Os
dois governos liderados por Luís Montenegro têm, como é natural, merecido a
contestação dos partidos da oposição e de alguns setores da opinião pública. É
óbvio que a governação não é tarefa livre de escolhos, mas os titulares das
pastas ministeriais fariam bem em auscultar mais os diversos setores a população
a que se dirigem, em saber reconhecer erros e limitações e em não alijar,
facilmente, responsabilidades para outrem.
Face
a críticas a medidas tomadas ou a tomar e ante situações menos confortáveis na
supervisão e nos assuntos do Estado ou em comportamentos pessoais, salvo raras
exceções, os/as ministros/as, fazem questão em declarar que mantêm as condições
políticas para continuarem no governo e a fazer o seu trabalho. É certo que,
por vezes, as oposições chegam a pedir demissão deste ou daquele governante e,
por norma, o primeiro-ministro persiste em reiterar a sua confiança política
nos elementos do seu elenco ministerial. E eles resistem, não raro, com arrogância.
É de sustentar que a demissão nem sempre resolve os problemas, passando a solução
pelo apuramento de factos e de responsabilidades, mas há situações que se tornam
demasiado tóxicas para o conjunto da atividade governativa. Em alguns contextos
de ação governativa que transpareceram na comunicação social, eu, se fosse
governante, teria urgido o pedido de demissão. Porém, os governantes dificilmente
assumem essa postura, pois, alegadamente, o espírito de missão, a vaidade
pessoal ou a pressão partidária falam mais alto.
Assim,
os governantes não sabem demitir-se, preferem demitir outros ou aceitam a não recondução
no caso da formação de novo governo. A exceção que se regista é a da anterior
titular da pasta da Administração Interna, que apresentou o pedido de demissão,
alegando desgaste e dificuldade em enfrentar determinadas funções no âmbito da
pasta que sobraçava.
Como
dizíamos, os governantes sentem-se mais à vontade em substituir responsáveis
por determinados serviços por outros mais “idóneos”, isto é, mais do agrado do
partido do governo ou mais obedientes à orientação política do titular da pasta
que tutela o serviço em causa. Lá escapa um ou outro que não é, nominalmente,
da laia político-partidária do governo em exercício, mas ou aceita,
inequivocamente, a orientação política necessária ou serve de amostra para
garantir que o governo olha à competência, e não à filiação partidária.
Todos
os governos têm feito assim, mas o governo da nova Aliança Democrática (AD) tem
feito isso com muita mestria. O normal é a exoneração dos ocupantes de cargos
na Administração Pública (AP), desde os escalões mais elevados até aos mais
baixos (em que orientação política é pouco relevante, mas não as apetências partidárias).
Porém, há outras formas de substituição, como a pressão que induz o pedido de
demissão, ficando o ónus no demitido, e a restruturação de setor ou de setores
relevantes na AP.
Os
exemplos de demissões são muitos e diversos e têm ocorrido, praticamente, na
área de quase todos os ministérios. Por exemplo, as administrações nos serviços
regionais e sub-regionais de Segurança Social e nas Unidades Locais de Saúde foram
quase todas remodeladas. Porém, deram brado público demissões na Santa Casa da Misericórdia
de Lisboa (SCML), no Centro Cultural de Belém (CCB), na Direção Executiva do
Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS), em que as substituições se sucedem, no
Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), em que as substituições também se
sucedem, no Ministério do Ambiente e Energia (em que um técnico para gerir os
contratos atinentes às energias renováveis, que detinha formação e experiência adequadas,
não serviu, porque é enfermeiro) e, recentemente, na Secretaria-Geral do Ministério
da Administração Interna (SGMAI).
O
Ministério da Saúde, cuja responsável prometera a revolução da Saúde em pouco
tempo, está pior. E a solução passa, na sua ótica, por fundir a Direcção-Geral
da Saúde (DGS), com a DE-SNS, com o Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA)
e com a Administração Central do Sistema de Saúde (ACCS) – era necessário
acabar com a DE-SNS – e pela suposta refundação do INEM. E o Ministério da Educação,
Ciência e Inovação (MECI) sofreu profunda reestruturação, cujo resultado está à
vista, a qual, sob a capa da modernização, desmantelou estruturas e substituiu
personalidades que articulavam conhecimento, administração e pedagogia, por
outras que olham o sistema educativo em modo economicista e empresarialista.
***
O
que se passou com a SGMAI merece atenção especial. Trata-se de um organismo do Ministério
da Administração Interna (MAI), que, além de tutelar a proteção civil, nomeadamente,
os bombeiros, e as forças de segurança, exerce a tutela sobre a SIRESP, S.A. que
tem como missão planear, gerir, manter e modernizar a rede SIRESP - Sistema
Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal. E o ministério é
titulado por Luís Neves, que veio para a ribalta pública, devido a
comportamentos sobre os quais incide suspeita de irregularidade, enquanto liderou
a Polícia Judiciária (PJ), tendo granjeado generalizada externa e, pelos
vistos, criado alguns anticorpos na corporação que dirigia.
Ante
as sugestões de demissão, por, alegadamente, já não ter condições políticas para
continuar em funções governativas – pois está sob comissão parlamentar de
inquérito (CPI), sob processos de inquérito-crime instaurados pelo Ministério
Público (MP), na iminência de julgamento pelo Tribunal de Contas (TdC) e com
processo na Procuradoria Europeia – vem insistindo em que tem condições para governar
e que não sai do governo (mais tarde, moderou o propósito, admitindo sair, em
caso de queda do governo ou de opção do primeiro-ministro).
No
entanto, não foi capaz de gerir, a contento, a relação entre a SGMAI e a SIRESP,
S.A, – empresa que gere o SIRESP –, exonerou o secretário-geral e, de imediato,
encontrou sucessor, que assume funções, segundo o respetivo comunicado, “num
momento de transformação do serviço, com a preparação de uma nova estrutura
orgânica”, visando adaptar a SGMAI à “reforma funcional e orgânica” da AP, “reforçar
a sua capacidade de gestão e assegurar o cumprimento das suas atribuições, em
articulação com as demais entidades públicas”.
Tudo
terá começado pela exoneração do secretário-geral adjunto da Administração
Interna, cujo primeiro pedido de demissão ocorreu a 28 de abril, sob críticas ao
major general Paulo Viegas Nunes, por alegada tentativas de aproximar a SIRESP,
que dirigia, da esfera das Forças Armadas e por favorecimento, por
conflitos de interesses e por decisões “eticamente reprováveis juridicamente
questionáveis”, do que avisara o ministro. No entanto, o governante renomeou o
general para a presidência do Conselho de Administração da SIRESP, que tinha
deixado em 2024, aduzindo que as questões levantadas foram alvo de auditoria da
Inspeção-Geral de Finanças (IGF), que escrutinou, ao mínimo detalhe, a
atividade do Conselho de Administração da SIRESP, no mandato de Viegas Nunes.
Assim, o denunciante, nos fins de maio, renovou o seu pedido de demissão, que
foi aceite.
A
capacidade de resposta da SIRESP tem sido polémica, sobretudo, desde os
incêndios de 2017, quando o colapso das comunicações foi uma das principais
críticas feitas ao sistema. Por isso, sempre que surgem dúvidas sobre a gestão
da rede, o tema ganha forte dimensão política. Além disso, o caso surgiu num
momento particularmente sensível para o governo: o primeiro-ministro enfrentava
dificuldades para aprovar a revisão laboral, que borregou; e o executivo estava
sob pressão, por causa da resposta às tempestades, e com o Presidente da
República a divulgou um relatório crítico sobre falhas de coordenação na gestão
da crise das tempestades do inverno.
Recentemente,
a 12 de outubro, o secretário-geral do Ministério da Administração Interna
(MAI), Ricardo Carrilho, cessou funções, como informou o gabinete de Luís
Neves.
Em
comunicado, o MAI refere que o ministro da Administração Interna “determinou a
cessação do exercício de funções, em regime de substituição, de Ricardo Alberto
Gasiba Carrilho no cargo de secretário-geral da Secretaria-Geral do Ministério
da Administração Interna”. Ora, este afastamento surge após o Expresso ter
noticiado, que Ricardo Carrilho entrara em rutura com a tutela, por via da
fiscalização do SIRESP. Queixava-se a SGMAI de que, por causa da empresa que
gere o SIRESP, o Estado não conseguiu beneficiar da execução de um projeto de
quase um milhão de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e foi
obrigado a pagar mais de 60 mil euros à Motorola, por uma tarefa que estava
contratualizada com a NOS.
O
MAI explicou o afastamento de Carrilho com a “reorganização da secretaria-geral”
e a com a “preparação de uma nova estrutura orgânica e de procedimentos
adequados às responsabilidades do ministério, imprimindo uma nova orientação à
gestão do serviço”. Porém, entre várias divergências, os vários documentos, a
que o Expresso acedeu, revelavam uma rutura interna, com acusações de
inação ao ministro e com acusações de ilegalidades no processamento de
dinheiros públicos. O secretário-geral recusou-se a validar uma transferência
de 26 milhões para o SIRESP, a título de indemnização compensatória, alegando
que o sistema não lhe deu acesso aos indicadores que o permitam validar. E Luís
Neves terá pedido um parecer jurídico interno, para o validar, e garante que
está tudo bem no sistema.
Antes
disso, o governante já tinha determinado à Inspeção-Geral do Ministério da
Administração Interna (IGMAI) a realização de auditoria a Ricardo Carrilho. Todavia,
em abril, o MAI reconheceu que a IGF algumas irregularidades durante a primeira
presidência de Paulo Viegas Nunes, mas garantiu que tinham sido “integralmente
corrigidas”, não havendo “qualquer impedimento” que inviabilizasse o regresso
do general à liderança da empresa.
***
Contudo,
Ricardo Carrilho não se conformou e publicou um artigo de opinião, no Expresso,
intitulado “A ditadura da incompetência: como o respeito pela Lei e o mérito
técnico se tornaram alvos a abater na Administração Interna”, em que faz
alegações graves sobre a conduta de Luís Neves: “Em duas décadas de serviço
público de primeira linha, nunca fui alvo de tantas pressões ilegítimas e de
uma interferência política tão asfixiante como no período em que exerci as
funções de secretário-geral, sob a atual tutela de Luís Neves”, confessou,
sustentando que a sua exoneração “foi uma purga política”, por ter respeitado, “rigorosamente,
a lei” e zelado “pelo erário público, colidindo, frontalmente, com a barreira
dos interesses políticos, e dos esquemas de favorecimento instalados à sombra
da segurança nacional”.
Segundo
Ricardo Carrilho, o seu afastamento político foi uma punição pelo “verdadeiro
‘crime'” de ter proposto a extinção da SIRESP, “que se transformou num
sorvedouro de dinheiros públicos, e num intermediário burocrático de luxo”.
Entre
as acusações do exonerado está a alegada “auditoria interna” que terá provado
que a SIRESP SA “recebe do Estado a indemnização compensatória média de 26
milhões de euros anuais, desde 2021”, embora “o custo efetivo do funcionamento
da rede” não passe dos 14,8 milhões. Os restantes gastos de 11 milhões explica-se
com “ordenados principescos” da administração, gastos de depreciações “nunca
explicitados”, “assessorias de comunicação, consultorias técnicas,
contabilidade e advogados” e “centenas de milhares de euros em rendas de
escritórios luxuosos no Saldanha” e “contratos de aluguer de viaturas de topo”.
E a SIRESP “não executa qualquer atividade operacional relevante, já que toda a
operação e manutenção da rede estão subcontratadas a fornecedores privados,
desde 2022/2023”, refere.
Diz
que o governante o pressionara a cometer ilegalidades, entre elas, a suposta
orientação da para que a construção ou reabilitação de postos da Guarda
Nacional Republicana (GNR) ou de esquadras da Polícia de Segurança Pública (PSP)
se fizesse por ajustes diretos simplificados, como se fazia na PJ.
O
MAI rejeita as acusações, sugere que o exonerado não estava “comprometido com
os objetivos políticos e estratégicos” do Ministério, aponta quebra de confiança
e acusa Carrilho de, “em plena época de incêndios”, ter extinguido o Centro de
Operações e Gestão (COG) do SIRESP – o ‘centro nevrálgico’ da rede de
comunicações de emergência – à revelia da tutela, sem apresentar soluções
alternativas, tendo sido necessário o apoio da PSP para assegurar a
continuidade do seu funcionamento”, tal como o acusa de ter recusado pagar a
indemnização compensatória à gestora da rede “alegando, agora, dúvidas que
nunca invocou no passado”.
Entretanto,
em declarações à CNN Portugal, o dirigente exonerado mostrou “total
surpresa” a esta resposta ministerial, quando o próprio ministro, em reunião
com ele, teve apenas palavras elogiosas, relativamente ao trabalho que desenvolvia
como secretário-geral “ao longo do último ano”. E diz que, ao longo destes
meses, tem sentido o constante esforço de imputar à SGMAI responsabilidades que
não são suas. “Seja no dossiê do SIRESP, seja no dossiê do PRR, em que, na
prática, a SIRESP SA se recusou a levar a cabo 30 milhões de euros em
procedimentos de contratação pública e veio alegar que não tinha capacidade
técnica ou conhecimentos na área”, explicou, vincando ainda a “ausência total
de resposta por parte da tutela” a uma extensa lista de temas dependentes de
decisão ministerial – um bloqueio institucional.
A
polémica agudizou-se com a ida ao Parlamento do general Paulo Viegas Nunes, onde
lamentou “o ambiente de telenovela” instalado e garantiu o “escrutínio
permanente” da sua atividade. E Ricardo Carrilho voltou à televisão, desta vez,
à SIC Notícias a revelar que, em várias ocasiões, recebera a indicação
de que não deveria remeter comunicações escritas, a inundar as caixas do
correio do ministro e dos secretários de Estado, com e-mails ou com
ofícios, pois tudo se resolvia em reuniões de 15 minutos. Mais disse que tinha
feito um pedido para ser “ouvido” pelo primeiro-ministro e mostrou-se disposto
a ir ao Parlamento explicar-se, dando todas as informações necessárias, porque
elas fazem parte do arquivo histórico da SGMAI, do gabinete e de muitos
decisores e dirigentes das forças de segurança.
Ao
final da noite de 13 de outubro, Luís Montenegro e Luís Neves estiveram juntos
num evento em Lisboa. Apesar das perguntas dos jornalistas e de, segundo a SIC
Notícias, estarem previstas declarações sobre este caso, os governantes
saíram, sem nada dizerem.
O
que surge, agora, tão crispado, com o ex-SGMAI, num primeiro momento, foi
referido que a exoneração não tinha a ver com qualquer tensão, mas com próxima integração
da SGMAI na Secretaria-Geral do Governo. Porém, tal referência esquece que o Decreto-Lei n.º
43-B/2024, de 2 de julho, artigo 2.º, n.º 3, estipula que, além dos serviços que
são objeto de fusão, “são objeto de reestruturação, nos termos definidos em
diploma próprio”, outros serviços, entre eles, “a Secretaria-Geral do Ministério da
Administração Interna”. Ou seja, o ministro não advertia que, “primeiro, a lei
e, depois, a sua execução”.
***
Demissões,
exonerações, nomeações e renomeações são normais, mas o caso recente diz bem da
podridão do sistema, que não vale a pena branquear, ainda que seja caso
isolado.
2026.10.14 – Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário