A
27 de outubro, Israel foi chamado às urnas, pela primeira vez, após o episódio
de 7 de outubro de 2023, que espoletou a guerra prolongada com o Hamas, para
eleger os membros do Parlamento (Knesset) e, consequentemente, dar indicações
para a formação do novo governo. A participação popular nestas eleições
ultrapassou os 77%, segundo a Comissão Central Eleitoral (CCE) de Israel, mas,
não se tratou de referendo à liderança de Benjamin Netanyahu (Bibi), primeiro-ministro
em exercício, como afirmavam alguns observadores.
Netanyahu
passou grande parte do dia a apelar aos seus apoiantes a que fossem votar,
descrevendo as eleições como uma “questão de vida ou de morte”. Contudo,
as sondagens à boca das urnas e as projeções apontavam para a ausência de
um vencedor claro, por forma que tanto o primeiro-ministro como o seu principal
rival, Gadi Eisenkot, ficariam aquém da maioria.
A
estação televisiva israelita Channel 13 avançou, inicialmente, que o
bloco da oposição teria vantagem, com 53 lugares, num total de 120, no Knesset,
enquanto o bloco de Netanyahu (a coligação por ele liderada) deveria conquistar
cerca de 50. Mais tarde, as três principais cadeias de televisão israelitas
atribuíram cerca de 51 lugares a cada um dos dois blocos, um resultado muito
abaixo dos 61 necessários para formar governo. E, de acordo com a Channel 13,
o partido Likud, de Netanyahu, seria o maior partido individual, com 25
lugares.
Entretanto,
já se divisava que os partidos árabes ganharam terreno, prevendo-se que as listas
árabes israelitas conquistariam entre 17 e 18 lugares, o que representa um
aumento significativo. Algumas comunidades árabes israelitas registaram uma
participação eleitoral quase universal, impulsionada pela indignação, face à
retórica, frequentemente, depreciativa dirigida contra elas pelos aliados de
extrema-direita de Netanyahu.
Mansour
Abbas, uma das principais figuras políticas árabes israelitas, afirmou
acreditar que a direita terá “sofrido uma grande derrota” e mostrou-se
disponível para trabalhar com Eisenkot. Porém, este afirmou, na campanha, que
não formaria governo com deputados árabes israelitas; e Netanyahu disse que
governo dependente dos votos árabes não seria legítimo.
Os
deputados árabes poderão apoiar Eisenkot em votações parlamentares,
permitindo-lhe manter um governo minoritário, sem integrarem, formalmente, uma
coligação. Se isso não acontecer, Israel pode avançar para novas eleições. E Itamar
Ben Gvir, polémica figura da extrema-direita que, segundo as projeções, não
terá conseguido tantos votos como esperava, alertou Netanyahu para a
possibilidade da formação de governo de unidade nacional com Eisenkot. No entanto,
afirmou que “seria um erro terrível”, pois defende a expulsão dos palestinianos
e, provavelmente, ficaria de fora de qualquer governo de unidade nacional.
Por
seu turno, numa publicação, na rede social X, Eisenkot afirmou que os
resultados das sondagens à boca das urnas demonstravam “total falta de
confiança em Netanyahu e no governo de 7 de outubro”.
Yair
Golan, líder do partido de esquerda Democratas de Israel, considerou que o povo
tinha “falado” e “afastado o governo de Netanyahu”, mas o ministro dos Negócios
Estrangeiros, Gideon Sa’ar, alertou que as celebrações da esquerda eram
prematuras. “Uma coisa parece bastante clara: o Likud é o maior partido de
Israel”, escreveu, nas redes sociais.
Numa
declaração feita na manhã de 28 de outubro, Netanyahu mostrou-se confiante e
procurou, desde logo, posicionar-se para continuar como primeiro-ministro,
enumerando as conquistas militares dos últimos três anos. Apelou aos
adversários a que se unissem em torno da sua liderança e rejeitou a
possibilidade de uma parceria com os partidos árabes – cujos eleitores
representam apenas 20% da população de Israel –, classificando tal hipótese
como traição. “Temos de formar um governo forte, de direita e nacionalista. […]
Não podemos pôr Israel em perigo e formar um governo que dependa de partidos
árabes antissionistas. […] Israel tem uma oportunidade única, em conjunto com o
nosso aliado, o presidente Trump, de eliminar, para sempre, a ameaça
existencial representada pelo Irão”, afirmou Benjamin Netanyahu, que enfrentou,
nestas eleições, o seu antigo chefe do Estado-Maior, o centrista Gadi Eisenkot.
Já
Eisenkot, ao discursar perante os seus apoiantes, em Telavive, deixou um aviso
a Netanyahu, que, segundo observadores, poderá aproveitar uma guerra para
tentar formar um governo de unidade nacional. “Netanyahu, nem te atrevas a usar
a segurança de Israel para satisfazer os teus interesses políticos”, advertiu.
Dirigindo-se
às forças e instituições responsáveis pela segurança de Israel, Eisenkot
afirmou que estas serviam o Estado, e não Netanyahu, que descreveu como “um
primeiro-ministro em funções, sem mandato nem a confiança do povo”.
***
À
medida que os resultados das eleições iam clarificado a situação política,
ficou a perceber-se que Netanyahu venceu, mas que não consegue formar governo
com os aliados do costume, pelo que nem a coligação no poder, liderada por
Benjamin Netanyahu, nem a que se lhe opõe cantaram vitória, como desejavam,
tendo cada uma destas formações razões para isso. É certo que a minoria árabe
tem razões para celebrar, mas precisa de ser aceite como parceira de governo.
Aliás foi o que sucedeu na França: nas últimas eleições gerais, a esquerda
unida teve votação confortável, mas o presidente Emmanuel Macron preferiu um
governo minoritário de centro, do que resultou a nomeação de uma série de
primeiros-ministros sucessivos.
As
jornalistas Ana França e Margarida Mota, a 28 de outubro, no Expresso online,
em artigo intitulado “Netanyahu vence, mas não consegue formar governo com os
aliados do costume: seis conclusões de uma jornada eleitoral inconclusiva”,
escrevendo num momento em que estava a curso a contagem dos votos, já acusavam
o exagero das notícias que propalavam a morte política de Benjamin Netanyahu,
uma vez que o partido que chefia, o Likud (de direita), tinha sido o mais
votado, devendo contar entre 27 e 28 deputados. Todavia, apesar de ter a
maior bancada no Knesset, perde deputados, em relação à legislatura anterior, em
que obteve 32. Além disso, os seus aliados extremistas e ultraortodoxos,
pilares da coligação no poder, perdem representatividade.
As
jornalistas sublinham esta como a participação eleitoral mais expressiva dos
últimos 27 anos – desde 1999, quando 78,7% dos eleitores votou num escrutínio
que resultou na vitória de Ehud Barak, de esquerda, contra Benjamin Netanyahu,
que terminou, então a sua primeira passagem pelo poder – pois, dos 7331981 cidadãos
eleitores, cerca de 71% da população total de Israel, 77,7% participou nestas
eleições. Assim, a taxa de afluência, desta vez foi 7,1% superior à registada
nas últimas eleições, em 2022, o que foi interpretado como uma vontade de
mudança.
No
momento em que votou, numa assembleia de Jerusalém, na companhia de Sara, sua esposa,
Benjamin Netanyahu apelou: “Vão votar!” A experiência no cargo que já leva mais
de 19 anos, embora de forma intermitente, deu-lhe a perceção de que a situação
poderia virar. E, num vídeo dirigido aos eleitores do Likud, denunciou que “os
partidários da Irmandade Muçulmana estão a assaltar assembleias de voto e a
roubar as eleições”. “Vós também precisais de ir a correr para as urnas. Nada
de praia, nada de churrasco, toda a gente sai para votar no Likud. […] O que
está em causa é o futuro do nosso Estado judaico”, bradou.
Encerradas
as urnas, demorou a reagir às projeções e, quando o fez, cerca das 03h00 da
madrugada em Israel, foi certeiro: “O Likud é o maior partido de Israel”,
congratulou-se, na sede de campanha, em Jerusalém, mas considerando “uma
vergonha” que partidos do campo sionista estejam dispostos a cooperar com
formações árabes.
E
lembrou a prioridade, vincando que “Israel está perante uma oportunidade
histórica e única”, com o Presidente Trump, “para eliminar a ameaça iraniana,
de uma vez por todas”.
Durante
meses, as sondagens colocaram à frente das preferências de voto Gadi Eisenkot, antigo
chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel. O seu recém-formado
Yashar foi o segundo partido mais votado, com as projeções a darem-lhe entre 20
e 21 deputados.
Na
noite eleitoral, sem os resultados estarem claros, Eisenkot rejeitou o cenário
de novas eleições, prometeu fazer tudo o que estiver ao seu alcance para formar
um governo sionista e advertiu Netanyahu de que não usasse a segurança de
Israel para seu benefício político.
As
primeiras projeções sugeriam 20 deputados para o Yashar (Integridade) e 22 para
o Likud (Unidade). Porém, quando surgiram as projeções dos outros partidos que
compõem a coligação anti Netanyahu, o ambiente ficou mais festivo: o bloco de
Eisenkot passava para a frente, com 52 deputados contra 50 de Netanyahu.
De
madrugada, ocorreu ligeira inversão de resultados: a coligação de Eisenkot caiu
para 49 parlamentares. E o ex-brigadeiro-general, de 78 anos, atirou que, pelo
menos, Netanyahu não poderá formar governo, pois os partidos da sua coligação
não têm números.
Eisenkot
votou em Herzliya, acompanhado da mulher e demais familiares. Antes de cumprir
esse dever, visitou a campa do filho Gal Meir Eisenkot, morto em combate, aos 25
anos, em dezembro de 2023, no Norte da Faixa de Gaza. Depois, dirigiu-se ao kibbutz
Nir Oz, uma das comunidades mais chacinadas no 7 de outubro. “Se alguém no governo
tivesse, pelo menos, um pingo de responsabilidade, teria começado a manhã aqui,
nas comunidades da fronteira com Gaza. […] Três anos após o fracasso, continuam
a esquivar-se à responsabilidade”, clamou.
Ainda
as assembleias de voto não tinham aberto, às 06h29 da manhã, hora a que o Hamas
iniciou o ataque terrorista de 7 de outubro, familiares de israelitas levados
para Gaza reuniram-se na Praça dos Reféns, em Telavive, para cumprirem um
minuto de silêncio, e apelaram ao voto, em memória dos que já não o podem
fazer. E, logo que as urnas fecharam, o Conselho de Outubro, que reúne
sobreviventes do ataque do Hamas, antigos reféns e famílias enlutadas, divulgou
um comunicado a recordar que fora prometida uma comissão estatal de inquérito
ao massacre, independente do poder político que se formar.
Tantas
vezes descrente, em relação aos benefícios das eleições, o que a tem levado a
boicotar eleições, a minoria árabe de Israel mobilizou-se, desta feita, de
forma inédita. O presidente da Câmara de Majd al-Krum, cidade árabe no Norte do
país, declarou à imprensa que votou nestas eleições, após anos de boicote, já
que, agora, as entende como uma ferramenta dos palestinianos para enfrentarem a
“ameaça existencial”.
A
grande afluência, nas zonas árabes, deu azo a desesperados alertas, durante a
jornada eleitoral. Bezalel Smotrich, ministro das Finanças e líder do Sionismo
Religioso, extremista, sentenciou que a hora “é uma emergência para a direita”.
Itamar Ben Gvir, ministro da Segurança Interna e líder do Poder Judaico, a
partir da cidade árabe de Kafr Qassem, incentivou os seus apoiantes a votarem
para combaterem a “taxa de voto absurda” nas comunidades árabes, sob pena de o país
deixar de ser judeu e sionista. E o ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon
Sa’ar, do Likud, reagiu, dizendo que “este dia determinará a existência do
Estado judaico”.
Baruch
Spiegel, general de Brigada, assessor político, económico e de segurança, sustenta
que a votação dos partidos árabes, “extremamente expressiva”, constitui um sinal
para os chamar à coligação, mas entende que Gadi Eisenkot terá de exigir a
Mansour Abbas, da Lista Árabe Unida ou Ra’am, que se posicione pela eliminação
do Hamas, visto que, na sua ótica, “não pode haver qualquer zona cinzenta, em
matérias de segurança”.
Encerrada
a votação, os partidos árabes, que se opõem a Netanyahu e que não integram o
bloco sionista anti Netanyahu, cantaram vitória, uma vez que as projeções
indicavam que, em conjunto, os dois deverão eleger mais deputados (18-19) do
que os eleitos pelas duas formações extremistas (12) ou pelas religiosas
ultraortodoxas (12-13).
Os
líderes das duas formações extremistas que integram o campo pró-Netanyahu
votaram em colonatos do território palestiniano da Cisjordânia, onde residem
Bezalel Smotrich, no colonato de Kedumim, e Itamar Ben-Gvir, no de Kiryat Arba.
E outro político que votou num colonato, o de Nokodim, foi o chefe do partido
nacionalista secular Yisrael Beitenu, Avigdor Liberman, que declarou: “A era de
Netanyahu e do domínio ultraortodoxo tem de chegar ao fim.”
Na
sede da sua campanha, Eisenkot discursou, passando por todos os pontos que o
levaram até aqui: unidade, regresso à democracia plena e crítica às mentiras, à
corrupção, à falta de responsabilização. E, a meio do discurso, pediu ao
primeiro-ministro que se afaste. “Esta noite, Netanyahu enfrenta uma maioria
sionista maior e mais forte, empenhada em pôr o país em primeiro lugar. Um
líder digno aceitaria o voto de desconfiança do povo e anunciaria hoje a sua
retirada da vida política”, disse.
***
Por
fim, contabilizados cerca de 93% dos votos das assembleias de voto
convencionais mais de 85% dos votos contabilizados, correspondendo a 85,6% do
total, o bloco liderado pelo primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu,
assegura 53 lugares, enquanto a coligação liderada por Gadi Eisenkot, dirigente
do partido Yashar, obtém 48 – menos um cada do que os esperados, quando eram
contados 84% dos votos – ao passo que os partidos árabes israelitas conquistam
19 lugares (mais dois do que os esperados anteriormente), um resultado
histórico.
Segundo
a CCE, são necessários, pelo menos, 61 lugares para alcançar a maioria
parlamentar. E, embora, os resultados ainda não sejam definitivos, não se prevê
que os números sejam atualizados, nas próximas horas. Em comunicado, a CCE
explicou que os restantes 7% dos votos convencionais exigem supervisão
adicional. Estão também por contabilizar cerca de 600 mil votos depositados em
envelopes duplos, cuja inclusão nos resultados é esperada, nos próximos dias. Entre
os partidos que se encontram abaixo do limiar eleitoral de 3,25% estão os
Reservistas, com 2,6%, o Povo de Israel, com 1,6%, e o Público Haredi, com
0,2%.
O
primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, defendeu, a 28 de outubro, em
discurso, na sede de campanha do seu partido, em Jerusalém, ser
necessário formar “um governo de direita forte”, sem o apoio dos partidos
árabes. Com efeito, na sua perspetiva, “o Likud é o maior partido de Israel” e “a
maioria judaica e sionista tem de se recompor e de se unir”.
Enquanto
o presidente, Isaac Herzog, apelou aos partidos a que façam todos os esforços
para formarem coligação governamental, a fim de evitarem novas eleições, o Likud acusa partidos árabes de
manipularem as eleições, os árabes dizem-se preparados para ajudarem opositor
de Netanyahu e a moeda israelita, o shekel, desvaloriza cerca
de 2%, para 3,1185 shekels, por dólar, e o principal índice bolsista de
Telavive caiu cerca de 3%.
***
Nada
está definido: pode Netanyahu liderar um governo minoritário ou com apoio da coligação
liderada por Eisenkot, pode governar esta com o apoio dos partidos árabes e
pode um ou o outro liderar um governo de unidade nacional. Tudo dependerá do
que ditarem o amigo Donald Trump, que pode sofrer um revés nas intercalares de
3 de novembro e a banda ocidental, dividida entre a viragem eleitoral na Sérvia
e no Brasil, com vitória da esquerda moderada, e o crescimento da extrema-direita.
Porém, os investidores não amam a democracia social.
2026.10.28
– Louro de Carvalho
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