domingo, 4 de outubro de 2026

Alterações climáticas alteram a agricultura e a pecuária

 

O aumento das temperaturas já permite cultivar café, na Itália, e arroz, nos Países Baixos. Ora, se o aquecimento global já tinha levado o Sul da Inglaterra, no Reino Unido, a produzir espumante tipo champanhe, deslocando mais para norte a tradicional zona de produção da França e do Norte da Itália, a passagem do café das zonas equatoriais para o Mediterrâneo é ainda mais significativa, assim como o é a produção de arroz, nos Países Baixos.

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A cooperação anglo-francesa existe há séculos. Vários foram os momentos de encontro entre os dois povos, por exemplo, quando as tribos do Sul da Inglaterra lutaram ao lado dos gauleses do outro lado da Mancha ou quando Júlio César invadiu a Gália. Grande parte da História entre as duas nações resulta de mudanças políticas. Desde a conquista normanda até à Entente Cordiale, fatores sociais uniram e separaram a França e a Inglaterra. Porém, o exemplo mais recente tem origem nas alterações climáticas.

Dizem que o champanhe “é o ‘crème de la crème’ e a ‘mousse de la mousse’ do vinho espumante”. Por conseguinte, é instituição protegida por lei e tradição orgulhosa, com séculos de História e de cultura. Há vários fatores que influenciam o produto, mas os relevantes são o clima e o ‘terroir’, a terra sob a qual a sagrada videira ‘vitis vinifera’ é plantada.  

A região de Champagne é a mais setentrional, no atinente à produção deste vinho, cujos parâmetros gerais se situam entre 30º e 50º (graus) de latitude, em ambos os hemisférios. Reims, capital da região, situa-se a 49,15º norte. O clima frio favorece a produção do espumante, pois o viticultor necessita de muito elevada acidez nas uvas, para criar as condições estruturais adequadas à produção pelo método tradicional. Por outro lado, o solo desta parte da França tem muito elevada composição calcária, que mantém a frescura e a mineralidade, que são elementos perfeitos para a produção do espumante. E o nível superior de Champagne – os Grands Crus – é, quase exclusivamente, produzido nos locais com maior teor de giz, que é bom para a drenagem e pode armazenar humidade, em caso de seca.

Juntando estes elementos, há condições perfeitas para a produção de champanhe. Porém, as alterações climáticas criam um problema. As uvas ficam cada vez mais maduras, mesmo em colheitas comparativamente mais frescas; as vinhas viradas a sul da Côte des Blancs estão a aquecer e os sistemas meteorológicos são menos previsíveis. Ora, a solução do problema está nas terras imediatamente do outro lado do Canal da Mancha, no condado de Kent, no Sudeste da Inglaterra, onde o espumante que, agora, dá à Inglaterra e à França a sua mais recente relação cordial, é produzido a uma escala rapidamente crescente.

Dizem que o vinho espumante inglês está a ter um renascimento. Contudo, o mais correto será dizer que está a nascer, pois a indústria melhorou, drasticamente, nos últimos dez anos e, com o aumento da produção e da escalabilidade, o preço desceu para um nível competitivo e a qualidade melhorou, inquestionavelmente. De facto, os solos de muitas zonas de Kent, de Sussex e de Surrey possuem teor de giz tão elevado como o dos solos das zonas de cultivo de Champagne, precisamente, por aquela zona fazer parte da mesma Bacia de Paris que desenvolveu espessas camadas de giz formadas por fósseis de plâncton, entre há 60 e 100 milhões de anos. Além disso, o clima do Sudeste de Inglaterra é comparável ao de Champagne, há 50 anos, ao passo que o aumento de um grau na temperatura no Nordeste de França resultou numa proporção alarmante de uvas secas, devido ao excesso de calor.

Os laços entre a casa de champanhe Taittinger e esta região de Kent são a génese da iniciativa fundada na cooperação anglo-francesa, mercê da amizade de décadas de Pierre-Emmanuel Taittinger e do master of wine britânico Patrick McGrath. O pai de Taittinger, Jean, foi presidente da câmara de Reims – capital da região de Champagne – que geminou a cidade com Cantuária, em 1962. E, a alguns quilómetros da cidade-catedral de Kent, descobriram o local rico em giz, com excelentes encostas viradas a sul e com um pouco de altitude.

India McGrath, filha de Patrick McGrath e diretora de marca do Domaine Evremond, confirma que a Hatch Mansfield e a Taittinger trabalharam em conjunto, durante anos e anos, e serão as suas distribuidoras, pois a maioria das marcas de vinho inglesas não teria um agente, por não estarem a importar vinho. Apenas o vendiam, diretamente, da adega. No caso vertente, a Hatch Mansfield utilizará as suas ligações de distribuição no setor do comércio. E, embora o foco seja o mercado do Reino Unido, a utilização de rede de distribuição já estabelecida é inestimável para a exportação, e a Taittinger tem agentes em todo o Mundo.

O Domaine Evremond, junto à aldeia de Chilham (do século XV), perto de Cantuária, a 52,1º norte, está fora dos parâmetros históricos da viticultura, mas as alterações climáticas rompem com a tradição. Embora os franceses sejam as últimas pessoas que comprariam espumante inglês, sabem o que é preciso para o fazer e que a sua região já não é adequada.

A propriedade de 125 hectares (quase metade dos quais são cultivados com vinha) tem o nome e o símbolo de Charles St Evremond, poeta, crítico literário e soldado do século XVII, que se viu indesejado na sua terra natal, a França, apesar dos seus feitos militares, por ter sido franco sobre a política externa do seu governo, após o fim da guerra franco-espanhola. Fugiu para a Inglaterra e levou champanhe consigo. Um lembrete desta personagem encontra-se no Poets’ Corner, na Abadia de Westminster – onde é o único francês – e sob o seu busto de mármore vê-se o seu emblema, a flor de cinco folhas (cinquefoil), símbolo utilizado no primeiro vinho da propriedade, o Classic Cuvée.

Não lançado até março de 2025, o cuvée foi envelhecido, durante três anos, nas borras (células de levedura mortas que dão ao espumante notas tostadas e de brioche) e é uma mistura das três uvas tradicionais utilizadas para a mistura em Champagne: Pinot Noir (55%), Chardonnay (35%) e Pinot Meunier (10%). Será vendido a retalho, por 50 libras (cerca de 67 euros), o que, comparativamente, não é barato.

A Evremond contou com os principais contactos comerciais na inauguração da sua loja principal, organizou uma receção para os comerciantes de vinhos finos e, em janeiro de 2025, organizou a prova de pré-lançamento com os principais sommeliers. Outra vantagem de ter pronta a rede de distribuição é o tempo. Com a maior parte das dificuldades de vendas resolvidas, a diretora da marca e a equipa têm menos distrações, face a outros projetos.

Há outros elementos anglo-franceses a trabalhar para aperfeiçoar o projeto como um todo. Mark Gaskin, ex-proprietário dos pomares onde a empresa plantou os primeiros 20 hectares, continua a trabalhar ali, mas em conjunto com a viticultora Christelle Rinville. A experiência desta como gestora das vinhas da Taittinger, em quase uma década, com o conhecimento singular de Gaskin sobre o terroir, faz boa combinação.

O espumante inglês, apesar de ser maioritariamente nacional, no seu foco de vendas, tem feito incursões significativas nos canais globais. O Nyetimber, por exemplo, está disponível em, pelo menos, 24 países e a apresentação em Xangai alargou essa pegada. E o Domaine Evremond precisará de tempo para se estabelecer e para aperfeiçoar a comercialização do seu vinho de base único, mas com o investimento, com o savoir-faire da Taittinger, com a rede de distribuição e com a inestimável bacia de giz, brilhará.

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A Itália é o maior produtor europeu de café – com 25% da produção da União Europeia (UE), seguida da Alemanha, com 22%. Porém, a Europa não tem plantio: importa o grão, faz-lhe a torrefação e transforma-o nos diversos subprodutos.

Com o aumento da temperatura, a Itália passou a cultivar e a colher o primeiro café em Palermo, na Sicília. Quem protagoniza esta proeza é a família Morettino, que concluiu a primeira colheita. É o sinal de como o clima está a alterar culturas, em todo o Mundo.

Uma plantação às portas de Palermo produziu, pela primeira vez, grãos de café da variedade arábica cultivados e colhidos, integralmente, em terreno italiano. O resultado deve-se à alteração do clima, que traz temperaturas tropicais ao Sul da Itália. Ora, se o aquecimento tinha levado o Sul da Inglaterra a produzir champanhe, deslocando a zona de produção para norte, a passagem do café das zonas equatoriais para o Mediterrâneo é mais significativa.

Segundo o diário La Stampa, a produção siciliana na zona de San Lorenzo ai Colli, a algumas centenas de metros de altitude, atinge cerca de 100 quilos (Kg) de drupas (o fruto da planta do café, conhecido como cereja), dos quais se obtêm pouco mais de 15 kg de grãos torrados. E, embora o projeto, que envolve a Universidade e o Jardim Botánico de Palermo, ainda esteja longe de volumes compatíveis com a produção comercial, em grande escala, já tem valor científico e simbólico relevante. Café é paciência e não quer frio.

Tradicionalmente, o café é cultivado nas regiões tropicais e equatoriais, onde temperaturas elevadas, humidade e precipitações constantes favorecem o seu crescimento. Por isso, os principais produtores e exportadores mundiais concentram-se, sobretudo, na América Latina, na África e na Ásia, com a variedade arábica, mais robusta, a oferecer a melhor qualidade, a altitudes mais elevadas. Entre os maiores países produtores, contam-se o Brasil, a Colômbia, o Peru e a Costa Rica, na América Latina; a Etiópia, o Uganda, o Quénia e a Tanzânia, na África; o Vietname e a Indonésia, na Ásia.

O café produzido em Palermo desenvolve caraterísticas aromáticas com notas que lembram a uva-passa, especificidade que o distingue das produções provenientes das áreas tradicionais de cultivo de café. Porém, antes da experiência da família Morettino, uma exploração agrícola já tinha cultivado café em estufa, em Terrasini, na zona de Palermo.

Também vem sendo tentada a experiência, de formas diversas, noutros pontos do Sul da Europa.

Na Espanha, sobretudo, na região de Granada, surgiram projetos experimentais para testar a resistência das plantas, com resultados diferentes dos da Gran Canaria, onde, graças à posição geográfica em latitude mais baixa, se cultiva café, desde o século XIX, aproveitando a fertilidade e a humidade dos solos vulcânicos. E as ilhas açorianas, em Portugal, onde foram identificadas plantações privadas que tiram partido do clima ameno, marcam um dos pontos mais setentrionais de cultivo de café.

Às perspetivas comerciais juntam-se as questões ligadas à sustentabilidade ambiental deste cultivo fora das suas zonas de origem. O processamento dos grãos, após a colheita, exige entre 50 e 200 litros de água, por quilo de café verde, e gera águas residuais que, se não forem tratadas devidamente, podem afetar os ecossistemas locais. Se, em vez das precipitações tropicais que alimentam as plantações de café, se passa a zonas a seca endémica, em determinados períodos do ano, torna-se necessário acrescentar à aposta agrícola no café a componente tecnológica, para reduzir a quantidade de água necessária para o cultivar e transformar.

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Com o clima a aquecer, agricultores holandeses conseguem cultivar um cereal nunca antes cultivado e colhido nos Países Baixos: o arroz.

Durante séculos, as vacas foram a base da agricultura do país. Agora, porém, os agricultores experimentam culturas que, antes, seriam impensáveis, num país tão húmido e temperado. E os investigadores por trás do projeto esperam que o cultivo de arroz ajude a enfrentar um dos desafios ambientais mais urgentes do país: solos de turfa que afundam, à medida que secam, fazendo descer ainda mais partes dos Países Baixos, já de si baixos. Tal seca das turfas, juntamente, com a libertação de dióxido de carbono (CO2) resulta da pecuária intensiva. Por isso, a solução pode ser o cultivo de arroz do tipo japonês.

Um agricultor, de 68 anos, que disponibilizou os campos para o cultivo e para a colheita de arroz, releva que “nunca teríamos imaginado que conseguiríamos cultivar arroz, nos Países Baixos”, mas que isso resulta da mudança do clima, o que assusta.

Para já, o projeto é um piloto, que ocupa apenas 0,6 hectares, e os organizadores esperam produzir cerca de três toneladas de arroz de grão curto, adequado para sushi ou risoto. A equipa trabalha com cerca de 30 variedades de arroz provenientes de locais tão distantes como a Rússia, a China, o Japão e o Uzbequistão, para perceber qual se adapta melhor ao clima local.

Numa parcela encharcada entre Amesterdão e Haia, um agricultor, de 53 anos, que se considera pioneiro, lavra as suas culturas de arroz com uma ceifeira-debulhadora, tendo moinhos de vento e canais como pano de fundo, e diz que quer mostrar a outros agricultores que o arroz pode crescer nos solos pantanosos holandeses. “O meu objetivo é mostrar que é possível produzir mais do que apenas erva em zonas húmidas”, afirma, embora admita que, tendo vacas, há 600 anos, “é muito difícil imaginar outra coisa que não seja tirar leite da vaca”.

Mas o projeto vai muito além da diversificação de culturas. Os investigadores acreditam que pode ajudar a enfrentar um dos problemas ambientais mais persistentes dos Países Baixos. Cerca de 10% do território é constituído por turfeiras, que os agricultores drenam, para produzirem erva, a fim de alimentarem o gado. À medida que a turfa seca, liberta milhões de toneladas de CO2 e provoca abatimento do terreno, podendo, nas zonas mais afetadas, descer vários centímetros, por ano. Segundo a Universidade de Wageningen, as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) provenientes dos solos de turfa holandeses representam cerca de 2% a 3% do total de emissões do país. Ora, até agora, a única forma de quebrar este ciclo vicioso era manter os campos encharcados, o que deixaria os agricultores sem nada para cultivar ali.

“Basicamente, começou apenas com uma ideia disparatada”, explica Julian Helfenstein, de 36 anos, investigador da Universidade e Investigação de Wageningen, que testa o projeto, juntamente com colegas da vizinha Universidade de Leiden, vincando que é combinação rara de adaptação às alterações climáticas e de mitigação dos seus efeitos.

O arroz é oportunidade de adaptação local às alterações climáticas, cultivando algo que não era possível, e de mitigar essas alterações, porque impede que a turfa se degrade e liberte todo o CO2, já que pode permanecer molhada. O problema da turfa, além dos Países Baixos, afeta grande parte do Norte da Europa, incluindo a Alemanha, a Bélgica e os países bálticos. E a equipa de Helfenstein monitoriza as emissões de CO2 e de metano ligadas ao cultivo de arroz, em comparação com as das pastagens, para o remédio não ser pior do que a doença.

Restaurantes locais já manifestaram interesse em servir arroz de origem holandesa de gama alta, diz Guusje van der Vossen, de 27 anos, da associação Wij Land, que ajuda agricultores a transitar para modos de produção mais sustentáveis.

Explica que o arroz agora colhido é de uma variedade do Norte do Japão, que parece ser a mais adaptável aos Países Baixos. A jovem é das poucas pessoas que alguma vez provaram arroz cultivado nos Países Baixos, proveniente de um lote experimental produzido em 2025. “Sabia mesmo bem, para ser sincera […] Era um pouco rijo, mas muito bom”, conta, frisando que o objetivo era preparar sushi, com esse arroz, e talvez saqué.

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Há, pelos vistos, várias formas de minorar os efeitos das mudanças climáticas.

2026.10.04 – Louro de Carvalho


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