O
Deus que se vestiu de menino frágil e se apresentou aos homens no presépio,
quis a abrigo numa família humana, a família de José e de Maria, dois jovens
esposos de Nazaré, aldeia situada nas colinas da Galileia. No domingo entre o
Natal e a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus a 1 de janeiro, em ambiente natalício,
no Ano A, a liturgia, convidando-nos a contemplar a Sagrada Família, propõe-nos
que a vejamos como exemplo e modelo das famílias.
***
Na primeira
leitura (Sir 3,3-7.14-17a: versão grega: 3,2-6.12-14), Jesus Ben
Sirá, sábio israelita que viveu na primeira metade do século II a.C., empenhado
em preservar os valores tradicionais do seu povo, convida os concidadãos a
amarem e a honrarem os pais em todos os momentos da vida e garante que Deus não
esquecerá os que assim procederem. O Livro de Ben Sirá (na versão grega,
Eclesiástico) é um livro sapiencial que tem, como todos os livros
sapienciais, por objetivo deixar aos aspirantes a sábios indicações práticas
sobre a arte de bem viver e de ser feliz.
Era
uma época conturbada para o Povo de Deus. Os selêucidas (descendentes de
Seleuco Nicator, general de Alexandre Magno, que herdou parte do seu império,
quando o imperador morreu, em 323 a.C.) dominavam a Palestina e impunham aos
judeus, mesmo pela força, a cultura helénica. Muitos judeus, seduzidos pelo
brilho da cultura grega, abandonavam a fé dos pais e assumiam comportamentos consentâneos
com a “modernidade”. Neste contexto, Jesus Ben Sirá apresenta uma síntese da
religião e da sabedoria de Israel, mostrando que é no respeito pela sua fé que
os judeus podem descobrir a via da liberdade e da felicidade.
O
texto dá indicações práticas que os filhos devem ter em conta, nas relações com
os pais.
A
palavra que preside a este conjunto de conselhos é a palavra “honrar” (repetida
cinco vezes, nestes versículos). A expressão “honrar os pais” leva-nos ao
Decálogo do Sinai (“honra teu pai e tua mãe”), em que o verbo “kabad” se traduz
por “dar glória”, “dar peso”, “dar importância”. Assim, “honrar os pais” é
dar-lhes o devido valor, porque são os instrumentos de Deus, fonte de vida, o
que deve conduzir os filhos à gratidão, que não é só declaração de intenções,
mas um sentimento que implica atitudes práticas. E Ben Sirá aponta algumas: ampará-los
na velhice e não os desprezar, nem abandonar; assisti-los materialmente – sem
inventar desculpas –, quando já não podem trabalhar; não fazer nada que os
desgoste; escutá-los, tendo em conta os seus conselhos; ser indulgente para com
as limitações de idade ou de doença.
É
natural que, por trás destas indicações aos filhos, esteja a preocupação de
manter vivos os valores tradicionais, que os antigos preservam e que os jovens,
por vezes, com alguma ligeireza, negligenciam.
Como
recompensa desta atitude de “honrar os pais”, Ben Sirá promete o perdão dos
pecados, a alegria, a vida longa e a atenção de Deus. Numa altura em que a
noção de vida eterna ainda não entrou na catequese de Israel, tal recompensa é
vista como a forma de Deus gratificar o comportamento do justo, enquanto filho
que cumpre os deveres para com os pais.
***
No Evangelho (Mt
2,13-15.19-23), o evangelista retrata a família de Jesus, família que conta com
Deus e que vive de Deus, família unida, solidária, fraterna, onde cada um conta
com o apoio incondicional dos outros, onde ninguém é descartado, nem deixado
para trás, onde cada um é querido, cuidado, protegido e amado – enfim, família
capaz de superar as provas e crises da vida.
O
interesse fundamental das primeiras gerações cristãs não se centrou na infância
de Jesus, mas na sua proposta de salvação. Assim, a primeira catequese cristã
conservou, especialmente, as recordações da vida pública e da paixão, morte e
ressurreição do Senhor. Só mais tarde, houve curiosidade sobre os primeiros
anos da vida de Jesus. Recolheram-se e ordenaram-se, então, informações
históricas da sua infância, que serviram de base a Mateus e a Lucas, para tecerem,
a partir delas, reflexões sobre o mistério de Jesus: a sua pessoa, a sua
origem, a sua missão, a razão da sua presença no meio dos homens.
Porém,
a preocupação fundamental destes evangelistas, ao redigirem o “Evangelho da
Infância de Jesus, era de escopo teológico e catequético. E recorreram, para
construir as suas narrativas, a métodos que os rabis utilizavam para explorar e
comentar o texto bíblico e que incluíam histórias fantasiosas, interpretações,
comparações, enlaçadas com tipologias (correspondência entre factos e pessoas
do Antigo Testamento e factos e pessoas do Novo Testamento), manifestações
apocalípticas (anjos, aparições, sonhos) e outros recursos literários. O
resultado desse trabalho é texto belo, algo ingénuo, artificioso e com base
histórica discutível, mas que nos faz mergulhar no mistério de Jesus, o Deus
que veio ao encontro dos homens e encontrou o seu lar na humilde família de
Nazaré.
Mateus
situa o episódio do trecho em apreço nos dias do rei Herodes, o Grande, que
nasceu por volta de 73 a.C. e morreu no ano 4 a.C., cerca de dois anos após o
nascimento de Jesus. Tornou-se rei da Judeia no ano 40 a.C.; mas, a partir
dessa data, foi recebendo das autoridades romanas jurisdição sobre outros
territórios, até reinar em toda a Palestina. Embora distinguido pelas suas grandes
obras, foi rei cruel e despótico, que, para defender o trono, cometeu atos de
extrema violência, inclusive contra membros da própria família.
Mateus,
nos episódios que antecedem o trecho em causa, já disse que Jesus é o Messias,
o descendente de David, Aquele pelo qual Deus concretizará as promessas feitas
a Abraão e à sua descendência; é o Filho de Deus, nascido de Maria, por obra do
Espírito Santo, que vem ao encontro dos homens para ser o “Deus connosco” e
para oferecer a salvação a todos os que O acolherem; é o “rei dos judeus” que
nasceu em Belém, terra de David, e que recebe a homenagem dos pagãos vindos de
longe para O conhecerem. E, para ficar completo o quadro de Jesus que Mateus
nos quer desenhar, o Evangelista prossegue, com a narrativa em apreço.
A
narração desenvolve-se em duas cenas. A primeira leva-nos até ao ano 7 ou 6
a.C., dois ou três anos antes da morte do rei Herodes, o cruel que, não suportando
rivais, que vê em Jesus uma ameaça e pretende eliminá-Lo. Porém, Deus avisa
José, em sonhos, do perigo que o Menino corre e indica o lugar onde a família
de Jesus deve buscar segurança: a província romana do Egito, território fora da
jurisdição de Herodes, asilo conhecido dos que fugiam da perseguição do tirano
que governava a Palestina. José “levantou-se, de noite, tomou o Menino e a mãe
e partiu para o Egito, onde ficou até à morte de Herodes”.
A
segunda cena leva-nos até ao ano 4 a.C., da morte do rei Herodes. Jesus teria, nessa
altura, dois ou três anos. Entra em cena o anjo do Senhor que, em sonhos, avisa
José da morte de Herodes e o convida a regressar a Israel. José procedeu
conforme as indicações; mas, ao saber que Arquelau, um dos filhos de Herodes,
reinava na Judeia, “teve receio de ir para lá. Retirou-se para a região da
Galileia, no Norte da Palestina, e foi esconder-se em Nazaré, povoação
praticamente incógnita, com cerca de quinhentos habitantes, situada no meio das
montanhas do Norte do país. Na verdade, Arquelau revelou-se governador
impiedoso e despótico, que governou a Judeia e a Samaria, de 4 a.C. a 6 d.C.,
até ser deposto por causa da sua crueldade.
Mateus
vê, nestes factos, claro paralelismo entre Jesus e Moisés, o profeta que Deus
chamou e enviou para libertar o Seu povo da escravidão do Egito. O massacre das
crianças de Belém pelo rei Herodes recorda a ordem do faraó de atirar ao rio
Nilo os bebés hebreus do sexo masculino; a fuga do menino Jesus pelo deserto,
para escapar da morte, lembra a fuga do jovem Moisés através do deserto para
salvar a vida; o regresso de Jesus do Egito, quando já tinha morrido Herodes,
recorda o regresso de Moisés ao Egito, quando já tinham morrido os que o
queriam matar. E a fuga da Sagrada Família para o Egito, para salvar a vida do
Menino, lembra a ida para o Egito da família de Jacob para escapar da fome; a
indicação de Deus a José para voltar com a família para a Terra Prometida
recorda a ação libertadora de Deus em favor dos escravos hebreus prisioneiros
no Egito; a caminhada da Sagrada Família no regresso a Israel, lembra o caminho
percorrido pelo povo de Deus até à terra da liberdade.
Assim,
o Menino que Deus salva das maquinações de Herodes é o enviado de Deus que os
grandes da Terra não derrotarão. É o novo Moisés, o libertador enviado a salvar
o povo de Deus. Pela ação de Jesus nascerá um novo povo de Deus, que deixará, em
definitivo, a terra da escravidão, do pecado e da morte, guiado por Jesus para
iniciar a vida nova na Terra da vida e da liberdade.
No
final da narração, após dizer que a família de Jesus foi estabelecer-se em
Nazaré, Mateus deixa um comentário de difícil interpretação: (Isso aconteceu)
“para se cumprir o que fora anunciado pelos Profetas: “há de chamar-Se
Nazareno”. Não sabemos a que citação profética se refere. Será a Jz 13,5 (“esse
menino será nazireu de Deus desde o seio da sua mãe) ou a Is
11,1 (“brotará um ramo do tronco de Jessé, um rebento – em hebraico: “neçer” –
brotará das suas raízes”)? Embora estas citações nada tenham a ver com Nazaré,
Mateus usou-as por semelhança fonética; o seu objetivo era mostrar aos judeus
que Jesus cumpriu as Escrituras e o desígnio de Deus.
A
família de Jesus, Maria e José é uma família pobre e humilde que, por causa da
violência e da crueldade dos poderosos, tem de deixar o lar e buscar asilo num
país estranho. Como tantas outras famílias pobres de ontem e de hoje, esta
família experimenta a perseguição, a clandestinidade, a rejeição, a
indiferença, as atribulações dos exilados e dos descartados. É caso para
meditar o ocorrido com Jesus, num tempo de rejeição global de migrantes, de refugiados,
de exilados, com a anuência cómoda de muitos cristãos, que não veem que Jesus
foi migrante à força, porque ameaçado e perseguido. Porém, segundo Mateus, os
membros desta família não estão sozinhos na luta contra a maldade dos grandes:
Deus está do lado deles, em todos os momentos, indica-lhes a via a percorrer,
protege-os, anima-os, guia-os, salva-os. Não é família condenada e perdida, mas
família que está nas mãos de Deus e guiada pela amorosa solicitude de Deus.
Mas,
além de contarem com Deus, os membros desta família contam uns com os outros. A
Família de Nazaré – que pode ser modelo das nossas famílias – é família unida,
solidária, fraterna. Os seus membros caminham lado a lado, enfrentam, juntos,
os perigos, as incomodidades, as incertezas, as crises, até mesmo o exílio em
terra estrangeira. Na família de Nazaré vive-se o amor que supera todos os
egoísmos e que se faz dom absoluto ao outro.
A
Sagrada Família vive de Deus e cultiva forte ligação com Deus. Escuta a Palavra
de Deus, vive atenta aos sinais de Deus, segue as indicações de Deus, vive de
olhos postos em Deus. O exemplo da Família de Nazaré mostra-nos que família que
vive ao ritmo de Deus é família unida por laços fortes, que nem as maiores
tempestades da vida quebrarão.
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Na segunda
leitura (Cl 3,12-21), Paulo de Tarso lembra que a opção por Cristo deve
traduzir-se, no quotidiano, em comportamentos compatíveis com a realidade “Homem
Novo”. Vivendo ao ritmo do amor, segundo as indicações de Cristo, devemos
vestir-nos “de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e
paciência”, cuidando uns dos outros e perdoando as debilidades. E seremos testemunhas
e arautos da fraternidade.
Os
filhos e filhas de Deus devem imitar o ser de Deus, que lhes foi revelado em
Cristo, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens e que é a referência
fundamental à volta da qual se desenrola e se constrói a vida dos discípulos.
Quem adere a Cristo e se dispõe a segui-Lo, deve vestir a mesma roupa que
Cristo vestia, ou seja, o estilo de vida do seguidor de Cristo deve, estar
marcado por atitudes de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de
paciência, privilegiando, na relação com os irmãos, o perdão, a compreensão, a
indulgência. Quem está unido a Cristo, quem vive “em Cristo”, deve ser capaz
de, em todas as circunstâncias, amar sem medida, amar até ao dom total de si,
como Cristo fez.
Catálogos
de exigências similares também apareciam nos discursos éticos dos gregos, mas a
novidade é a fundamentação: tais exigências resultam da íntima relação com
Cristo; viver em Cristo implica viver, como Ele, no amor total, no serviço, na
disponibilidade, no dom da vida.
Apresentado
o ideal da vida cristã, o epistológrafo aplica o que disse ao âmbito concreto
da vida familiar. Às mulheres, recomenda o respeito para com os maridos (a
submissão das esposas deve ser vista no contexto e na prática da época); aos
maridos, convida o amor às esposas, excluindo qualquer atitude de domínio sobre
elas; aos filhos, recomenda a obediência aos pais; aos pais, com intuição
pedagógica, pede que não sejam excessivamente severos para com os filhos, porque
isso pode impedir o normal desenvolvimento das suas capacidades e da sua
autonomia. Enfim, é a “caridade” (“agapê”) – entendida como amor de doação, de
entrega, a exemplo de Jesus que amou até ao dom da vida – que deve presidir às
relações entre os membros da família. Também no espaço familiar se deve
manifestar o Homem Novo, transformado por Cristo e que vive segundo Cristo.
***
A Família de Nazaré não é família sem
problemas, onde a vida não dói: é família perseguida e ameaçada, que tem de
abandonar a comodidade do lar, para viver na clandestinidade, que enfrenta a
pobreza, a privação, a precariedade, talvez a hostilidade da gente da terra
onde procurou refúgio. Contudo, é família que as vicissitudes e crises não
derrotam, pois os seus membros mantêm-se unidos, solidários, dispostos a
enfrentar, juntos, os riscos e perigos, disponíveis para qualquer sacrifício,
quando a vida de algum está em causa. Não vivem em compartimentos estanques,
onde a dor do outro não chega; não se fecham nos seus mundos pessoais, surdos e
indiferentes ao que se passa à volta. Sentem-se responsáveis pela vida do
outro, estão dispostos a dar a vida pelo outro, amam-se verdadeiramente. Também
somos assim em família?
A Sagrada Família é família onde Deus está,
quotidianamente, presente e é a sua referência. Ali escuta-se a Palavra de
Deus, aprende-se a ler os sinais de Deus, faz-se a experiência do amor de Deus.
É na escuta da Palavra de Deus que a família de Nazaré encontra força para
vencer as crises e contrariedades; é na escuta de Deus que a família de Jesus,
Maria e José discerne as sendas a percorrer; é na experiência de Deus que a
Sagrada Família descobre e acolhe os valores que estão na base do seu projeto
familiar. Também as nossas famílias vivem assim?
A
Família de Jesus, Maria e José é família que obedece a Deus. Após escutar as
indicações de Deus, age em conformidade. Não discute, não argumenta, não exige
explicações, não pede garantias. Confia incondicionalmente em Deus e dispõe-se
a concretizar o desígnio de Deus. Abandona o espaço onde se sente confortável e
enfrenta o desconhecido com a confiança de quem está seguro da fiabilidade de
Deus. Ora, é o cumprimento obediente do desígnio de Deus que assegura a esta
família um futuro de vida, de tranquilidade e de paz. Acreditamos nisto?
Quando,
numa família, Deus conta, os valores de Deus passam a ser, para todos os
membros da comunidade familiar, as marcas que definem o sentido da existência.
O espaço familiar torna-se a escola onde se aprende o amor, a solidariedade, a
partilha, o serviço, o diálogo, o respeito, o perdão, a fraternidade universal,
o cuidado da criação, a atenção aos mais frágeis, o compromisso, o sacrifício, a
entrega e a doação. Perfilhamos estes valores?
Vivemos
em tempo difícil, que não favorece a construção de projeto familiar coerente
com os valores de Deus. Muitos pais, afundados em dificuldades, ultrapassados pela
sociedade de egoísmo, de bem-estar, de indiferença, de incredulidade, não sabem
como agir para darem aos filhos educação responsável, sã, solidária, coerente
com a fé. Sentem a ajuda de alguém?
A
família de Jesus foi obrigada a abandonar a sua terra, para procurar segurança
e paz em terra estrangeira. Conheceu a situação dos exilados, dos refugiados,
dos sem papéis, dos perseguidos, dos rejeitados, dos que têm de lutar para
terem lugar onde se sintam humanos e onde possam viver com a dignidade que
merecem. Vinte e um séculos depois, há famílias que percorrem caminho idêntico:
atravessam os mares em embarcações frágeis e sobrelotadas e arriscam a vida
para tentar escapar da miséria, da violência, da fome; palmilham continentes a
pé, enfrentam o pó dos caminhos e a violência das máfias, são detidos por muros
que erigem fronteiras e que os separam do sonho de uma vida melhor; conhecem
todos os cantos e esquinas da clandestinidade, da miséria, da rejeição, do
sofrimento. E nós, cristãos, fazemos coro com a rejeição! Mea Culpa!
***
Por
tudo, é bom cantar com e como o Salmista, em atitude de penitência e de gratidão:
“Ditosos
os que temem o Senhor, / ditosos os que seguem os seus caminhos.”
“Feliz
de ti, que temes o Senhor / e andas nos seus caminhos. / Comerás do trabalho
das tuas mãos, / serás feliz e tudo te correrá bem.
“Tua
esposa será como videira fecunda / no íntimo do teu lar; / teus filhos serão
como ramos de oliveira / ao redor da tua mesa.
“Assim
será abençoado o homem que teme o Senhor. / De Sião te abençoe o Senhor: / vejas
a prosperidade de Jerusalém / todos os dias da tua vida.
2025.12.28
– Louro de Carvalho