segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O apólogo e a parábola da vinha: de Isaías a Mateus

 

A liturgia do 27.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, recorre à imagem da vinha para falar do Povo que aceita o desafio do amor de Deus e que se põe ao serviço de Deus. Desse Povo, Deus exige frutos (obras) de amor, de paz, de justiça, de bondade e de misericórdia.

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Na primeira leitura (Is 5,1-7), o profeta atesta o amor e a solicitude de Deus pela sua vinha. Porém, o amor e a solicitude de Deus não podem ter como contraponto frutos de egoísmo e de injustiça. O Povo de Javé tem de se deixar transformar pelo amor sempre fiel de Deus e produzir os frutos que Deus aprecia: justiça, direito, respeito pelos mandamentos, fidelidade à Aliança.

Isaías, filho de Amós, profetizou em Jerusalém, no reino de Judá, na segunda metade do século VIII a.C. (desde por volta de 740-739 a.C.); os seus oráculos vão até perto de 700 a.C.; e a sua pregação abarca um arco de tempo bastante longo e abrange vários reinados.

Tal como os outros profetas, não fala de realidades abstratas, mas de acontecimentos concretos, tocando a realidade da vida, dos problemas, das inquietações, das esperanças dos homens.

A primeira fase do seu ministério desenrola-se no reinado de Jotam (740-734 a.C.), uma época de relativa tranquilidade política, em que Judá se mantém afastado da cena internacional e das jogadas políticas das superpotências. Todavia, o olhar crítico do profeta deteta uma realidade distinta: a sociedade de Judá está marcada por grandes injustiças e por arbitrariedades; os poderosos exploram os mais débeis; os juízes deixam-se corromper; os latifundiários deixam-se dominar pela cobiça e inventam esquemas legais para se apropriarem dos bens dos mais pobres; os governantes oprimem os súbditos; e as senhoras finas de Jerusalém vivem no luxo e na futilidade – tudo no desrespeito absoluto pelas necessidades e carências dos mais pobres.

O culto floresce na abundância inaudita de práticas de piedade e de abundantes e solenes manifestações religiosas, mas todo ele é incoerente e mentiroso, pois não resulta da verdadeira adesão a Javé, mas da tentativa de acalmar as consciências e de comprar Deus.

Assim, Jerusalém deixou de ser a esposa fiel, para se converter numa prostituta, ou, noutros termos, a vinha cuidada por Deus só produz frutos amargos, e não os frutos bons (de justiça e de amor), pedidos a quem vive envolvido no ambiente da Aliança.

O “cântico da vinha” terá sido um cântico de vindima ou um cântico de trabalho, que um poeta popular entoava para o círculo de amigos ou de companheiros de trabalho. Mas, rapidamente, adquiriu duplo sentido e passou a evocar outra realidade. Na cultura judaica, a vinha é um símbolo do amor. Nestes termos, o “cântico da vinha” é, na boca do poeta popular, a cantiga de amor, que descreve o esforço do jovem apaixonado para conquistar a amada. E Isaías utiliza esta cantiga de amor como recurso para transmitir a mensagem que Deus lhe confiou.

O profeta/poeta brinca com as sonoridades e com o ritmo, alterna os sons doces das canções de amor com os sons ásperos das canções de trabalho. Os interlocutores, atentos e fascinados, escutam, com prazer, a descrição das patéticas tentativas do poeta para conquistar a amada. Ouvem-no falar dos seus trabalhos para construir a sua vinha, dos seus cuidados com ela, das suas ilusões, dos seus sonhos; sorriem, ante as alusões ao lagar (onde é feito o vinho do amor) e à torre (de onde o amado vigiará, para que ninguém entre na sua vinha e colha os frutos do seu amor). Aprovam, quando ele, após tantos cuidados, fica à espera dos frutos saborosos do amor que cultivou. Ficam revoltados, quando, depois de todo o empenho do amado, a vinha só lhe ofereceu frutos azedos. O auditório simpatiza com o poeta, identifica-se com ele e partilha a sua desilusão.

De súbito, o poeta transforma o cântico em queixa e reclama justiça. Interpela os interlocutores e exige deles um veredicto. Todos concordam que o profeta/poeta tem razão e que tem o direito de tirar a vedação protetora da vinha, em não voltar a cuidar dela, em dar ordens às nuvens para que não a fecundem com a chuva. E, quando o seu público pronunciou, mentalmente, o veredicto favorável ao profeta/poeta, este lança-lhe a acusação que vinha a preparar: “A vinha do Senhor do universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação escolhida. Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só há gritos de horror.” Quer dizer: o veredicto volta-se contra os interlocutores do profeta que personificam o Povo de Deus.

A imagem da vinha aplicada ao Povo de Deus é recorrente na Bíblia. Os profetas e os catequistas de Israel viram, na imagem da vinha, o símbolo privilegiado para expressarem a história de amor que Deus quis escrever com o seu Povo, isto é, a Aliança. Neste apólogo, Deus é o vinhateiro e Israel é a vinha. Foi Deus quem trouxe de longe (do Egito) as videiras escolhidas, que as plantou em terra fértil (Canaã), que removeu dessa terra as pedras (os povos que a habitavam) que podiam estorvar a fecundidade da vinha, que cuidou e, sobretudo, que amou a sua vinha. Deus esperava que Israel vivesse no direito e na justiça (“mishpat” e “zedaqa”) cumprindo, fielmente, as exigências da Aliança, numa vida de coerência com os mandamentos e de respeito pelos direitos dos mais débeis. Todavia, o Povo atua em sentido contrário ao que Deus esperava: os poderosos cometem injustiças e arbitrariedades, os juízes são corruptos e não fazem justiça ao pobre, os grandes praticam violências e derramam o sangue do inocente, os órfãos e as viúvas veem espezinhados dos seus direitos, sem que ninguém os defenda.

E o profeta sustenta que Deus não pode pactuar com este esquema e prepara-Se para abandonar essa vinha ingrata, essa amada infiel. Com efeito, o amor de Deus pretende criar, no coração do seu Povo, uma dinâmica de amor ao irmão. Deus ama-nos e quer que nos deixemos transformar pelo amor e que amemos todo o próximo.

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No Evangelho (Mt 21,33-43), Jesus recorre à imagem da vinha, transformando o apólogo de Isaías numa parábola. Critica, fortemente, os líderes judaicos que se apropriaram, em benefício próprio, da vinha de Deus e se recusaram a oferecer a Deus os frutos que Lhe eram devidos. Jesus anuncia que a vinha lhes vai ser retirada e vai ser confiada a trabalhadores que produzam e que entreguem a Deus os frutos que Ele espera.

Estamos em Jerusalém, pouco tempo após a entrada triunfal de Jesus na cidade. Cresce a tensão entre Jesus e os adversários. Os líderes judaicos pressionam-no, num esquema que parece um processo organizado. No horizonte próximo de Jesus, está a prisão, o julgamento, a condenação à morte. Jesus, cônscio do destino que lhe está reservado, enfrenta os dirigentes e condena, implacavelmente, a sua recusa em acolher o Reino.

O trecho em referência integra um bloco de três parábolas (a do pai, dos dois filhos e da vinha; a do homem que cavou uma vinha que só lhe deu agraços; e a do banquete), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projeto de salvação que Deus oferece aos homens, através de Jesus. Com elas, Jesus convida os opositores a reconhecerem que se fecharam num mecanismo de autossuficiência, de orgulho, de arrogância, de preconceito, que não os deixa abrir o coração e a vida aos desafios de Deus. Aqui, está expressa a segunda dessas parábolas.

A saga em referência compreende-se à luz da situação socioeconómica da Galileia do tempo de Jesus. A terra estava, quase sempre, nas mãos de grandes latifundiários que viviam nas cidades e que utilizavam vários sistemas de exploração das suas terras. Uma delas (porque, para o latifundiário não implicava muito trabalho) consistia em arrendar as várias parcelas do latifúndio, em troca de parte substancial dos produtos recolhidos. Os que arrendavam as terras eram camponeses que tinham perdido as suas, devido à pressão fiscal ou às más colheitas, e que viviam em situação periclitante: depois de descontados os gastos com a exploração, os impostos pagos e a parte que pertencia ao latifundiário, mal ficavam com o indispensável para se sustentarem a si e à família. Em anos agrícolas maus, isto significava miséria absoluta.

Este quadro provocava conflitos sociais frequentes e o aparecimento de movimentos campesinos que lutavam contra os latifundiários ou contra a carga excessiva de impostos.

A parábola coloca-nos no mesmo ponto de partida do apólogo da vinha: “Um senhor plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre.” Depois, afasta-se do apólogo de Isaías. O proprietário não explorou, diretamente, a vinha, mas confiou-a a vinhateiros que deviam dar-lhe, cada ano, determinado percentil dos frutos produzidos. Porém, quando os servos do senhor apareceram para recolherem a parte pertencente ao amo, foram maltratados e assassinados pelos vinhateiros; e o próprio filho do dono da vinha, enviado pelo pai, para chamar os vinhateiros à responsabilidade e ao respeito pelos compromissos, foi assassinado.

A vinha é Israel, o Povo de Deus. O dono da vinha é Deus. Os vinhateiros são os líderes religiosos judaicos, encarregados de trabalharem a vinha e de fazerem com que ela produzisse frutos. Os servos enviados pelo senhor são os profetas que os líderes da nação perseguiram, apedrejaram e mataram. O filho morto fora da vinha é Jesus, assassinado fora dos muros de Jerusalém. É um quadro de extrema gravidade. Os vinhateiros não só não entregaram ao senhor os frutos que lhe deviam, como fecharam os caminhos de diálogo e recusaram todas as possibilidades de encontro e de entendimento com o senhor: maltrataram e apedrejaram os servos enviados pelo senhor e assassinaram-lhe o filho.

Diante deste quadro, Jesus interpela os seus ouvintes: “Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?” A comunidade cristã primitiva encontrou fácil resposta para esta questão. Na perspetiva dos primeiros catequistas cristãos, a resposta de Deus à recusa de Israel foi dada em dois movimentos: Deus ressuscitou o seu filho, que os vinhateiros mataram, glorificou-O e constituiu-O pedra angular da nova construção; e decidiu retirar a vinha das mãos desses maus e ingratos vinhateiros e confiá-la a outros vinhateiros – a um povo que fizesse a vinha produzir bons frutos e que entregasse ao senhor os frutos a que ele tem direito.

Entretanto, a Mateus não interessa tanto a questão do filho – ressuscitado, exaltado e colocado como pedra angular da nova construção – como a questão da entrega da vinha a outro povo.  Neste âmbito, explica porque é que, na maioria das comunidades cristãs, os judeus – os primeiros trabalhadores da vinha de Deus – eram a minoria: recusaram-se a oferecer frutos bons ao senhor da vinha e recusaram todas as tentativas do senhor no sentido da aproximação e do compromisso. Assim, o senhor escolheu outros vinhateiros. E o decisivo, para a escolha de Deus, não é que os novos trabalhadores da vinha sejam judeus ou não, mas que estejam dispostos a oferecer ao senhor os frutos que lhe são devidos e a acolher o filho que o Senhor enviou.

Ao mesmo tempo, o evangelista exorta a comunidade a produzir frutos verdadeiros que agradem ao senhor da vinha. Tendo, no final do século I, passado o entusiasmo inicial e tendo-se os crentes da comunidade mateana instalado num cristianismo fácil, sem exigência, descomprometido, instalado, Mateus aproveita o ensejo para exortar os irmãos a que despertem, a que saiam do comodismo, a que se empenhem, a que deem frutos próprios do Reino, a que vivam, com radicalidade, a proposta de Jesus.

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Na segunda leitura (Fl 4,6-9), o apóstolo exorta os Filipenses – e todos os que fazem parte da “vinha de Deus” – a viverem na alegria e na serenidade, respeitando o que é verdadeiro, nobre, justo e digno. São esses os frutos que Deus espera da sua vinha.

Na Carta aos prezados filipenses, Paulo manifesta o apreço por essa comunidade que o ama, que o ajuda e que se preocupa com ele. Tendo estado doente, envia-lhes de volta Epafrodito, agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os filipenses à fidelidade ao Evangelho. O trecho em causa, que pertence à parte final da carta, apresenta um conjunto de recomendações, destinadas a recordar algumas obrigações que resultam do compromisso dos filipenses com Cristo e com o Evangelho.

Os primeiros dois versículos fazem parte de uma passagem mais longa, na qual Paulo recomenda aos cristãos de Filipos que vivam na alegria. Esta alegria não tem nada a ver com gargalhada histérica ou com otimismo inconsciente; mas é a alegria que resulta da vida de comunhão com o Senhor, com tudo o que isso significa, em termos de garantia de vida verdadeira e eterna. O cristão vive na alegria, pois a comunhão com Cristo garante-lhe acesso próximo (“o Senhor está próximo”) à vida definitiva, do que resulta a serenidade, a paz, a tranquilidade, que permitem ao crente enfrentar a vida sem medo e sentir-se seguro nos braços amorosos de Deus Pai. Ao crente resta cultivar a comunhão com Deus, entregando-Lhe, diariamente, a sua vida, “com orações, súplicas e ações de graças”, e fazendo de toda a vida uma constante oração.

Depois, Paulo recomenda seis “qualidades” que se devem cultivar e apreciar: a verdade, a nobreza, a justiça, a pureza, a amabilidade e a boa reputação. Tudo isto é virtude e é digno de louvor. Há quem veja neste versículo a “magna carta do humanismo cristão”. Porém, estes valores não são exclusivos do cristianismo: são valores sãos e louváveis, que eram valores igualmente propostos pelos moralistas gregos da época. No entanto, a comunidade cristã deve estar aberta ao acolhimento de todos os verdadeiros valores humanos. Ou seja, os cristãos devem ser, antes de mais, testemunhas e arautos dos verdadeiros valores humanos.

Finalmente, Paulo convida os filipenses a porem em prática estas recomendações, segundo o exemplo que receberam dele próprio. O cristão tem de viver os valores humanos em, confronto constante com o Evangelho e na fidelidade ao Evangelho.

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Concluindo, é oportuno salmodiar o apólogo da vinha, não segundo a linha da rejeição, mas do acolhimento do Messias de Deus e do propósito da consecução das boas obras.

“A vinha do Senhor é a casa de Israel.”

“Arrancastes uma videira do Egito, / expulsastes as nações para a transplantar. / Estendia até ao mar as suas vergônteas / e até ao rio os seus rebentos.

“Porque lhe destruístes a vedação, / de modo que a vindime quem quer que passe pelo caminho? / Devastou-a o javali da selva / e serviu de pasto aos animais do campo.

“Deus dos Exércitos, vinde de novo, / olhai dos céus e vede, visitai esta vinha. / Protegei a cepa que a vossa mão direita plantou, / o rebento que fortalecestes para Vós.

“Não mais nos apartaremos de Vós: / fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome. / Senhor, Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar, / iluminai o vosso rosto e seremos salvos.”

“Aleluia. Aleluia. Eu vos escolhi do Mundo, para que vades e deis fruto, / e o vosso fruto permaneça, diz o Senhor.”

2026.10.04 – Louro de Carvalho


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