O
Fundo Monetário Internacional (FMI) aumentou, a 13 de outubro, a previsão de
crescimento mundial, em 2026, para 3,1%, com base na resiliência das economias
avançadas e com o aumento do investimento em inteligência artificial (IA). Porém,
avisa que a energia cara, devido a conflitos, nomeadamente, entre a Rússia e a
Ucrânia, os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão, Israel e o Líbano, travará
o crescimento, com a Zona Euro a crescer 1,1%.
Apesar
da resiliência das economias avançadas e do investimento em IA, o crescimento
deverá abrandar, face aos 3,5%, previstos para 2025, enquanto os preços
elevados da energia, associados à guerra entre os EUA e o Irão, representam
riscos significativos, sobretudo, para os países de baixo rendimento excluídos
do boom de investimento impulsionado pela IA. E, Na Zona Euro, o
crescimento deverá abrandar para 1,1%, neste ano, antes da ligeira aceleração,
em 2027, devido a custos de energia elevados e à fraca confiança dos
consumidores.
A
projeção para 2026, no mais recente relatório – World Economic Outlook (WEO) – do
FMI, apresenta ligeira revisão em alta de 0,2%, face ao relatório de julho, e
sucede ao crescimento de 1,2%, em 2025. E, embora o crescimento do produto
interno bruto (PIB) da Zona Euro tenha recuperado para 2,6%, no segundo
trimestre, depois de crescimento nulo, nos primeiros três meses, o Fundo espera
que os riscos de inflação persistam no próximo ano.
O
conflito no Médio Oriente e a guerra da Rússia contra a Ucrânia fizeram
disparar os custos do petróleo e do gás natural, em todo o Mundo, uma ameaça relevante
para a Zona Euro e para outras economias que importam a maioria das suas
necessidades energéticas. Assim, o FMI assinalou que “as reservas de gás
continuam abaixo dos níveis sazonais, em várias partes da Europa, deixando as
condições do mercado de gás vulneráveis a condições meteorológicas adversas,
antes da época de ‘aquecimento’ de inverno”.
Prevê-se
uma inflação de 3,1%, neste ano, e de 2,8%, no próximo, acima da meta de 2% do
Banco Central Europeu (BCE), o que pode exigir taxas de juro do BCE que travem
a despesa das famílias e o investimento, com o PIB da Zona Euro a subir apenas
para 1,2%, em 2027. “A inflação subjacente deverá regressar aos 2% apenas, de
forma gradual”, indicou o FMI, na Zona Euro, por volta de meados de 2028, e, no
Reino Unido, até ao final de 2027.
Na
Alemanha, a maior economia europeia, o crescimento deve atingir 1,3%, neste
ano, enquanto o PIB da Espanha continuará robusto, com a expansão de 2,5%. Já a
economia francesa deve crescer 0,4%, neste ano, muito abaixo dos 0,9% de 2025,
com o desemprego a subir para 8,4%, face aos 7,7% de 2025. E, para o Reino
Unido, o FMI elevou a previsão de crescimento, neste ano, para 1,3%, mais 0,3%
do que em julho. Porém, o crescimento britânico deverá abrandar para 1,2%, em
2027, “à medida que os preços mais elevados da energia e as taxas de juro de
longo prazo penalizam o consumo e o investimento”.
A
guerra dos EUA contra o Irão mergulhou o Médio Oriente na violência e fez subir
os preços da energia, a nível mundial, em resultado das ações de retaliação de
Teerão. Assim, os preços dos produtos petrolíferos refinados continuam entre
70% e 95%, acima dos níveis anteriores à guerra, pressionando os países que
dependem de importações de energia para a sua atividade económica. E, tendo a
guerra entrado no 8.º mês, Silvana Tenreyro, conselheira económica e diretora
do Departamento de Estudos do FMI, advertiu que “um conflito prolongado no
Médio Oriente pode fazer pressão adicional na inflação e abrandar o
crescimento”.
Os
países importadores de energia que não beneficiam do boom da IA são os
mais vulneráveis, criando o que o FMI descreveu, no WEO, como um “cenário
dividido”, o qual sustenta que as duas forças económicas da guerra no Irão e do
boom da tecnologia de IA criaram uma economia mundial fragmentada. “Ventos
contrários decorrentes de uma guerra prolongada e de tensões geopolíticas
persistentes podem reavivar pressões inflacionistas, agravar as posições
orçamental e externa e atingir, com maior dureza, os países importadores de
energia e de baixo rendimento […]. Ao mesmo tempo, o atual impulso tecnológico
pode cessar abruptamente, se forem revistas as expectativas sobre lucros e
ganhos de produtividade associados à IA, enfraquecendo o investimento e
apertando as condições financeiras”, lê-se no documento.
Prevê-se
que as economias avançadas do Mundo cresçam 2,1%, em 2026, com os países
integrados na cadeia de fornecimento de IA, como Taiwan e a Coreia do Sul, a
registarem valores bastante superiores. Já na China, a segunda maior economia
mundial, o crescimento deverá abrandar 0,5%, para 4,5%, neste ano, sobretudo,
devido à fraca procura interna. E a inflação global mantém-se em trajetória de
aceleração, devendo atingir 4,7%, em 2026, alimentada pela guerra no Irão e
pelo boom da IA, com efeitos a propagarem-se nas economias avançadas e nas
economias em desenvolvimento.
Por
isso, Tenreyro alertou que é necessária “ação urgente”, por parte de todos os
países, perante os riscos descendentes. No plano orçamental, pediu aos governos
que recorram apenas a medidas temporárias e direcionadas para aliviar o peso
dos elevados custos da energia e de outras despesas sobre a população. E disse
que “a política monetária deve manter-se firmemente focada na estabilidade de
preços”, sendo apropriadas subidas das taxas de juro para conter a inflação
elevada. “A economia tem mostrado resiliência, mas essa resiliência está a
atingir os seus limites”, afirmou, vincando que se deve passar da gestão da
crise à reconstrução, restaurando margem orçamental e reforçando a resiliência
do lado da oferta.
***
Dias
antes, o Business Cycle Clock (Relógio de Ciclos) do Eurostat, que segue a
evolução da economia, apontava forte desaceleração, na Zona Euro, com os mercados
de dívida a exporem pressão orçamental francesa, com a inflação persistente e com
subidas de juros do BCE.
Ao
longo de grande parte do ano, o tema dominante nos mercados de obrigações
europeus foi a inflação. Os preços sobem, o BCE foi aumentando as taxas de juro
e os investidores exigiram remunerações cada vez mais altas, para emprestarem
dinheiro aos Estados. Por conseguinte, o referido Business Cycle Clock
sinalizou uma forte desaceleração na Zona Euro, no final do terceiro trimestre.
Alguns
países, como a Itália, podem já ter entrado em recessão, enquanto a Alemanha e
a França continuam a enfrentar uma fase de abrandamento. Nestes termos, poderá
falar-se em contração económica e em recessão.
Quando
os investidores antecipam tempos difíceis, fazem duas coisas: deslocam o
dinheiro para o devedor mais seguro que encontram, que é, na Europa, a Alemanha;
e apostam que o banco central irá, em breve, cortar taxas de juro para apoiar a
economia. Os dois movimentos fazem descer o custo de financiamento da Alemanha.
Se uma recessão estivesse a aproximar‑se, os rendimentos das obrigações alemãs
estariam a cair, mas não caem.
O
juro da obrigação alemã, a 10 anos, estava, a 8 de outubro, em 3,49%, acima dos
cerca de 2,85% registados no início do ano. A 28 de setembro, chegou a 3,65%, o
nível mais alto, em quase 17 anos. E o juro, a dois anos, que acompanha, de
perto, as expectativas dos investidores, quanto ao BCE, está em 3,07%, bem
superior à taxa de depósito do BCE, de 2,50%.
Em
termos simples, os investidores continuam a esperar subida das taxas, não
descida. “Os Bunds [títulos da dívida soberana alemã, considerados os ativos
mais seguros da Zona Euro e a grande referência de refúgio financeiro na Europa]
continuam a ser o referencial natural para os investidores, quando os mercados
ficam nervosos. Por isso, algum alargamento, face à Alemanha, é exatamente o
que se esperaria”, afirmou Ken Egan, responsável pelo crédito soberano europeu
na agência de rating KBRA, mas frisando que “não parece uma fuga total para
ativos de refúgio, porque os juros dos Bunds não caíram, de forma
significativa”.
Segundo
o Eurostat, a guerra no Médio Oriente fez subir os preços do petróleo e do gás.
A inflação da Zona Euro aumentou para 3,8%, em setembro, face aos 3,2% de
agosto, e os preços da energia estavam quase 19% acima dos de há um ano. O BCE
subiu as taxas duas vezes, neste ano, em junho e em setembro. E os mercados
monetários preveem um aumento até dezembro.
Se
o mercado de obrigações não está a incorporar uma recessão, pergunta-se onde
está a pressão. E a resposta mais evidente vem da França. O juro da obrigação
francesa, a 10 anos, está em 4,88%, cerca de 1,39% acima do que paga a
Alemanha. No início de setembro, a diferença rondava 0,87%. Esta diferença é
conhecida como spread, o prémio adicional que os investidores exigem
para emprestarem a um país, em vez de à Alemanha, e funciona como o termómetro
da confiança no mercado de obrigações. Ora, a França, para se financiar, agora,
paga mais do que a Itália, cuja obrigação, a dez anos, rende 4,60%, e paga
cerca de 0,5% mais do que Atenas, o que teria parecido impensável, durante
grande parte da História do Euro.
O
défice orçamental francês deverá atingir 5,4% do seu PIB, neste ano, acima do
limite de 3% fixado pela UE, há seis anos consecutivos. E o governo apresentou,
a 1 de outubro, um pacote de poupanças de 43 mil milhões de euros, mas é-lhe difícil
obter apoio parlamentar.
A
revista The Economist estima que estabilizar a dívida francesa aos
custos de financiamento atuais exigiria um aperto orçamental superior a 4% do
PIB, cerca de dez vezes o montante das poupanças, atualmente, em discussão
entre os deputados. Não é por acaso que a França está a ser palco de ruidosas manifestações
e de protestos da população, com destaque para os jovens, nomeadamente, os
estudantes (que têm a solidariedade ativa da ativista sueca Greta Thunberg), o
que tem levado ao encerramento das atividades escolares.
A
França é, de facto, o epicentro da tensão, mas a pressão está a disseminar‑se,
com países, como Portugal e a Espanha a terem as pessoas na rua a protestar contra
o aumento do custo de vida e contra falta de vontade política em os governos
resolverem a crise da habitação e em travarem o excesso dos preços nos setores alimentar
e energético.
Desde
o início de setembro, o spread da Itália, face à Alemanha, aumentou de
cerca de 0,84% para 1,12%, e o juro da obrigação italiana, a 10 anos, tocou
brevemente, a 8 de outubro, 4,75%, o nível mais alto num ano. O spread da
Espanha, face aos Bunds, alargou-se, para cerca de 61 pontos base, numa altura
em que o país se prepara para eleições legislativas antecipadas a 29 de
novembro. Para Ken Egan, este movimento “parece um misto, e é difícil separar,
exatamente, que parte lhe é específica da França”. “Grande parte da subida
generalizada dos juros reflete o choque energético e as expectativas de uma
política monetária mais restritiva, por parte do BCE, mas a França tem,
claramente, um ‘prémio’ fiscal e político adicional”, sublinhou.
Um
risco real de recessão deixaria sinais claros: o juro do Schatz, a dois anos, a
cair abaixo da taxa de depósito de 2,50% do BCE, os rendimentos dos Bunds em
queda, ao mesmo tempo que os spreads da França, da Itália e da Espanha
se alargam em conjunto, e os mercados monetários a trocarem previsões de
subidas de taxas, em 2027, por cortes. Ora, para Egan, “o sinal tradicional de
alerta é uma curva de rendimentos invertida” e, quando “uma recessão começa a
ser incorporada nos preços, a curva tenderia, normalmente, a inclinar‑se em
alta, à medida que os mercados antecipam cortes de taxas”. Ou seja, os juros de
curto prazo cairiam mais rapidamente do que os de longo prazo, à medida que os
investidores apostam em cortes das taxas.
Egan
acrescenta que os juros dos Bunds também cairiam, os spreads da
periferia e do crédito se alargariam, de forma mais abrangente, e os inquéritos
aos gestores de compras passariam “claramente para território de contração”. “Neste
momento, essa combinação não está realmente presente”, afirmou, salientando que
a probabilidade de recessão na área do euro, num ano, de 20%, segundo a
Bloomberg, “aponta ainda para um risco elevado, mas não agudo”.
O
que os mercados estão a incorporar nos preços parece aproximar‑se mais de uma
estagflação, com a economia a perder dinamismo, enquanto a inflação continua a
subir, cenário que deixaria o BCE sem boas opções, pois continuar a subir as
taxas apertaria o cerco aos governos mais endividados e a uma economia em
enfraquecimento; e parar demasiado cedo arriscaria cristalizar a inflação,
podendo o inverno agravar a situação, antes de ela melhorar.
As
reservas europeias de gás estavam cerca de 72% cheias, no início de outubro,
segundo a Gas Infrastructure Europe, o valor mais baixo para esta altura do ano,
desde o início dos registos, em 2011, e 15%, aproximadamente, abaixo da média
dos últimos cinco anos. Um inverno rigoroso apertaria ainda mais um mercado
energético já pressionado. “Para o BCE, a dificuldade é que a inflação voltou a
ficar acima da meta sem que a economia dê sinais claros de sobreaquecimento”,
referiu Egan, avisando que, “se os custos energéticos continuam a repercutir‑se,
enquanto os juros de mercado e os custos de financiamento já são restritivos, a
vítima poderá ser cada vez mais uma procura e um crescimento mais fracos”.
Até
agora, os investidores têm vendido obrigações da periferia europeia por receio
da inflação. E, se começarem a comprar Bunds, por medo de recessão, e a
desfazer‑se da dívida francesa, o BCE enfrentará o dilema que passou a última
década a tentar evitar.
***
Por
cá, o governo, no Orçamento do Estado para 2027 (OE2027), apesar dos riscos
para o custo de vida, prevê o crescimento de 2,1%, o excedente de 0,1% no PIB e
a inflação de 2,3%, em 2027, apostando nas “contas certas” (ou “contas no verde”),
enquanto algumas instituições antecipam défice – saldo negativo de 0,2%,
segundo o Conselho de Finanças Públicas (CFP).
Óscar
Afonso, diretor da Faculdade de Economia e Gestão da Faculdade do Porto, escreveu,
no Jornal de Notícias (JN), de 9 de outubro, que o OE se
concentra nas “medidas imediatas”: quanto desce ou aumenta um imposto, quem recebe
apoio ou quem fica de fora. É a preocupação com o saldo, e não com o rendimento
das famílias.
“Contas
certas” são importantes, mas não à custa da perda de valências cruciais: diminuição
da despesa corrente, investimento e reforço da produtividade. Por isso, o
académico – para quem “o saldo diz se as contas fecham”, mas não diz “se estão
bem compostas” – opina que às “contas certas” se deve aliar a dimensão das “contas
bem compostas”, isto é, não sacrificar o investimento (público que induz o privado),
não degradar o capital público, nem estrangular a produtividade. Ao invés, para
“investir mais, reduzir impostos e continuar a baixar a dívida”, diz Óscar
Afonso, há que “libertar recursos dentro do Estado”, o que requer “melhor organização,
digitalização, compras públicas eficientes, avaliação de políticas e eliminação
de redundâncias”, enfim, “transformar melhor os recursos em serviços públicos, investimento
e crescimento”, de modo a esbater, o mais possível, as desigualdades e cuidar
dos cidadãos.
A propósito, termino, lembrando que, sendo líder de grupo municipal oposicionista, numa assembleia municipal, questionei um vereador dessa formação partidária oposicionista pelo facto de ter votado a favor das contas, o qual me respondeu: “Estavam bem feitas!” “Era o que faltava. Os funcionários sabem aritmética!” – retorqui – "Mas verificou se cumpriam as opções definidas para o município?”
2026.10.13
– Louro de Carvalho
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