O
jornal Público, no caderno “Fugas”, a
4 de janeiro (sábado), publicou um artigo de Pedro Garcias, sob o título “Os efeitos psicológicos do vinho e o prazer que vem
com a escassez”, a sustentar que “deve haver um ponto certo para se desfrutar do vinho ou
de qualquer tipo de álcool” e a confessar: “Quanto menos bebo, mais prazer
consigo retirar do que bebo.”
Considera
Pedro Garcias que muitos vinhos impressionam pela cor, pela qualidade, pela
idade ou pelo preço (“muito alto ou muito baixo), “mas só uns poucos chegam a
emocionar-nos”, graças à “extrema pureza e autenticidade do vinho”, à “companhia”,
ao “lugar”, ao “aroma”, podendo “ser tudo junto ou uma coisa apenas. No
entanto, sustenta que é encantador beber o vinho no lugar onde ele é produzido
e, de preferência, em companhia de amigos.
Beber, como
refere o jornalista e produtor de vinho no Douro, celebra momentos de festa e de
alegria, fazendo os Portugueses parte da civilização do vinho. Porém, adverte
que “o alcoolismo é um problema seriíssimo”, pelo que a receita, para
indivíduos em condições normais de saúde é a bebida com moderação, sendo
utópico “tentar impor a abstémia a toda a gente”.
***
O vinho, uma
das bebidas mais antigas e apreciadas no Mundo, é, frequentemente, associado a
celebrações e a momentos de prazer e de alegria; e estudos sugerem a relação
entre vinho e bem-estar, pois o consumo moderado pode beneficiar a saúde.
Porém, o tema exige discernimento e desmistificação de asserções tidas como
verdadeiras. Uma das questões comuns é “se consumir vinho, diariamente,
prejudica a saúde”, o que depende de diversos fatores, como a idade, o sexo, as
condições gerais de saúde da pessoa, a quantidade ingerida, entre outros aspetos.
Consumir bebidas
alcoólicas em excesso pode levar a problemas de saúde, como doenças hepáticas,
hipertensão e dependência alcoólica. Contudo, estudos diversos sugerem que o
consumo moderado, particularmente de vinho tinto, pode estar associado a alguns
benefícios à saúde, pois atua em cenários, como a redução do risco de doenças
cardíacas. A chave é entender e respeitar os limites recomendados, de acordo
com cada pessoa.
A moderação é
o caminho normal para desfrutar dos benefícios do vinho, sem comprometer a saúde,
sendo de frisar que o consumo excessivo de álcool pode trazer graves prejuízos
à saúde física e mental. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as mulheres
limitem o consumo de álcool a uma taça, por dia, e os homens a duas taças, por
dia. Este padrão de consumo tem sido associado a benefícios, como a melhoria da
saúde cardiovascular, devido aos polifenóis presentes no tinto, especialmente o
resveratrol, que tem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Não
obstante, pessoas com problemas de saúde, como doenças cardíacas, hepáticas ou
renais, gestantes, lactantes e indivíduos em tratamento médico devem consultar
um profissional de saúde, antes de consumirem qualquer quantidade de álcool.
Nem todo o vinho é bom para a saúde.
Há diversos estilos de vinho, o que implica em diferentes composições. Os
tintos, mormente os ricos em resveratrol, um polifenol da casca das uvas, têm
associação mais ampla a benefícios para a saúde cardiovascular, mas vinhos
doces e fortificados, tendem a conter mais açúcar e maior teor alcoólico, o que
pode anular os potenciais benefícios.
Beber vinho, por si só, não emagrece. Embora tenha menos calorias do que
outras bebidas alcoólicas, como cerveja e destilados, contribui para o ganho de
peso, se o consumo for excessivo. Ao invés, o consumo excessivo pode levar ao
aumento do apetite e dificultar a perda de peso.
O vinho branco não é, taxativamente, tão saudável como o
tinto. Apesar
de o branco também conter antioxidantes, geralmente, possui menores níveis
de polifenóis, em comparação com o tinto, que oferece mais benefícios à saúde,
devido à maior concentração de compostos, como o resveratrol. Entretanto, isso
não significa que o branco seja prejudicial; simplesmente, não oferece os
mesmos níveis de benefícios antioxidantes.
O vinho não é um afrodisíaco direto.
Embora relaxe e desiniba muitas pessoas, não há pesquisas científicas que
comprovem o efeito afrodisíaco direto. A sensação de euforia e de relaxamento
que proporciona pode, indiretamente, influenciar o humor e a disposição de cada
pessoa.
O vinho não ajuda a dormir melhor.
Assim como outra bebida alcoólica, o vinho funciona, deprimindo o sistema
nervoso central e gerando uma sedação que pode levar, mais rapidamente, ao sono.
Porém, a qualidade do sono fica prejudicada, pois o álcool diminui o período de
sono profundo, deixando-o fragmentado.
Em
contraponto, há verdades sobre o vinho e o bem-estar.
1. O vinho pode
melhorar a saúde cardiovascular. O consumo moderado de tinto
pode ter associação a menor risco de doenças cardíacas. Os polifenóis
presentes no vinho apresentam propriedades antioxidantes que podem ajudar a
proteger as paredes dos vasos sanguíneos, reduzir a inflamação e aumentar o
colesterol “bom” (HDL).
2. O vinho
pode ajudar a reduzir o risco de diabetes tipo 2. O consumo moderado de vinho tinto pode
estar ligado a menor incidência de diabetes tipo 2. O resveratrol, em
particular, pode melhorar a sensibilidade à insulina (hormona que o pâncreas segrega),
o que ajuda a regular os níveis de açúcar no sangue, mas o consumo deve ser
moderado e integrar uma dieta equilibrada.
3. O vinho
pode melhorar a saúde mental. O consumo moderado de vinho tem
sido conexo com menor incidência de depressão e de ansiedade. Alguns estudos
indicam que os polifenóis podem ter efeitos neuroprotetores, ajudando a
melhorar o humor e a reduzir o stresse. Entretanto, o consumo excessivo pode
ter o efeito inverso, o aumento do risco de saúde mental.
4. O vinho
pode auxiliar a minorar o risco de Alzheimer. O consumo de vinho tinto pode ter
relação com um menor risco de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer. Os
compostos antioxidantes podem proteger as células do cérebro contra danos e contra
inflamação.
5. O vinho
pode fortalecer o sistema imunológico. O consumo moderado pode contribuir
para o fortalecimento do sistema imunológico, mercê dos seus compostos
antioxidantes, ajudando o corpo a combater infeções e outras doenças.
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A
relação entre a psicologia e o universo dos vinhos é fascinante e cheia de
curiosidades.
O vinho é muito mais do que simples bebida alcoólica. Carrega consigo uma
rica tradição milenar e uma complexidade de aromas e sabores que podem
despertar sensações únicas em cada pessoa. E a relação entre o vinho e a psicologia
revela-se na capacidade de provocar emoções e de influenciar a perceção
sensorial.
Ao escolher um vinho, muitas vezes, somos influenciados pela aparência da
garrafa e do rótulo. A psicologia das cores desempenha papel importante nesse
processo, pois as cores podem evocar diferentes emoções e associações. Por
exemplo, um rótulo com tons de vermelho vivo pode despertar a sensação de
paixão e intensidade, enquanto um rótulo em tons mais suaves pode transmitir calma
e serenidade. Além disso, a estética do rótulo e da garrafa pode influenciar a perceção
que temos sobre a qualidade do vinho. Isso mostra como a psicologia está
presente em cada etapa da experiência com o vinho, desde a escolha até à degustação.
Também o ambiente de degustação exerce grande influência na
nossa perceção. Um estudo realizado pela Universidade de Oxford mostrou que a
música pode afetar o modo como se percebe o sabor do vinho. A escolha das
melodias pode realçar ou suavizar certos sabores, revelando a
importância do contexto para a experiência sensorial. De igual modo, o ambiente
físico, a iluminação e, mesmo, o tipo de taça utilizada podem
influenciar a nossa perceção do vinho. Isso evidencia como as emoções e
sensações estão ligadas ao contexto em que estamos inseridos.
Os vinhos têm o poder de despertar emoções profundas no/a
degustante. Um vinho encorpado e tânico pode evocar sensação de força
e robustez, enquanto um vinho leve e fresco pode transmitir delicadeza e
suavidade. Cada tipo de vinho é portador de uma narrativa e de uma
personalidade própria, capazes de provocar uma ampla gama de emoções.
A psicologia por trás dessas reações emocionais está relacionada com o
modo como o cérebro associa os aromas e os sabores do vinho a memórias, a experiências
e a estados de espírito. Por isso, a degustação torna-se, muitas vezes, uma
experiência sensorial intensa e prazerosa.
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Um estudo desenvolvido pelo William James Center for Research, do ISPA,
publicado em agosto de 2023 e que avaliou 102 voluntários, conclui que o
vinho beneficia a saúde mental, pois os participantes sentiam-se mais estimulados
e com mais prazer, ou seja, com emoções positivas.
Segundo Rui Miguel Costa, o consumo moderado regular de vinho tinto associa-se
a melhor saúde mental, sendo que uma possível razão será o particular estado de
transcendência que o vinho tem de provocar, “quando bebido em ambientes
enriquecedores e estimulantes”. O estudo indica que o vinho aumentou o
foco de atenção no momento presente, diminuindo a consciência do tempo e
fazendo parecer que o tempo passava mais devagar. “A imaginação tornou-se mais
vívida e o ambiente ao redor mais fascinante, estimulante; os pensamentos tornaram-se
mais originais e criativos. Verificou-se, ainda, uma sensação de maior
proximidade emocional e integração com o ambiente. Algumas pessoas também
relataram que a experiência teve aspetos espirituais e que se sentiram ligadas
a um poder maior e face a algo de grandioso”, lê-se no comunicado-síntese.
Para os autores da pesquisa, os resultados obtidos podem levar a outras
investigações. “Há poucos estudos sobre os efeitos positivos do álcool na
consciência. Esta lacuna é intrigante, na medida em que a maior parte das
pessoas bebe álcool, não só para tirar prazer do sabor, mas também para tirar
prazer dos seus efeitos na consciência, mesmo quando bebe moderadamente”,
adverte o investigador, concluindo que se pode fazer um “paralelismo com a
terapia psicadélica”, pois a investigação científica mostra que a eficácia dessa
terapia no tratamento de problemas mentais aumenta na medida do aumento dos efeitos
psicoativos caraterizados por certa transcendência, “descritos de forma
semelhante aos efeitos do vinho bebido no wine bar em que
se fez o estudo”.
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O psicoterapeuta Pedro Brás,
verificando que é comum ouvir dizer que um copo de vinho, ao fim de um dia stressante,
ajuda a relaxar e a descontrair, adverte que, tratando-se de gerir a ansiedade,
“recorrer ao álcool pode ser mais prejudicial do que útil”.
O álcool pode proporcionar alívio momentâneo
da ansiedade, criando a sensação de relaxamento, ao diminuir a atividade
cerebral. Contudo, este alívio é temporário e o uso regular de álcool para
lidar com a ansiedade pode levar a problemas mais graves, pois interfere com os
processos naturais do cérebro e do corpo, exacerbando os sintomas de ansiedade,
a longo prazo. Após os efeitos do álcool desaparecerem, os sintomas de
ansiedade podem voltar com mais intensidade, criando um ciclo vicioso de
dependência. Assim,
o álcool pode afetar, negativamente, a saúde mental, agravando
os sintomas de ansiedade e de depressão. Além disso, o consumo regular de
álcool pode ter impactos negativos na saúde física. A boa notícia é que há
várias estratégias comprovadas que ajudam a tratar a ansiedade, de forma
saudável e duradoura.
1. A terapia cognitivo-comportamental
(TCC), que envolve
trabalhar com um terapeuta, ajuda a identificar e a modificar os padrões de
pensamento negativos que contribuem para a ansiedade, oferecendo ferramentas
práticas para lidar com os sintomas e proporcionando uma compreensão mais
profunda das causas subjacentes, permitindo uma mudança duradoura.
2. A psicoterapia HBM: abordagem
holística e integrada combina a TCC com técnicas de reequilíbrio emocional e
mental. Oferecida no Programa Terapêutico de
oito semanas da Clínica da Mente, aborda a ansiedade holística
mente, tratando os sintomas e as causas profundas.
3. As práticas de mindfulness e de
meditação
são técnicas eficazes para reduzir a ansiedade, promovendo a atenção plena e a
aceitação do momento presente. Estas práticas ajudam a quebrar o ciclo de
pensamentos ansiosos e a cultivar um estado de calma e equilíbrio.
4. O exercício físico regular é uma forma
natural e eficaz de reduzir a ansiedade. Ajuda a regular as hormonas do stresse
e a promover a libertação de endorfinas, que melhoram o humor, reduzem a tensão
muscular, melhoram o sono e aumentam a energia.
5. As técnicas de relaxamento e respiração são
ferramentas simples e eficazes para lidar com a ansiedade em momentos de stresse.
Ajudam a acalmar o sistema nervoso e a reduzir os sintomas físicos da
ansiedade.
6. O tratamento profundo funciona, porque aborda as raízes da ansiedade
e permite mais duradoura e eficaz recuperação. Em vez de, simplesmente, aliviar
os sintomas, ajuda a identificar as causas subjacentes, a desenvolver
ferramentas de gestão e
a promover a mudança duradoura.
Enfim, quem está a lutar contra a
ansiedade não precisa de enfrentar esta batalha a sós. Procurar ajuda
profissional é passo crucial para gerir a ansiedade, de forma eficaz e
saudável.
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O álcool, sob a forma de bebida, é
prerrogativa de todas as civilizações: impressiona e cria emoções fortes, a
nível pessoal; tem uma componente festiva (social e religiosa); associa a si
conotações psicológicas; e pode beneficiar a saúde. Todavia, impõe-se o consumo
moderado em pessoas em condições normais de saúde e a obrigação de evitar
dependência. E é contraindicado para a cura da ansiedade.
2025.01.04 – Louro de Carvalho
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