A
liturgia do 27.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, recorre à imagem da vinha
para falar do Povo que aceita o desafio do amor de Deus e que se põe ao serviço
de Deus. Desse Povo, Deus exige frutos (obras) de amor, de paz, de justiça, de
bondade e de misericórdia.
***
Na
primeira leitura (Is 5,1-7), o profeta atesta o amor e a solicitude de
Deus pela sua vinha. Porém, o amor e a solicitude de Deus não podem ter como
contraponto frutos de egoísmo e de injustiça. O Povo de Javé tem de se deixar
transformar pelo amor sempre fiel de Deus e produzir os frutos que Deus aprecia:
justiça, direito, respeito pelos mandamentos, fidelidade à Aliança.
Isaías,
filho de Amós, profetizou em Jerusalém, no reino de Judá, na segunda metade do
século VIII a.C. (desde por volta de 740-739 a.C.); os seus oráculos vão até
perto de 700 a.C.; e a sua pregação abarca um arco de tempo bastante longo e
abrange vários reinados.
Tal
como os outros profetas, não fala de realidades abstratas, mas de
acontecimentos concretos, tocando a realidade da vida, dos problemas, das
inquietações, das esperanças dos homens.
A
primeira fase do seu ministério desenrola-se no reinado de Jotam (740-734
a.C.), uma época de relativa tranquilidade política, em que Judá se mantém
afastado da cena internacional e das jogadas políticas das superpotências.
Todavia, o olhar crítico do profeta deteta uma realidade distinta: a sociedade
de Judá está marcada por grandes injustiças e por arbitrariedades; os poderosos
exploram os mais débeis; os juízes deixam-se corromper; os latifundiários
deixam-se dominar pela cobiça e inventam esquemas legais para se apropriarem
dos bens dos mais pobres; os governantes oprimem os súbditos; e as senhoras
finas de Jerusalém vivem no luxo e na futilidade – tudo no desrespeito absoluto
pelas necessidades e carências dos mais pobres.
O
culto floresce na abundância inaudita de práticas de piedade e de abundantes e
solenes manifestações religiosas, mas todo ele é incoerente e mentiroso, pois
não resulta da verdadeira adesão a Javé, mas da tentativa de acalmar as
consciências e de comprar Deus.
Assim,
Jerusalém deixou de ser a esposa fiel, para se converter numa prostituta, ou, noutros
termos, a vinha cuidada por Deus só produz frutos amargos, e não os frutos bons
(de justiça e de amor), pedidos a quem vive envolvido no ambiente da Aliança.
O
“cântico da vinha” terá sido um cântico de vindima ou um cântico de trabalho,
que um poeta popular entoava para o círculo de amigos ou de companheiros de
trabalho. Mas, rapidamente, adquiriu duplo sentido e passou a evocar outra
realidade. Na cultura judaica, a vinha é um símbolo do amor. Nestes termos, o
“cântico da vinha” é, na boca do poeta popular, a cantiga de amor, que descreve
o esforço do jovem apaixonado para conquistar a amada. E Isaías utiliza esta
cantiga de amor como recurso para transmitir a mensagem que Deus lhe confiou.
O
profeta/poeta brinca com as sonoridades e com o ritmo, alterna os sons doces
das canções de amor com os sons ásperos das canções de trabalho. Os interlocutores,
atentos e fascinados, escutam, com prazer, a descrição das patéticas tentativas
do poeta para conquistar a amada. Ouvem-no falar dos seus trabalhos para
construir a sua vinha, dos seus cuidados com ela, das suas ilusões, dos seus
sonhos; sorriem, ante as alusões ao lagar (onde é feito o vinho do amor) e à
torre (de onde o amado vigiará, para que ninguém entre na sua vinha e colha os
frutos do seu amor). Aprovam, quando ele, após tantos cuidados, fica à espera
dos frutos saborosos do amor que cultivou. Ficam revoltados, quando, depois de
todo o empenho do amado, a vinha só lhe ofereceu frutos azedos. O auditório
simpatiza com o poeta, identifica-se com ele e partilha a sua desilusão.
De
súbito, o poeta transforma o cântico em queixa e reclama justiça. Interpela os
interlocutores e exige deles um veredicto. Todos concordam que o profeta/poeta
tem razão e que tem o direito de tirar a vedação protetora da vinha, em não
voltar a cuidar dela, em dar ordens às nuvens para que não a fecundem com a
chuva. E, quando o seu público pronunciou, mentalmente, o veredicto favorável
ao profeta/poeta, este lança-lhe a acusação que vinha a preparar: “A vinha do
Senhor do universo é a casa de Israel e os homens de Judá são a plantação
escolhida. Ele esperava retidão e só há sangue derramado; esperava justiça e só
há gritos de horror.” Quer dizer: o veredicto volta-se contra os interlocutores
do profeta que personificam o Povo de Deus.
A
imagem da vinha aplicada ao Povo de Deus é recorrente na Bíblia. Os profetas e os
catequistas de Israel viram, na imagem da vinha, o símbolo privilegiado para
expressarem a história de amor que Deus quis escrever com o seu Povo, isto é, a
Aliança. Neste apólogo, Deus é o vinhateiro e Israel é a vinha. Foi Deus quem
trouxe de longe (do Egito) as videiras escolhidas, que as plantou em terra
fértil (Canaã), que removeu dessa terra as pedras (os povos que a habitavam)
que podiam estorvar a fecundidade da vinha, que cuidou e, sobretudo, que amou a
sua vinha. Deus esperava que Israel vivesse no direito e na justiça (“mishpat”
e “zedaqa”) cumprindo, fielmente, as exigências da Aliança, numa vida de
coerência com os mandamentos e de respeito pelos direitos dos mais débeis. Todavia,
o Povo atua em sentido contrário ao que Deus esperava: os poderosos cometem
injustiças e arbitrariedades, os juízes são corruptos e não fazem justiça ao
pobre, os grandes praticam violências e derramam o sangue do inocente, os
órfãos e as viúvas veem espezinhados dos seus direitos, sem que ninguém os
defenda.
E
o profeta sustenta que Deus não pode pactuar com este esquema e prepara-Se para
abandonar essa vinha ingrata, essa amada infiel. Com efeito, o amor de Deus
pretende criar, no coração do seu Povo, uma dinâmica de amor ao irmão. Deus
ama-nos e quer que nos deixemos transformar pelo amor e que amemos todo o
próximo.
***
No
Evangelho (Mt 21,33-43), Jesus recorre à imagem da vinha, transformando o
apólogo de Isaías numa parábola. Critica, fortemente, os líderes judaicos que
se apropriaram, em benefício próprio, da vinha de Deus e se recusaram a
oferecer a Deus os frutos que Lhe eram devidos. Jesus anuncia que a vinha lhes vai
ser retirada e vai ser confiada a trabalhadores que produzam e que entreguem a
Deus os frutos que Ele espera.
Estamos
em Jerusalém, pouco tempo após a entrada triunfal de Jesus na cidade. Cresce a
tensão entre Jesus e os adversários. Os líderes judaicos pressionam-no, num
esquema que parece um processo organizado. No horizonte próximo de Jesus, está a
prisão, o julgamento, a condenação à morte. Jesus, cônscio do destino que lhe
está reservado, enfrenta os dirigentes e condena, implacavelmente, a sua recusa
em acolher o Reino.
O
trecho em referência integra um bloco de três parábolas (a do pai, dos dois
filhos e da vinha; a do homem que cavou uma vinha que só lhe deu agraços; e a
do banquete), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projeto de
salvação que Deus oferece aos homens, através de Jesus. Com elas, Jesus convida
os opositores a reconhecerem que se fecharam num mecanismo de autossuficiência,
de orgulho, de arrogância, de preconceito, que não os deixa abrir o coração e a
vida aos desafios de Deus. Aqui, está expressa a segunda dessas parábolas.
A
saga em referência compreende-se à luz da situação socioeconómica da Galileia
do tempo de Jesus. A terra estava, quase sempre, nas mãos de grandes
latifundiários que viviam nas cidades e que utilizavam vários sistemas de
exploração das suas terras. Uma delas (porque, para o latifundiário não
implicava muito trabalho) consistia em arrendar as várias parcelas do
latifúndio, em troca de parte substancial dos produtos recolhidos. Os que
arrendavam as terras eram camponeses que tinham perdido as suas, devido à
pressão fiscal ou às más colheitas, e que viviam em situação periclitante:
depois de descontados os gastos com a exploração, os impostos pagos e a parte
que pertencia ao latifundiário, mal ficavam com o indispensável para se
sustentarem a si e à família. Em anos agrícolas maus, isto significava miséria
absoluta.
Este
quadro provocava conflitos sociais frequentes e o aparecimento de movimentos
campesinos que lutavam contra os latifundiários ou contra a carga excessiva de
impostos.
A
parábola coloca-nos no mesmo ponto de partida do apólogo da vinha: “Um senhor
plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma
torre.” Depois, afasta-se do apólogo de Isaías. O proprietário não explorou,
diretamente, a vinha, mas confiou-a a vinhateiros que deviam dar-lhe, cada ano,
determinado percentil dos frutos produzidos. Porém, quando os servos do senhor apareceram
para recolherem a parte pertencente ao amo, foram maltratados e assassinados
pelos vinhateiros; e o próprio filho do dono da vinha, enviado pelo pai, para
chamar os vinhateiros à responsabilidade e ao respeito pelos compromissos, foi
assassinado.
A
vinha é Israel, o Povo de Deus. O dono da vinha é Deus. Os vinhateiros são os
líderes religiosos judaicos, encarregados de trabalharem a vinha e de fazerem
com que ela produzisse frutos. Os servos enviados pelo senhor são os profetas
que os líderes da nação perseguiram, apedrejaram e mataram. O filho morto fora
da vinha é Jesus, assassinado fora dos muros de Jerusalém. É um quadro de extrema
gravidade. Os vinhateiros não só não entregaram ao senhor os frutos que lhe
deviam, como fecharam os caminhos de diálogo e recusaram todas as
possibilidades de encontro e de entendimento com o senhor: maltrataram e
apedrejaram os servos enviados pelo senhor e assassinaram-lhe o filho.
Diante
deste quadro, Jesus interpela os seus ouvintes: “Quando vier o dono da vinha,
que fará àqueles vinhateiros?” A comunidade cristã primitiva encontrou fácil
resposta para esta questão. Na perspetiva dos primeiros catequistas cristãos, a
resposta de Deus à recusa de Israel foi dada em dois movimentos: Deus
ressuscitou o seu filho, que os vinhateiros mataram, glorificou-O e constituiu-O
pedra angular da nova construção; e decidiu retirar a vinha das mãos desses maus
e ingratos vinhateiros e confiá-la a outros vinhateiros – a um povo que fizesse
a vinha produzir bons frutos e que entregasse ao senhor os frutos a que ele tem
direito.
Entretanto,
a Mateus não interessa tanto a questão do filho – ressuscitado, exaltado e
colocado como pedra angular da nova construção – como a questão da entrega da
vinha a outro povo. Neste âmbito,
explica porque é que, na maioria das comunidades cristãs, os judeus – os
primeiros trabalhadores da vinha de Deus – eram a minoria: recusaram-se a
oferecer frutos bons ao senhor da vinha e recusaram todas as tentativas do
senhor no sentido da aproximação e do compromisso. Assim, o senhor escolheu
outros vinhateiros. E o decisivo, para a escolha de Deus, não é que os novos
trabalhadores da vinha sejam judeus ou não, mas que estejam dispostos a
oferecer ao senhor os frutos que lhe são devidos e a acolher o filho que o Senhor
enviou.
Ao
mesmo tempo, o evangelista exorta a comunidade a produzir frutos verdadeiros
que agradem ao senhor da vinha. Tendo, no final do século I, passado o
entusiasmo inicial e tendo-se os crentes da comunidade mateana instalado num
cristianismo fácil, sem exigência, descomprometido, instalado, Mateus aproveita
o ensejo para exortar os irmãos a que despertem, a que saiam do comodismo, a
que se empenhem, a que deem frutos próprios do Reino, a que vivam, com
radicalidade, a proposta de Jesus.
***
Na
segunda leitura (Fl 4,6-9), o apóstolo exorta os Filipenses – e todos os
que fazem parte da “vinha de Deus” – a viverem na alegria e na serenidade,
respeitando o que é verdadeiro, nobre, justo e digno. São esses os frutos que
Deus espera da sua vinha.
Na
Carta aos prezados filipenses, Paulo manifesta o apreço por essa comunidade que
o ama, que o ajuda e que se preocupa com ele. Tendo estado doente, envia-lhes de
volta Epafrodito, agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua
própria sorte e exorta os filipenses à fidelidade ao Evangelho. O trecho em
causa, que pertence à parte final da carta, apresenta um conjunto de
recomendações, destinadas a recordar algumas obrigações que resultam do
compromisso dos filipenses com Cristo e com o Evangelho.
Os
primeiros dois versículos fazem parte de uma passagem mais longa, na qual Paulo
recomenda aos cristãos de Filipos que vivam na alegria. Esta alegria não tem
nada a ver com gargalhada histérica ou com otimismo inconsciente; mas é a
alegria que resulta da vida de comunhão com o Senhor, com tudo o que isso
significa, em termos de garantia de vida verdadeira e eterna. O cristão vive na
alegria, pois a comunhão com Cristo garante-lhe acesso próximo (“o Senhor está
próximo”) à vida definitiva, do que resulta a serenidade, a paz, a
tranquilidade, que permitem ao crente enfrentar a vida sem medo e sentir-se
seguro nos braços amorosos de Deus Pai. Ao crente resta cultivar a comunhão com
Deus, entregando-Lhe, diariamente, a sua vida, “com orações, súplicas e ações
de graças”, e fazendo de toda a vida uma constante oração.
Depois,
Paulo recomenda seis “qualidades” que se devem cultivar e apreciar: a verdade,
a nobreza, a justiça, a pureza, a amabilidade e a boa reputação. Tudo isto é
virtude e é digno de louvor. Há quem veja neste versículo a “magna carta do
humanismo cristão”. Porém, estes valores não são exclusivos do cristianismo:
são valores sãos e louváveis, que eram valores igualmente propostos pelos
moralistas gregos da época. No entanto, a comunidade cristã deve estar aberta
ao acolhimento de todos os verdadeiros valores humanos. Ou seja, os cristãos
devem ser, antes de mais, testemunhas e arautos dos verdadeiros valores
humanos.
Finalmente,
Paulo convida os filipenses a porem em prática estas recomendações, segundo o
exemplo que receberam dele próprio. O cristão tem de viver os valores humanos
em, confronto constante com o Evangelho e na fidelidade ao Evangelho.
***
Concluindo,
é oportuno salmodiar o apólogo da vinha, não segundo a linha da rejeição, mas
do acolhimento do Messias de Deus e do propósito da consecução das boas obras.
“A
vinha do Senhor é a casa de Israel.”
“Arrancastes
uma videira do Egito, / expulsastes as nações para a transplantar. / Estendia
até ao mar as suas vergônteas / e até ao rio os seus rebentos.
“Porque
lhe destruístes a vedação, / de modo que a vindime quem quer que passe pelo
caminho? / Devastou-a o javali da selva / e serviu de pasto aos animais do
campo.
“Deus
dos Exércitos, vinde de novo, / olhai dos céus e vede, visitai esta vinha. / Protegei
a cepa que a vossa mão direita plantou, / o rebento que fortalecestes para Vós.
“Não
mais nos apartaremos de Vós: / fazei-nos viver e invocaremos o vosso nome. / Senhor,
Deus dos Exércitos, fazei-nos voltar, / iluminai o vosso rosto e seremos
salvos.”
“Aleluia.
Aleluia. Eu vos escolhi do Mundo, para que vades e deis fruto, / e o vosso
fruto permaneça, diz o Senhor.”
2026.10.04
– Louro de Carvalho
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