Em
novembro de 2025, a revista “Environmental Research Letters” publicou um estudo
cujos autores argumentam que, ao invés do que se pensa, a inteligência
artificial (IA) pouco contribui para as emissões de gases com efeito de estufa
(GEE) e que até pode contribuir para a proteção ambiental. Contrariam, assim,
os vários alertas que surgiram sobre o impacto ambiental da expansão
aparentemente imparável da IA, especialmente, devido aos grandes consumos de
energia e às emissões daí resultantes.
De
facto, em meados de 2025, um relatório apontava nesse sentido, vincando que as
emissões de carbono das maiores empresas tecnológicas do Mundo aumentaram 150%,
em média, entre 2020 e 2023, graças ao reforço dos investimentos em IA e ao
consumo de eletricidade, para alimentar centros de dados. E, um ano antes, numa
conferência em Los Angeles, nos Estados Unidos da América (EUA), o próprio
diretor de operações da OpenAI, a criadora do ChatGPT, considerou que a
proliferação de aplicações de IA trazia um “grande risco” às economias globais,
devido às exigências de consumo de energia.
O
estudo publicado na revista “Environmental Research Letters”, no qual os
autores sustentam que a IA pouco contribui para as emissões de GEE e que pode
contribuir para a proteção ambiental, tem como campo de investigação os EUA, onde
estão concentrados os grandes desenvolvimentos desse tipo de tecnologia. Os
economistas ambientais Anthony Harding, do Instituto de Tecnologia da Geórgia
(EUA), e Juan Moreno-Cruz, da Universidade de Waterloo (Canadá), dizem ter
combinado dados sobre a economia norte-americana com estimativas do uso de IA
nos diversos setores, para determinarem as consequências ambientais, se o uso
de IA mantiver a atual trajetória.
Os
investigadores referem que a quantidade de energia consumida pela IA, nos EUA,
equivale à consumida em toda a Islândia, mas defendem que, pelo menos, num
plano mais abrangente, os efeitos serão praticamente negligenciáveis. “É
importante notar que o aumento do uso de energia não será uniforme. […] Se
olharmos para a energia, de uma perspetiva local, isso é importante, porque, em
alguns lugares, poderemos ver duplicar a produção de eletricidade e as emissões”,
afirma, em nota, Moreno-Cruz, embora considere que, “de uma perspetiva mais
ampla, o uso de energia pela IA não será notável”.
Para
aquelas vozes que alertam para os impactos climáticos da IA e que defendem que
se deve evitá-la, o investigador contra-argumenta com o que diz ser “uma
perspetiva diferente”. “Os efeitos no clima não são significativos e podemos
usar a IA para desenvolver tecnologias verdes ou para melhorar as que já
existem”, defende, indicando que o objetivo é fazer estudos similares noutras
regiões do Mundo onde o uso da IA esteja a crescer para avaliar o seu impacto.
***
Em
contraponto, um estudo de que dá conta a revista “National Geographic”, a 15 de
setembro deste ano, embora publicado em finais de junho, sustenta que os
centros de dados poluem mais de 50% do que se pensava. Com efeito, nos últimos anos
e, sobretudo, nos últimos meses, os centros de dados são os grandes
protagonistas, com as empresas tecnológicas mais importantes do Mundo, como a
Microsoft, o Google e a Meta, a investirem milhares de milhões de dólares na
construção destas instalações gigantescas, concebidas para alojarem complexos sistemas
informáticos que sustentam a IA, uma das tecnologias mais disruptivas da História.
A
construção de tais instalações gigantescas terá consequências graves, visto
que, segundo os especialistas, a IA, como tecnologia insaciável que é, devora
recursos a um ritmo frenético. Por conseguinte, os centros de dados consomem
milhões de litros de água, por dia, para refrigeração, e o fornecimento
contínuo de eletricidade, indispensável para os servidores e para o ar
condicionado, aumenta as emissões de GEE, pois a eletricidade deveria provir de
fontes 100% renováveis, mas a realidade é outra.
Tem-se
debatido muito o quanto os centros de dados poluem. Um estudo recente afirma
que poluem mais do que se pensava. O estudo em causa, elaborado pela Allianz
Trade, indica que estes complexos “faraónicos” emitiram quase 300 milhões de
toneladas de dióxido de carbono (CO2), só em 2025. Tendo em conta
que a IA está cada vez mais presente nas nossas vidas, é lógico pensar que esse
número irá aumentar nos próximos anos.
O
estudo calcula
que, em 2025, os centros de dados emitiram 286 milhões de toneladas de dióxido
de CO2, isto é, 57% a mais do que as estimativas da Agência
Internacional de Energia (AIE) e 51 % a mais do que as do Instituto das Nações
Unidas para a Água, o Ambiente e a Saúde. Os especialistas estimam que a IA
representa entre 15% e 20% do consumo de eletricidade dos centros de dados. Se
isso já parece muito, esse valor multiplicar-se-á até 2030, ano em que se
estima que subirá para 40%. Patrick Hoffmann, economista sénior especializado
em clima na Allianz, afirmou que os centros de dados estão a passar de fator
marginal a motor estrutural da procura de eletricidade, em muitas regiões.
Como
explica a Deutsche Welle (DW), as emissões dos centros de dados
provocariam, dentro de alguns anos, danos climáticos estimados em 133 mil
milhões de dólares, por ano. Atualmente, esses danos já são estimados em 59 mil
milhões. Os danos climáticos associados às cargas de trabalho da IA poderão
ultrapassar os 43 mil milhões de dólares, em 2030, ano até ao qual os centros
de dados poderão necessitar de entre 1,3 e 1,8 mil milhões de litros de água, o
que é comparável ao consumo anual da Suíça. E, nos EUA – país que alberga a
maior concentração de centros de dados –, há cada vez mais oposição por parte
das comunidades à construção destas instalações, com destaque para estados,
como o Texas e o Ohio.
Os
residentes que vivem perto destas gigantescas construções denunciam o colapso
das redes elétricas, o aumento dos custos nas contas, o esgotamento extremo dos
recursos hídricos e a poluição sonora, pois os sistemas de refrigeração dos
servidores requerem tantos milhões de litros de água, por dia, que levam ao
limite zonas onde as secas constituem grave problema.
Um
caso recente é o dos moradores de Red Oak, no Texas, que se opuseram à
construção de novo centro de dados na comunidade, pois estão preocupados com o
ruído constante gerado por estas instalações e com o impacto que isso teria na
rede elétrica, além da perda da sua tranquilidade e da desvalorização das suas
propriedades. Isso levou-os a organizarem-se numa frente comum com o objetivo
de travarem o projeto. E um inquérito da Universidade do Texas revelou que 56%
dos eleitores se opõe à construção de centros de dados na sua comunidade,
percentagem que sobe para 62%, nas zonas rurais.
Além
disso, embora as grandes empresas tecnológicas garantam que a construção destes
centros cria inúmeros postos de trabalho, apenas alguns se mantêm a longo
prazo.
***
De
acordo com um relatório da Universidade das Nações Unidas, divulgado a 3 de
junho, a pegada ambiental dos centros de dados rivaliza com a de alguns dos
maiores países do Mundo, pois o consumo de água e de energia e a poluição
associada duplicarão em quatro anos, à medida que aumenta a utilização de IA,
que induz grande parte do crescimento dos centros de dados. Cerca de 20 % da
energia gasta pelos centros de dados deve‑se à IA, mas a proporção pode subir
para 40 %, até 2030, indica o relatório, segundo o qual os utilizadores de IA
podem reduzir o impacto climático das suas consultas, sendo menos formais e
mais concisos.
A
maioria das pessoas – 70 % – é educada com a IA, quando interage com ela,
segundo um inquérito realizado, em 2024, pelo editor britânico Future. Entre os
inquiridos, 55 % disse fazê‑lo. porque “é simplesmente o gesto correto”,
enquanto 12 % afirmou que é porque, “quando chegar a revolta dos robôs, não
quero ser o primeiro da lista”.
Em
2025, os centros de dado, em todo o Mundo, consumiram 448 terawatts‑hora (TWh) de
eletricidade, mais do que todos os países exceto 10. Tal consumo gerou cerca de
189 milhões de toneladas de CO2, quase o mesmo que a Argentina, e a produção
dessa energia exigiu cerca de 4,5 biliões de litros de água. Até 2030, os
centros de dados representarão quase 3 % do consumo mundial de eletricidade
previsto, com 935 TWh. Se os centros de dados fossem um país, esse país seria
projetado como o 6.º maior consumidor de eletricidade em 2030. Isso geraria
quase 399 milhões de toneladas CO2.
O
relatório é significativo pela credibilidade e autoridade da Organização das
Nações Unidas (ONU), e não só por apresentar números impressionantes, no dizer
de Fengqi You, professor de engenharia de energia na Universidade Cornell e
coordenador os trabalhos da instituição sobre sustentabilidade da IA, segundo o
qual o valor do relatório está no facto de pôr carbono, água, solo, com impactos
ao longo do ciclo de vida e de justiça ambiental no mesmo quadro”, para um
problema, muitas vezes, envolto em secretismo e em divulgações parciais.
Jean
Su, diretora do Programa de Justiça Energética do Center for Biological
Diversity, considera o relatório importante por ser o primeiro documento da ONU
– e mesmo à escala global – “que lança luz sobre os danos ambientais da IA”.
Contudo,
para Caleb Max, presidente da National Artificial Intelligence Association, o
setor torna-se mais eficiente e beneficia o público, visto que a IA está a
tornar‑se parte do quotidiano, com benefícios que “melhoram a segurança, ajudam
as pessoas a viver mais tempo, a trabalhar de forma mais eficiente, a aumentar
a produção alimentar e a reduzir a pobreza”; e surgem, todos os dias, provas de
que “o retorno energético do investimento no desenvolvimento da IA é
transformador para o Mundo e, por isso, mais do que justificável.”
E
Josh Levi, presidente da Data Center Coalition, vincando que o setor leva a
sério o impacto ambiental, diz: “Continuamos empenhados em trabalhar com
decisores políticos, comunidades locais e parceiros do setor para garantir que,
à medida que os centros de dados crescem, o façam, de forma responsável,
transparente e em linha com as melhores práticas disponíveis.”
O
cientista iraniano Kaveh Madani, vencedor da edição mais recente do Prémio da
Água de Estocolmo, afirma que os números evidenciam o custo ambiental da IA,
que pode, à primeira vista, parecer mais limpa do que outros dispositivos
mecânicos, como automóveis ou caldeiras, cuja poluição é visível. Porém, sustenta
que as pessoas podem reduzir o enorme apetite energético da IA, sendo menos
formais e mais concisas nas perguntas.
O
relatório conclui que reduzir, em 30 %, o número de palavras dos pedidos pode
cortar, em 25 %, a energia usada pela IA, o que poupará quase a mesma
quantidade de eletricidade que cerca de 700 mil pessoas, em África, consomem
num ano. Já uma pergunta típica ao estilo do ChatGPt é cerca de 200
vezes mais intensiva em energia do que a classificação básica de texto usada,
por exemplo, em filtro de SPAM de correio eletrónico. Imagens ou vídeos
gerados por IA exigem muito mais energia. E quanto mais complexa é a IA, mais
energia é necessária para a treinar e para garantir o seu funcionamento.
Embora
os defensores das tecnologias argumentem que as máquinas se tornam mais
eficientes, há um paradoxo: quando algo se torna mais eficiente, é usado com
mais frequência, o consumo total de energia dispara, mesmo que cada utilização
individual seja mais eficiente. E, embora algumas empresas promovam o recurso a
energias renováveis nos centros de dados, Madani considera que isso significa
esgotar a oferta de eletricidade limpa e, por consequência, obrigar ao recurso
a energia mais poluente noutros locais.
Um
dos problemas na realização do estudo da ONU é que muitas empresas e regiões
não são transparentes, quanto ao consumo alocado aos centros de dados e à IA,
ou mesmo sobre onde se localizam e qual a sua dimensão. “Não podemos gerir o
que as empresas não revelam”, conclui You, da Universidade Cornell.
***
Em
Lisboa a participar no TEDx, a 19 de maio, Michal Nachmany, fundadora da
Climate Policy Radar, defendendo ferramentas mais transparentes e específicas
para decisões ambientais, alertou para riscos do uso da IA nas políticas
climáticas, frisando: “Não temos tempo para errar.”
Nachmany
tornou-se uma das principais referências na intersecção entre clima, legislação
e tecnologia. Depois de integrar um projeto da London School of Economics (LSE)
voltado para a compilação de leis climáticas, no Mundo, decidiu criar a Climate
Policy Radar, uma plataforma que usa IA, para organizar e analisar milhares de
documentos associados a políticas ambientais e a processos judiciais climáticos,
reunindo mais de 35 mil documentos de, praticamente, todos os países e contando
com cerca de um milhão de utilizadores, por ano.
Grande
parte das respostas para a crise climática passa por decisões políticas. “As
maiores coisas que podemos fazer para resolver as alterações climáticas são
melhores políticas públicas e mover dinheiro dos combustíveis fósseis para as
renováveis. […] Mas, se não conseguimos encontrar informação de qualidade, para
tomar melhores decisões, às vezes, copiamos, inventamos ou simplesmente
erramos”, sustenta a especialista, vincando os limites das ferramentas de IA
mais populares, como ChatGPT, Gemini e Claude,
sobretudo, se utilizadas para decisões complexas ligadas ao clima, pois “os
sistemas generalistas de IA, às vezes, omitem informações, inventam dados ou
reproduzem vieses”.
Nachmany
reconhece o elevado consumo energético associado aos grandes modelos
tecnológicos, mas defende que é preciso olhar o impacto final do uso dessas
ferramentas. Se um modelo muito eficiente energeticamente for usado para
incentivar mais consumo e mais emissões, traz riscos ambientais. Ora, para
obviar ao problema, a Climate Policy Radar optou por desenvolver modelos
próprios, menores e mais específicos.
Falando
de Portugal, a investigadora destacou os avanços do país, nas energias
renováveis e na adaptação climática, citando o programa de resiliência aprovado,
neste ano, para enfrentar fenómenos extremos, e vincando que “Portugal já tem
legislação climática significativa e metas bastante ambiciosas, mas haver lei
não basta, porque “o diabo está nos detalhes”.
Segundo
a especialista, o grande desafio da transição energética é gizar políticas que
não deixem para trás comunidades e trabalhadores. Por exemplo, ao decidir
abandonar combustíveis fósseis, há que pensar nos trabalhadores, nas
comunidades e nos mercados que dependem disso. Assim, em vez de se resolver um
problema, criam-se mais problemas. Além disso, são cruciais a transparência e o
acesso público gratuito e aberto aos dados climáticos.
Por
fim, a especialista alertou para responsabilidade coletiva, ante o avanço
acelerado da IA. Precisamos de entender que decisões não podemos delegar nestes
sistemas. Com efeito, é errado deixar as decisões empresariais e as do Estado
nas mãos da IA.
***
Todavia,
parece que estamos a caminhar para isso, nomeadamente, na manipulação e na guerra.
2026.09.15
– Louro de Carvalho
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