A
Procuradoria Europeia (EPPO) ordenou, a 21 de outubro, buscas a gabinetes do
grupo Patriotas pela Europa (“Patriots.eu”) no Parlamento Europeu (PE), na
pista de alegado desvio de fundos no mandato anterior, quando se chamava “Identité
et Démocratie Parti” (I&D).
Segundo
informação divulgada nas redes sociais pelo grupo de extrema-direita – e que,
neste mandato, inclui dois eurodeputados portugueses do partido Chega –, as
buscas, que decorrem em Bruxelas, na Bélgica, e na cidade francesa de
Estrasburgo – as duas sedes do PE – estão ligadas a uma queixa registada contra
o I&D, dissolvido em 2024”.
Trata-se
de alegado desvio de fundos e peculato de mais de 4,3 milhões de euros por
parte I&D, entre 2019 e 2024, destacando os Patriotas não haver qualquer
continuidade legal entre a formação anterior e a atual, “que não está envolvida
nas investigações a decorrer”.
As
rusgas atuais sobre suspeitas de utilização indevida de fundos seguem-se à
operação conjunta ocorrida, a 30 de junho, a escritórios da empresa de
comunicação GUD Connexion, que colabora, frequentemente, com as campanhas da francesa
União Nacional ou Rassemblement National (RN), como fornecedor, e com a casa do
seu fundador, Paul-Alexandre Martin.
Na
França, Marine Le Pen e o RN já foram julgados e condenados pelo uso indevido
de fundos do PE, num caso separado.
O
Patriotas pela Europa – partido populista de direita e soberanista – que
integra o partido francês RN, liderado por Marine Le Pen, a italiana Liga, de
Matteo Salvini, e o húngaro Fidesz, de Viktor Orbán, poderá ser obrigado a
devolver mais de quatro milhões de euros alegadamente mal gastos pelo seu
antecessor I&D. “Parece que estas buscas estão relacionadas com a queixa
apresentada contra o grupo Identidade e Democracia, que se dissolveu em 2024”,
afirmou o Patriotas pela Europa, em comunicado, insistindo que não tem
“continuidade jurídica” com o I&D e, por isso, “não está envolvido na
investigação em curso”.
Nem
a EPPO nem o PE divulgaram pormenores sobre as buscas. No entanto, em nota, o
serviço de imprensa da instituição indicou que o PE “coopera com as autoridades
competentes” e “não tem quaisquer comentários adicionais”.
Jean-Paul
Garraud, eurodeputado que lidera a delegação do RN no PE, escreveu, no X,
que as buscas visaram “os gabinetes de antigos funcionários do I&D”.
Desde
julho passado, a EPPO investiga a alegada apropriação indevida de fundos da UE
pelo I&D, entre 2019 e 2024. O grupo reunia eurodeputados de partidos de
extrema-direita como o RN, a Liga e a Alternativa para a Alemanha (AfD).
Após
as eleições europeias de 2024, o I&D dissolveu-se e muitos dos seus
partidos integraram o Patriotas pela Europa, que inclui também novos membros,
como o espanhol Vox e o húngaro Fidesz. A 8 de julho, Jordan Bardella foi nomeado presidente do grupo,
juntamente com vice-presidentes, com chefe de chicote (chief whipe) e com
tesoureiro.
Um
parecer aprovado pela Comissão de Controlo Orçamental (CONT) do PE, em setembro
passado, defendia que os fundos da UE indevidamente gastos pelo ID na
legislatura anterior deveriam ser recuperados junto do Patriotas pela Europa,
após o encerramento da investigação. Com efeito, de acordo com as regras do PE,
um grupo político é considerado “sucessor” de outro dissolvido e, portanto, responsável
por qualquer dívida remanescente, se forem cumpridas determinadas condições. Entre
essas condições, contam-se ter transitado em conjunto para a nova formação “uma
parte decisiva dos membros do antigo grupo”, terem passado para a nova
estrutura “instalações, sistemas informáticos, contas bancárias ou outros
ativos” e “o novo nome e a comunicação pública apresentarem a entidade como
herdeira direta do grupo dissolvido, ou seguirem-se, tão de perto, no tempo que
a mudança de marca pareça concebida, sobretudo, para eliminar
responsabilidades”.
***
Já
no início de setembro, a Comissão CONT do PE entendia que o grupo dos Patriotas
pela Europa poderia vir a ser obrigado a reembolsar mais de quatro milhões de
euros, pois, de acordo com os serviços financeiros do Parlamento (DG FINS), o
grupo I&D gastou, indevidamente, pelo menos, 4333.635,78 euros de fundos da
UE, entre 2019 e 2024.
As
suspeitas de irregularidades foram assinaladas, pela primeira vez, em fevereiro,
e levaram a EPPO a abrir uma investigação sobre o caso. E a Comissão CONT
sugere que o grupo dos Patriotas, que inclui os antigos membros do I&D, o
RN e a Liga, bem como o Fidesz da Hungria e o Vox da Espanha, que não eram
membros do I&D, devem ser responsabilizados por esta alegada utilização
indevida.
Um
parecer redigido pelo presidente da comissão parlamentar, Niclas Herbst, do
Partido Popular Europeu (PPE), foi votado, a 4 de setembro, tendo sido aprovado
por larga maioria da comissão. Por conseguinte, a comissão parlamentar dos
Assuntos Jurídicos e Financeiros recomenda que os serviços jurídicos e
financeiros do PE analisem a possibilidade de instaurar uma ação civil contra
os auditores externos que certificaram as contas do Grupo I&D. “Queremos
que o Parlamento recupere todos os fundos”, disse à Euronews Herbst,
sustentando que a Comissão CONT não pode decidir se o grupo dos Patriotas pela
Europa é “o sucessor” do grupo I&D, mas pode sugerir a aplicação da “continuidade
económica”.
“Não
queremos que nenhum grupo possa, simplesmente, mudar de marca e fugir às suas
responsabilidades”, explicitou o eurodeputado alemão, lembrando que o PE, deve
tratar um grupo político como “o sucessor” de um grupo dissolvido e considerá-lo
responsável por qualquer dívida remanescente, se estiverem reunidas as
condições acima referidas.
Efetivamente,
a continuidade entre os grupos I&D e Patriotas é evidente, pois “o
secretário-geral do grupo e vários quadros superiores são idênticos aos do
grupo I&D dissolvido, e uma maioria substancial de antigos membros do ID
tem assento no Patriotas”; e, embora sejam entidades diferentes dos grupos
políticos do PE, incluem os mesmos partidos políticos.
Após
a decisão da comissão CONT, não é necessária a confirmação do plenário do PE. A
decisão final sobre a responsabilização do grupo Patriotas pela Europa pela
utilização incorreta dos fundos do I&D será tomada pela mesa do PE,
composta pela presidente Roberta Metsola, por 14 vice-presidentes e por cinco
questores.
Numa
declaração partilhada nas suas redes sociais, o grupo Patriotas pela Europa
classificou o parecer como uma “caça às bruxas sem fundamento”.
***
A
utilização indevida de fundos destinados a pagar aos assistentes dos eurodeputados
tem sido generalizada, nos últimos anos, mas poucos episódios azaram processos
judiciais.
Marine
Le Pen e outros oito antigos deputados do seu partido foram considerados
culpados de desvio de fundos comunitários. Porém, não foram os únicos e o uso
indevido do dinheiro destinado a pagar aos assistentes dos deputados é bastante
comum no PE, como referiram várias fontes familiarizadas com o funcionamento
interno da instituição.
É
certo que tais ocorrências e outras de igual gravidade são transversais a quase
todas as forças políticas, mas a extrema-direita – está visto – não têm autoridade
moral para acusarem os demais partidos de desvio de fundos, pois os moralistas
antieuropeus valem-se do lugar para se autogovernarem. E veem o cisco no olho
alheio, mas não a trave no seu.
Cada
eurodeputado tem direito a um montante mensal destinado a pagar aos seus
assistentes, que ascende a 30769 euros, na atual legislatura (2024-2029), um
ligeiro aumento, face à anterior. Pelo menos, 40% deste subsídio destina-se aos
assistentes acreditados (APA), que trabalham nas instalações do PE, em
Bruxelas, no Luxemburgo ou em Estrasburgo, e são contratados, diretamente, pelo
PE. Os restantes 60% podem ser utilizados para os assistentes locais,
contratados, diretamente, pelo deputado ou através de prestador de serviços, e
que trabalham a partir do círculo eleitoral do deputado no seu estado-membro.
As despesas conexas com o trabalho dos APA e dos assistentes locais só são
custeadas “pela assistência necessária e diretamente relacionada com o
exercício do mandato parlamentar do deputado”.
Esta
regra foi violada, no passado, e continua a sê-lo, de acordo com algumas
fontes. E, dado que as fronteiras entre o que constitui trabalho “necessário e
diretamente ligado” ao papel de deputado e o que não constitui, não são claras,
os “assistentes locais” desempenham, frequentemente, funções não estritamente
relacionadas com a atividade do deputado no PE. “Alguns deputados empregam
políticos locais que desenvolvem atividades políticas no seu círculo eleitoral”
– disse uma fonte, falando livremente, sob anonimato, frisando que “os seus
telefonemas e reuniões são distorcidos, para serem relatados como estando
relacionados, de uma forma ou de outra, com o mandato parlamentar do deputado”.
O
caso de Marine Le Pen chamou a atenção internacional, tal como o do ex-líder do
UKIP, Nigel Farage, quando empregou um assistente para trabalhar em assuntos
não relacionados com o PE, ou o da ex-vice-presidente socialista grega do PE,
Eva Kaili, acusada de ter gasto, indevidamente, entre 120 mil e 150 mil euros. No
entanto, por detrás dos casos célebres, há outros deputados que se envolveram
em situações semelhantes. E o PE não fornece estatísticas sobre esta questão,
mas nos últimos dez anos, nove vezes, foi associado a ações cíveis contra
deputados europeus, em casos relacionados com fraudes contra os interesses
financeiros da UE.
Nem
todos os incidentes de utilização indevida de fundos vão parar ao tribunal. Em
alguns casos, o PE realiza um controlo administrativo interno e pede ao
eurodeputado que reembolse o montante mal gasto, emitindo um aviso de cobrança.
As
denúncias podem ser feitas por qualquer pessoa e, por vezes, são transmitidas
ao Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF) por outros eurodeputados. No
caso de infrações penais, como a fraude, o OLAF remete-o para a EPPO, que pode
investigar ex officio ou envolver um procurador nacional. Porém, como a
Procuradoria Europeia só está ativa desde 2021, os casos anteriores a essa data
– como o de Le Pen – foram enviados aos tribunais nacionais.
Embora
a EPPO não forneça números, nem confirme quais os casos em que está a
trabalhar, o Procurador Europeu tornou públicos vários casos, durante o
processo de investigação. Em 2023, por exemplo, a EPPO apreendeu mais de 170
mil euros em bens pertencentes à italiana Stefania Zambelli, então eurodeputada
da Liga Italiana.
Por
vezes, os casos são descobertos através do jornalismo de investigação. E, para
avaliar o grau de disseminação da má prática, Nicholas Aiossa, diretor da
Transparency International EU, cita um relatório de 2023 do Follow The Money,
que afirma que 139 legisladores da UE utilizaram indevidamente o dinheiro que
recebem para assistentes e que o PE recuperou em 155 ocasiões, entre 2019 e
2022. Contudo, a maioria diz respeito recuperações técnicas não associadas a
irregularidades. Apenas uma minoria diz respeito a assistentes. Os montantes
recuperados incluem casos menores de abuso potencial e consistem em ajustes
técnicos, em erros administrativos e em reembolsos voluntários.
***
Seja
como for, desvios, fraudes ou erros técnicos e administrativos prejudicam as
finanças e a economia europeias e são um mau exemplo para os países membros do
bloco.
Vemos
como os estados-membros da União Europeia (UE) estão divididos, quanto ao
próximo quadro orçamental e quanto à defesa comum.
Por
outro lado, segundo dados do Eurostat, publicados a 21 de outubro, a dívida
pública, na Zona Euro, subiu para 88,8% do seu produto interno bruto (PIB) no
segundo trimestre de 2026, acima dos 87,3% registados um ano antes, com a Itália
a aproximar-se da Grécia e a França a chegar aos 119,1%, num contexto de custos
de financiamento acima de 5%.
O
rácio de dívida da Itália está a menos de 1% abaixo do da Grécia, enquanto o da
França aumentou para 119,1%, à medida que os custos de financiamento
ultrapassaram 5%.
O
rácio dívida/PIB compara o montante devido pelos governos com a dimensão das
respetivas economias. As regras da UE estabelecem que a dívida não deve exceder
60% do PIB e que os défices orçamentais anuais não devem ultrapassar 3%. Porém,
no conjunto da UE, a dívida pública aumentou para 82,9% do PIB, no segundo
trimestre, face a 81,4%, um ano antes. Em termos nominais, os governos da Zona Euro
deviam cerca de 14,4 biliões de euros. E os dados anuais mostram que a dívida
da UE subiu para 81,5% do PIB, em 2025, face a 80,3% em 2024, e que o défice
orçamental do bloco se manteve em 3,1%, acima do limite de 3% da União.
A
dívida da UE tem permanecido acima de 80% do PIB, desde a pandemia de covid-19,
altura em que atingiu um máximo de 89,5%, em 2020. No caso da Zona Euro, os
principais dados anuais do Eurostat continuam a abranger os 20 países que
utilizavam a moeda única em 2025, uma vez que a Bulgária só aderiu em 1 de
janeiro de 2026. Nesses países, a dívida aumentou para 87,7% do PIB, face a
86,6%. E o Eurostat manifestou reservas, quanto à qualidade dos dados da
Bulgária relativos a 2025, no atinente ao registo das despesas da sua agência
de infraestruturas rodoviárias. E, na Alemanha, a maior economia do bloco, o
rácio da dívida aumentou para 62,8%, face a 61,4%, enquanto o défice se alargou
para 2,9%.
Os
défices estão também a voltar a aumentar. Corrigido de variações sazonais, o
défice agregado dos governos da Zona Euro subiu para 3,3% do PIB, no segundo
trimestre, face a 3,2%, no primeiro, enquanto o valor para os governos da UE
aumentou para 3,5%, contra 3,1%. De facto, 12 estados-membros apresentavam, em
2025, dívida acima do teto de 60% fixado pela UE e 11 registavam défices iguais
ou superiores a 3%. A Grécia manteve-se como país o mais endividado da UE, com a
dívida de 140,8% do PIB, no segundo trimestre, mas Itália ficou logo atrás, com
139,9%. E o seu rácio da dívida diminuiu 11,2%, em apenas um ano, à medida que
o país regista excedentes orçamentais, enquanto o de Itália aumentou 1,3%, só
no segundo trimestre.
Em
2022, a dívida da Grécia ascendia a 177,8% do PIB, contra 138,4% na Itália. A França
tem o terceiro maior rácio dívida/PIB, de 119,1%, mais 3,7% do que há um ano,
uma das subidas mais acentuadas no bloco. A dívida manteve-se também acima de
100% do PIB, na Bélgica e na Espanha, com 110,2% e 101,4%, respetivamente. E a Estónia
apresentava o rácio mais baixo, de 26,1%, seguida da Dinamarca e do Luxemburgo,
enquanto a Polónia registou o aumento mais forte da relação dívida/PIB, mais
6,7%, face ao ano anterior.
Os
números foram divulgados no mesmo dia em que a rendibilidade da obrigação do
Tesouro francês, a 10 anos, ultrapassou, pela primeira vez, desde 2002, à
medida que os investidores exigem prémios mais altos para deter dívida
francesa. E o défice da França foi de 5,1% do PIB, em 2025, o quarto mais
elevado da UE, atrás da Roménia, da Polónia e da Bélgica.
***
Enfim,
enquanto défice e dívida sobem, erros, desvios e fraudes enlameiam as
instituições e não se vê forma de as coisas mudarem. E quem pode atirar a
primeira pedra?
2026.10.21 – Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário