quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Canadá ponderou estatuto de membro associado da UE e conseguiu

 

A 13 de setembro, o jornal norte-americano Wall Street Journal (WSJ) noticiou que o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, está a estudar uma maior aproximação à União Europeia (UE), incluindo a hipótese de se tornar “membro associado” do bloco – estatuto que não existe, mas a UE parece aberta à criação de fórmulas especiais de associação, segundo responsáveis europeus e canadianos que prestaram declarações ao Wall Street Journal, sob anonimato.

A notícia surgiu antes do discurso de Carney no Parlamento Europeu (PE), em Estrasburgo, a 17 de setembro, para apresentar a sua visão para as relações Canadá-UE, num contexto geopolítico difícil. Com efeito, Otava está envolta numa guerra comercial histórica com os Estados Unidos da América (EUA), com tarifas elevadas em vigor e sem sinais de alívio, e Bruxelas não tem uma relação económica e diplomática incontroversa com Washington.

Por conseguinte, a UE e o Canadá querem reforçar as trocas de bens, serviços e trabalhadores, sobretudo, em áreas como a energia, a inteligência artificial (IA), a defesa e os minerais críticos. Nesse sentido, as duas entidades discutem projetos conjuntos, incluindo cabos submarinos, centros de dados, infraestruturas de nuvem e redes de satélites. E o Canadá pretende aumentar as exportações de energia para a Europa. Contudo, garantir o estatuto de membro associado revela-se difícil, visto que a UE tem regras rigorosas de adesão e um longo processo para alterar os seus enquadramentos, o que pode conhecer alguma flexibilização, mercê do impacto da presidência de Donald Trump, marcada por tarifas e ameaças dos dois lados do Atlântico.

O chanceler alemão Friedrich Merz apresentou, no início do ano, a sua visão para um estatuto de membro associado, pensado para a Ucrânia, mas aplicável, potencialmente, ao Canadá. O modelo aprofundaria os laços com a UE, sem exigir adesão plena.

O presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, têm agendada, para a próxima semana, uma visita ao território francês de Saint-Pierre e Miquelon, situado a cerca de 20 quilómetros da costa atlântica do Canadá. Segundo Paris, a visita vinca as relações estreitas entre os dois países, em maré de tensão com os EUA. Efetivamente, o inquilino da Casa Branca, a 14 de setembro, em provocação, publicou, no Truth Social, a imagem do mapa da América do Norte com a bandeira dos EUA sobre territórios ultramarinos franceses, incluindo Saint-Pierre e Miquelon, Guadalupe e Martinica, bem como a Islândia, a Gronelândia, o México, o Canadá e grande parte da América Central e das Caraíbas.

Neste contexto, como indicou, em Paris, o Palácio do Eliseu a visita em causa servirá para destacar os valores partilhados pela França e pelo Canadá, nomeadamente, “liberdade, democracia, Estado de direito e respeito pela soberania dos Estados”, face a um Mundo marcado pelo regresso da política de poder, por tensões geopolíticas e por novas formas de dependência, mas em que a França e o Canadá não receiam partilhar a “ambição comum” de “reforçar a capacidade de agir de forma autónoma. Segundo a presidência francesa, será a primeira visita de um primeiro-ministro canadiano ao arquipélago e será a primeira de um presidente francês, nos últimos 12 anos, pois François Hollande visitou o território em 2014.

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Está previsto que o primeiro-ministro canadiano discurse no PE, a 17 de setembro, depois de, no dia anterior, assistir ao discurso da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sobre o Estado da União, que define as prioridades políticas e a orientação estratégica da UE.

Embora não seja invulgar o PE ter convidados de honra, o convite dirigido a Carney tem carga mais política, agora, do que em anos anteriores, quando Bruxelas optou por figuras da sociedade civil e centrou as atenções na Ucrânia. E a data coincide com a promessa de Carney de procurar uma parceria cada vez mais estreita com a UE, numa altura em que a guerra comercial entre os EUA e o Canadá se agrava num confronto histórico entre os dois países. “A importante visita do primeiro-ministro será uma oportunidade para aprofundar os laços UE-Canadá e reforçar a nossa relação”, escreveu a presidente do PE, Roberta Metsola, no X.

Recentemente, as conversações comerciais entre o Canadá e os EUA colapsaram, após meses de negociações difíceis, com Otava a acusar Washington de interferir na sua soberania, ao exigir concessões, quanto à língua francesa, de limitar a sua capacidade de concluir acordos comerciais separados e de apresentar exigências excessivas em troca de muito pouco. E administração Trump alega que o Canadá é protegido pelos EUA, que investiu menos na defesa e que Carney está a usar táticas de “tough guy” (ou do “homem durão”).

A 24 de agosto, os EUA impuseram direitos de importação de até 50%, sobre produtos canadianos no valor de 20 mil milhões de dólares (17 mil milhões de euros). Por sua vez, o Canadá afirmou que responderia com tarifas de retaliação “dólar por dólar”, numa escalada sem precedentes entre os dois vizinhos norte-americanos.

O presidente dos EUA afirmou, em agosto, que estava também a ponderar mudar o nome do lago Ontário para “lago América”, na sequência da decisão de rebatizar o golfo do México como golfo da América. Donald Trump refere-se, repetidamente, ao Canadá, como estado dos EUA, e questionou a fronteira entre os dois países, aduzindo que foi traçada, de forma arbitrária, “com uma régua”. Carney, por seu turno rejeitou a medida, afirmando que os canadenses o chamarão de Lago Ontário, “agora e para sempre”.

O primeiro-ministro canadense, desde o Fórum Económico Mundial de Davos 2026 (EWF 2026) tem defendido a criação de uma coligação das potências intermédias, numa altura em que a ordem internacional está em convulsão, com os EUA a prosseguirem uma agenda agressiva de tarifas e a exigirem maior alinhamento, por parte dos seus aliados.

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Em decisão surpreendente, o primeiro-ministro canadiano afastou-se das negociações comerciais com os EUA, outrora o aliado mais próximo do país. Embora as repercussões económicas permaneçam incertas e possam ser graves, o antigo banqueiro central esclareceu que a soberania não é um preço que o Canadá esteja disposto a pagar. E denunciou as condições propostas por Washington como um “mau acordo”, que violariam o uso da língua francesa no Canadá, protegida pela Constituição, e a capacidade do país de celebrar acordos comerciais com outros Estados. “Está-se em guerra, quando se é atacado, e nós fomos atacados”, afirmou Carney, prometendo retaliar “dólar por dólar” contra o vizinho.

Os efeitos poderão ser dolorosos: tarifas elevadas sobre 20 mil milhões de dólares, em bens canadianos, e cerca de 87 mil empregos diretos e indiretos em risco. E a situação pode piorar, rapidamente. O presidente dos EUA anunciou nova vaga de tarifas contra o Canadá, alimentando o ciclo de retaliações. Este choque espetacular tem sido comparado com a situação da UE, que tem sido alvo das sempre crescentes exigências da Casa Branca e das táticas negociais de uma administração Trump obcecada com os défices comerciais e disposta a usar todos os instrumentos para pôr a América em primeiro lugar.

Bruxelas procura conter a pressão norte-americana para desmantelar regras ambientais, de sustentabilidade e digitais, enquanto tenta manter vivo o desequilibrado acordo comercial UE-EUA fechado em Turnberry, na Escócia, em 2025. Porém, em julho, Trump disse que a UE pagaria um “preço muito elevado”, depois de a Comissão Europeia ter aplicado a multa de 800 milhões de euros à Google, por alegadas práticas de autopreferência e de tratamento injusto de programadores de aplicações. “Prevemos que lhes seja aplicada uma tarifa substancial no mais curto prazo possível”, afirmou Trump.

Por tudo isto, há razões para a UE tomar uma decisão ao jeito de Carney; e a principal é a determinação em proteger o seu direito de regular e em fazer cumprir normas no seu território, linha vermelha que Bruxelas considera intransponível.

Diplomatas da UE assinalam que o recuo de Trump na tentativa de adquirir a Gronelândia e a sua decisão de lançar, unilateralmente, a guerra contra o Irão, agitando os mercados de energia, reforçam a vontade coletiva de se fazer ouvir e de resistir. Outro fator que pode encorajar a UE a afastar-se é a sua dimensão de segunda maior economia mundial. E tanto o Canadá como a UE registam, há muito, um excedente em bens e um défice em serviços nas trocas com os EUA.

Pela sua localização geográfica, o Canadá depende, estruturalmente, do mercado norte-americano: cerca de 75% das exportações canadianas de bens têm como destino os EUA. No caso da UE, cujas ligações comerciais são muito mais diversificadas, a quota desce para 21%. Em princípio, isso dá à UE maior margem de manobra e almofada mais robusta para suportar uma guerra comercial com os EUA, se julgar necessário esse caminho.

Durante as negociações que precederam o acordo de Turnberry, a Comissão Europeia preparou uma lista de bens norte-americanos, no valor de 93 mil milhões de euros, a serem alvo de eventual retaliação equivalente. Essa lista, que se mantém válida, seria a primeira linha de defesa. E dirigentes da UE colocaram em cima da mesa a hipótese de ativar o Instrumento Anticoerção (ACI), que permite contramedidas, além das tarifas tradicionais, como excluir empresas estrangeiras de concursos públicos ou suspender, parcialmente, a proteção de direitos de propriedade intelectual. Tal instrumento ganhou nova importância, quando Trump reforçou as ameaças contra a Gronelândia e contra as regras ambientais e digitais do bloco.

Por outro lado, está a ganhar força, na Europa, a ideia de que a China representa o desafio mais sistémico à segurança económica, e poucos querem travar guerras comerciais simultâneas com Washington e com Pequim. Assim, embora a UE disponha de argumentos e de instrumentos sólidos para se afastar, tem dificuldade em reunir a coragem de Carney para o fazer. Com efeito, desde que Trump anunciou tarifas abrangentes, os 27 estados-membros apressaram-se a fechar fileiras em torno da Comissão Europeia. Alguns, entre os quais a França, a Espanha e os países nórdicos, apelaram a que Bruxelas se mantivesse firme e retaliasse contra condições injustas, mas outros, como a Alemanha, a Itália e a Irlanda, defenderam um compromisso, custe o que custar, para evitar confrontação total prejudicial.

Ora, esta cacofonia e os interesses nacionais concorrentes limitaram a margem da Comissão e levaram à produção de acordo que não deixou ninguém satisfeito. A UE não tem estratégia comum para lidar com Trump, fragilidade que os EUA vêm explorando.

Em contraste, Carney conseguiu unir o Canadá em seu redor. Após o colapso das conversações, as províncias canadianas apoiaram, rapidamente, Carney. O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, cujo setor industrial sairá prejudicado do confronto, manifestou “total apoio a uma resposta firme – tarifa por tarifa, dólar por dólar”. E sondagem recente indica que 76% dos canadianos considera que Carney tomou a decisão certa.

Para o primeiro-ministro canadiano, confrontar Trump faz sentido, politicamente, por capitalizar a antipatia generalizada de muitos canadianos, em relação ao presidente norte-americano, que tem sugerido transformar o Canadá no 51.º Estado dos EUA.

Outro fator decisivo, que levará a UE a pensar duas vezes, é a Ucrânia. Bruxelas reconhece que o acordo comercial UE-EUA foi, em parte, motivado pelo desejo de manter Trump envolvido no esforço de pôr fim à guerra da Rússia. A posição do líder norte-americano sobre o conflito mudou, drasticamente, alimentando a ansiedade entre os europeus, cônscios de que não podem substituir os serviços de informação dos EUA, nem os sistemas de defesa aérea fabricados ali.  

Embora o Canadá seja firme defensor da Ucrânia, o seu papel no conflito é limitado. Todavia, uma saída europeia poderia dar a Trump conveniente pretexto para retaliar, desligando-se, totalmente, da Ucrânia. Aliás, na opinião de alguns observadores, já o fez.

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No seu discurso sobre o Estado da União, a 16 de setembro, a presidente da Comissão Europeia saudou, entre aplausos, a presença de Carney no PE e disse que “precisamos de repensar, urgentemente, as nossas parcerias”, pelo que se propôs trabalhar com ele, “para abrir a porta a que o Canadá seja o primeiro membro associado da UE”.

Depois, enfatizou que a UE e o Canadá têm em comum a crença de que “o poder não pertence ao mais forte, rico ou barulhento, mas a todos nós”, e que “as democracias têm a liberdade de escolher com quem trabalhar”. Foi a partir daqui que justificou novo passo político: a passagem do acordo CETA (tratado comercial entre a UE e o Canadá) para uma “aliança para o futuro”, com trabalho conjunto, na área da tecnologia, na integração de bases industriais de defesa, na energia, nos minerais críticos, nas baterias, na inteligência artificial (IA), na segurança económica e no Ártico, enquanto “projeto comum”.

A cooperação económica e de segurança entre os dois parceiros deverá ser aprofundada numa cimeira, em Montreal, no mês de outubro.

Sobre o Estado da União, Ursula von der Leyen anotou que é “o mais forte de sempre”, mas que “dá a sensação de ser o mais precário de sempre”. “São declarações aparentemente incompatíveis, mas ambas verdadeiras, que refletem estes tempos excecionais”, afirmou.

No contexto de uma era complexa com “grandes possibilidades” e com “grandes perigos”, prosseguiu, vincando que “a Europa escolheu o seu próprio caminho” e “está a emergir uma Europa mais forte e independente”, designadamente, no investimento na defesa e no apoio coletivo, sendo exemplos a Ucrânia e a Gronelândia, “quando drones, ataques híbridos ou desinformação têm as nossas democracias como alvo”.

Na ótica da presidente da Comissão, “na fragilidade fria do Mundo atual, só a Europa pode dar verdadeira soberania aos Europeus”, mas tem de superar o desgaste de relações antigas (referência à ligação com os EUA), os conflitos, a competitividade industrial e a “batalha de narrativas”. Efetivamente, “estamos a lidar com um Mundo abertamente hostil”, o que deve levar a enfrentar os desafios que se traduzem em dificuldades para os europeus, nomeadamente, pela contenção do custo da habitação e pela mitigação do impacto que têm na democracia.

Referiu o défice comercial com a China, que chegou ao ponto de rutura, e a ambivalência da IA, que deve ser utilizada com cautela e humanismo, mas aproveitando as suas potencialidades.

E lançou o repto: “Queremos unir-nos em torno da nossa ideia europeia de que podemos decidir o nosso próprio destino? Ou vamos deixar que as nossas democracias sejam enfraquecidas pelos representantes e fantoches dos autoritários?”. A crítica é também interna, com menções a “ultranacionalistas” e a “antieuropeus”.

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Em suma, é necessária uma grande frente comum – tão alargada quanto possível – que modere a excessiva ambição dos EUA, no seu pretenso papel de polícia do planeta.

2026.09.16 – Louro de Carvalho


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