terça-feira, 29 de setembro de 2026

Artes e ofícios que estão a desaparecer em Portugal

 

Em 1986, a RTP transmitiu uma série realizada por José Asseiceiro, que mostrava algumas das mais fascinantes atividades humanas que estão a rarear ou mesmo em vias de desaparecer, engolidas na voragem da sociedade consumista e mecanicista.

Trata-se de profissões crestadas pela tradição, como as do moleiro, do oleiro, do cesteiro, do tanoeiro, do entalhador, do batedor de ouro, do caldeireiro ou do canteiro, cujo labor está espelhado em muitas obras do património utilitário, artístico e cultural.

Há outras profissões – como a lavadeira manual, o posticeiro (que faz postiços), o dactilógrafo, o charuteiro manual, o lavador de peles ou a governanta de casas particulares – que são dadas como extintas e que já não constam na Classificação Nacional de Profissões (CNP).

São, atualmente, consideradas em risco de extinção – devido ao envelhecimento dos mestres, à falta de renovação geracional e à concorrência industrial – a profissão de calceteiro, que enfrenta futuro incerto, por causa da escassez de novos profissionais para manter a famosa calçada portuguesa; a de alfaiate, uma vez que a roupa por medida, à mão, está a tornar-se extremamente rara, com poucos jovens a aprender o ofício; a de amolador, cujo serviço, fixo ou ambulante, de afiar tesouras e facas sobrevive apenas em locais específicos; a de cestaria de cana e palha (arte de entrançar fibras vegetais), ainda muito presente em regiões, como o Algarve e na zona de Tondela, que perdeu expressão com a produção plástica e industrial; a de resineiro, que extraía resina dos pinhais e que empregou milhares de pessoas, no interior do país; a de encadernador artesanal (que faz a reparação e a costura manual de livros em capas de pele ou de tecido), que já conta com pouquíssimos artífices ativos; a de latoeiro e funileiro, que trabalham, respetivamente, com folha de latão e com folha de flandres; a de oleiro de barro preto, ainda presente em Molelos (município de Tondela) e em Bisalhães (freguesia de Mondrões, município de Vila Real); ou a do caldeireiro artesanal, o profissional especializado no fabrico, na montagem e na reparação de estruturas metálicas, caldeiras, tanques, tubagens e outros recipientes de metal, que ainda subsiste em Loulé, mas que cedeu ao caldeireiro industrial / metalomecânico, também em situação crítica, mercê da arduidade do trabalho e da magreza do salário.

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Merecem especial destaque a alfaiate e o calceteiro.

A alfaiataria é ofício reconhecido desde 1826, quando o algibebe (pessoa ou loja que vende roupa pronta a vestir, nova ou usada, mas de fraca qualidade) deixou de ter o exclusivo da matéria-prima e aos alfaiates foi permitido vender fato feito, comprando os tecidos aos mercadores. Começou aí a especialização de uma profissão que, 200 anos depois, está em vias de extinção, apesar dos esforços para que sobreviva. Em 1964, Portugal tinha 6500 alfaiates e três mil mestres. Todavia, o pronto a vestir, ganhando tração, levou a dianteira à máquina de costura e fez com que a fita métrica, o giz e a tesoura fossem, paulatinamente, postos de lado.

A profissão de calceteiro tem dado forma às ruas das cidades, das vilas e de muitas aldeias. Todos os dias, milhares de pessoas trilham desenhos em pedra que fazem parte da identidade de Lisboa. Mas, por trás da calçada portuguesa, há um ofício que está a perder quem o sabe fazer. A Câmara Municipal de Lisboa (CML), reconhecendo que o risco de desaparecimento da profissão de calceteiro é permanente, admite que renovar esta geração de profissionais é um dos maiores desafios para preservar um dos maiores símbolos da cidade. A preocupação não está só no número reduzido de profissionais (de 20 a 40), mas também na idade de quem exerce a profissão. A média etária ultrapassa os 55 anos e, dentro de cerca de uma década, muitos destes trabalhadores estarão em condições de se reformar.

Para o município lisboeta, garantir o futuro da profissão passa por conseguir atrair jovens para uma carreira fisicamente exigente e pouco atrativa, do ponto de vista salarial. Todavia, é preciso repensar a tabela salarial e continuar com a formação.

A CML tem uma Escola de Calceteiros. Porém, o cenário descrito pelo Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa é diferente. Segundo o presidente da estrutura, Nuno Almeida, a escola está “quase inativa”, sem ações de formação, há mais de dez anos. E trabalhadores ouvidos pela Lusa garantem que quem entra na profissão acaba por aprender, sobretudo, no terreno, acompanhando colegas mais experientes.

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O desaparecimento de tantas profissões é explicado pelos especialistas com a evolução da sociedade, das tecnologias e do mercado de trabalho. Porém, enquanto algumas ocupações profissionais desapareceram, outras têm representação mínima no mercado de trabalho e já nem são consideradas como profissões e outras transformam-se, aglutinando-se com outras.

Em entrevista à Lusa, em julho de 2007, Ana Campos, técnica superior do Instituto do Emprego e da Formação Profissional (IEFP), ligada ao projeto de revisão da CNP, falou das dificuldades sentidas pelos técnicos para descobrirem profissões extintas ou em vias de extinção e para encontrarem novas no mercado de trabalho.

Para as encontrarem, os técnicos analisam o mercado, contactam empresas, sindicatos, associações, parceiros sociais, entre outras entidades. “No projeto de revisão da CNP em curso [em 2007] as profissões consideradas extintas ou em vias de extinção são aquelas que existiam na classificação de 1994 e que, entretanto, deixaram de existir no mercado de trabalho”, explicou, vincando que a questão é mais complexa, porque, em algumas situações, as profissões acabaram, mas outras apenas se transformaram no sentido de se aglutinarem com outras.

Segundo aquela técnica do IEFP, por vezes, as profissões não existem, por uma questão de designação ou de conteúdo, e outras até podem existir, mas, se tiverem representação mínima no mercado acabarão por se extinguir ou nem serão consideradas como profissão.

No atinente às novas profissões, Ana Campos, considerava que ainda são mais difíceis de encontrar. “As pessoas começam por desempenhar determinadas tarefas e o mercado evolui, algumas vêm a ser profissões outras não”, afirmou, discorrendo: “Quando olhamos e analisamos o mercado, as profissões, as tarefas das pessoas, é que vamos tentando delinear o que é são novas profissões e estas não aparecem de um dia para o outro.”

Por vezes, as profissões aparecem no mercado, sem terem um papel que as defina e esse papel deve ser claramente definido. Porém, uma coisa é uma profissão ser nova, como tarefa que não existia e de que houve necessidade no mercado, e outra é o conceito de novo que se transformou e, portanto, se aglutinou. E, para Ana Campos, é muito difícil conseguir abarcar tudo, pois são muitas profissões e o mercado de trabalho evolui muito rapidamente.

Surgem também profissões ligadas às engenharias do Ambiente, do aeronáutico do aeroespacial], de dietistas, de preparador físico, de técnicos de radioterapia, de técnicos de análises clínicas e de higienista oral, entre outras.

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A preservação do artesanato tradicional é tarefa importante e, mais do que integrar ou constituir núcleos museológicos, deve levar a que o artesanato reencontre o seu lugar no mercado, como memória, como prenda ou como atração turística. Não é fácil uma escola entregar-se, exclusiva ou predominantemente, à formação artesanal. Por outro lado, na formação profissional, a escola não ensina tudo. Muita da aprendizagem é feita em serviço ou em contexto real e com a ajuda de quem é experiente (melhor ainda, se conseguir aliar a teoria à prática).

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Bom exemplo de recuperação dos saberes tradicionais é o que se está a passar no Uzbequistão. Disso nos dá conta o jornalista Rushanabonu Aliakbarova, em artigo intitulado “Artesãos do Uzbequistão transmitem saberes tradicionais às novas gerações”, publicado, a 29 de setembro, pela Euronews, segundo o qual oficinas tradicionais, naquele país, “ensinam às novas gerações a arte da talha em madeira, do bordado e da cerâmica, adaptando-a a gostos atuais e a novas oportunidades”.

Muitas vezes, os uzbeques (ou uzbequistaneses) aprendem os ofícios tradicionais, no trabalho com mestres experientes em técnicas transmitidas de pais e avós às gerações mais novas. Assim, a oficina pode, no dizer do jornalista, “ser sala de aula, local de trabalho e arquivo de família”. Num processo de anos, os aprendizes começam por tarefas básicas e vão aprendendo a lidar com materiais, com ferramentas, com motivos decorativos e com técnicas, mantendo-se, em algumas famílias, o ofício ao longo de várias gerações, em quanto, noutros casos, as oficinas passaram a ser locais onde as pessoas aprendem uma profissão para ganharem a vida.

Rushanabonu Aliakbarova menciona o caso do entalhador de madeira, Muhammadali Yunusov, do distrito de Furqat, na região de Fergana, que mantém a tradição familiar que já vai em cinco gerações. Começou a trabalhar, de forma independente, aos 15 anos, e estudou, mais tarde, em escolas profissionais, enquanto aperfeiçoava as competências. Hoje, os filhos trabalham na mesma área, tornando‑se a sexta geração de artesãos da família, e os netos também já estão a aprender o ofício.

Yunusov afirma que a sua oficina, atualmente, com quase cem aprendizes, já formou mais de dois mil aprendizes. Muitos colaboraram com ele em trabalhos de talha decorativa e na construção de ayvons tradicionais, ou seja, terraços ou varandas cobertas e abertas na frente, esculpidas ao pormenor, com elementos de madeira entalhada. E, em seu entender, tornar‑se mestre começa pela paciência e pela determinação, pois, se pequenas áreas de uma peça podem ocupar um dia inteiro de trabalho, peças maiores podem exigir semanas, porque os motivos são esculpidos, à mão, com cinzéis finos, conhecidos como ‘naqshqalam’.

Também a madeira exige preparação. Por exemplo, nogueira, olmo, amoreira e plátano podem ficar de molho em água, durante seis meses ou mais, antes de serem secos e trabalhados. A madeira é, depois, cortada em pranchas, novamente seca e moldada, de acordo com o objeto final, seja um portão, uma coluna, uma porta ou estrado de madeira. Os desenhos incluem motivos geométricos e islâmicos, com formas diferentes, a transmitir significados distintos. Trabalha-se no que Yunusov descreve como estilo de Fergana, uma das cinco grandes tradições regionais do artesanato uzbeque, a par dos estilos de Tashkent, Samarcanda, Bukhara e Khorezm.

Para ele, as peças mais valiosas são as pensadas para durarem gerações, nomeadamente, elementos arquitetónicos, como ayvons e portões, que podem permanecer parte de um edifício, durante décadas ou séculos. Assim, o trabalho de um mestre e dos seus aprendizes pode integrar a História física de um lugar.

A tecnologia também entrou na oficina, de modo que a inteligência artificial (IA) tem ajudado a encontrar referências a desenhos e técnicas que se tinham tornado menos familiares, ao longo do tempo, oferecendo novas fontes de inspiração.

O jornalista faz referência a outra oficina em Fergana, em que os ofícios tradicionais servem também de fonte de emprego. Atesta-o Sadokat Mirzayeva, que dirige um centro de artesanato e instituição de ensino onde mulheres e raparigas aprendem diferentes técnicas e recebem apoio para encontrar trabalho. O centro já formou mais de 500 mulheres e raparigas, em seis anos. E mais de cem trabalham com a empresa, a partir de casa ou como funcionárias permanentes.

As artesãs produzem mais de 100 tipos de artigos, como bonecas tradicionais, brinquedos populares, malas, chapéus e outras peças de cabeça, robes chapan e outras peças de vestuário. Os produtos são fornecidos a centros turísticos, mercados regionais e lojas duty‑free do Aeroporto Internacional de Tashkent ou exportados para países da Ásia Central.

O chapan ou chopon é um casaco usado sobre as roupas, geralmente, nos meses frios do inverno. Geralmente, usados ​​por homens, esses casacos são adornados com fios intrincados e vêm numa variedade de cores e padrões.

Para Mirzayeva, preservar o artesanato tradicional está ligado à criação de oportunidades para as mulheres desenvolverem competências práticas e obterem rendimento. Os artigos são feitos com materiais naturais, como seda e algodão. O bordado, o vestuário tradicional e os motivos clássicos continuam no centro dos desenhos, enquanto as encomendas individuais permitem aos clientes pedirem novos produtos ou adaptações. A sala de exposição reúne estas diferentes formas de artesanato, dando aos visitantes o ensejo de as verem num só espaço.

Também em Tashkent, a família Rakhimov trabalha a cerâmica, há sete gerações. E o ceramista Shokhrukh Rakhimov observa que a herança tal conhecimento implica responsabilidade. Cada nova geração, primeiro, tem de aprender o que veio antes e, depois, desenvolver as próprias ideias. E a família tem uma identidade visual própria, incluindo a combinação de verde e preto associada à cerâmica de Tashkent. Ao mesmo tempo, Rakhimov considera essencial que os artesãos mais jovens experimentem novas formas e abordagens.

O trabalho com o barro é um processo de colaboração. Em vez de controlar totalmente o material, o artesão responde ao comportamento da argila e vai guiando a peça até à forma desejada. E a cerâmica Rakhimov integra influências de diferentes culturas e períodos. E cores, ornamentos e símbolos podem ter significados específicos, com flores, pássaros e peixes a surgirem em desenhos associados a ideias, como paraíso, liberdade, felicidade e vida.

Exposições internacionais e bienais deram à oficina oportunidades de colaborar com artistas de outros países e de experimentar abordagens contemporâneas, mantendo as técnicas tradicionais. Porém, aprender o ofício é um processo longo. Os jovens aprendizes podem passar anos a aprender a manter o ateliê e a trabalhar com as ferramentas, antes de avançarem para a preparação do barro, dos vidrados e das cores e de criarem as próprias peças.

A paciência é uma das qualidades essenciais para dar continuidade à tradição familiar. As três oficinas diferem nos materiais e nas técnicas, mas têm algo em comum na forma como ensinam. Yunusov lembra que o pai começou por lhe ensinar a pensar, a manter a concentração e a abordar cada trabalho com determinação. O seu aprendiz, Samandar Tokhirov, que entrou na oficina, aos 14 anos, confessa que o interesse pela talha em madeira cresceu, à medida que começou a aprender com o mestre, e diz que o passo seguinte foi trabalhar em peças maiores e mais complexas e levar as tradições uzbeques a um público mais vasto.

Nas oficinas de Fergana e de Tashkent, o artesanato tradicional faz parte da vida familiar e da formação profissional. As técnicas podem ser antigas, mas quem as aprende, hoje, trabalha com novas tecnologias, mercados e ideias. Há três oficinas, três artes diferentes e uma lição comum: a mestria exige tempo. E as tradições mantêm‑se quando alguém está disposto a aprendê‑las, a praticá‑las e a transmiti‑las.

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Gosto, paciência, determinação e consciência do valor das raízes identitárias de um povo são cruciais para a redescoberta destes valores tradicionais (artísticos, culturais e utilitários), que bem podem conviver com novas técnicas e com novos produtos, num espaço de todos.

2026.09.29 – Louro de Carvalho


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