segunda-feira, 26 de outubro de 2026

No Brasil, Lula vence eleições, mas Bolsonaro contesta resultados

 

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, garantiu, a 25 de outubro, na segunda volta das eleições presidências (após ter sido vencido, na primeira volta, por Flávio Bolsonaro), o regresso ao poder, ao conquistar a reeleição com a vantagem de 4430191 votos sobre o adversário, alcançando 51,79% do total da votação (64256232 votos), contra 48,21% (59826041 votos) de Bolsonaro. A taxa de abstenção desceu, face à primeira volta, passando de 21% para 19%. E registaram-se 4153801 votos nulos.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou os resultados, que Bolsonaro contesta.  

O Triunfo de Lula quebra, assim, a tendência regional de vitórias da direita aliada do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, indicando que a maior economia latino-americana continuará a desafiar as exigências do ex-presidente, Jair Bolsonaro, apesar da pressão de tarifas mais altas. E o dirigente de esquerda, de 81 anos, contrariou as previsões e assegurou um inédito quarto mandato, travando a vaga conservadora que tem levado vários países sul-americanos, como a Argentina, o Chile, a Colômbia e o Peru, a inclinarem-se para a direita, com o persistente e pouco discreto apoio do presidente norte-americano.

Flávio Bolsonaro recusou-se, de imediato, a admitir a derrota e pediu a anulação dos resultados eleitorais, após uma noite de caos em algumas secções de voto, na sequência de uma decisão de última hora de prolongar a votação por duas horas, a pedido dos dois candidatos.

Filho do antigo presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, o senador vê o pai a cumprir uma pena de 27 anos de prisão, por tentar um golpe de Estado, após a derrota frente a Lula nas últimas eleições, em 2022. Concretizada no assalto ao Palácio dos Três Poderes.

Lula da Silva solicitou o prolongamento da votação, depois de denunciar que autocarros tinham sido retirados de circulação, em várias cidades, impedindo cidadãos de votar. Por sua vez, Flávio Bolsonaro solicitou um prolongamento, em algumas regiões, devido às chuvas intensas – o que foi autorizado pelo TSE, mas o candidato derrotado classificou, depois, a decisão como “inaceitável” e uma “manobra suja”. “É impossível reconhecer os resultados. Vou pedir a anulação destas eleições”, afirmou, num breve discurso, em Brasília.

Após a derrota na primeira volta, a esquerda mobilizou-se com grandes comícios, sob o lema “Nunca mais Bolsonaro”, e reformulou a estratégia nas redes sociais.

Desde 1989, ano da primeira eleição direta, após o fim da ditadura militar, nenhum candidato que perdera a primeira volta conseguiu vencer a segunda. “As pessoas foram votar, porque conseguimos convencê-las de que votar era muito importante para garantir a democracia no país”, afirmou Lula, nas primeiras declarações, após a vitória, a qual levou a que fogo de artifício e vuvuzelas ecoassem no Rio de Janeiro e milhares de pessoas vestidas de vermelho, a cor do Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula, saíssem às ruas de São Paulo, em festejo.

A campanha de Lula apoiou-se, fortemente, no tema da soberania, face à pressão comercial e diplomática dos EUA de Trump. “Ou a pátria permanece livre, ou morremos pelo Brasil […] Este país não vai aceitar ser o quintal de ninguém”, afirmou, dirigindo-se aos apoiantes.

No Rio de Janeiro, carros buzinavam e uma mulher vestida de vermelho gritava a quatro homens de amarelo e verde a beber cerveja, cores associadas a Bolsonaro: “Perderam! Chorem mais!”. Um enorme clamor ecoou na rua quando o resultado foi confirmado.

Lula, que inicia o quarto mandato com quase metade do país a rejeitá-lo, em busca de mudança, saiu da pobreza para chegar à presidência, em 2003, e foi reeleito, em 2006. Regressou, de forma dramática, ao cargo nas eleições de 2022, depois de um escândalo de corrupção o ter levado à prisão por mais de 18 meses. As acusações foram anuladas por motivos processuais. E, no terceiro mandato, supervisionou a queda da inflação e do desemprego e tirou milhões da fome, mas muitos eleitores mantinham-se pessimistas com o alto custo de vida e a criminalidade.

Já um dos líderes mais idosos do Mundo, Lula terá 85 anos no final do novo mandato, em 2030. Nada que atrapalhe, já que o Brasil, além do presidente, elege um vice-presidente, como nos EUA. A este respeito, é de recordar que Tancredo Neves foi eleito, mas não chegou a tomar posse, devido a doença, pelo que o cargo passou para o vice-presidente José Sarney.

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A Europa, sob o signo “a democracia venceu”, ficou satisfeita com a surpreendente vitória de Lula da Silva, no Brasil. Assim, os dirigentes da União Europeia (UE) saudaram a reeleição do presidente brasileiro para um quarto mandato, contrariando previsões de uma vaga de direita no país mais populoso da América Latina e garantindo um aliado-chave para a UE.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, estiveram entre os primeiros a felicitar Lula, com quem trabalharam, de perto, para a conclusão do acordo comercial UE-Mercosul.

O acordo, assinado em janeiro com o bloco comercial sul-americano que integra o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai, foi visto como resposta às tarifas punitivas do presidente norte-americano. Bruxelas receava que o rival de direita de Lula, Flávio Bolsonaro, colocasse o acordo em risco, após ter apelado a que o Brasil se libertasse dos “grilhões” do Mercosul e negociasse acordos comerciais independentes, incluindo com os EUA.

“Parabéns ao meu amigo Lula! […] A democracia e o multilateralismo venceram no Brasil. A parceria da Europa com o Brasil está a florescer. Continuaremos ao seu lado, nos próximos anos. […] Juntos continuaremos a trabalhar, de forma estreita, em prol de um comércio livre e aberto, de uma ordem global baseada em regras e de fortes ambições para o clima”, escreveu Ursula von der Leyen, nas redes sociais. E António Costa falou com Lula, na noite do dia 25, para o felicitar pessoalmente. “O povo brasileiro pronunciou-se. […] Continuaremos a trabalhar em conjunto para aprofundar os nossos laços, enfrentar os desafios globais e construir um mundo mais pacífico e próspero”, afirmou.

O presidente francês, Emmanuel Macron, o primeiro-ministro neerlandês, Rob Jetten, e o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, juntaram-se às mensagens de felicitação, bem com o Presidente português, António José Seguro, que saudou a reeleição de Lula, em mensagem no site da Presidência: “O Presidente António José Seguro expressa a vontade de continuar a colaborar com o seu homólogo brasileiro no aprofundamento do relacionamento entre Portugal e o Brasil, que não se esgota na vertente bilateral, mas se estende também ao domínio multilateral, nomeadamente, na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa [CPLP] e no quadro da cooperação entre os Estados ibero-americanos”, lê-se na declaração.

“Num Mundo que permanece marcado por desafios que nenhum país pode enfrentar sozinho, o Presidente da República expressa ainda o seu otimismo, quanto à possibilidade de Portugal e o Brasil estreitarem a sua colaboração em prol de causas globais, como o reforço da paz e da segurança, a defesa do direito internacional e dos direitos humanos, bem como a promoção do desenvolvimento sustentável, em particular no âmbito da Organização das Nações Unidas [ONU]”, termina a mensagem de António José Seguro.

“Perante os grandes desafios do nosso tempo, reforcemos a nossa parceria estratégica e demos vida à amizade entre os nossos dois países ao serviço de um mundo mais justo”, declarou Macron. E Pedro Sánchez, destacado dirigente de esquerda na Europa, saudou a reeleição como “grande vitória” e estabeleceu um paralelo com o seu país, onde a oposição conservadora lidera as sondagens, antes de eleições antecipadas, no próximo mês. “O que aconteceu no Brasil acontecerá em Espanha. […] O regresso do progressismo global acaba de começar”, afirmou.

As reações europeias sucederam-se, à medida que os resultados mostravam Lula com a vantagem de quase 4,4 milhões de votos sobre Bolsonaro, garantindo-lhe 51,8% dos votos.

Bolsonaro, cujo pai, Jair Bolsonaro, está na prisão, por ter liderado uma tentativa de golpe de Estado, contestou a contagem e defende que a eleição deve ser anulada. Efetivamente, na sua ótica, a decisão da justiça de prolongar o horário de votação devido a atrasos nos transportes públicos e a chuvas torrenciais foi uma “jogada suja”. E uma vitória sua, como muitas sondagens previam, teria consolidado a viragem à direita da América Latina, após a administração Trump haver tentado afirmar a sua influência na região, sob a “Doutrina Donroe”.

Donald Trump é apontado como tendo aproximado a UE e o Brasil, à medida que ambos procuravam parceiros fiáveis, num Mundo cada vez mais volátil. A UE e o Brasil encontraram terreno comum em áreas que Trump colocou em causa, como o comércio livre, a ordem multilateral e a ação climática, com foco na Amazónia. Persistem, contudo, diferenças importantes, nomeadamente, quanto à invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia. O Brasil, enquanto membro dos BRICS (aliança intergovernamental composto por onze países de mercado emergente), mantém laços estreitos com a Rússia.

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Lula contrariou um histórico desfavorável desde 1989, vencendo a segunda volta, depois de perder a primeira. A vitória encerra mais um capítulo da trajetória política de reveses, de regressos e de ascensão que o levou de operário metalúrgico à Presidência.

Com a derrota na primeira volta, Lula da Silva logrou uma histórica reviravolta para ser reeleito, na segunda. Regressado, eleitoralmente, ao Palácio do Planalto, de onde nem saiu, o líder do PT contrariou o histórico desfavorável. Desde 1989, ano em que o Brasil voltou a ter eleições presidenciais diretas, estreando ainda o mecanismo de segunda volta, nunca tinha havido uma reviravolta na corrida ao Planalto, na segunda volta. “Devo isso a vocês, eu sempre acho que Deus foi muito generoso comigo, porque tem tanta gente mais preparada que eu, tanta gente com mais diploma que eu, tanta gente que já leu mais livros do que eu, tanta gente que já estudou mais do que eu”, afirmou, no discurso de vitória,

Lula superou-se. Já tinha perdido para a estatística, em anos anteriores, como em 1989, quando ficou 13,3% atrás do rival Fernando Collor de Mello, na primeira volta das presidenciais, confirmando a derrota na segunda. De operário a sindicalista, de sindicalista a político, de político a presidente. Nunca houve impossíveis para Lula, que voltou a confirmar, com a reeleição, que a adversidade não é sempre intransponível. “Depois de amanhã, dia 27, eu completo 81 anos de idade. E eu quero assumir um compromisso, na frente da imprensa e na frente de vocês. Vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na História deste país”, garantiu.

Sétimo filho de um casal de agricultores analfabetos, Luiz Inácio Lula da Silva nasceu, a 27 de outubro de 1945, na cidade de Garanhuns, em Pernambuco. Tinha sete anos, quando rumou a São Paulo, com a família, e 14, quando foi admitido no curso técnico de torneiro mecânico. Antes, já trabalhara como vendedor ambulante, engraxador, ajudante de tinturaria e metalúrgico, profissão que exerceu e defendeu, como sindicalista.  “Lula” começou por ser um hipocorístico e foi, mais tarde, incorporado no nome. Tornou-se o paradigma do operário político: foi como sindicalista e líder das greves dos metalúrgicos na região de São Paulo, durante a ditadura militar, que ficou conhecido. De quando era operário metalúrgico ficou o acidente laboral que lhe causou a perda de um dedo e valeu a alcunha de “nove dedos”, atribuída por adversários.

Foram as greves, que protagonizou, entre 1978 e 1980, que estiveram na origem da fundação do PT, em 1980, que havia de emergir como o principal partido da esquerda brasileira, após a democratização do país, no período 1985-88, com Lula como figura cimeira. Este, candidato derrotado nas eleições de 1989, de 1994 e de 1998, chegou à Presidência em 2002, exercendo dois mandatos. Foi o primeiro líder sindical e operário a chegar ao Planalto.

Da sua herança política, quase todos, pelo menos, os que o apoiam, destacam a transformação de um país marcado pela pobreza extrema e pelo analfabetismo num Brasil mais próspero e mais igualitário, através de medidas políticas sociais como a introdução da “Bolsa Família”, em 2003, e a criação do programa “Fome Zero”. E terminou o primeiro mandato com a aprovação de 57% e foi reeleito, em 2006, com mais de 58 milhões de votos, a maior votação da História do Brasil.

Os resultados deram força à narrativa de Lula de que o Estado pode desempenhar papel decisivo na redução da pobreza e da fome. Em 2014, já no governo de Dilma Rousseff, sua sucessora política, o Brasil saiu do Mapa da Fome, da ONU, após significativa redução da subalimentação. A evolução foi associada a um conjunto de políticas sociais e económicas.

Politicamente, surgiu como defensor do multilateralismo, da diplomacia e da ordem internacional em que as decisões não sejam determinadas só pelo poder das grandes potências.  “A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política. Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses da pátria com os da Humanidade”, afirmou, a 22 de setembro de 2026, no seu discurso na 81.ª Assembleia Geral da ONU.

Porém, os escândalos de corrupção a envolver os nomes de Lula e do PT haveriam de apanhá-lo, limitando-lhe, momentaneamente, a carreira política. Lula foi preso em março de 2018, após ter sido condenado a nove anos de prisão, por ter, alegadamente, recebido um apartamento em troca de favores políticos. Depois de 580 dias detido, foi libertado em novembro de 2019, na sequência de uma mudança de jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o momento a partir do qual pode começar a execução de uma pena. E, em 2021, o STF anulou as condenações do antigo presidente por considerar que o tribunal de Curitiba não tinha competência para os julgar, permitindo ao fundador do PT o regresso à corrida presidencial que venceu em 2022.

Lula já não encontra o mesmo Brasil que governou nos anos 2000: o país continua polarizado, o Congresso é dominado pelo centro-direita e o bolsonarismo mantém significativa força eleitoral. Também esta vitória provoca sell-off nas bolsas. O índice brasileiro Bovespa recua 16%, tocando 172 pontos (o nível mais baixo desde 24 de agosto). E as perdas chegam à Europa.

Entre as cotadas que compõem o índice, a banca é dos setores mais penalizados. Há perdas agressivas no Banco do Brasil (28%) e no Itaú (16%). A Petrobras, a cotada mais valiosa da bolsa brasileira, tomba 12%. Há quedas na Telefónica (mais de 5%) e no Santander (mais de 3%), cotadas na bolsa de Madrid, que têm grande exposição ao mercado brasileiro. E o real também sofre: o dólar sobe 9%, contra a moeda do Brasil, e o euro ganha quase 8,50%.

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Os investidores parecem não gostar da democracia político-social. Dá-lhes jeito o autoritarismo musculado e repressivo. Porém, espera-se que o Lula e o seu staff saibam contornar a situação financeira o escolho político que o Congresso lhes oferece.

2026.10.26 – Louro de Carvalho


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