sábado, 3 de outubro de 2026

Alemanha assinala os 36 anos da reunificação com júbilo contido

 

Após as negociações do respetivo Tratado de Unidade, que duraram quase um ano, a República Democrática Alemã (RDA) aderiu, a 3 de outubro de 1990, à República Federal da Alemanha (RFA), chegando, deste modo, ao fim a divisão da Alemanha, que durou 41 anos.

Berlim voltou a ser capital de toda a Alemanha. Embora o Muro tenha caído a 9 de novembro de 1989, foi preciso quase um ano para o Leste e o Oeste chegarem a acordo sobre os tratados. Mas, agora, na ponte Glienicker – estrutura de ferro sobre o rio Havel (que liga Berlim e Postdam) concluída em 1907, danificada no final da II Guerra Mundial e reconstruída em 1949 –, evoca-se o papel de Helmut Kohl na reunificação, para cujo êxito foi decisivo.

Helmut Kohl, o chanceler da unidade, afirmou, em mensagem televisiva de 2 de outubro de 1990: “Dentro de poucas horas, um sonho tornar-se-á realidade. Após mais de 40 amargos anos de divisão, a Alemanha, a nossa pátria, volta a estar unida. Para mim, este momento é um dos mais felizes da minha vida. […] Mas, apesar de toda a alegria, queremos, primeiro, recordar os que sofreram, de forma particular, com a divisão da Alemanha. Famílias foram cruelmente separadas. Nas prisões, os detidos políticos estavam encarcerados. Pessoas morreram no Muro.”

Na sua intervenção, o chanceler agradeceu aos alemães de Leste que conquistaram a sua liberdade, às antigas potências vencedoras e aos movimentos de libertação na Europa Central, Oriental e do Sul, sem os quais a reunificação não teria sido possível. E terminou: “A Alemanha é a nossa pátria, a Europa unida é o nosso futuro. Deus abençoe a nossa pátria alemã.”

A Alemanha voltou a ser juridicamente um só país e tornou-se mais independente. Até então, a RDA dependia, em certa medida, da União Soviética e a RFA dos Aliados.

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Após a II Guerra Mundial, as quatro potências vencedoras – os Estados Unidos da América (EUA), a União Soviética, o Reino Unido e a França – dividiram a Alemanha derrotada em quatro zonas de ocupação, para desmilitarizarem o país, para anularem a influência nazi e para reorganizarem o sistema político.

Entretanto, o líder soviético, Joseph Stlalin construiu um cinturão protetor da União Soviética em nações controladas na sua fronteira ocidental, o Bloco do Leste socialista, que incluía a Polónia, a Hungria, e a Checoslováquia, que ele pretendia manter, a par de um enfraquecido controlo soviético na Alemanha.  E, já em 1945, revelou aos líderes alemães socialistas que esperava enfraquecer, lentamente, a posição britânica na sua zona de ocupação, que os EUA retirariam a sua ocupação dentro de um ano ou de dois e que, em seguida, nada ficaria no caminho de uma Alemanha unificada sob controlo socialista, na órbita soviética.

A grande tarefa do Partido Comunista no poder na zona soviética alemã foi abafar as ordens soviéticas, através do aparelho administrativo, fingir, para as outras zonas de ocupação, que se tratava de iniciativas próprias e nacionalizar a propriedade e a indústria naquela zona.

Em 1948, após desentendimento sobre a reconstrução e sobre a nova moeda alemã, Stalin instituiu o Bloqueio de Berlim, impedindo que alimentos, materiais e suprimentos chegassem a Berlim Ocidental. Os EUA, o Reino Unido, a França, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia e vários outros países começaram uma enorme “ponte aérea de Berlim”, fornecendo alimentos e outros suprimentos a Berlim Ocidental. Os soviéticos montaram uma campanha de relações públicas contra a mudança da política ocidental e socialistas tentaram perturbar as eleições de 1948, enquanto 300 mil berlinenses pediam a continuação do transporte aéreo internacional. Em maio de 1949, Stalin acabou com o bloqueio, permitindo a retomada dos embarques do Ocidente para Berlim. A 7 de outubro desse ano, foi declarada a RDA.

O Ministério de Negócios Estrangeiros Soviético concedeu-lhe autoridade administrativa, mas não autonomia, tendo os soviéticos ilimitada penetração no regime de ocupação e nas estruturas de administração e de polícia militar e secreta. A RDA diferia da RFA, que se desenvolveu como país ocidental capitalista, com economia social de mercado (“Soziale Marktwirtschaft”) e com uma governação de democracia parlamentar. O crescimento económico contínuo, a partir de 1950, da RFA alimentou um “milagre económico” de 20 anos (“Wirtschaftswunder”). Enquanto a economia da RFA cresceu e o seu padrão de vida melhorou continuamente, muitos alemães orientais tentavam ir para a Alemanha Ocidental.

Após a ocupação soviética da Europa Oriental, no final da II Guerra Mundial, a maioria das pessoas que viviam nas áreas recém-adquiridas do Bloco Oriental aspiravam à independência e queriam que os soviéticos saíssem. Aproveitando-se da zona de fronteira entre as zonas ocupadas na Alemanha, o número de cidadãos da RDA que se deslocavam para a RFA totalizou 197 mil, em 1950, 165 mil, em 1951, 182 mil, em 1952, e 331 mil em 1953. Uma das razões para o aumento acentuado, em 1953, foi o medo de sovietização mais intensa com as ações cada vez mais paranoicas de Joseph Stalin, em 1952 e no início de 1953, tendo fugido 226 mil pessoas, apenas nos primeiros seis meses de 1953.

Apesar de, em 1955, tanto o Oeste como o Leste terem sido formalmente investidos de soberania – o primeiro pelos Aliados, o segundo pela União Soviética –, as potências não alemãs mantiveram direitos especiais. A União Soviética preservou direitos de intervenção estratégica e o seu peso político e militar continuou a ser forte.

Dada a diferença de regimes entre os dois países alemães e como a União Soviética não conseguia travar a migração Leste-Oeste, em Berlim, surgiu a ideia da construção de um muro, ou seja, uma barreira de betão vigiada que cercou Berlim Ocidental, de 1961 a 1989, separando-a de Berlim Oriental e da RDA. A construção foi iniciada pelo governo da RDA, a 13 de agosto de 1961. Incluía torres de guarda colocadas ao longo de grandes muros de betão, acompanhadas por uma ampla área que continha trincheiras antiveículo, leitos de pregos e outras defesas. O objetivo era impedir que os cidadãos da RDA fugissem para o Ocidente.

A propaganda soviética apresentava o muro como proteção à população de “elementos fascistas que conspiravam para impedirem a vontade do povo” de erigir um Estado comunista. As autoridades referiram-se-lhe como Muro de Proteção Antifascista (“Antifaschistischer Schutzwall”). Por sua vez, o governo de Berlim Ocidental referia-se-lhe como o “Muro da Vergonha”, expressão cunhada pelo prefeito Willy Brandt, aludindo à restrição à liberdade de movimento. Juntamente com a fronteira interna alemã, separada do muro e muito mais longa, que demarcava a fronteira entre a Alemanha Oriental e a Ocidental, passou a simbolizar fisicamente a Cortina de Ferro, que separava o Bloco Ocidental e os Estados satélites da União Soviética, durante a Guerra Fria.

Com a reunificação, terminaram os direitos de reserva que ainda restavam às quatro potências vencedoras. As condições externas da reunificação foram definidas, previamente, no Tratado Dois-mais-Quatro, assinado em Moscovo, a 12 de setembro de 1990. A RFA e a RDA reconheceram, com o tratado, a fronteira Oder-Neisse com a Polónia. A Alemanha renunciou, definitivamente, aos antigos territórios orientais alemães, como a Silésia, a Pomerânia e a Prússia Oriental, que representavam cerca de 25% da área do antigo Estado alemão.

 

O Muro de Berlim começou a ser derrubado na noite de 9 de novembro de 1989, após 28 anos de existência. Antes da sua queda, houve grandes manifestações em que, entre outras coisas, se pedia a liberdade de viajar e houve enorme fluxo de refugiados para o Ocidente, pelas embaixadas da RFA, principalmente, em Praga e em Varsóvia, e pela fronteira recém-aberta entre a Hungria e a Áustria, perto do lago de Neusiedl. Porém, o impulso decisivo para a queda foi um mal-entendido entre o governo da RDA. Na tarde de 9 de novembro, em conferência de imprensa, transmitida ao vivo na televisão da RDA. Günter Schabowski, membro do Politburo do SED (Partido Socialista Unificado da Alemanha), anunciou a decisão do Conselho de Ministros de abolir, imediata e completamente, as restrições de viagens ao Oeste. Tal decisão deveria ser publicada só no dia seguinte, para, antes, informar todas as agências governamentais. Pouco depois, houve notícias da abertura do Muro, na rádio e televisão ocidental. Milhares de pessoas acorreram aos postos fronteiriços e pediram a abertura da fronteira, mas nem as unidades militares, nem as unidades de controlo de passaportes haviam sido instruídas.

Pela força da multidão e por os guardas da fronteira não saberem o que fazer, a fronteira abriu, às 23h00, no posto de Bornholmer Strasse, e, mais tarde, em outras partes do centro de Berlim e na fronteira ocidental. Muitas pessoas viram a abertura da fronteira na televisão e, pouco depois, acorreram à fronteira. Como muitas pessoas já dormiam, quando a fronteira abriu, na manhã de 10 de novembro, grandes multidões de pessoas queriam passar.

Os cidadãos da RDA foram recebidos com euforia em Berlim Ocidental. Muitas boates perto do Muro serviram cerveja, espontânea e gratuitamente, houve grande e ruidosa celebração na Rua Kurfürstendamm e pessoas que nunca se tinham visto antes cumprimentavam-se. Cidadãos de Berlim Ocidental subiram o muro e passaram pelo Portão de Brandemburgo, que não eram acessíveis aos ocidentais. O Bundestag interrompeu as discussões sobre o orçamento, e os deputados cantaram, espontaneamente, o hino nacional da Alemanha.

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O relatório mais recente da comissária para o Leste, apresentado em 2026, analisa até que ponto a origem ainda molda percursos de vida e oportunidades de ascensão. Embora alemães de Leste e de Oeste vejam, em muitos aspetos, as suas condições de vida de forma similar, os cidadãos do Leste continuam sub-representados em cargos de direção das principais autoridades federais. A sua quota aumentou de 13,9 para 16,3%, desde 2022. Entretanto, já há uma geração que cresceu sem memória pessoal da queda do Muro de Berlim e da Alemanha dividida. Os vestígios da divisão entre regiões continuam visíveis.

“O ‘Leste’ é, para os jovens que crescem aí, ainda hoje, muito mais do que um ponto cardeal”, afirmou Elisabeth Kaiser, ministra de Estado e comissária do governo federal para a Alemanha de Leste, no seu relatório de 2025. A diferença é clara, em heranças e doações: em 2025, segundo dados do Departamento Federal de Estatística, 95% do valor total das transferências patrimoniais registadas fiscalmente situou-se na Alemanha Ocidental. Uma das razões das diferenças ainda visíveis reside nas consequências da transformação económica e demográfica, após a reunificação. Apenas 17% dos cidadãos da antiga RDA manteve a profissão, após a mudança de regime; os restantes tiveram de se reajustar. A conclusão é de um estudo da Rockwool Foundation Berlin, a que a agência Reuters teve acesso.

Muitas empresas da antiga RDA perderam os seus mercados ou foram encerradas, na década de 1990, enquanto, sobretudo, jovens qualificados se deslocaram para o Oeste. Em consequência, continuam a faltar população e sedes empresariais em várias regiões. Por isso, o governo federal procura reduzir mais as diferenças económicas, sociais e políticas. As regiões estruturalmente mais frágeis recebem apoio, nomeadamente, através de investimentos em infraestruturas, investigação, pequenas e médias empresas e novas iniciativas empresariais.

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Apesar de a unidade não ser perfeita, é de frisar que as imagens de 9 de novembro de 1989 correram o Mundo. Alemães de Leste e de Oeste abraçaram-se, berlinenses treparam ao Muro e outros, com martelo e cinzel, guardavam para si um pedaço da construção histórica. Enfim, caiu o Muro, símbolo da falta de liberdade e da divisão da Alemanha. Após a mudança de regime, a data foi, inicialmente, discutida como possível feriado nacional. Devido, entre outros fatores, à Noite dos Pogroms do Reich de 1938, acabou por se optar por essa solução. Também a proclamação da República, em 1918, ocorreu nesse dia. A escolha recaiu no dia do Tratado de Unificação, 3 de outubro de 1990. O feriado ficou consagrado na lei.

Em sessão extraordinária, convocada pelo então primeiro-ministro da RDA e político da União Democrata-Cristã da Alemanha (CDU), Lothar de Maizière, foram votadas a adesão da RDA e a data de 3 de outubro. Segundo relatos, o debate terá sido acalorado e prolongou-se, das 21 horas às 2h30 da madrugada.

A 31 de agosto de 1990, os dois principais negociadores, o ministro do Interior da RFA, Wolfgang Schäuble (CDU), e o secretário de Estado da RDA, Günther Krause (CDU), assinaram o “Tratado entre a República Democrática Alemã e a República Federal da Alemanha sobre a criação da unificação alemã”, conhecido como Tratado de Unidade. Ficou então decidido que, a 3 de outubro de 1990, seria hasteada, pela primeira vez, a chamada “bandeira da unidade”, a maior bandeira oficial do país, em frente ao edifício do Reichstag, em Berlim.

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No Tratado de Unidade de 31 de agosto de 1990, o 3 de outubro foi fixado como “Dia da Unidade Alemã” e feriado nacional. Substituiu o dia 17 de junho, Dia da Memória da Revolta Popular na RDA. Contudo, o 17 de junho permanece como dia nacional de lembrança.

O governo da RDA anunciou aumentos nas normas de produção, apesar da frágil situação de abastecimento no Leste da Alemanha. A 17 de junho de 1953, os protestos culminaram em cerca de 700 cidades da RDA, com greves e manifestações, que envolveram entre 400 mil e 1,5 milhões de pessoas. Na repressão às greves, com o apoio de tanques soviéticos, morreram, pelo menos, 55 pessoas e muitas ficaram feridas. Calcula-se que tenham sido detidas até 13 mil pessoas. “Em 17 de junho de 1953, o povo alemão na zona de ocupação soviética e em Berlim Oriental insurgiu-se contra o domínio violento comunista e, com grandes sacrifícios, afirmou a sua vontade de liberdade”, lê-se no Diário Oficial Federal, de 1953. O dia 17 de junho foi declarado feriado legal, em homenagem ao Dia da Unidade Alemã.

“Estamos certos de que o que pertenceu e esteve unido voltará a reunir-se”, declarou Heinrich Lübke, presidente federal, no 10.º aniversário da revolta popular, em 17 de junho de 1963, ano em que elevou o 17 de junho a “dia nacional de lembrança do povo alemão”.

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A criação da Alemanha unificada como o Estado-nação, a nível político e administrativo, realizou-se, oficialmente, a 18 de janeiro de 1871, na Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes, na França. Após a capitulação francesa na Guerra Franco-Prussiana, os príncipes dos estados alemães reuniram-se para proclamar Guilherme da Prússia como imperador do Império Alemão. Porém, a transição “de facto” da maioria das populações germanófonas para uma organização federada de estados, ocorreu mais cedo, através de alianças formais e informais, entre nobres, de forma irregular, devido às dificuldades levantadas pelos interesses de grupos aristocráticos, desde a dissolução do Sacro Império Romano-Germânico, em 1806, e da consequente ascensão do nacionalismo, durante as Guerras Napoleónicas. Em 1990, voltou-se ao início.

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A reunificação alemã é um facto, mas a situação no país mostra que muitas pessoas já perderam a memória do nazismo e do bolchevismo. A crispação política bem o revela.

2026.10.03 – Louro de Carvalho


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