A
13 de setembro, o jornal norte-americano Wall Street Journal (WSJ)
noticiou que o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, está a estudar uma
maior aproximação à União Europeia (UE), incluindo a hipótese de se tornar
“membro associado” do bloco – estatuto que não existe, mas a UE parece aberta à
criação de fórmulas especiais de associação, segundo responsáveis europeus e
canadianos que prestaram declarações ao Wall Street Journal, sob anonimato.
A
notícia surgiu antes do discurso de Carney no Parlamento Europeu (PE), em
Estrasburgo, a 17 de setembro, para apresentar a sua visão para as relações
Canadá-UE, num contexto geopolítico difícil. Com efeito, Otava está envolta
numa guerra comercial histórica com os Estados Unidos da América (EUA), com
tarifas elevadas em vigor e sem sinais de alívio, e Bruxelas não tem uma
relação económica e diplomática incontroversa com Washington.
Por
conseguinte, a UE e o Canadá querem reforçar as trocas de bens, serviços e
trabalhadores, sobretudo, em áreas como a energia, a inteligência artificial
(IA), a defesa e os minerais críticos. Nesse sentido, as duas entidades discutem
projetos conjuntos, incluindo cabos submarinos, centros de dados,
infraestruturas de nuvem e redes de satélites. E o Canadá pretende aumentar as
exportações de energia para a Europa. Contudo, garantir o estatuto de membro
associado revela-se difícil, visto que a UE tem regras rigorosas de adesão e um
longo processo para alterar os seus enquadramentos, o que pode conhecer alguma
flexibilização, mercê do impacto da presidência de Donald Trump, marcada por
tarifas e ameaças dos dois lados do Atlântico.
O
chanceler alemão Friedrich Merz apresentou, no início do ano, a sua visão para
um estatuto de membro associado, pensado para a Ucrânia, mas aplicável, potencialmente,
ao Canadá. O modelo aprofundaria os laços com a UE, sem exigir adesão plena.
O
presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro canadiano, Mark
Carney, têm agendada, para a próxima semana, uma visita ao território francês
de Saint-Pierre e Miquelon, situado a cerca de 20 quilómetros da costa
atlântica do Canadá. Segundo Paris, a visita vinca as relações estreitas entre
os dois países, em maré de tensão com os EUA. Efetivamente, o inquilino da Casa
Branca, a 14 de setembro, em provocação, publicou, no Truth Social, a
imagem do mapa da América do Norte com a bandeira dos EUA sobre territórios
ultramarinos franceses, incluindo Saint-Pierre e Miquelon, Guadalupe e
Martinica, bem como a Islândia, a Gronelândia, o México, o Canadá e grande
parte da América Central e das Caraíbas.
Neste
contexto, como indicou, em Paris, o Palácio do Eliseu a visita em causa servirá
para destacar os valores partilhados pela França e pelo Canadá, nomeadamente,
“liberdade, democracia, Estado de direito e respeito pela soberania dos
Estados”, face a um Mundo marcado pelo regresso da política de poder, por
tensões geopolíticas e por novas formas de dependência, mas em que a França e o
Canadá não receiam partilhar a “ambição comum” de “reforçar a capacidade de
agir de forma autónoma. Segundo a presidência francesa, será a primeira visita
de um primeiro-ministro canadiano ao arquipélago e será a primeira de um
presidente francês, nos últimos 12 anos, pois François Hollande visitou o
território em 2014.
***
Está
previsto que o primeiro-ministro canadiano discurse no PE, a 17 de setembro,
depois de, no dia anterior, assistir ao discurso da presidente da Comissão
Europeia, Ursula von der Leyen, sobre o Estado da União, que define as
prioridades políticas e a orientação estratégica da UE.
Embora
não seja invulgar o PE ter convidados de honra, o convite dirigido a Carney tem
carga mais política, agora, do que em anos anteriores, quando Bruxelas optou
por figuras da sociedade civil e centrou as atenções na Ucrânia. E a data coincide
com a promessa de Carney de procurar uma parceria cada vez mais estreita com a
UE, numa altura em que a guerra comercial entre os EUA e o Canadá se agrava num
confronto histórico entre os dois países. “A importante visita do
primeiro-ministro será uma oportunidade para aprofundar os laços UE-Canadá e
reforçar a nossa relação”, escreveu a presidente do PE, Roberta Metsola, no X.
Recentemente,
as conversações comerciais entre o Canadá e os EUA colapsaram, após meses de
negociações difíceis, com Otava a acusar Washington de interferir na sua
soberania, ao exigir concessões, quanto à língua francesa, de limitar a sua
capacidade de concluir acordos comerciais separados e de apresentar exigências
excessivas em troca de muito pouco. E administração Trump alega que o Canadá é
protegido pelos EUA, que investiu menos na defesa e que Carney está a usar
táticas de “tough guy” (ou do “homem durão”).
A
24 de agosto, os EUA impuseram direitos de importação de até 50%, sobre
produtos canadianos no valor de 20 mil milhões de dólares (17 mil milhões de
euros). Por sua vez, o Canadá afirmou que responderia com tarifas de retaliação
“dólar por dólar”, numa escalada sem precedentes entre os dois vizinhos
norte-americanos.
O
presidente dos EUA afirmou, em agosto, que estava também a ponderar mudar o
nome do lago Ontário para “lago América”, na sequência da decisão de rebatizar
o golfo do México como golfo da América. Donald Trump refere-se, repetidamente,
ao Canadá, como estado dos EUA, e questionou a fronteira entre os dois países,
aduzindo que foi traçada, de forma arbitrária, “com uma régua”. Carney, por seu
turno rejeitou a medida, afirmando que os canadenses o chamarão de Lago
Ontário, “agora e para sempre”.
O
primeiro-ministro canadense, desde o Fórum Económico Mundial de Davos 2026 (EWF
2026) tem defendido a criação de uma coligação das potências intermédias, numa
altura em que a ordem internacional está em convulsão, com os EUA a
prosseguirem uma agenda agressiva de tarifas e a exigirem maior alinhamento,
por parte dos seus aliados.
***
Em
decisão surpreendente, o primeiro-ministro canadiano afastou-se das negociações
comerciais com os EUA, outrora o aliado mais próximo do país. Embora as
repercussões económicas permaneçam incertas e possam ser graves, o antigo
banqueiro central esclareceu que a soberania não é um preço que o Canadá esteja
disposto a pagar. E denunciou as condições propostas por Washington como um
“mau acordo”, que violariam o uso da língua francesa no Canadá, protegida pela
Constituição, e a capacidade do país de celebrar acordos comerciais com outros
Estados. “Está-se em guerra, quando se é atacado, e nós fomos atacados”,
afirmou Carney, prometendo retaliar “dólar por dólar” contra o vizinho.
Os
efeitos poderão ser dolorosos: tarifas elevadas sobre 20 mil milhões de dólares,
em bens canadianos, e cerca de 87 mil empregos diretos e indiretos em risco. E
a situação pode piorar, rapidamente. O presidente dos EUA anunciou nova vaga de
tarifas contra o Canadá, alimentando o ciclo de retaliações. Este choque
espetacular tem sido comparado com a situação da UE, que tem sido alvo das sempre
crescentes exigências da Casa Branca e das táticas negociais de uma
administração Trump obcecada com os défices comerciais e disposta a usar todos
os instrumentos para pôr a América em primeiro lugar.
Bruxelas
procura conter a pressão norte-americana para desmantelar regras ambientais, de
sustentabilidade e digitais, enquanto tenta manter vivo o desequilibrado acordo
comercial UE-EUA fechado em Turnberry, na Escócia, em 2025. Porém, em julho, Trump
disse que a UE pagaria um “preço muito elevado”, depois de a Comissão Europeia
ter aplicado a multa de 800 milhões de euros à Google, por alegadas práticas de
autopreferência e de tratamento injusto de programadores de aplicações. “Prevemos
que lhes seja aplicada uma tarifa substancial no mais curto prazo possível”,
afirmou Trump.
Por
tudo isto, há razões para a UE tomar uma decisão ao jeito de Carney; e a
principal é a determinação em proteger o seu direito de regular e em fazer
cumprir normas no seu território, linha vermelha que Bruxelas considera
intransponível.
Diplomatas
da UE assinalam que o recuo de Trump na tentativa de adquirir a Gronelândia e a
sua decisão de lançar, unilateralmente, a guerra contra o Irão, agitando os
mercados de energia, reforçam a vontade coletiva de se fazer ouvir e de
resistir. Outro fator que pode encorajar a UE a afastar-se é a sua dimensão de
segunda maior economia mundial. E tanto o Canadá como a UE registam, há muito,
um excedente em bens e um défice em serviços nas trocas com os EUA.
Pela
sua localização geográfica, o Canadá depende, estruturalmente, do mercado norte-americano:
cerca de 75% das exportações canadianas de bens têm como destino os EUA. No
caso da UE, cujas ligações comerciais são muito mais diversificadas, a quota
desce para 21%. Em princípio, isso dá à UE maior margem de manobra e almofada
mais robusta para suportar uma guerra comercial com os EUA, se julgar
necessário esse caminho.
Durante
as negociações que precederam o acordo de Turnberry, a Comissão Europeia
preparou uma lista de bens norte-americanos, no valor de 93 mil milhões de
euros, a serem alvo de eventual retaliação equivalente. Essa lista, que se
mantém válida, seria a primeira linha de defesa. E dirigentes da UE colocaram
em cima da mesa a hipótese de ativar o Instrumento Anticoerção (ACI), que
permite contramedidas, além das tarifas tradicionais, como excluir empresas
estrangeiras de concursos públicos ou suspender, parcialmente, a proteção de
direitos de propriedade intelectual. Tal instrumento ganhou nova importância,
quando Trump reforçou as ameaças contra a Gronelândia e contra as regras
ambientais e digitais do bloco.
Por
outro lado, está a ganhar força, na Europa, a ideia de que a China representa o
desafio mais sistémico à segurança económica, e poucos querem travar guerras
comerciais simultâneas com Washington e com Pequim. Assim, embora a UE disponha
de argumentos e de instrumentos sólidos para se afastar, tem dificuldade em reunir
a coragem de Carney para o fazer. Com efeito, desde que Trump anunciou tarifas
abrangentes, os 27 estados-membros apressaram-se a fechar fileiras em torno da
Comissão Europeia. Alguns, entre os quais a França, a Espanha e os países
nórdicos, apelaram a que Bruxelas se mantivesse firme e retaliasse contra
condições injustas, mas outros, como a Alemanha, a Itália e a Irlanda,
defenderam um compromisso, custe o que custar, para evitar confrontação total
prejudicial.
Ora,
esta cacofonia e os interesses nacionais concorrentes limitaram a margem da
Comissão e levaram à produção de acordo que não deixou ninguém satisfeito. A UE
não tem estratégia comum para lidar com Trump, fragilidade que os EUA vêm
explorando.
Em
contraste, Carney conseguiu unir o Canadá em seu redor. Após o colapso das
conversações, as províncias canadianas apoiaram, rapidamente, Carney. O
primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, cujo setor industrial sairá
prejudicado do confronto, manifestou “total apoio a uma resposta firme – tarifa
por tarifa, dólar por dólar”. E sondagem recente indica que 76% dos canadianos
considera que Carney tomou a decisão certa.
Para
o primeiro-ministro canadiano, confrontar Trump faz sentido, politicamente, por
capitalizar a antipatia generalizada de muitos canadianos, em relação ao
presidente norte-americano, que tem sugerido transformar o Canadá no 51.º
Estado dos EUA.
Outro
fator decisivo, que levará a UE a pensar duas vezes, é a Ucrânia. Bruxelas
reconhece que o acordo comercial UE-EUA foi, em parte, motivado pelo desejo de
manter Trump envolvido no esforço de pôr fim à guerra da Rússia. A posição do líder
norte-americano sobre o conflito mudou, drasticamente, alimentando a ansiedade
entre os europeus, cônscios de que não podem substituir os serviços de
informação dos EUA, nem os sistemas de defesa aérea fabricados ali.
Embora
o Canadá seja firme defensor da Ucrânia, o seu papel no conflito é limitado. Todavia,
uma saída europeia poderia dar a Trump conveniente pretexto para retaliar,
desligando-se, totalmente, da Ucrânia. Aliás, na opinião de alguns observadores,
já o fez.
***
No
seu discurso sobre o Estado da União, a 16 de setembro, a presidente da
Comissão Europeia saudou, entre aplausos, a presença de Carney no PE e disse
que “precisamos de repensar, urgentemente, as nossas parcerias”, pelo que se propôs
trabalhar com ele, “para abrir a porta a que o Canadá seja o primeiro membro
associado da UE”.
Depois,
enfatizou que a UE e o Canadá têm em comum a crença de que “o poder não
pertence ao mais forte, rico ou barulhento, mas a todos nós”, e que “as
democracias têm a liberdade de escolher com quem trabalhar”. Foi a partir daqui
que justificou novo passo político: a passagem do acordo CETA (tratado
comercial entre a UE e o Canadá) para uma “aliança para o futuro”, com trabalho
conjunto, na área da tecnologia, na integração de bases industriais de defesa, na
energia, nos minerais críticos, nas baterias, na inteligência artificial (IA), na
segurança económica e no Ártico, enquanto “projeto comum”.
A
cooperação económica e de segurança entre os dois parceiros deverá ser
aprofundada numa cimeira, em Montreal, no mês de outubro.
Sobre
o Estado da União, Ursula von der Leyen anotou que é “o mais forte de sempre”,
mas que “dá a sensação de ser o mais precário de sempre”. “São declarações
aparentemente incompatíveis, mas ambas verdadeiras, que refletem estes tempos
excecionais”, afirmou.
No
contexto de uma era complexa com “grandes possibilidades” e com “grandes
perigos”, prosseguiu, vincando que “a Europa escolheu o seu próprio caminho” e
“está a emergir uma Europa mais forte e independente”, designadamente, no
investimento na defesa e no apoio coletivo, sendo exemplos a Ucrânia e a
Gronelândia, “quando drones, ataques híbridos ou desinformação têm as nossas
democracias como alvo”.
Na
ótica da presidente da Comissão, “na fragilidade fria do Mundo atual, só a
Europa pode dar verdadeira soberania aos Europeus”, mas tem de superar o
desgaste de relações antigas (referência à ligação com os EUA), os conflitos, a
competitividade industrial e a “batalha de narrativas”. Efetivamente, “estamos
a lidar com um Mundo abertamente hostil”, o que deve levar a enfrentar os
desafios que se traduzem em dificuldades para os europeus, nomeadamente, pela
contenção do custo da habitação e pela mitigação do impacto que têm na
democracia.
Referiu
o défice comercial com a China, que chegou ao ponto de rutura, e a ambivalência
da IA, que deve ser utilizada com cautela e humanismo, mas aproveitando as suas
potencialidades.
E
lançou o repto: “Queremos unir-nos em torno da nossa ideia europeia de que
podemos decidir o nosso próprio destino? Ou vamos deixar que as nossas
democracias sejam enfraquecidas pelos representantes e fantoches dos
autoritários?”. A crítica é também interna, com menções a “ultranacionalistas”
e a “antieuropeus”.
***
Em
suma, é necessária uma grande frente comum – tão alargada quanto possível – que
modere a excessiva ambição dos EUA, no seu pretenso papel de polícia do planeta.
2026.09.16
– Louro de Carvalho
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