segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Ameaças à segurança azam cabo ártico entre a Gronelândia e a Europa

 

A União Europeia (UE) prepara um cabo submarino soberano e seguro que ligará, diretamente, a Gronelândia à Europa, com a ambição de prolongar a rede, através do Canadá, até ao Japão e à Coreia do Sul, no âmbito do Polar Conect, projeto estratégico para o Ártico.

A iniciativa concretiza o conceito de cabo pan-ártico e insere-se no esforço mais amplo de reforço da infraestrutura digital e da segurança da Europa na região ártica, cada vez mais disputada, numa altura em que o gelo derrete e tensões geopolíticas crescentes tornam a região polar num corredor estratégico para o comércio, para as comunicações e para a segurança. Ou seja, a UE está a trabalhar na ligação da Europa ao Japão e à Coreia do Sul através da Gronelândia e do Canadá e, nos próximos anos, um cabo submarino soberano e seguro ligará a Gronelândia à UE.

As orientações, definidas na estratégia ártica da UE a apresentar a 20 de outubro, refletem a crescente preocupação em Bruxelas de que os cabos de telecomunicações submarinos, além de constituírem uma infraestrutura comercial, garantam a segurança estratégica.

Na verdade, é crescente a deterioração do ambiente de segurança no Ártico, onde a Rússia reforçou a presença militar e os governos europeus têm perceção cada vez maior de ameaças híbridas, incluindo interferências na navegação por satélite e sabotagem de infraestruturas submarinas. E o também crescente interesse na Gronelândia por parte dos Estados Unidos da América (EUA) adicionou outra camada de tensão geopolítica na região, vincando as preocupações europeias, face à dependência de infraestruturas controladas por terceiros.

O Atlântico Norte conta com cerca de 17 cabos submarinos de telecomunicações, com as gigantes tecnológicas norte-americanas a desempenharem papel dominante na rede de infraestruturas mais ampla. De facto, os cabos submarinos transportam a grande maioria do tráfego internacional de dados, sustentando tudo, desde as comunicações quotidianas às transações financeiras, mas a sua vulnerabilidade a danos acidentais ou a sabotagem deliberada tornou-se preocupação central para os governos europeus.

Por isso, Bruxelas pretende melhorar a conectividade no Ártico, de modo que, além de levar Internet mais rápida às comunidades remotas, se criem rotas de dados mais resilientes e se reduza a exposição a infraestruturas que podem ser perturbadas em caso de crise geopolítica. Nesta perspetiva, a Gronelândia ocupa uma posição particularmente sensível. Situada entre a Europa e a América do Norte, vem ganhando importância crescente para a segurança transatlântica, à medida que se intensifica a concorrência pelos recursos árticos, pelas rotas de navegação e pelo acesso militar. E uma ligação digital mais direta à Europa pode reforçar os vínculos do território autónomo dinamarquês com a UE e dar-lhe participação maior na infraestrutura da região.

“As novas rotas de cabos submarinos vão melhorar o acesso das comunidades árticas e, ao mesmo tempo, aumentar a resiliência e a redundância da conectividade digital europeia. Essa ligação é uma condição prévia para novos investimentos altamente relevantes para a competitividade, a inclusão, a preparação e a defesa”, lê-se no texto da Comissão Europeia que informa sobre o teor do projeto.

Efetivamente, a extensão para a Ásia, através do Canadá, acrescentaria uma dimensão estratégica mais ampla. Em vez de a Gronelândia constituir um desafio isolado de conectividade, a UE pondera de que forma a infraestrutura ártica pode integrar-se numa rede mais vasta que ligue as economias europeias e asiáticas. Porém, tornar essa visão um projeto viável dependerá da viabilidade técnica, da procura comercial, do financiamento e da cooperação com o Canadá e com outros parceiros. E a UE já reservou 107 milhões de euros para projetos de conectividade envolvendo a Gronelândia. Assim, o cabo submarino proposto assentará em compromissos já existentes e não numa área totalmente nova de investimento.

A Comissão Europeia tinha apresentado a ideia de cofinanciar o Far North Fibre, uma rota que prevê um cabo submarino na área ártica, aos representantes dos estados-membros da UE. O custo do projeto foi estimado em cerca de 1,15 mil milhões de dólares, mas já recebeu cerca de 11 milhões de euros.

O desenvolvimento potencialmente significativo é a perspetiva de uma ligação estratégica mais alargada entre a Gronelândia, a Europa e, através do Canadá, parceiros asiáticos. Uma rede deste tipo levanta questões difíceis sobre quem paga a construção, quem detém e opera os cabos, como serão protegidos e se a rota será comercialmente viável. Por outro lado, qualquer extensão ao Japão e à Coreia do Sul exigirá também acordo e coordenação com parceiros fora da UE. No entanto, a estratégia não resolve essas questões, nem define uma rota final, um orçamento ou um calendário de construção para a rede proposta.

Em todo o caso, menciona a criação de um Centro de Cabos Árticos para países da UE, para a Noruega e para a Islândia, destinado a monitorizar, a proteger e a apoiar a reparação de cabos submarinos no Atlântico Norte-Ártico. E é provável que o centro precise do apoio de uma frota de quebra-gelos reforçada, como veremos adiante.

Na verdade, indo as ambições árticas da UE além da infraestrutura digital, requerem os navios necessários para operar nas águas da região, cada vez mais disputadas. Por isso, na Cimeira do Ártico, no passado mês de setembro, o enviado especial da UE para a região, o antigo primeiro-ministro finlandês Jyrki Katainen, alertou para uma escassez crítica na capacidade europeia de quebra-gelos. E o chanceler, alemão Friederich Merz, considerado que isto não é um problema só da Finlândia, da Noruega e da Suécia, mas de toda a UE e de todo o continente europeu, porfiou o seu apoio para a ação conjunta.

Ora, é nesta direção que a estratégia segue e se compromete a criar uma Aliança das Cadeias de Valor Marítimas Industriais da UE, destinada a mapear as necessidades de quebra-gelos, a capacidade de produção disponível na Europa e as especificações técnicas necessárias. “A UE, em conjunto com os estados-membros e com outros parceiros de posições similares, irá desenvolver opções para compras conjuntas, partilha e agrupamento de capacidades de quebra-gelos e de outras capacidades relevantes para o Ártico”, indica a estratégia.

O objetivo passa por reunir financiamento e recursos tecnológicos com os países nórdicos e analisar a possibilidade de facilitar a viabilidade operacional de meios detidos a nível nacional, respeitando a estrutura de comando nacional. E a estratégia menciona, explicitamente, “meios com especial foco em quebra-gelos para ambientes de extremo norte, que utilizem sistemas de propulsão avançados e de grande autonomia, incluindo nucleares”.

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O projeto em causa foi antecedido por um estudo constante de nota da Comissão Europeia, atualizada a 3 de dezembro de 2024, que serviu de preparação para o projeto Northern EU Gateways (de 20 meses: entre 1 de janeiro de 2023 e 31 de agosto de 2024) e que aborda a necessidade de novas rotas de infraestrutura de dados no Mar Báltico, nas regiões do Norte e do Ártico, ao mesmo tempo que fornecerá sensores de última geração em cabos submarinos, para o estudo das mudanças climáticas, da sismicidade do fundo do mar e da oceanografia.

O estudo ficou a cargo da Cinia (empresa finlandesa de infraestrutura digital), como coordenadora, em parceria com a Nordunet, rede regional de colaboração, investigação e educação (NREN) que interliga as infraestruturas nacionais de ciência e ensino da Dinamarca (DeiC), da Islândia (RHnet), da Noruega (UNINETT), da Suécia (SUNET) e da Finlândia (Funet). E os países abrangidos são: a Finlândia, a Suécia, a Alemanha, a Noruega, a Irlanda, a Islândia, a Dinamarca, a Gronelândia (território autónomo da Dinamarca), os EUA e o Japão.

O projeto Northern EU Gateways implementa os passos preparatórios para a futura ligação entre a Europa, os EUA e a Ásia, através do Oceano Ártico, no total de 17 mil quilómetros (Km). E o estudo inclui três atividades principais: o planeamento da rota de um cabo submarino na região do Ártico (Far North Fiber), o planeamento da rota para conectividade adicional no Mar Báltico (C-Lion2, através de um cabo de 1300 Km) e um plano de rota detalhado para uma rede terrestre principal na Finlândia, a sua espinha dorsal (um cabo de três mil quilómetros).

As implementações parcialmente baseadas no estudo são os projetos da Chamada 2: Far North Fiber, que realiza levantamentos topográficos submarinos para o segmento do Atlântico Norte e constrói estações de ancoragem de cabos na Finlândia e na Irlanda, e North Pole Fibre, que fornece um caminho de fibra ótica entre Kiruna, na Suécia, e a fronteira com a Noruega. 

Para tanto, o estudo: projeta conexões de infraestrutura digital fisicamente seguras e ciberneticamente seguras para a Europa, a fim de minimizar os riscos para sua implantação, uso e manutenção; projeta redes digitais abrangentes na região do Mar Báltico e entre a UE, a América do Norte e a Ásia; analisa a viabilidade de ligações por cabos submarinos em direção à América do Norte e à Ásia, incluindo uma ligação entre a Gronelândia e a UE; e analisa a viabilidade da próxima geração de sensores em cabos submarinos no Ártico, a fim de oferecer novas ferramentas para o estudo das mudanças climáticas, da sismicidade do fundo do mar e da oceanografia.

O estudo Northern EU Gateways tem um orçamento total de 7,3 milhões de euros, dos quais 3,7 milhões de euros são financiados pelo programa Connecting Europe Facility (CEF) Digital.

Para já, o cronograma definido é o seguinte: Polar Connect Step 1 (PC1): 2025-2027 (estudos de viabilidade, mapeamento do leito marinho e licenciamentos); Polar Connect Step 2 (PC2): 2026-2028 (gestão da entidade do cabo, desenho do sistema e planeamento de reparações em condições de gelo).

Portugal, através da ex-FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia e da sua unidade FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional (historicamente nascida como Fundação para o Desenvolvimento dos Meios Nacionais de Cálculo Científico), assegura ligação direta, resiliente e estratégica orientada para a investigação, ciência, educação e inovação.

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O gelo é realidade dura a condicionar os planos dos EUA, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) ou da Europa para a Gronelândia: estrangula portos, sepulta minerais e transforma as linhas de costa em campos minados de lascas brancas e azuis que ameaçam navios. E a única forma de vencer essa barreira é com quebra-gelos: navios enormes, motores potentes, cascos reforçados e proas pesadas capazes de esmagar e fender massas congeladas.

Os EUA, com apenas três unidades, uma tão decrépita que mal pode operar, assinaram acordos para obter mais 11, mas só consegue adquirir navios adicionais junto de adversários ou de aliados que recentemente hostilizou. O fornecedor-chave é a Finlândia, mas este país nórdico enfrenta os seus desafios de quebra de gelo. E o aquecimento dos mares devido às alterações climáticas não significa que o país dependerá menos de quebra-gelos, pois, em vez de tornar o Ártico mais fácil de navegar, as alterações climáticas tornam o gelo mais espesso, mais móvel e mais perigoso, em certas zonas, apesar do recuo geral da cobertura de gelo.

Apesar de ter suavizado a retórica, Donald Trump, parece determinado em que os EUA fiquem com Gronelândia por razões de segurança e económicas: manter o que chama “o grande e belo pedaço de gelo” fora das mãos de Moscovo e de Pequim, garantir um ponto estratégico no Ártico para meios norte-americanos e explorar a riqueza mineral da ilha. Com efeito, disse aos líderes reunidos em Davos, na Suíça, a 21 de janeiro, que, “para chegar a estas terras raras, é preciso atravessar centenas de pés de gelo”.

Não há, pois, modo eficaz de o fazer, ou de fazer seja o que for, no território dinamarquês semiautónomo, sem a capacidade crucial dos quebra-gelos de abrirem rotas por mares gelados. E, ainda que decidissem enviar material dos EUA para a Gronelândia, amanhã, “teriam um intervalo de dois ou três anos em que, na maioria do tempo, não conseguiriam aceder à ilha”, diz Alberto Rizzi, investigador no Conselho Europeu de Relações Externas.

Se os EUA querem mais quebra-gelos, só há quatro opções: estaleiros dos adversários estratégicos China e Rússia ou dos aliados de longa data Canadá e Finlândia, ambos alvo recente de críticas duras e ameaças de tarifas, por parte de Trump, devido à Gronelândia.

Os quebra-gelos são caros de conceber, de construir, de operar e de manter e exigem mão-de-obra especializada que só existe em alguns locais, como a Finlândia, com competência forjada no gelado Mar Báltico, pois construiu cerca de 60% da frota mundial, de mais de 240 quebra-gelos, e concebeu metade dos restantes. São capacidades de nicho, desenvolvidas por necessidade, mas que, depois, se transformaram em alavanca geoeconómica.

A Rússia tem a maior frota do Mundo, com cerca de 100 navios, incluindo colossos movidos a reatores nucleares. Em segundo lugar surge o Canadá, que deverá duplicar a frota para cerca de 50 quebra-gelos. E, no seu primeiro mandato, Trump deu prioridade à aquisição de navios aptos ao gelo pelas forças armadas dos EUA, estratégia que a administração Biden prosseguiu, ao assinar um acordo com Helsínquia e Ottawa para entregar 11 quebra-gelos.

Embora os EUA e a UE tenham prometido aumentar, fortemente, o investimento na Gronelândia, quem tem hoje capacidade de força para chegar ao vasto território gelado com cerca de três vezes o tamanho do Texas é a Finlândia, que também tem problemas internos, no horizonte, à medida que as alterações climáticas desestabilizam os padrões meteorológicos. O aquecimento global fez com que a frota de quebra-gelos do país só tivesse sido acionada, pela primeira vez, no inverno de 2025, na noite de Ano Novo, quase duas semanas mais tarde do que em 2024, e significativamente mais avançado na época do que a média de longo prazo.

As alterações climáticas também significam condições extremas, ou seja, invernos muito amenos com muito pouco gelo, quando é necessária pouca assistência de quebra de gelo, e trarão fenómenos extremos no outro extremo. O vento é o principal culpado. Com invernos mais ventosos, massas de gelo deslocam-se para águas pouco profundas ou para a costa e começam a acumular-se. Onde os campos de gelo eram de 60 a 80 centímetros de espessura, podem agora chegar aos 10 metros, em algumas zonas.

O custo dos quebra-gelos é pequeno, face aos problemas, se o comércio externo não funcionar, mas não há capacidade de substituição no Mundo, em inverno de gelo severo. E os quebra-gelos são necessários para viabilizar as rotas comerciais, de investigação científica, de exploração de recursos e de vigilância dos cabos submarinos “soberanos e seguros”.

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A defesa do Ártico e apetência pela região obrigam à mobilização de meios adequados, quando está em marcha a nova rota da seda e 90% dos dados entre a Europa e Ásia segue por 14 a 16 cabos alojados no fundo do Mar Vermelho, o gargalo crítico e um dos pontos mais vulneráveis do orbe: uma extensão de água estreita e relativamente rasa, onde os cabos ficam mais expostos a acidentes com âncoras de navios comerciais ou a sabotagens geopolíticas.

2026.10.19 – Louro de Carvalho


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