sábado, 17 de outubro de 2026

Segundo intercalar, no UTC, acaba em 2027

 

A Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM) decidiu, durante a sua 28.ª reunião, de 13 a 15 de outubro de 2026, em Versalhes, na França, decidiu pôr fim à prática dos segundos intercalares, histórica decisão que significa uma alteração de fundo na maneira como o Mundo conta o tempo. Assim, a hora mundial UTC passará a funcionar sem segundos intercalares, bissextos, ou adicionais, tornando os sistemas informáticos e infraestruturas críticas mais fiáveis, mas com impacto quase nulo, no quotidiano, para já.

A medida visa tornar a contagem do tempo mais contínua e previsível, reduzindo os riscos de falhas em sistemas informáticos, em redes de telecomunicações, em serviços de navegação por satélite e em infraestruturas energéticas. Porém, não significa que os dias tenham duração diferente ou que os relógios deixem de mudar entre a hora de verão e a de inverno.

O sistema internacional de medição do tempo tem de conciliar duas referências distintas: o tempo medido por relógios atómicos e o tempo astronómico, determinado pela rotação da Terra. E o Tempo Universal Coordenado, conhecido pela sigla UTC, assenta em medições extremamente precisas de relógios atómicos. Já o tempo astronómico acompanha a rotação do planeta, cuja velocidade não é perfeitamente constante e sofre pequenas variações.

***

O UTC, o principal padrão de tempo usado, no Mundo, para regular relógios e horários, fornece uma referência para a hora e é a base do tempo civil e dos fusos horários, facilitando a comunicação internacional, a navegação, a pesquisa científica e o comércio.

Os fusos horários ou zonas horárias, são cada uma das 24 zonas divididas a partir do Meridiano de Greenwich (0° – zero graus). Cada hora do fuso corresponde a 15° do globo terrestre, completando os 24 fusos 360°. E Greenwich é tido por “marco zero” para a medição das horas. Utilizam-se as siglas GMT ou TMG (Greenwich Mean Time) e UTC (Coordinated Universal Time) para medir os fusos de todos os outros lugares do Mundo.

Como a rotação do planeta ocorre de oeste para leste, quanto mais para leste está um país, mais tarde será considerado o horário, e quanto mais para o oeste, mais cedo será considerado o horário. A finalidade dessa divisão é padronizar o cálculo de tempo em todo o planeta Terra, mas por questões geopolíticas, cada nação pode adotar determinado horário como referência.

Os meridianos são as linhas verticais imaginárias que, ligando os polos e dividindo o globo terrestre, determinam os múltiplos de 15°, que constituem o total de 360° do globo. Todos os pontos que estiverem dentro desta faixa de 15° possuem igual iluminação solar e, portanto, apresentam a mesma hora.

O Meridiano de Greenwich é o marco longitudinal para determinar o padrão GMT dos fusos horários. Portanto, a longitude 0° passa sobre Greenwich, em Londres. A leste desse marco, conta-se até 180° positivos (e a hora adianta) e, para Oeste dele, até 180° negativos (e a hora atrasa). Com efeito, esta metodologia considera o movimento de rotação da Terra, em sentido anti-horário para o Leste. Assim, para determinar os fusos horários de uma localidade, é preciso conhecer as suas coordenadas geográficas, nomeadamente, a longitude e a latitude.

Para completar a rotação, a Terra leva, aproximadamente, 24 horas. Então a proporção é de uma para cada 15°, de tal modo que, em 24 horas, a Terra terá completado o giro (360°). No entanto, para permitir a vida social, os fusos não são considerados, em cada país ou em cada região, totalmente em linha reta, devendo ser considerados no mesmo fuso todos os lugares que importam a essa comunidade política. Além disso, há países que, por convenção, aderem a uma hora comum. É o caso da hora europeia, uma hora mais cedo do que a portuguesa.

Adotado pela maioria dos países, o UTC sucedeu ao Tempo Médio de Greenwich (TMG ou GMT), no uso quotidiano e nas aplicações comuns. Em áreas especializadas, como a pesquisa científica, a navegação e a medição do tempo, são também usados outros padrões, como o tempo universal ou horário universal (UT ou UT1) – e o tempo atómico internacional (TAI), em Francês, temps atomique international.

O UT1 é um padrão de tempo baseado na rotação da Terra. Originalmente, correspondia ao tempo solar médio na longitude de 0°, mas, como é difícil medir a posição do Sol, com precisão, o UT1 é calculado a partir do ângulo da Terra, em relação ao referencial celeste internacional (ICRF). Esse ângulo, chamado ângulo de rotação da Terra, ou ERA, substitui o tempo sideral médio de Greenwich.

Por sua vez, o TAI é um padrão de tempo atómico de alta precisão, expresso como tempo de coordenada (especificado pela coordenada temporal, face às coordenadas espaciais) e baseado na passagem idealizada do tempo próprio (intervalo de tempo inferido por relógio posicionado, de forma estática, na origem do referencial adotado) no geoide da Terra. O TAI é a média ponderada do tempo medido por mais de 450 relógios atómicos em mais de 80 laboratórios nacionais do Mundo. É escala de tempo contínua, sem segundos intercalares, e a principal realização do Tempo Terrestre, com diferença fixa de época. É a base do UTC, usado para a marcação do tempo civil, em toda a superfície terrestre, e incorpora segundos intercalares.

O UTC difere, em menos de cerca de um segundo, do tempo solar médio na longitude 0°, o meridiano de referência adotado, e não sofre ajustes de horário de verão.

A coordenação das transmissões de tempo e de frequência pelo Mundo começou a 1 de janeiro de 1960. O UTC foi adotado, oficialmente, como padrão, em 1963, e a sigla UTC tornou-se oficial em 1967. A versão vigente do UTC é a definida pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU) para as tecnologias de informação e comunicação (TIC).

Desde a sua adoção, o UTC passou por ajustes, entre eles, a introdução dos segundos bissextos, em 1972. A possibilidade de eliminar tais segundos do sistema de medição do tempo tem sido discutida, pois a sua inserção pode causar falhas nos sistemas usados no Mundo. Por conseguinte, em 2022, a CGPM aprovou uma resolução para alterar o UTC e para eliminar os segundos bissextos (adicionais ou intercalares), até 2035.

***

A partir de 20 de maio de 2027, por antecipação, o UTC decorrerá de forma mais contínua e previsível. A decisão assenta numa resolução da CGPM. Com efeito, na 28.ª sessão, os delegados discutiram, entre outros temas (futuro da medição internacional do tempo e necessidade de adaptar o sistema às exigências das tecnologias modernas), o futuro do tempo universal e do segundo intercalar. Até agora, este segundo era introduzido, pontualmente (em junho ou em dezembro), para alinhar o tempo atómico com a rotação da Terra.

O regime em vigor procurava conciliar duas formas distintas de medir o tempo. O UTC baseia‑se em relógios atómicos de alta precisão, enquanto o tempo astronómico depende da rotação da Terra, cuja velocidade varia ligeiramente. Para manter reduzida a diferença entre estas duas escalas, desde 1972, foi acrescentado o segundo intercalar, em 27 ocasiões. A última correção ocorreu no final de 2016, quando, excecionalmente, um minuto passou a ter 61 segundos.

Para as pessoas, estas correções são praticamente impercetíveis, mas podem causar problemas técnicos. Sistemas informáticos, redes de telecomunicações, navegação por satélite e redes de energia dependem de sincronização horária precisa e fiável. Em anteriores inserções de segundos intercalares houve falhas em sistemas informáticos e em serviços na Internet.

Um dos motivos da decisão está na evolução da rotação terrestre. Embora, em períodos muito longos, a Terra abrande, devido às forças de maré, nos últimos anos, chegou a rodar, por vezes, um pouco mais depressa. Isso abriu a possibilidade de, pela primeira vez, ser necessário introduzir um segundo intercalar negativo, em que se retiraria um segundo, em vez de o acrescentar. Como uma operação deste tipo nunca foi realizada, há dúvidas sobre a forma como os sistemas técnicos conseguiriam lidar, de forma fiável, com essa situação.

Por isso, a comunidade internacional de especialistas optou por, antecipadamente, pôr termo ao regime atual. A nova norma passa a permitir uma diferença maior entre o UTC e o tempo astronómico, que poderá atingir 3600 segundos, equivalente a uma hora. Segundo a avaliação dos peritos, demorará algum tempo, até que uma discrepância desta ordem torne efetivamente necessária uma correção. A medida é, predominantemente, preventiva.

Na CGPM, cuja reunião ocorre, em regra, de quatro em quatro anos, participam representantes dos estados‑membros, de estados associados e de economias associadas. Segundo o Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM), a organização reúne 69 estados‑membros e 34 estados e territórios económicos associados. Entre eles, contam‑se, na Europa, a Alemanha, a Áustria, a França, a Itália, a Espanha, a Suíça, o Reino Unido, a Polónia e a Ucrânia; nas Américas, os Estados Unidos da América (EUA), o Canadá, o Brasil, a Argentina, o México e o Peru; na Ásia, a China, o Japão, a Índia, a Coreia do Sul, a Indonésia e a Tailândia; na África, a África do Sul, o Egito, Marrocos, a Tunísia e o Quénia; e, ainda, a Austrália e a Nova Zelândia.

A eliminação do segundo intercalar é uma alteração técnica na referência temporal internacional e não deve ser confundida com a habitual mudança entre horário de verão e de inverno. As consequências podem ser mais visíveis em áreas que dependem de coordenação muito rigorosa com a rotação terrestre. Entre elas, contam‑se a astronomia, a geodesia – ciência que estuda a medição e a representação da Terra, bem como a determinação da sua forma, dimensão e campo gravítico – e certas aplicações baseadas em satélites. Para estes domínios, é essencial continuar a conhecer com precisão a rotação da Terra e, como o tempo universal deixa de ser ajustado à rotação, através de segundos intercalares, tem de ser considerado, separadamente, quando necessário, o aumento da diferença entre a hora oficial e o tempo astronómico.

Em termos gerais, a nova regulamentação pretende tornar, a longo prazo, a medição internacional do tempo mais simples e fiável. Em particular, os sistemas digitais deixarão de ter de lidar com a introdução irregular de segundos adicionais.

***

Em suma, o sistema internacional de medição do tempo concilia o tempo medido por relógios atómicos e o tempo astronómico, determinado pela rotação da Terra. O UTC assenta em medições precisas de relógios atómicos, enquanto o tempo astronómico acompanha a rotação da Terra, cuja velocidade, não perfeitamente constante, sofre pequenas variações.

Para evitar que a diferença entre as duas referências fosse demasiado grande, foram introduzidos segundos intercalares ou adicionais ao tempo oficial. Desde 1972, foram acrescentados 27 segundos, tendo o último sido introduzido no final de 2016, fazendo com que um minuto tivesse, excecionalmente, 61 segundos. Embora a alteração passasse despercebida no quotidiano, a sua aplicação exigia adaptações técnicas em sistemas que dependem de rigorosa sincronização. Com a nova decisão, o UTC funcionará de forma contínua, sem a introdução periódica dos segundos adicionais, o que evita interrupções e torna a referência internacional do tempo mais simples de utilizar nas infraestruturas digitais.

Um dos fatores que contribuíram para a decisão foi a possibilidade de ser necessário aplicar, pela primeira vez, um segundo intercalar negativo, ou seja, em vez de adicionar um segundo, seria necessário retirar um segundo à contagem do tempo. Ora, apesar de a rotação da Terra tender a abrandar em escalas de tempo muito longas, nos últimos anos, o planeta registou períodos em que girou ligeiramente mais depressa. Esta evolução levantou a possibilidade de ser necessário fazer uma correção no sentido inverso ao habitual.

A aplicação de um segundo negativo seria inédita, pelo que subsistem dúvidas sobre a forma como os sistemas tecnológicos reagiriam a tal alteração. A preocupação é relevante, visto que muitos serviços dependem de referências temporais precisas para funcionarem corretamente. Uma mudança inesperada na contagem dos segundos pode criar dificuldades na sincronização de computadores, de serviços em linha, de redes de telecomunicações e de sistemas de navegação. E a decisão de eliminar os segundos intercalares pretende evitar esses riscos, antes de surgir a necessidade de uma correção sem precedentes.

O fim dos segundos intercalares significa que a diferença entre o UTC e o tempo astronómico poderá aumentar, progressivamente, até ao máximo de 3600 segundos, antes de ser necessária nova abordagem para gerir a relação entre as duas referências. Porém, a alteração não implica que os relógios deixem de funcionar corretamente, mas que a hora internacional deixará de ser ajustada, regularmente, para acompanhar, de perto, as pequenas variações da rotação terrestre. E a diferença acumulada não deverá exigir correção imediata.

Por isso, a mudança, que é preventiva, pretende que o sistema internacional de medição do tempo continue a responder às necessidades tecnológicas durante um período prolongado.

Já o ano 2000 nos ameaçava com o “bug” informático, o qual poderia causar problemas em comboios e em aviões, por exemplo, o que levou a que, nas datas, o ano fosse grafado com quatro dígitos e não dois (“2026”, em vez “26”).

***

Para a população, em Portugal, a eliminação dos segundos intercalares não terá efeitos visíveis na vida quotidiana. Os relógios dos telemóveis, computadores e outros dispositivos continuarão a apresentar a hora habitual, sem que os utilizadores tenham de realizar qualquer operação específica por causa desta alteração.

A nova regra também não deve ser confundida com a mudança sazonal entre a hora de verão e a hora de inverno. São mecanismos distintos: os segundos intercalares serviam para manter a ligação entre o tempo oficial e a rotação da Terra, enquanto a mudança da hora legal altera o horário civil, em determinados períodos do ano. Assim, o regime de hora de verão e de inverno não é afetado por esta decisão. A mudança sazonal continuará a seguir as regras aplicáveis à hora legal, independentemente do fim dos segundos intercalares. A decisão incide sobre a referência internacional utilizada para sincronizar o tempo e não determina, por si, qualquer alteração nos horários de trabalho, nos transportes ou nos serviços públicos portugueses.

Por conseguinte, os decisores políticos podem manter o sistema dual ou prescindir dele; manter o fuso horário português ou aderir ao europeu; optar pelo atual horário de inverno (português ou europeu); ou optar pelo atual horário de verão (português ou europeu). Esse direito soberano ainda não foi hipotecado (é dos poucos).

Apesar de o impacto ser reduzido, a alteração terá consequências, também em Portugal, para áreas científicas e técnicas que precisam de relacionar a hora oficial com a rotação da Terra. Entre os domínios mais envolvidos estão a astronomia, a geodesia (que mede e representa a forma, as dimensões e o campo gravítico da Terra) e determinadas aplicações baseadas em satélites – que necessitam de conhecer, com precisão, a posição e a rotação do planeta. Assim, a mudança não elimina a importância de medir a rotação da Terra, apenas altera a forma como essa informação se relaciona com a referência internacional utilizada para medir o tempo.

Descansemos: o Ministério da Educação, Ciência e Inovação estará atento!

2026.10.16 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário