O
aumento das temperaturas já permite cultivar café, na Itália, e arroz, nos
Países Baixos. Ora, se o aquecimento global já tinha levado o Sul da Inglaterra,
no Reino Unido, a produzir espumante tipo champanhe, deslocando mais para norte
a tradicional zona de produção da França e do Norte da Itália, a passagem do
café das zonas equatoriais para o Mediterrâneo é ainda mais significativa,
assim como o é a produção de arroz, nos Países Baixos.
***
A
cooperação anglo-francesa existe há séculos. Vários foram os momentos de
encontro entre os dois povos, por exemplo, quando as tribos do Sul da
Inglaterra lutaram ao lado dos gauleses do outro lado da Mancha ou quando Júlio
César invadiu a Gália. Grande parte da História entre as duas nações resulta de
mudanças políticas. Desde a conquista normanda até à Entente Cordiale, fatores
sociais uniram e separaram a França e a Inglaterra. Porém, o exemplo mais
recente tem origem nas alterações climáticas.
Dizem
que o champanhe “é o ‘crème de la crème’ e a ‘mousse de la mousse’ do vinho
espumante”. Por conseguinte, é instituição protegida por lei e tradição orgulhosa,
com séculos de História e de cultura. Há vários fatores que influenciam o
produto, mas os relevantes são o clima e o ‘terroir’, a terra sob a qual a
sagrada videira ‘vitis vinifera’ é plantada.
A
região de Champagne é a mais setentrional, no atinente à produção deste vinho,
cujos parâmetros gerais se situam entre 30º e 50º (graus) de latitude, em ambos
os hemisférios. Reims, capital da região, situa-se a 49,15º norte. O clima frio
favorece a produção do espumante, pois o viticultor necessita de muito elevada acidez
nas uvas, para criar as condições estruturais adequadas à produção pelo método
tradicional. Por outro lado, o solo desta parte da França tem muito elevada composição
calcária, que mantém a frescura e a mineralidade, que são elementos perfeitos
para a produção do espumante. E o nível superior de Champagne – os Grands Crus –
é, quase exclusivamente, produzido nos locais com maior teor de giz, que é bom
para a drenagem e pode armazenar humidade, em caso de seca.
Juntando
estes elementos, há condições perfeitas para a produção de champanhe. Porém, as
alterações climáticas criam um problema. As uvas ficam cada vez mais maduras,
mesmo em colheitas comparativamente mais frescas; as vinhas viradas a sul da
Côte des Blancs estão a aquecer e os sistemas meteorológicos são menos
previsíveis. Ora, a solução do problema está nas terras imediatamente do outro
lado do Canal da Mancha, no condado de Kent, no Sudeste da Inglaterra, onde o
espumante que, agora, dá à Inglaterra e à França a sua mais recente relação
cordial, é produzido a uma escala rapidamente crescente.
Dizem
que o vinho espumante inglês está a ter um renascimento. Contudo, o mais
correto será dizer que está a nascer, pois a indústria melhorou, drasticamente,
nos últimos dez anos e, com o aumento da produção e da escalabilidade, o preço
desceu para um nível competitivo e a qualidade melhorou, inquestionavelmente. De
facto, os solos de muitas zonas de Kent, de Sussex e de Surrey possuem teor de
giz tão elevado como o dos solos das zonas de cultivo de Champagne, precisamente,
por aquela zona fazer parte da mesma Bacia de Paris que desenvolveu espessas
camadas de giz formadas por fósseis de plâncton, entre há 60 e 100 milhões de
anos. Além disso, o clima do Sudeste de Inglaterra é comparável ao de Champagne,
há 50 anos, ao passo que o aumento de um grau na temperatura no Nordeste de
França resultou numa proporção alarmante de uvas secas, devido ao excesso de
calor.
Os
laços entre a casa de champanhe Taittinger e esta região de Kent são a génese da
iniciativa fundada na cooperação anglo-francesa, mercê da amizade de décadas de
Pierre-Emmanuel Taittinger e do master of wine britânico Patrick McGrath.
O pai de Taittinger, Jean, foi presidente da câmara de Reims – capital da
região de Champagne – que geminou a cidade com Cantuária, em 1962. E, a alguns
quilómetros da cidade-catedral de Kent, descobriram o local rico em giz, com
excelentes encostas viradas a sul e com um pouco de altitude.
India
McGrath, filha de Patrick McGrath e diretora de marca do Domaine Evremond,
confirma que a Hatch Mansfield e a Taittinger trabalharam em conjunto, durante
anos e anos, e serão as suas distribuidoras, pois a maioria das marcas de vinho
inglesas não teria um agente, por não estarem a importar vinho. Apenas o vendiam,
diretamente, da adega. No caso vertente, a Hatch Mansfield utilizará as suas
ligações de distribuição no setor do comércio. E, embora o foco seja o mercado
do Reino Unido, a utilização de rede de distribuição já estabelecida é
inestimável para a exportação, e a Taittinger tem agentes em todo o Mundo.
O
Domaine Evremond, junto à aldeia de Chilham (do século XV), perto de Cantuária,
a 52,1º norte, está fora dos parâmetros históricos da viticultura, mas as
alterações climáticas rompem com a tradição. Embora os franceses sejam as
últimas pessoas que comprariam espumante inglês, sabem o que é preciso para o
fazer e que a sua região já não é adequada.
A
propriedade de 125 hectares (quase metade dos quais são cultivados com vinha)
tem o nome e o símbolo de Charles St Evremond, poeta, crítico literário e
soldado do século XVII, que se viu indesejado na sua terra natal, a França,
apesar dos seus feitos militares, por ter sido franco sobre a política externa
do seu governo, após o fim da guerra franco-espanhola. Fugiu para a Inglaterra
e levou champanhe consigo. Um lembrete desta personagem encontra-se no Poets’
Corner, na Abadia de Westminster – onde é o único francês – e sob o seu busto
de mármore vê-se o seu emblema, a flor de cinco folhas (cinquefoil),
símbolo utilizado no primeiro vinho da propriedade, o Classic Cuvée.
Não
lançado até março de 2025, o cuvée foi envelhecido, durante três anos,
nas borras (células de levedura mortas que dão ao espumante notas tostadas e de
brioche) e é uma mistura das três uvas tradicionais utilizadas para a mistura
em Champagne: Pinot Noir (55%), Chardonnay (35%) e Pinot Meunier (10%). Será
vendido a retalho, por 50 libras (cerca de 67 euros), o que, comparativamente,
não é barato.
A
Evremond contou com os principais contactos comerciais na inauguração da sua
loja principal, organizou uma receção para os comerciantes de vinhos finos e,
em janeiro de 2025, organizou a prova de pré-lançamento com os principais sommeliers.
Outra vantagem de ter pronta a rede de distribuição é o tempo. Com a maior
parte das dificuldades de vendas resolvidas, a diretora da marca e a equipa têm
menos distrações, face a outros projetos.
Há
outros elementos anglo-franceses a trabalhar para aperfeiçoar o projeto como um
todo. Mark Gaskin, ex-proprietário dos pomares onde a empresa plantou os
primeiros 20 hectares, continua a trabalhar ali, mas em conjunto com a
viticultora Christelle Rinville. A experiência desta como gestora das vinhas da
Taittinger, em quase uma década, com o conhecimento singular de Gaskin sobre o terroir,
faz boa combinação.
O
espumante inglês, apesar de ser maioritariamente nacional, no seu foco de
vendas, tem feito incursões significativas nos canais globais. O Nyetimber, por
exemplo, está disponível em, pelo menos, 24 países e a apresentação em Xangai
alargou essa pegada. E o Domaine Evremond precisará de tempo para se
estabelecer e para aperfeiçoar a comercialização do seu vinho de base único,
mas com o investimento, com o savoir-faire da Taittinger, com a rede de
distribuição e com a inestimável bacia de giz, brilhará.
***
A
Itália é o maior produtor europeu de café – com 25% da produção da União Europeia
(UE), seguida da Alemanha, com 22%. Porém, a Europa não tem plantio: importa o
grão, faz-lhe a torrefação e transforma-o nos diversos subprodutos.
Com
o aumento da temperatura, a Itália passou a cultivar e a colher o primeiro café
em Palermo, na Sicília. Quem protagoniza esta proeza é a família Morettino, que
concluiu a primeira colheita. É o sinal de como o clima está a alterar culturas,
em todo o Mundo.
Uma
plantação às portas de Palermo produziu, pela primeira vez, grãos de café da
variedade arábica cultivados e colhidos, integralmente, em terreno italiano. O
resultado deve-se à alteração do clima, que traz temperaturas tropicais ao Sul
da Itália. Ora, se o aquecimento tinha levado o Sul da Inglaterra a produzir
champanhe, deslocando a zona de produção para norte, a passagem do café das
zonas equatoriais para o Mediterrâneo é mais significativa.
Segundo
o diário La Stampa, a produção siciliana na zona de San Lorenzo ai
Colli, a algumas centenas de metros de altitude, atinge cerca de 100 quilos (Kg)
de drupas (o fruto da planta do café, conhecido como cereja), dos quais se
obtêm pouco mais de 15 kg de grãos torrados. E, embora o projeto, que envolve a
Universidade e o Jardim Botánico de Palermo, ainda esteja longe de volumes
compatíveis com a produção comercial, em grande escala, já tem valor científico
e simbólico relevante. Café é paciência e não quer frio.
Tradicionalmente,
o café é cultivado nas regiões tropicais e equatoriais, onde temperaturas
elevadas, humidade e precipitações constantes favorecem o seu crescimento. Por
isso, os principais produtores e exportadores mundiais concentram-se, sobretudo,
na América Latina, na África e na Ásia, com a variedade arábica, mais robusta, a
oferecer a melhor qualidade, a altitudes mais elevadas. Entre os maiores países
produtores, contam-se o Brasil, a Colômbia, o Peru e a Costa Rica, na América
Latina; a Etiópia, o Uganda, o Quénia e a Tanzânia, na África; o Vietname e a Indonésia,
na Ásia.
O
café produzido em Palermo desenvolve caraterísticas aromáticas com notas que
lembram a uva-passa, especificidade que o distingue das produções provenientes
das áreas tradicionais de cultivo de café. Porém, antes da experiência da
família Morettino, uma exploração agrícola já tinha cultivado café em estufa,
em Terrasini, na zona de Palermo.
Também
vem sendo tentada a experiência, de formas diversas, noutros pontos do Sul
da Europa.
Na
Espanha, sobretudo, na região de Granada, surgiram projetos experimentais para
testar a resistência das plantas, com resultados diferentes dos da Gran
Canaria, onde, graças à posição geográfica em latitude mais baixa, se cultiva
café, desde o século XIX, aproveitando a fertilidade e a humidade dos solos
vulcânicos. E as ilhas açorianas, em Portugal, onde foram identificadas plantações
privadas que tiram partido do clima ameno, marcam um dos pontos mais
setentrionais de cultivo de café.
Às
perspetivas comerciais juntam-se as questões ligadas à sustentabilidade
ambiental deste cultivo fora das suas zonas de origem. O processamento dos
grãos, após a colheita, exige entre 50 e 200 litros de água, por quilo
de café verde, e gera águas residuais que, se não forem tratadas devidamente,
podem afetar os ecossistemas locais. Se, em vez das precipitações tropicais que
alimentam as plantações de café, se passa a zonas a seca endémica, em
determinados períodos do ano, torna-se necessário acrescentar à aposta agrícola
no café a componente tecnológica, para reduzir a quantidade de água necessária
para o cultivar e transformar.
***
Com
o clima a aquecer, agricultores holandeses conseguem cultivar um cereal nunca
antes cultivado e colhido nos Países Baixos: o arroz.
Durante
séculos, as vacas foram a base da agricultura do país. Agora, porém, os
agricultores experimentam culturas que, antes, seriam impensáveis, num país tão
húmido e temperado. E os investigadores por trás do projeto esperam que o
cultivo de arroz ajude a enfrentar um dos desafios ambientais mais urgentes do
país: solos de turfa que afundam, à medida que secam, fazendo descer ainda mais
partes dos Países Baixos, já de si baixos. Tal seca das turfas, juntamente, com
a libertação de dióxido de carbono (CO2) resulta da pecuária
intensiva. Por isso, a solução pode ser o cultivo de arroz do tipo japonês.
Um
agricultor, de 68 anos, que disponibilizou os campos para o cultivo e para a
colheita de arroz, releva que “nunca teríamos imaginado que conseguiríamos
cultivar arroz, nos Países Baixos”, mas que isso resulta da mudança do clima, o
que assusta.
Para
já, o projeto é um piloto, que ocupa apenas 0,6 hectares, e os organizadores
esperam produzir cerca de três toneladas de arroz de grão curto, adequado para
sushi ou risoto. A equipa trabalha com cerca de 30 variedades de arroz
provenientes de locais tão distantes como a Rússia, a China, o Japão e o
Uzbequistão, para perceber qual se adapta melhor ao clima local.
Numa
parcela encharcada entre Amesterdão e Haia, um agricultor, de 53 anos, que se considera
pioneiro, lavra as suas culturas de arroz com uma ceifeira-debulhadora, tendo
moinhos de vento e canais como pano de fundo, e diz que quer mostrar a outros
agricultores que o arroz pode crescer nos solos pantanosos holandeses. “O meu
objetivo é mostrar que é possível produzir mais do que apenas erva em zonas
húmidas”, afirma, embora admita que, tendo vacas, há 600 anos, “é muito difícil
imaginar outra coisa que não seja tirar leite da vaca”.
Mas
o projeto vai muito além da diversificação de culturas. Os investigadores
acreditam que pode ajudar a enfrentar um dos problemas ambientais mais
persistentes dos Países Baixos. Cerca de 10% do território é constituído por
turfeiras, que os agricultores drenam, para produzirem erva, a fim de alimentarem
o gado. À medida que a turfa seca, liberta milhões de toneladas de CO2
e provoca abatimento do terreno, podendo, nas zonas mais afetadas, descer
vários centímetros, por ano. Segundo a Universidade de Wageningen, as emissões
de gases com efeito de estufa (GEE) provenientes dos solos de turfa holandeses
representam cerca de 2% a 3% do total de emissões do país. Ora, até agora, a
única forma de quebrar este ciclo vicioso era manter os campos encharcados, o
que deixaria os agricultores sem nada para cultivar ali.
“Basicamente,
começou apenas com uma ideia disparatada”, explica Julian Helfenstein, de 36
anos, investigador da Universidade e Investigação de Wageningen, que testa o
projeto, juntamente com colegas da vizinha Universidade de Leiden, vincando que
é combinação rara de adaptação às alterações climáticas e de mitigação dos seus
efeitos.
O
arroz é oportunidade de adaptação local às alterações climáticas, cultivando
algo que não era possível, e de mitigar essas alterações, porque impede que a
turfa se degrade e liberte todo o CO2, já que pode permanecer
molhada. O problema da turfa, além dos Países Baixos, afeta grande parte do Norte
da Europa, incluindo a Alemanha, a Bélgica e os países bálticos. E a equipa de Helfenstein
monitoriza as emissões de CO2 e de metano ligadas ao cultivo de
arroz, em comparação com as das pastagens, para o remédio não ser pior do que a
doença.
Restaurantes
locais já manifestaram interesse em servir arroz de origem holandesa de gama
alta, diz Guusje van der Vossen, de 27 anos, da associação Wij Land, que ajuda
agricultores a transitar para modos de produção mais sustentáveis.
Explica
que o arroz agora colhido é de uma variedade do Norte do Japão, que parece ser
a mais adaptável aos Países Baixos. A jovem é das poucas pessoas que alguma vez
provaram arroz cultivado nos Países Baixos, proveniente de um lote experimental
produzido em 2025. “Sabia mesmo bem, para ser sincera […] Era um pouco rijo,
mas muito bom”, conta, frisando que o objetivo era preparar sushi, com esse
arroz, e talvez saqué.
***
Há,
pelos vistos, várias formas de minorar os efeitos das mudanças climáticas.
2026.10.04
– Louro de Carvalho
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