O
presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, no dia 21 de
janeiro, no Fórum Económico Mundial (FEM) de Davos, anunciou a existência das
bases para um “acordo de entendimento”, em relação à Gronelândia, após reunião
com Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO),
e confirmou que não irá impor tarifas a oito países da Europa, que estavam
previstas para 1 de fevereiro.
Na
sua ótica, os dois líderes alcançaram “o quadro para um futuro acordo, em
relação à Gronelândia”, durante o que descreveu como discussões produtivas,
beneficiando o potencial acordo os EUA e todos os membros da aliança atlântica.
A
mesma informação do inquilino da Casa Branca foi vertida no seu Truth Social.
As
tarifas começariam em 10% sobre os produtos provenientes de oito países europeus
que tinham enviado militares para a Gronelândia, subindo para 25%, em junho, mantendo-se,
até os referidos países europeus apoiarem a aquisição da Gronelândia pelos EUA
à Dinamarca.
Donald
Trump revelou que o vice-presidente dos EUA, James David Vance, o secretário de
Estado Marco Rubio, o enviado especial, Steve Witkoff, e outros funcionários
iriam tratar das negociações, respondendo diretamente perante ele.
Esta
última revelação foi feita horas depois do discurso do líder norte-americano,
em Davos, onde repetira que os EUA precisam da Gronelândia para a segurança
nacional e global, reforçando que os membros da NATO deviam concordar com o
controlo dos EUA. No entanto, excluiu a possibilidade do uso a força para
assumir o controlo daquela ilha ártica.
Por
seu turno, o secretário-geral da NATO – de quem o inquilino da Casa Branca publicou
uma mensagem privada em que se compromete a trabalhar para encontrar uma
solução – apelou à “diplomacia ponderada”, durante os seus comentários, no dia
21, reconhecendo as tensões no seio da aliança e manifestando o seu empenho em
encontrar soluções para a Gronelândia.
É
de recordar que as ameaças tarifárias desencadearam reuniões de emergência da União
Europeia (UE), agendadas para o dia 22, e discussões sobre medidas de
retaliação. Na verdade, a campanha de Donald Trump para o controlo da Gronelândia
abriu a brecha mais profunda entre Washington e os seus aliados europeus, em
décadas.
O
presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a ativação do instrumento
anticoerção da UE, enquanto a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der
Leyen, avisou que a resposta do bloco seria “inabalável, unida e proporcional”.
Enquanto
o presidente dos EUA, discursava perante os líderes mundiais no FEM, o antigo
presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, escolheu o programa
emblemático da Euronews, Europe Today, para comentar as ameaças dos
EUA para ocupar a Gronelândia, frisando que a UE “não pode ser submetida ao
comportamento neocolonial” norte-americano. Nesse sentido, o líder da Comissão
Europeia, durante o primeiro mandato de Trump, apelou aos europeus a que
recorram à diplomacia para resolver as tensões com os EUA, salientando que a UE
“tem cartas na mão”, pelo que, podendo usar todos os instrumentos à sua
disposição, “que prejudicariam, profundamente, a economia dos EUA”, não
deve “hesitar em recorrer a essas ferramentas, se necessário”.
É
uma referência ao instrumento anticoerção que alguns líderes da UE,
em particular, o presidente francês, estão a tentar utilizar contra os EUA.
Apelidado
de “bazuca”, o instrumento anticoerção é uma ferramenta poderosa adotada em
2023 que permite à UE punir países hostis, por via de “chantagem económica”, limitando
as licenças comerciais e bloqueando o acesso ao mercado único.
Jean-Claude
Juncker tem experiência em lidar com Donald Trump: em 2018, quando se
aproximava uma guerra comercial, conseguiu amenizar o conflito, mas considera
que o contexto é, agora, muito diferente: “Tornou-se cada vez mais difícil
falar com ele, de forma amigável”, observou, para instar a UE a ser mais
assertiva, em relação aos EUA, mostrando que “estamos prontos para
defender os interesses europeus”.
E,
questionado sobre o que faria se fosse presidente da Comissão Europeia, respondeu
que enfrentaria o presidente dos EUA e explicaria que a UE “não pode ser
sujeita a qualquer tipo de comportamento neocolonial”. “A UE não é escrava dos
Estados Unidos da América. Ele sabe disso, mas não leva isso em consideração,
pelo menos, publicamente”, assegurou Juncker, acrescentando que o discurso, de
uma hora, de Trump foi “menos agressivo” do que esperava, mas “não foi
tranquilizador”.
De
facto, como refere o ex-presidente do executivo europeu e conselheiro de Ursula
von der Leyen, Donald Trump descartou a possibilidade de ataque militar à
Gronelândia, mas reafirmou a necessidade de assumir o controlo do
território pela via negocial, referiu a Gronelândia como “gigantesco pedaço de
gelo” e, repetidamente, chamou-a de “Islândia”.
Por
último, Jean-Claude Juncker afirmou que as ameaças de Donald Trump podiam
levar ao fim da aliança transatlântica. Com efeito, na sua ótica, “se um aliado
da NATO ataca ou ameaça outro aliado da NATO, isso dará início a um processo
que poderá culminar no colapso da NATO”.
***
O
presidente dos EUA chegou a Davos, de helicóptero, entrando numa atmosfera
tensa, quando os líderes europeus e aliados se opuseram às suas exigências de
controlo da ilha Ártica que faz parte do Reino da Dinamarca.
Os
EUA estão “a tentar negociar, imediatamente”, a aquisição da Gronelândia,
afirmou o líder norte-americano, no seu discurso especial, na cimeira política
e empresarial mundial de Davos. E, porfiando o seu “enorme respeito pelo povo
da Gronelândia e pelo povo da Dinamarca”, abordou o tema do território insular
do Ártico, que apelidou de “grande e belo pedaço de gelo”, assegurando que “nenhuma
nação ou grupo de nações está mais bem posicionado para defender a Gronelândia
do que os Estados Unidos”.
A
justificar a sua asserção protecionista, evocou a “Segunda Guerra Mundial,
quando a Dinamarca caiu perante a Alemanha, em apenas seis horas de combate”.
Então, os EUA, enviaram as suas forças, “para manter o território da
Gronelândia, com grandes custos e despesas”. Porém, após, a guerra que ganharam,
estupidamente, devolveram o controlo da ilha à Dinamarca. “Como fomos estúpidos!
Devolvemo-la. Mas como eles são ingratos agora!”, considerou o orador.
O
líder norte-americano sublinhou que o desejo de Washington de comprar a
Gronelândia não é ameaça à NATO, que criticou, dizendo que os EUA “dão tanto e
recebemos tão pouco em troca”. “O que recebemos da NATO é nada, depois de a
termos financiado a 100%. E o que estamos a pedir em troca é a Gronelândia”,
discorreu.
Donald
Trump abriu o seu discurso, afirmando-se feliz por estar de volta à cidade
turística dos Alpes suíços, para se dirigir a “muitos líderes empresariais
respeitados, muitos amigos, alguns inimigos”. E, na primeira parte, elogiou o
sucesso da sua administração, afirmando que, “há apenas um ano, sob o comando
dos democratas radicais de esquerda, éramos um país morto”, mas, agora, “a
economia está a crescer”.
Referiu-se
à Europa, sustentando que “não está a ir na direção certa”. “Adoro a Europa,
quero vê-la fazer o bem. […] Não quero insultar ninguém. Sou oriundo da Europa,
da Escócia e da Alemanha, a 100%. E nós acreditamos, profundamente, nos laços
com a Europa, quero vê-los a ter um ótimo desempenho”, considerou.
Sobre
o tema da energia, criticou o que disse serem os efeitos dos governos de
esquerda que causam prejuízos, com “preços extremamente elevados”, em países,
como a Alemanha e o Reino Unido, que rotulou de “New Green Scam”. “É suposto
ganhar dinheiro com a energia, não perder energia... Quero que a Europa se saia
bem, quero que o Reino Unido se saia bem. Há moinhos de vento por todo o lado e
são uns falhados. “Matam pássaros, estragam paisagens... Pessoas estúpidas
compram-nos”, perorou Donald Trump.
O
presidente norte-americano chegou a Davos de helicóptero, depois da partida
atrasada de Washington, devido a um pequeno problema elétrico com o Air Force
One, entrando numa atmosfera tensa, quando os líderes europeus e aliados se
opuseram às suas exigências de controlo da Gronelândia, que diz ser vital para
a segurança dos EUA e do Mundo.
O
helicóptero aterrou depois de um voo de cerca de 40 minutos para a
cidade-resort de esqui, nos Alpes suíços. Ao descer, o comboio presidencial
passou por uma mensagem escrita na neve numa encosta próxima, onde se lia “Stop
wars now”. Na noite anterior, uma das montanhas de Davos foi iluminada com a
mensagem: “Não aos reis”.
Donald
Trump disse aos jornalistas que iria realizar reuniões sobre a Gronelândia,
durante o encontro, mas não especificou até onde estava disposto a ir, para
adquirir o território.
Os
aliados mantêm-se unidos contra as pretensões dos EUA.
Assim,
o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, foi aplaudido de pé, ao declarar
que o Mundo está a viver “uma rutura, não uma transição” no sistema global
liderado pelos EUA.
Antes
de Carney, o presidente francês alertou contra as tentativas dos EUA de “subordinar
a Europa” e considerou “inaceitáveis” as ameaças tarifárias. O secretário-geral
da NATO apelou a “diplomacia ponderada”, no meio das tensões, devido às
reivindicações de Trump sobre o território de um aliado. A França anunciou que
estava a convocar um exercício militar na Gronelândia e que estava pronta a
contribuir. Porém, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, disse aos
líderes europeus que respirassem fundo e evitassem a “raiva reflexiva”, antes
de ouvirem o que Trump tinha para dizer. E este rejeitou a perspetiva de retaliação
comercial europeia, afirmando que lhe basta “ir ao encontro da mesma, para que
esta se desfaça em ricochete”.
***
O
presidente dos EUA faz jogo duplo e tanto avança como recua. No dia 21, antes
da viagem para Davos, fez inesperada aparição na sala de imprensa da Casa
Branca e, ao perguntarem-lhe até onde estava disposto a ir para se apoderar da
Gronelândia, respondeu: “Vocês vão descobrir.” Ao mesmo tempo, manteve-se
confiante em que os aliados da NATO “vão encontrar uma solução”. “Penso que
vamos encontrar uma solução em que a NATO ficará muito satisfeita e em que nós
ficaremos muito satisfeitos. Temos muitas reuniões agendadas sobre a
Gronelândia e penso que as coisas vão correr muito bem”, afirmou, sem fornecer
pormenores.
Estes
comentários foram feitos, apesar da firmeza dos líderes europeus na defesa do
território dinamarquês, nos últimos dias.
No
fim de semana anterior, o líder norte-americano tinha anunciado novas tarifas a
oito países europeus que enviaram tropas de reconhecimento para a Gronelândia,
mas rejeitou a ideia de que punha em risco o acordo de 2025 com a UE, no qual
os aliados prometeram aumentar o investimento nos EUA, dizendo: “Eles precisam
muito desse acordo connosco.”
A
presidente da Comissão Europeia prometeu resposta da UE “inabalável, unida e
proporcional”.
A
tomada de posições mais firmes contraria a abordagem de muitos líderes europeus,
desde que Trump regressou ao cargo, principalmente, apaziguando-o, para tentarem
ficar nas suas boas graças, enquanto trabalham por outras vias para lograrem um
compromisso.
Trump
diz que os EUA precisam da Gronelândia, para dissuadir possíveis ameaças da
China e da Rússia, mas a insistência em que é inaceitável tudo o que não seja a
posse da Gronelândia pelos EUA está a testar os limites da estratégia mais
suave.
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Depois
das ameaças de Donald Trump com tarifas, caso os países rejeitassem a sua
decisão em relação à Gronelândia, os legisladores europeus concordaram, no dia
21, em congelar o acordo comercial entre a UE e os EUA, celebrado no verão de
2025 (após semanas de tensões comerciais resultantes da política agressiva de
tarifas), aumentando a pressão sobre as relações atlânticas.
Apesar
de ter sido alcançado um acordo político, o acordo necessitava da implementação
formal por parte do Parlamento Europeu (PE). Por isso, os eurodeputados
responsáveis pelo dossiê reuniram-se, na tarde do dia 21, e decidiram suspender
o processo, adiando, oficialmente, a votação prevista para a semana seguinte, na
Comissão do Comércio Internacional do PE. Com efeito, sustentam que a ameaça
constitui uma violação do acordo entre a UE-EUA, que já impõe direitos
aduaneiros de 15% sobre os produtos da UE, comprometendo-se o bloco a reduzir
para 0% os seus direitos aduaneiros sobre as importações industriais dos EUA.
Os
legisladores têm estado a preparar alterações ao acordo, nestes dias, sendo que
muitos já o descrevem como desequilibrado a favor dos EUA.
Já
no dia 17, Bernd Lange, o eurodeputado alemão que preside à comissão
parlamentar do comércio, afirmou que os trabalhos sobre o acordo deviam ser
suspensos – uma posição adotada, então, pelos líderes dos principais grupos
políticos do PE – Partido Popular Europeu (PPE), Socialistas e Democratas (S&D)
e Renew Europe (RE).
Os
líderes da UE reuniram-se, no dia 22, à noite, em Bruxelas, para preparar a
resposta do bloco às ameaças de Trump, que muitos veem como uma forma de
chantagem.
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Entretanto,
a Europa pondera trégua incómoda com os EUA, em relação à Gronelândia. Assim, a
dita reunião ocorreu no contexto da recuperação europeia, após vários dias de
sabotagem dos EUA que trouxera a iminência do fim das relações transatlânticas
e, mesmo, do fim da NATO. O perigo da anexação da Gronelândia parece eliminado,
mas a confiança entre os aliados dos EUA foi gravemente abalada, situação que
pode tornar-se permanente.
Um
acordo de última hora para transferir o destino do protetorado dinamarquês para
um quadro diplomático destinado a aumentar a influência dos EUA na segurança do
Ártico desanuviou a situação, pelo menos, por agora. Todavia, embora haja
alívio, não há garantias de que o assunto não volte a surgir, de forma
igualmente hostil, no futuro.
Entretanto,
parece estar de pé a ideia, várias vezes enunciada, pela presidente da Comissão
Europeia de que a UE prefere a via negocial, mas não hesita em tomar medidas de
força, caso seja necessário. Aliás, a Dinamarca e a Gronelândia estão disponíveis
para negociações políticas, mas sem alienarem a soberania sobre o território.
***
Sim,
a defesa e a segurança do Ártico passa pela via negocial e cooperante, não pela
transferência de soberanias.
2026.01.22
– Louro de Carvalho