António
Guterres, o primeiro português na pele de secretário-geral da Organização das
Nações Unidas (ONU), e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América (EUA),
o país económica e militarmente mais poderoso do Mundo, têm discursos opostos.
No
seu último discurso à Assembleia Geral, em Nova Iorque, Guterres apelou a que, antes
que seja tarde, os governantes mudem de rumo, face à ameaça climática (que
Trump qualificou de “farsa”), a um caminho divergente para a inteligência
artificial (IA) e às fissuras do Mundo, sobretudo, entre Estados que se estão a
alargar.
Em
tom belicista que confirma as inquietações do secretário-geral em fim de
mandato, Trump declarou, ante a Assembleia Geral da ONU, ter uma decisão a
tomar, em relação ao Irão: fechar um acordo com o regime de Teerão ou
“aniquilar a República Islâmica”. Considerando-o “o rufia do Médio Oriente”, reiterou
a possibilidade de levar o país “ao inferno, sem qualquer hipótese de
sobrevivência”.
No
púlpito daquele areópago mundial, em que os dirigentes mundiais proferem
discursos de apelo à paz global, o inquilino da Casa Branca foi o segundo a usar
da palavra. Contrariou qualquer mensagem pacifista. Celebrou a sua operação
militar na Venezuela do início do ano, pela qual, segundo o orador, os EUA
alargaram o acesso e o controlo sobre as vastas reservas de petróleo daquele
país sul-americano.
Quase
no fim de um mandato de guerras na Ucrânia, em Gaza, no Irão e noutros países,
bem como por catástrofes naturais de grande escala, António Guterres defendeu
que os acontecimentos deste ano, em particular, mostram que até as nações mais
poderosas têm limites e que a construção de um futuro melhor “começa com
o reconhecimento, especialmente, por parte das superpotências, de que o seu
poder não é assim tão super”.
Trump
discorda. Em declarações escritas, quando ainda não conhecia o discurso do
secretário-geral, afirmou que os alertas sobre os perigos da IA para a
Humanidade, surgidos de inúmeros programadores e especialistas de topo daquela
área, provêm do “mesmo grupo de pessoas” que, alegadamente, estarão a promover a
“farsa da Rússia”, numa alusão às suas ligações com Moscovo. E, frisando que a
IA deveria chamar-se “superinteligência” (SI), numa demonstração do seu poder,
garantiu que Washington rejeitará “qualquer tentativa de construir um esquema
globalista para controlar” a IA.
Guterres,
porém, falando de “outro caminho”, sustenta que “um Mundo interligado reconhece
que nenhuma potência pode resolver os desafios atuais, sozinha”, e que a criação
da ONU, após a II Guerra Mundial, foi ato de esperança e de desafio contra a História
de guerras da Humanidade, de “países que sabem que os nossos futuros estão
interligados”.
António
Guterres, nos mandatos do líder norte-americano, teve de gerir a relação com
pinças, devido à dependência da ONU dos fundos americanos. Não obstante, contra
a posição trumpiana, defende que, apesar das suas fragilidades, a ONU é o único
lugar onde quase todos os países têm assento. E, num Mundo mais fragmentado,
isto pode tornar-se ainda mais importante. Ao invés, Trump vê a organização a
perder relevância, retirou-se de agências suas e cortou o financiamento aos
programas humanitários que esta gere.
Na
verdade, os tempos não favorecem altos representantes como Guterres, pelo que a
ONU terá de fazer menos com menos e contar cada cent ou penny.
Trump
assumiu a responsabilidade pela crise orçamental da ONU, afirmando ter cortado
o orçamento em cerca de 15%. Por isso, a organização teve de despedir quatro
mil funcionários. Na mesma linha, apelou à demissão imediata de todos os
membros do Tribunal Penal Internacional (TPI), considerando-o “instituição
desonesta”. Aliás, o seu governo impôs sanções à sua presidente, a japonesa
Tomoko Akane, ao procurador-chefe e a nove dos seus juízes, neste ano. Todavia,
é um poderoso símbolo da ordem internacional baseada em regras, ordem que
investigadores e politólogos acusam a administração Trump de minar.
Guterres,
ao assumir que nunca renunciaria aos ideais da ONU, foi aclamado com longa
salva de palmas. E Trump recebeu o mesmo tipo de aplauso, ao referir a
preocupação da primeira-dama, Melania Trump, com as crianças ucranianas, e ao
frisar que o Irão não pode ser capaz de desenvolver uma arma nuclear.
Guterres,
que não é o presidente do Mundo, mostrou a sua limitação no cargo e a sua
preocupação com o poder sobre a guerra e a paz, o poder que concentra a riqueza
e impulsiona a desigualdade, o poder que alimenta o caos climático e a guerra
contra a Natureza, e o poder desencadeado pela IA. Sobre guerra e paz, renovou
o apelo a que os líderes mundiais adiram, na prática, à Carta da ONU, a
defender o direito internacional, o multilateralismo e o respeito pelos
direitos humanos. Os analistas acusam Trump de atacar os princípios do direito
internacional, nomeadamente, em Cuba, pressionando-a a liberalizar a sua
economia e a abri-la às empresas dos EUA, a comprar petróleo a Washington e a expulsar
agentes dos serviços de informação russos e chineses. E as autoridades cubanas
retiraram-se, após a declaração trumpiana de que Cuba é “um Estado
absolutamente falhado” cujo governo “cairá”.
A
investigadora Minh-Thu Pham, do Programa de Ordem e Instituições Globais do
Carnegie Endowment for International Peace, lembra que “tendemos a pensar que o
período que vivemos é pior do que o passado”, mas a Guerra Fria durou na maior
parte da existência da ONU, e “talvez o período com menos atritos entre as
grandes potências tenha sido a década de 1990, com outros momentos isolados”. Ora,
“a razão da existência da ONU reside, precisamente, na frequência destas
tensões”, vincou.
Secretários-gerais
do passado enfrentaram intensa pressão. U Thant envolveu-se na Crise dos
Mísseis de Cuba; e Kofi Annan sofreu a enorme pressão de Washington, com
membros do Congresso a pedirem a sua demissão, mas continuou a usar a
autoridade do cargo e a envolver-se em situações difíceis.
Hoje,
o interesse dos EUA na ONU não é claro como dantes. As posições dos EUA são
menos consistentes. Outros países estão mais dispostos a contactar, diretamente,
o secretário-geral, para influenciarem as suas ações, e o mapa do poder
económico e militar é diferente.
O
facto de Trump fazer reuniões bilaterais à margem deste evento multilateral não
indica que esteja empenhado em manter o multilateralismo. No entanto, em Nova
Iorque concentram-se dezenas de líderes mundiais. O presidente da Turquia,
Recep Tayyip Erdogan, condenou Israel, a que atribui “mentalidade genocida”.
Enquanto discursava, os delegados israelitas abandonaram o plenário. E, mais
tarde, o xeque Tamim bin Hamad Al Thani, emir do Catar, classificou a situação
em Gaza como “genocídio em todos os sentidos da palavra”.
Trump
olha para a Assembleia-Geral da ONU como mais um local de reunião. Na semana do
seu discurso, seguiram-se conversas bilaterais com o presidente ucraniano,
Volodymyr Zelensky, com os primeiros-ministros britânico, Andy Burnham, a
japonesa, Sanae Takaichi, o iraquiano, Ali al-Zaidi, a dinamarquesa, Mette
Frederiksen, e o gronelandês, Jens-Frederik Nielsen. E teve o primeiro encontro
com Delcy Rodríguez, presidente da Venezuela.
Com
o líder ucraniano conversou num momento em que ambos procuram propostas de
alívio das hostilidades, em especial, um cessar-fogo energético entre Kiev e
Moscovo, com Trump a dizer acreditar que a subida dos preços dos combustíveis
se deve aos ataques ucranianos a refinarias e a terminais petrolíferos na
Rússia. A Burnham, em reunião à margem da Assembleia Geral, disse acreditar que
será alcançado um acordo com o Irão, tendo havido conversações, a 22 de setembro,
entre o seu governo e o iraniano. E os dois líderes abordaram as migrações, o
conflito com o Irão, a guerra na Ucrânia e outros temas.
Trump
assinou um acordo de segurança sobre o futuro da Gronelândia, após meses de
ameaças de comprar a ilha ou de a tomar militarmente. O acordo prolonga e
modifica o tratado de 1951, mas mantém a soberania na Dinamarca. Os EUA
planeiam construir duas bases militares na Gronelândia, o que poderiam ter
feito, a qualquer momento, nos termos de um tratado de há mais de sete décadas.
O
encontro que mais importa a Trump é com Xi Jinping, a 24 de setembro, em
Washington, à margem da ONU. O líder chinês recebeu-o, há meses, em Pequim, com
pompa e circunstância.
***
Donald
Trump, no seu discurso à Assembleia Geral da ONU, primeiro, ameaçou “aniquilar”
o Irão, mas afirmou, depois, que responsáveis dos EUA e iranianos se tinham
encontrado, horas mais tarde, à margem da sessão, no que é o primeiro contacto
direto confirmado entre as duas partes, desde o início da guerra, em fevereiro.
Depois de enaltecer a sua própria firmeza, em comparação com outros líderes,
defendendo a decisão de iniciar uma guerra com o Irão, sugeriu que poderá ter
pela frente “uma grande decisão” na guerra em curso com o Irão, ao apelar a
Teerão que reabra, totalmente, o estreito de Ormuz e regresse à mesa das
negociações para encontrar uma solução. “Ou devo aniquilar a República
Islâmica, fazê-lo rapidamente, sem lhe dar oportunidade de voltar a matar e a destruir
pessoas e países?”, questionou, voltando a descartar a ideia de que o Irão
tenha demonstrado qualquer resiliência.
“O
regime terrorista está a comportar-se mal, não porque seja forte e confiante,
mas porque é fraco e está desesperado”, afirmou o presidente dos EUA, acusando
Teerão de estar a ganhar tempo para fechar um acordo que permita reabrir,
totalmente, Ormuz e para negociar um desfecho para a guerra, apenas depois das
eleições intercalares norte-americanas, e garantindo que essa estratégia não
vai alterar a sua abordagem ao conflito.
Apesar
do tom inflamado do discurso e da defesa firme da guerra, o inquilino da Casa
Branca revelou aos jornalistas a realização do encontro entre as duas partes,
mas deu poucos detalhes. “Foi uma reunião muito boa”, afirmou.
Está,
ainda, prevista uma reunião com líderes e altos responsáveis de países do
Conselho de Cooperação do Golfo, como o Bahrain, o Kuwait, Omã, o Catar, os Emirados
Árabes Unidos (EAU) e a Arábia Saudita, para discutirem a guerra com o Irão e a
crescente preocupação com os ataques dos Houthis, apoiados por Teerão, contra a
Arábia Saudita.
Donald
Trump, que planeia ainda participar num evento sobre o Escudo das Américas, uma
iniciativa lançada, neste ano, com países latino-americanos, centrada no
combate aos cartéis violentos, garantiu que a nova guerra contra o Irão era
necessária, para enfrentar a ameaça nuclear colocada por Teerão, e defendeu que
o Mundo está melhor sob a sua liderança. “Enquanto presidente da nação mais
extraordinária da História, não tenho interesse em deixar perigos a crescer por
mais um dia”, observou.
A
guerra tornou-se mais complexa, embora os ataques dos EUA e de Israel hajam
liquidado grande parte da cúpula iraniana e destruído a força aérea e a marinha
do país, enquanto o bloqueio norte-americano ao petróleo iraniano deixou Teerão
em colapso económico. Está nervoso com a guerra o mercado energético, e os
preços do petróleo voltaram a subir, depois de a Arábia Saudita ter encerrado
um oleoduto crucial que era uma válvula de escape para o crude bloqueado no
Golfo – decisão tomada após o ataque o oleoduto por militantes apoiados pelo
Irão, no Iraque, em cena de troca de tiros com os rebeldes Houthis do Iémen.
Ao
mesmo tempo, os avanços territoriais dos Houthis e o controlo do estreito de
Bab el-Mandeb tornaram arriscada a passagem de petroleiros por essa rota
marítima no mar Vermelho. No entanto, Donald Trump insistiu que a subida dos
preços do petróleo é transitória e que desaparecerá quando a guerra terminar. “Os
preços do petróleo vão cair em queda livre, ainda mais do que estavam no início
do conflito”, garantiu.
O
secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou, no dia 22, que o
presidente Donaldo Trump está disponível para se reunir com o presidente do
Irão, Masoud Pezeshkian, enquanto este se encontra em Nova Iorque para a
Assembleia Geral. “Este é um presidente que, na maioria dos casos, está
disposto a reunir-se com qualquer pessoa, porque considera que o diálogo é
importante, se quisermos resolver problemas […] Não significa que se vá acabar
por concordar com essas pessoas, mas é importante”, disse Rubio à NBC.
***
Relatos
contraditórios surgiram de Teerão, no dia 22, sobre se o Irão terá oferecido,
em privado, reabrir o estreito de Ormuz, no prazo de sete dias, depois de
responsáveis iranianos não identificados terem dito à Reuters e à
agência japonesa Kyodo que a proposta foi transmitida a Washington
através de mediadores – versão que meios de comunicação iranianos próximos do
Estado desmentiram. Segundo a Kyodo, a proposta visa pôr termo, de forma
permanente, à guerra entre os dois países, pelo que o Irão receberia, com
agrado, a retoma da diplomacia com os EUA, se Washington der passos em direção
à paz. Contudo, a agência semioficial Fars negou as informações, pouco
depois, classificando-as de pouco fiáveis e imprecisas.
Não
é a primeira vez que Teerão transmite sinais contraditórios sobre um eventual
acordo. Em junho de 2025, o presidente norte-americano anunciou um cessar-fogo entre
o Irão e Israel, na sua plataforma Truth Social, antes de o ministro
iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, ter negado, publicamente, a
existência de qualquer acordo. E, em junho deste ano, Trump afirmou que as
condições para pôr fim à guerra tinham sido “aprovadas por escrito”, antes de
os média estatais iranianos publicarem o que descreveu como condições
fabricadas, em comunicados concorrentes que dificultam o progresso diplomático.
Entretanto,
Marco Rubio, no mesmo dia, afirmou aos media dos EUA, que Washington
está disponível para um encontro com o Irão na Assembleia Geral da ONU.
Por
seu turno, ao partir para Nova Iorque, o presidente iraniano, Masoud
Pezeshkian, prometeu “defender, firmemente”, as posições do país. “Saímos com a
cabeça erguida e isso é uma fonte de dignidade e orgulho para todos nós. Por
isso, defenderemos, com firmeza, as nossas posições nas instâncias
internacionais”, declarou.
“Vamos
aproveitar esta oportunidade, da melhor forma possível, para expor a situação
do Irão à comunidade internacional. Diremos, com firmeza, aos nossos
adversários que, apesar de todas as desigualdades e injustiças, o povo iraniano
se manteve firme”, afirmou.
***
Como
nota de curiosidade, é de referir que o presidente francês, Emmanuel Macron, no
dia 21, à noite, atravessou Manhattan a pé, a fim de se encontrar com o
presidente dos EUA, na Trump Tower, antes da Assembleia Geral da ONU, para
discutirem vários dossiês, incluindo a situação na Ucrânia. Acompanhado pelo
ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, por elementos da
segurança e por assessores, atravessou as ruas, passando por vários agentes da
polícia e cumprimentando um deles com um aperto de mão.
***
O
Mundo, incerto e inseguro, devido à inépcia ou à maldade dos líderes, precisa
de rumo.
2026.09.23 – Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário