
concreto, ao seu filho) casar com mulheres sérias, que usam “saias mais
compridas”. “Talvez menos vistosa, mas mais fiável, mais séria, alguém que será
uma boa mãe de família, que manterá a fidelidade ao amor que sela com o
casamento”, especificou o chefe da diplomacia italiana, frisando que escolhe
“sempre a bonita, séria, credível, que sustenta a família, que está presente,
de quem sabes que dá sempre respostas e que, quando a chamas, está lá”.
Depois
de uma chuva de críticas, Tajani pediu desculpa. “Lamento muito que tenham sido
mal interpretadas algumas das minhas afirmações, retiradas de um discurso muito
mais amplo. Peço desculpa, se algumas pessoas se sentiram ofendidas pelo que
disse, mas eu não pensei nunca em ofender as mulheres, nunca o fiz na minha
vida, nem na esfera privada, nem na pública”, afirmou Tajani, à margem da
visita que realizou a Nova Iorque para a Assembleia Geral da Organização das
Nações Unidas (ONU), mas não foi suficiente.
As
declarações do governante foram duramente contestadas pelas forças da oposição,
pelos sindicatos e pela Conferência Episcopal Italiana (CEI), embora o Vaticano
não tenha tomado qualquer posição oficial.
Onze
senadoras do Partido Democrático (PD), do partido Itália Viva, da Alleanza
Verdi e Sinistra (AVS), do MoVimento 5 Stelle (M5S) e do grupo das Autonomias
reuniram-se, a 22 de setembro, no Palazzo Madama, sede do Senado, vestidas com minissaia.
“Este é um gesto de liberdade para dizer que somos livres de nos vestirmos como
quisermos. Acreditamos que a liberdade das mulheres se mede por qualquer gesto
de liberdade, incluindo o comprimento da saia ou por qualquer outro gesto que
as mulheres queiram fazer, sem serem julgadas pelos homens”, afirmou a líder
parlamentar da Itália Viva, Raffaella Paita, autora da iniciativa.
Para
Simona Malpezzi, do PD, que divulgou a fotografia do grupo, “estas palavras são
a demonstração de um patriarcado intrínseco e inconsciente, tanto que o
ministro Tajani acabou por se justificar e por pedir desculpa, mas a sua
justificação é ainda pior. Eles não se apercebem do que dizem porque o têm
interiorizado. É preciso mostrar que estas frases não são aceitáveis.”
E
outras figuras da política italiana também se manifestaram contra as asserções do
governante. Por exemplo, a ex-prefeita de Turim e deputada, Chiara Appendino,
fez uma publicação, nas suas redes sociais, usando uma minissaia, na qual
questionou se ela, que é mãe, não seria uma mulher confiável pela roupa que
está a usar. “A nossa confiabilidade não se mede em centímetros de tecido.
Vamos sair da Idade Média”, concluiu.
A
iniciativa surgiu também em resposta às palavras do líder de Futuro Nazionale,
Roberto Vannacci, que, comentando as declarações de Tajani, discorreu: “Entre
uma mulher de saia comprida e uma mulher de saia curta, eu prefiro sempre uma
mulher sem saia. […] Não me preocupo com críticas tolas. Amo as mulheres,
dádiva do universo.” Tais palavras foram repetidas pelo general, nas redes
sociais, com a publicação das imagens das estátuas da Vénus de Milo e da Vénus
de Candia, ambas semidespidas.
Muitas
outras representantes da oposição publicaram fotografias de saia, mas também
alguns homens, entre eles, o vereador de Florença do PD, Andrea Ciulli, que
publicou uma imagem sua criada com inteligência artificial (IA), em que aparece
de saia, acompanhada da legenda: “O comprimento de uma saia não mede o valor de
uma mulher, mede a sua liberdade.”
“Tajani,
neste momento, é um meme, já não é um ministro”, afirmou o antigo
primeiro-ministro e líder de Itália Viva, Matteo Renzi, subindo o tom. Sobre o
ministro foram difundidos memes que o retratam com roupa feminina, partilhados
também por meios de comunicação internacionais, entre os quais a CNN e a
BBC.
Também
a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL) – o maior e mais antigo
sindicato da Itália, com mais de cinco milhões de inscritos, incluindo
trabalhadores ativos, jovens e reformados – reagiu com dureza. “Contrapor a
mulher ‘aparente’ à mulher ‘séria’, ‘fiável’ e ‘boa mãe de família’, chegando a
invocar até o comprimento da saia, repõe um modelo antigo de sociedade, em que
continuam a ser os homens a determinar como devem ser as mulheres para serem
consideradas respeitáveis”, afirmou o sindicato, vincando: “As instituições têm
uma responsabilidade: remover os estereótipos e os obstáculos à plena
participação das mulheres, não reproduzir uns e enfraquecer as garantias contra
os outros. A começar por tornar efetivo o pleno direito ao trabalho,
ultrapassando as disparidades salariais e profissionais existentes. A qualidade
da democracia mede-se também pelo poder que as mulheres podem realmente exercer.”
Como
dissemos, também a CEI, pela voz do seu secretário, monsenhor Giuseppe Batur,
ao responder a uma pergunta sobre as palavras de Tajani e de Vannacci, afirmou:
“Cada palavra, cada olhar sobre a mulher deve estar carregado de respeito e de admiração;
para nós, cristãos, o primeiro lugar em que o Verbo Se fez carne foi o ventre
de uma mulher e, para quem tem fé, isso marca, para sempre, o olhar sobre as
mulheres. […] Com o olhar, entramos em relação com os outros, homens, mulheres,
crianças e idosos, e é preciso respeito; para com as mulheres, o máximo, na
medida em que podem ser alvo de olhares superficiais.”
A
secretária-geral do PD, Elly Schlein, pediu, nos últimos dias, um comentário da
primeira-ministra e líder partido Fratelli d’Italia (FdI), que acabou por
minimizar as palavras de Tajani, pedindo que não se “exagere”, porque se tratou
de uma “frase infeliz”. “Já respondi, não exageraria e não me parece que
devamos fazer disto o tema de discussão da semana da moda”, disse Meloni, ao
participar num evento, durante a Fashion Week de Milão.
Tajani
foi, depois, defendido por outros membros do governo, entre eles o ministro da
Defesa, Guido Crosetto, que escreveu na plataforma X: “Tajani não disse
às mulheres como se devem vestir, contou, como pai, que tipo de companheira
aconselharia ao filho, com base na sua educação e nos seus valores. Quem se
sentir ofendida, num caso ou noutro, é naturalmente livre de o dizer. Mas o
facto de uma opinião incomodar alguém não significa, necessariamente, que
limite a sua liberdade. Já decidir silenciar outra pessoa significa não
respeitar a sua liberdade”.
“Falam
da liberdade das mulheres, mas porque não travar a batalha por aquelas que
estão prisioneiras dos maridos e não podem participar na vida do país? Por
motivos religiosos, aceitam que existam escravas, na Itália, até da poligamia.
A seriedade exigiria que viessem connosco combater a burca”, afirmou Stefania
Pucciarelli, do partido Lega (formalmente conhecido como Lega per Salvini
Premier e historicamente como Lega Nord).
***
Andrea
Giuli comentou as palavras de Tajani nos termos seguintes:
“As
declarações de Antonio Tajani sobre as mulheres – especificamente, sobre ‘saias
mais compridas’ e a ideia de que uma jovem menos chamativa é, de alguma forma,
mais confiável – não são apenas uma brincadeira. Refletem uma visão da mulher
que pertence a um passado que não queremos trazer de volta para o presente. Uma
mulher não é mais séria, simplesmente, pela maneira como se veste. Não é mais
confiável, por ser menos chamativa. Não tem mais valor, por se adequar a um
padrão definido por outra pessoa.
“As
mulheres devem ser livres para escolherem quem são, como se vestem, como amam,
que trabalho realizam e que tipo de vida constroem.
“Como
vereador e homem que exerce cargo público, acredito que não podemos dar um
único passo atrás, nessa questão. A política deve servir para desconstruir
estereótipos, não para reforçá-los. O comprimento da saia não mede o valor de
uma mulher. A sua liberdade, sim.”
***
Antonio
Tajani, que nasceu, em Roma, a 4 de agosto de 1953 é político, jornalista e
ex-oficial da Força Aérea Italiana. Atualmente, assume as funções no governo
como vice-primeiro-ministro da Itália e ministro das Relações Exteriores, desde
22 de outubro de 2022. Foi presidente do Parlamento Europeu (PE), de 2017 a
2019, comissário europeu, de 2008 a 2014, e também um dos vice-presidentes da Comissão
Europeia. Foi eurodeputado, de 1994 a 2008 e de 2014 a 2022, até ser eleito
para a Câmara dos Deputados da Itália. Foi jornalista, durante dez anos,
enviado especial no Líbano, na União Soviética e na Somália, no início dos anos
1980. E, entre 1987 e 1993, foi diretor do diário “Il Giornale”, em Roma.
Tem,
pois, vasta experiência, sobretudo, em política europeia, pelo que nada lhe justifica
certa informalidade (ou leviandade) discursiva que possa ofender alguém, em
cerimónia pública ou numa entrevista. Aliás, as suas palavras são ambíguas,
segundo o que relatou Vannacci, no programa “Start”, da Sky Tg24, em
resposta às declarações de Antonio Tajani.
O
que Tajani disse terá sido: “Se eu tivesse de dar um conselho ao meu filho
quando ele me perguntasse com qual rapariga deveria casar, eu sempre escolheria
a bonita, séria e confiável. Tu preferes essa ou a séria, que talvez use saias
um pouco mais compridas do que a outra?”
Em
minha opinião, o texto, mais do que afirmar, insinua, o que é mais grave. É a insinuação,
enquanto asserção envergonhada, que provoca, geralmente e com razão, as piores
reações.
Após
a controvérsia em torno da declaração, o governante lamentou que algumas das suas
declarações tenham sido mal interpretadas, extraídas de uma discussão muito
mais complexa. É a desculpa conveniente!
Admito
que tenha sido sincero quando recordou: “Nomeei, e queria nomear, duas mulheres
como embaixadora no Irão e embaixadora no Afeganistão, precisamente, para
enviar um sinal muito claro de que os direitos das mulheres não podem ser
desrespeitados, em todo o Mundo. Este é apenas um exemplo das minhas ações em
defesa dos direitos das mulheres. […] Poderia fazer muito mais. Não quero gerar
controvérsia nem alimentá-la.”
Depois,
reiterou: “Quero apenas dizer que certas declarações não devem ser exploradas,
pois nunca houve qualquer intenção, da minha parte, de ofender as mulheres.
Repito, a minha atividade política, o meu trabalho como ministro e a minha vida
pessoal demonstram isso.”
***
As
declarações de Tajani em Formello, não são entendidas, isoladamente, nas redes
sociais e na comunicação social. Com efeito, em passagem pelo Brasil, também contestou
a italianidade de descendentes ítalo-brasileiros e repetiu críticas à cidadania
iure sanguinis. E, por conseguinte, seja verdade ou não, o que ressalta
é que a segunda figura do governo italiano disse, em Formello, que aconselharia
o filho a preferir mulher “menos vistosa”, porém mais “confiável”, “séria” e
capaz de ser “boa mãe de família”, em vez de mulher mais atraente que, segundo
o exemplo que apresentou, poderia ter tido vários namorados ou ser mais
propensa à infidelidade.
Antes
da viagem para o Brasil, no atinente à italianidade, o próprio Tajani escreveu
que cerca de 32 milhões de brasileiros têm origem italiana e descreveu tal
contingente como “um património extraordinário” de vínculos familiares,
culturais e afetivos. Em São Paulo, voltou a exaltar o papel dos italianos no
exterior e dos descendentes como ponte com a Itália.
Porém,
ao ser questionado, no Museu da Imigração, sobre a reforma de 2025, que
restringiu a transmissão da cidadania italiana por descendência, descartou
qualquer flexibilização e afirmou que a nova legislação serve para “defender a
italianidade”. Por outro lado, em Miami, o governante italiano considerou que
não seria “um bom sinal” obter o passaporte italiano, apenas para viajar ou
para fazer compras naquela cidade norte-americana, questionou por que pessoas
que se consideravam italianas não haviam buscado, antes, o reconhecimento e
perguntou por que a “italianidade foi abandonada por gerações”.
***
Em
relação à retratação sobre as declarações em Formello, é de observar que o
histórico de declarações de Tajani, seguidas de controvérsia não começou em
2026.
Em
março de 2019, quando presidia ao PE, afirmou, numa entrevista, que Benito
Mussolini havia realizado também “coisas positivas”, citando obras de
infraestrutura do período fascista. A declaração provocou forte reação no próprio
PE. E, no dia seguinte, Tajani pediu desculpas e afirmou que não pretendia
justificar ou minimizar “um regime antidemocrático e totalitário”, reiterando
que se considerava antifascista.
Não
significa que uma frase isolada defina toda a atuação de um vice-primeiro-ministro
e ministro das Relações Exteriores. Mas há um elemento comum documentado: as declarações
de Tajani têm provocado, em diferentes momentos, repercussões que o obrigaram a
voltar a público para explicar, para contextualizar ou para pedir desculpas. E,
para um chefe da diplomacia, talvez seja esse o pormenor mais irónico, já que a
diplomacia costuma ser a arte de escolher as palavras, antes que elas precisem de
ser recolhidas.
***
As
palavras de Tajani não ficaram circunscritas à entrevista em Formello. Num
vídeo, o político italiano disse que, se fosse aconselhar o seu filho entre
ficar com uma mulher mais charmosa, que usasse roupas mais “chamativas”, ou com
uma mulher mais séria, ele deveria escolher a segunda, pois a primeira não
seria dedicada à família e teria tendência maior para trair. “A mais chamativa
[referindo-se à mulher hipotética] pode ser boa, por um dia. […] Mas, se me
perguntarem se eu prefiro ficar com ela ou com a mulher mais séria, que usa uma
saia longa, eu aconselharia sempre escolher a mais confiável”, afirmou Tajani.
Foi
a entrevista e o vídeo que desencadearam toda a reação.
***
Um
cidadão (ã) deve respeitar a liberdade do(a) outro(a). E, em princípio, as
pessoas devem usar indumentária adequada às circunstâncias locais, temporais, sociais,
religiosas (se forem religiosas ou se participarem em ato religiosos. E o vestuário,
exceto em farda militar ou de corporações específicas, não deve estar sujeito a
métricas milimétricas, como acontecia, por exemplo, durante o Estado Novo
português, a par de outros condicionamentos, como o casamento de militares, de
enfermeiras ou de professoras, bem como a medida milimétrica para o traje nas
praias.
Porém,
Tajani não era capaz de habitar no Éden de Adão e de Eva!
2026.09-26 – Louro de Carvalho
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