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sexta-feira, 1 de maio de 2020

Maio, o mês mariano, homenageia com ênfase Maria, mãe de Jesus


No mês de maio, milhões de pessoas participam em romarias e peregrinações a santuários marianos, fazem orações especiais a Maria e oferecem-Lhe presentes espirituais e materiais.
De facto, em maio, a homenagem da Igreja na dimensão de povo piedoso volta-se para Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa, Rainha dos homens e dos anjos. O mês mariano, mais do que marcado por várias aparições da Virgem no Mundo, é palco espiritual do fervor devoto dos católicos para a sublime figura que Ela representa de amor, fé, obediência à Deus e compaixão.
Identificada no Novo Testamento e no Alcorão, Maria recebe as designações de Nossa Senhora, Santíssima Virgem e Virgem Maria. Estava noiva de José quando recebeu a visita do anjo Gabriel, que lhe anunciou que fora a escolhida para mãe do filho de Deus. Pelo seu sim, expresso na frase optativa “Faça-se em mim a tua vontade”, iniciou-se o plano de salvação da humanidade com a conceção de Jesus por obra e graça do Espírito Santo.
Exemplo divino-humano de figura materna, Maria esteve bem presente em cada fase da vida de Jesus como mãe amorosa e dedicada a zelar por seu filho amado, acompanhou-O nos seus primeiros passos, testemunhou os seus primeiros sorrisos e zelou por cada sua noite de sono. Com José – pai terreno de Jesus – ensinou-o na fé, amor, lei de Deus e na condição de homem justo. Como exemplo de fortaleza, pois, face às dificuldades, não se deixou abalar na fé. Aceitou sem medo o desígnio de Deus, enfrentou cada momento difícil e nunca abandonou a oração. Quando Jesus foi crucificado, estava lá sentindo na alma a dor de ver brutalmente sacrificado o mesmo Jesus que tinha transportado no ventre e carregado nos braços. É inimaginável a dor da mãe ao ver o filho torturado, humilhado e condenado à morte e morte tão cruel. No auge da paixão, Jesus fez de Maria a mãe da humanidade: “Eis o teu filho…Eis a tua mãe”.
Falando das aparições da Senhora, é de advertir que não se limitam a apenas relatos milenares. Ao longo da História, Maria reapareceu em vários lugares e eventos. São famosas as aparições da Virgem de feição particular, muitas delas reconhecidas e veneradas pela Igreja Católica por estimularem no mundo a fé, a esperança, a compaixão e a solidariedade. Ocorrem em épocas conflituosas, mostrando o maternal carinho de Maria e a sua grande preocupação para com os seus filhos, como têm ocorrido para acentuar verdades da fé católica. Como nossa intercessora junto de Jesus, apresenta-Lhe os nossos dramas, pecados, necessidades e êxitos, expressos na frase bíblica “Não têm vinho”, e, como missionária de Jesus junto de nós e nossa conselheira, avisa que não O ofendamos, que façamos o que Ele manda e ajuda a resolver os problemas existentes ou traz conforto e aponta alternativas aos filhos que sofrem.
Podem mencionar-se as aparições de Guadalupe e Aparecida, vindas de Maria em épocas de escravidão e sofrimento de índios e negros na América Latina; as de Nossa Senhora Auxiliadora que protegeu a Igreja no conflito da guerra; as de Lourdes, a confirmar o dogma da Imaculada Conceição; e as de Fátima, a alertar a humanidade para os acontecimentos que viriam à tona.
***
Pelo século XII, a Igreja Católica, instaurou a tradição de Tricesimum ou a devoção de 30 dias a Maria. A época começou por incidir nos meses de setembro e outubro (nalguns lugares de 15 de agosto a 14 de setembro), mas, por força da coincidência do mês de maio com o Tempo Pascal e por maio ser, no auge da primavera, o mês das flores, atinou-se neste mês como o mais apto para celebrar a Mãe de Deus, até em consonância com a tradição antropológico-cultural. Com efeito, ao longo da história antecristã, maio foi o mês de outras homenagens de culturas e épocas. Na Grécia Antiga, nele era celebrada a deusa Artemisa, da fecundidade. Do mesmo modo, a Antiga Roma e a época medieval atribuíam ao mês a celebração da Flora, a deusa da vegetação, por ser o tempo dos começos da primavera. Em Roma, celebravam-se os ‘ludi florales(jogos florais) no fim do mês de abril e pediam sua intercessão.
Na época medieval abundaram costumes similares, tudo centrado na chegada do bom clima e o afastamento do inverno. O dia 1.º de maio era considerado como o apogeu da primavera.
Dedicar o mês de maio a Maria – o “mês das flores” no hemisfério norte – é uma devoção arraigada há séculos. Com sua poesia “Ben vennas Mayo”, das Cantigas de Santa Maria, Afonso X, o Sábio, revela-nos que esta tradição já existia na Idade Média. Porém, foi no século XVII que se combinaram em definitivo o mês de maio e de Maria, fazendo com que esta celebração conte com devoções especiais organizadas em cada dia durante todo o mês. Este costume durou, sobretudo, durante o século XIX e é praticado até hoje.
As formas nas quais Maria é honrada em maio são tão variadas como as pessoas que a honram.
As paróquias costumam rezar diariamente o Terço e muitas preparam um altar especial com um quadro ou imagem de Maria. Além disso, trata-se duma grande tradição a coroação de Nossa Senhora, costume conhecido como Coroação de Maio. Normalmente, a coroa é feita de lindas flores que representam a beleza e a virtude de Maria e lembra que os fiéis se devem esforçar por imitar as suas virtudes. Em algumas regiões, a coroação acontece numa grande celebração e, em geral, fora da Missa. Entretanto, os altares e coroações não são apenas atividades de paróquia: o mesmo pode ser feito nos lares para participar mais plenamente na vida da Igreja. Deve-se preparar um lugar especial para Maria, não por ser tradição ou pelas graças especiais que se podem alcançar, mas porque Ela é nossa Mãe, mãe de todo o mundo e porque se preocupa com todos nós, intercedendo inclusive em assuntos menores.
A Igreja tem sempre incentivado esta devoção, por exemplo recomendando a oração do Rosário, concedendo indulgências e produzindo alguns documentos do Magistério papal, como a encíclica “Mense Maio”, de São Paulo VI, em 1965. São Paulo VI, São João Paulo II, Bento XVI e Francisco estiveram em Fátima em 13 de maio: 1967, 1981, 1991, 2000, 2010 e 2017.
Ao começar o mês de maio em 1979, São João Paulo II declarou em audiência geral:
O mês de maio estimula-nos a pensar e a falar de modo particular d’Ela. De facto, este é o seu mês. Assim, o período do ano litúrgico [Ressurreição] e ao mesmo tempo o mês corrente chamam e convidam os nossos corações a abrirem-se de maneira singular para Maria.”.
O cardeal São John Henry Newman, no seu livro póstumo “Meditações e devoções(1893), dá várias razões por que o mês de maio é propício à devoção mariana, apesar de haver várias festas marianas noutros meses. Escrevendo dum país do hemisfério norte, refere que “é o tempo em que a terra faz surgir a terna folhagem e os verdes pastos, depois do frio e da neve do inverno, da cruel atmosfera, do vento selvagem e das chuvas da primavera”. E, continua a justificar:
Porque os dias se tornam longos, o sol nasce cedo e se põe tarde. Porque semelhante alegria e júbilo externo da natureza são os melhores acompanhantes da nossa devoção Àquela que é a Rosa Mística e a Casa de Deus. (…) Ninguém pode negar que este seja pelo menos o mês da promessa e da esperança. Ainda que o tempo não seja favorável, é o mês que dá início e é prelúdio do verão. (…) Maio é o mês, se não da consumação, pelo menos da promessa, e não é este o sentido no qual mais propriamente recordamos a Santíssima Virgem Maria, a quem dedicamos o mês?”.
Autores como Vittorio Messori veem nesta manifestação de religiosidade a cristianização duma celebração pagã: a dedicação do mês de maio às deusas da fecundidade, já apontada acima. De facto, maio deve o seu nome a Maia, deusa da primavera. Além disso, em muitos países, em maio, comemora-se o Dia da Mãe; e a lembrança dirige-se também à Mãe do Céu.
O Catecismo da Igreja Católica, no n.º 971, a respeito da devoção à Maria Santíssima, afirma:
«Todas as gerações me hão de proclamar ditosa» (Lc 1,48): «a piedade da Igreja para com a santíssima Virgem pertence à própria natureza do culto cristão». A santíssima Virgem «é com razão venerada pela Igreja com um culto especial. E, na verdade, a santíssima Virgem é, desde os tempos mais antigos, honrada com o título de ‘Mãe de Deus’, e sob a sua proteção se acolhem os fiéis implorando-a em todos os perigos e necessidades [...]. Este culto [...], embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração que se presta por igual ao Verbo Encarnado, ao Pai e ao Espírito Santo, e favorece-o poderosamente». Encontra a sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus e na oração mariana, como o santo rosário, «resumo de todo o Evangelho».
Também vários Papas na história da Igreja enfatizaram a importância de se rezar o rosário.
São João Paulo II fala do rosário nos termos seguintes:
O Rosário é […] uma oração profundamente cristológica. Na sobriedade das suas partes, o Rosário consolida-se da profundidade da Boa Nova, da qual ele é quase um resumo. […] Com o Rosário, o povo cristão anda na Escola de Maria para se deixar guiar, contemplando a beleza do rosto de Cristo e experienciando a profundidade do Seu amor. Ao contemplar os mistérios do Rosário, o crente obtém a graça em plenitude como se recebesse das próprias mãos da Mãe do Redentor.”.
E, falando no âmbito do testemunho pessoal, assegura:  
Esta oração tem assumido um papel importante na minha vida espiritual desde a minha infância e juventude. A oração do Rosário tem-me acompanhado nos momentos de alegria e de provação. Muitas preocupações entreguei nesta oração e, por meio dela, sempre experienciei fortalecimento e consolação.”.
Por seu turno, Bento XVI desafiou:
Se não sabeis como rezar, pedi-Lhe para vos ensinar e pedi à Mãe do Céu para rezar convosco e por vós. A oração do Rosário pode ajudar-vos a aprender a arte de rezar com a simplicidade e profundidade de Maria.”.
E, este ano, a 25 de abril, o Papa Francisco endereçou uma carta a todos os fiéis sobre o mês de maio, em que “o povo de Deus manifesta, de forma deveras intensa, o seu amor e devoção à Virgem Maria”. E, sendo tradição rezar o Terço em casa, com a família (dimensão doméstica), que a pandemia nos forçou a valorizar, inclusive do ponto de vista espiritual, propôs a redescoberta da beleza de rezar o Terço em casa, no mês de maio, juntos ou individualmente, de acordo com as situações, valorizando ambas as possibilidades. E disse que o segredo é a simplicidade e que há bons esquemas para seguir na sua recitação, facilmente encontráveis mesmo na Internet.
Além disso, oferece-nos duas orações à Senhora, que poderemos rezar no fim do Terço. Tudo, porque “a contemplação do rosto de Cristo, juntamente com o coração de Maria, nossa Mãe, tornar-nos-á ainda mais unidos como família espiritual e ajudar-nos-á a superar esta prova”. E o Papa rezará por nós, “especialmente pelos que mais sofrem”, e pede rezemos por ele.
Eis as duas orações: uma currente calamo, mas com muita profundidade; outra, quase poesia:
Oração a Maria
«À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus».
Na dramática situação atual, carregada de sofrimentos e angústias que oprimem o mundo inteiro, recorremos a Vós, Mãe de Deus e nossa Mãe, refugiando-nos sob a vossa proteção.
Ó Virgem Maria, volvei para nós os vossos olhos misericordiosos nesta pandemia do novo coronavírus e confortai a quantos se sentem perdidos e choram pelos seus familiares mortos e, por vezes, sepultados duma maneira que fere a alma. Sustentai aqueles que estão angustiados por pessoas enfermas de quem não se podem aproximar, para impedir o contágio. Infundi confiança em quem vive ansioso com o futuro incerto e as consequências sobre a economia e o trabalho.
Mãe de Deus e nossa Mãe, alcançai-nos de Deus, Pai de misericórdia, que esta dura prova termine e volte um horizonte de esperança e paz. Como em Caná, intervinde junto do vosso Divino Filho, pedindo-Lhe que conforte as famílias dos doentes e das vítimas e abra o seu coração à confiança.
Protegei os médicos, os enfermeiros, os agentes de saúde, os voluntários que, neste período de emergência, estão na vanguarda arriscando a própria vida para salvar outras vidas. Acompanhai a sua fadiga heroica e dai-lhes força, bondade e saúde. Permanecei junto daqueles que assistem noite e dia os doentes, e dos sacerdotes que procuram ajudar e apoiar a todos, com solicitude pastoral e dedicação evangélica.
Virgem Santa, iluminai as mentes dos homens e mulheres de ciência, a fim de encontrarem as soluções justas para vencer este vírus.
Assisti os responsáveis das nações, para que atuem com sabedoria, solicitude e generosidade, socorrendo aqueles que não têm o necessário para viver, programando soluções sociais e económicas com clarividência e espírito de solidariedade.
Maria Santíssima, tocai as consciências para que as somas enormes usadas para aumentar e aperfeiçoar os armamentos sejam, antes, destinadas a promover estudos adequados para prevenir catástrofes do género no futuro.
Mãe amadíssima, fazei crescer no mundo o sentido de pertença a uma única grande família, na certeza do vínculo que une a todos, para acudirmos, com espírito fraterno e solidário, a tanta pobreza e inúmeras situações de miséria. Encorajai a firmeza na fé, a perseverança no serviço, a constância na oração.
Ó Maria, Consoladora dos aflitos, abraçai todos os vossos filhos atribulados e alcançai-nos a graça que Deus intervenha com a sua mão omnipotente para nos libertar desta terrível epidemia, de modo que a vida possa retomar com serenidade o seu curso normal.
Confiamo-nos a Vós, que resplandeceis sobre o nosso caminho como sinal de salvação e de esperança, ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria. Ámen
Oração a Maria
Ó Maria,
Vós sempre resplandeceis sobre o nosso caminho
como um sinal de salvação e de esperança.
Confiamo-nos a Vós, Saúde dos Enfermos,
que permanecestes, junto da cruz, associada ao sofrimento de Jesus,
mantendo firme a vossa fé.


Vós, Salvação do Povo Romano,
sabeis do que precisamos
e temos a certeza de que no-lo providenciareis
para que, como em Caná da Galileia,
possa voltar a alegria e a festa
depois desta provação.

Ajudai-nos, Mãe do Divino Amor,
a conformar-nos com a vontade do Pai
e a fazer aquilo que nos disser Jesus,
que assumiu sobre Si as nossas enfermidades
e carregou as nossas dores
para nos levar, através da cruz,
à alegria da ressurreição. Ámen.

À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus;
não desprezeis as nossas súplicas na hora da prova
mas livrai-nos de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita

2020.05.01 – Louro de Carvalho

domingo, 6 de janeiro de 2019

O grande segredo que está na base de todo o Sermão da Montanha


Na primeira Audiência Geral do ano de 2019, a 2 de janeiro, Francisco deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre o Pai Nosso, iniciado em 5 de dezembro, inspirando-se, desta feita, em Mateus 6,5-6.9-13. Com efeito, reunidos em volta de Jesus no alto da colina, uma “assembleia heterogénea” formada pelos discípulos mais íntimos e por uma grande multidão de rostos anónimos é a primeira a receber a entrega do Pai Nosso.
Verificando a situação do texto do Pai Nosso no centro do Sermão da Montanha, encabeçado pelas Bem-aventuranças, o Papa contempla Jesus a coroar de felicidade pessoas que, tanto naquele tempo como neste, não gozavam de consideração:
Os pobres, os mansos, os que choram, os sedentos de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os artífices da paz, os inocentes perseguidos”.
Deste pórtico discursivo, arrojado inversor dos valores da história, emerge com todo o vigor a novidade do Evangelho. E, se temos o coração bom, predisposto para o amor, compreenderemos que toda e qualquer palavra de Deus deve ser encarnada na vida até às últimas consequências, ou seja, até amar os inimigos e rezar pelos perseguidores, pois, “fazendo assim” – assegura-nos Jesus – tornar-nos-emos “filhos do nosso Pai que está nos Céus”.
E este é o grande segredo que está na base de todo o Sermão da Montanha: “sede filhos do vosso Pai, que está no Céu”. Na verdade, o cristão não é alguém melhor do que os outros; sabe que é pecador como os outros; mas é uma pessoa que para, como Moisés, diante da Sarça-ardente, acolhendo a revelação de Deus, que já não se esconde sob um nome impronunciável, mas pede aos seus filhos que O invoquem com o afetuoso nome de “Pai”. Entretanto, na oração, não podemos agir como os hipócritas, que multiplicam suas orações ateias, pois rezam a si mesmos, rezam para serem admirados pelos homens. Ao invés, a oração cristã não busca outra testemunha credível a não ser a própria consciência. Mas, no segredo da consciência, o Pai vê. E isso basta. Para sermos atendidos, é suficiente pormo-nos sob o olhar de Deus, lembrando-nos do seu amor paterno, porque Deus não precisa de nada – não precisa de sacrifícios para ganhar o nosso favor – pede apenas que, na oração, mantenhamos aberto um canal de comunicação com Ele, para nos descobrirmos sempre como seus filhos muito amados e sabermos construir as arras da fraternidade que deriva da nossa condição de filhos deste Pai comum.
A oração feita em silêncio, do fundo do coração – em espírito e verdade –, e que gera mudanças na vida, e não aquela que desperdiça palavras, é a que verdadeiramente interessa.
De facto, o Evangelho é revolucionário, pois Jesus coroa de felicidade uma série de categorias de pessoas não é considerada. Esta é a revolução do Evangelho e onde está o Evangelho há uma revolução. Não nos deixa quietos, impulsiona-nos. E, como disse o Pontífice, “todas as pessoas capazes de amar, os pacíficos que até então ficaram à margem da história, são, ao contrário, construtores do Reino de Deus”. É como se Jesus dissesse: “Em frente, vós que trazeis no coração o mistério de um Deus que revelou sua omnipotência no amor e no perdão!”.
Daqui brota a novidade do Evangelho. E Francisco sublinhou:
A lei não deve ser abolida, mas precisa de nova interpretação, que a leve de volta ao seu significado original. Se uma pessoa tem um bom coração, está predisposta a amar, então compreende que cada palavra de Deus deve ser encarnada até suas últimas consequências. O amor não tem limites: pode-se amar o próprio cônjuge, o próprio amigo e até mesmo o próprio inimigo com uma perspetiva completamente nova.”.
E, ao invés de mero discurso moral, assegurou o teor teológico destes capítulos:
O cristão não é alguém que se esforça para ser melhor do  que os outros: ele sabe que é pecador como todos. O cristão é simplesmente o homem que para diante da nova Sarça Ardente, da revelação de um Deus que não traz o enigma de um nome impronunciável, mas que pede a seus filhos que o invoquem com o nome de ‘Pai’, para se deixar  renovar por seu poder e de  refletir um raio de sua bondade por este mundo tão sedento de bem, tão à espera de boas notícias.”.
Assim, fica ultrapassado o seu aparente discurso moral, evocando “uma ética tão exigente a ponto de parecer impraticável” e surgem consequências como se vê a seguir.
Coerência cristã. Como explica o Papa, Jesus introduz o ensinamento da oração do “Pai Nosso” distanciando dois grupos do seu tempo, começando pelos “hipócritas”, que rezam nas praças  e sinagogas para serem vistos. São pessoas capazes de tecer orações ateias, sem Deus, fazendo-o para serem admiradas pelos homens”. E o Pontífice critica a incoerência de tantos e tantas hoje:
E quantas vezes nós vemos o escândalo daquelas pessoas que vão à igreja, estão lá todo o dia, ou vão todos os dias, e depois vivem odiando os outros e falando mal das pessoas. Isto é um escândalo. Melhor não ir à igreja. Vive assim como ateu. Mas se vais vai à igreja, vive como filho, como irmão e dá um verdadeiro testemunho. Não um contratestemunho.”.
A oração cristã, pelo contrário, só tem como testemunho credível  a própria consciência, onde se entrelaça intensamente um diálogo contínuo com o Pai.
Rezar com o coração. Tomando Jesus “distância das orações dos pagãos”, que acreditavam ser ouvidos pela força das palavras, Francisco recordou a cena do Monte Carmelo, onde diferentemente dos sacerdotes de Baal que gritavam, dançavam, pediam tantas coisas, foi ao Profeta Elias, que ficou calado, que o Senhor se revelou:
Os pagãos pensam que falando, falando, falando, se reza. Também eu penso nos tantos cristãos que acreditam que rezar – desculpem-me – é falar a Deus como um papagaio. Não! Rezar se faz do coração, de dentro.”.
O “Pai Nosso” – reiterou o Papa Bergoglio – “poderia ser também uma oração silenciosa: basta no fundo colocar-se sob o olhar de Deus, recordar-se do seu amor de Pai; e isto é suficiente para serem ouvidos”. E disse a concluir:
“Que bonito pensar que o nosso Deus não precisa de sacrifícios para conquistar o seu favor! Ele não precisa de nada, nosso Deus: na oração pede somente que tenhamos aberto um canal de comunicação com ele, para nos descobrirmos sempre como seus amados filhos.”.
***
Nada melhor para exaltar a fraternidade do que voltar ao presépio em que está patente à contemplação e adoração o Deus que Se fez nosso irmão em Jesus, que há de crescer e passar pelo mundo fazendo o bem. Por isso, apraz-me comentar as intervenções papais de 1 de janeiro.
Assim, Francisco, antes da recitação do Angelus, na Praça de São Pedro, dizia à multidão que celebramos, 8 dias depois do Natal, a Santa Mãe de Deus e, “como os pastores de Belém, ficamos com os olhos fixos n’Ela e na criança que Ela segura nos braços”. Ora, mostrando-nos Jesus, o Salvador do mundo, a mãe abençoa-nos a todos, abençoa o caminho de todo o homem e de toda a mulher neste ano, que está no início, o que será bom na medida em que tiver cada um recebido a bondade de Deus que Jesus veio trazer ao mundo. E, sobre esta bênção natalina, disse o Papa que é a bênção de Deus que dá sustentáculo aos bons desejos trocados nestes dias. 
Repetindo a fórmula da liturgia que transcreve a antiga bênção com que os sacerdotes israelitas abençoaram o povo, reiterou: “Que o Senhor te abençoe e te guarde. Que o Senhor faça seu rosto brilhar e te dê graça. O Senhor te dirija o rosto e te conceda a paz” (Nm 6,24-26). 
E frisou que o sacerdote repetia, por rês vezes, o nome de Deus, “Senhor”, estendendo as mãos sobre o povo reunido, pois, na Bíblia, o nome representa a realidade invocada. Por isso, “colocar o nome” de Deus sobre uma pessoa, uma família, uma comunidade significa oferecer a força benéfica que dele flui. Por outro lado, a repetição do nome “rosto” do Senhor de cada vez com duas ações – brilhar e agraciar, dirigir-se para ti e dar-te a paz – releva a abundância do dom de Deus e a sua ternura misericordiosa, de que o sacerdote é porta-voz para cada um dos seus ouvintes. É verdade que, de acordo com as Escrituras, o rosto de Deus é inacessível ao homem, o que testifica a transcendência de Deus. Mas a glória de Deus é todo Amor e, embora permaneça inacessível como o Sol que não pode ser olhado, Ele irradia a sua graça sobre toda criatura e, de modo especial, sobre os homens e as mulheres, em que ela fica mais refletida. Mas, pela sua indizível condescendência, em Cristo, torna-se acessível e estabelece o canal para podermos participar na sua vida divina, entrando em devido tempo na comunhão trinitária.
Depois, evocando a passagem da Carta aos Gálatas, referiu:
Quando a plenitude do tempo veio (Gl 4,4), Deus revelou-Se através de um homem, Jesus, ‘nascido de uma mulher’. E aqui voltamos ao ícone da festa de hoje, por onde começamos: o ícone da Santa Mãe de Deus, que nos mostra o Filho, Jesus Cristo, Salvador do mundo. Ele é a Bênção para toda a pessoa e para toda a família humana. Ele, Jesus, é uma fonte de graça, misericórdia e paz.”.
Por isso que o santo Papa Paulo VI estabeleceu que o 1.º de janeiro seja o Dia Mundial da Paz; e Francisco acentua que celebramos “hoje” o quinquagésimo segundo, com o tema a boa política está serviço da paz. Não está a política – frisa – reservada aos governantes: todos somos todos responsáveis ​​pela vida da “cidade”, pelo bem comum; e a política também será boa se cada um desempenhar o seu papel no serviço da paz – um compromisso diário para o qual pedimos a ajuda da Santa Mãe de Deus, a Rainha da Paz. Por isso, exortou a que todos a saudassem dizendo juntos três vezes “Santa Mãe de Deus”. 
Depois do Angelus, lembrando que dirigira, no dia de Natal, uma mensagem de fraternidade a Roma e ao mundo, renovou-a, desta vez, como um desejo de paz e prosperidade. E nós oramos todos os dias pela paz. E teceu agradecimentos ao Presidente da República Italiana, pelas saudações que lhe dirigira, pedindo ao Senhor que lhe abençoe o “alto e precioso serviço ao povo italiano”; e aos romanos e peregrinos que estavam na Piazza San Pietro, tão numerosos. Saudou os participantes do evento “Paz em todas as terras”, organizado pela Comunidade de Santo Egídio e expressou o apreço e proximidade às incontáveis ​​iniciativas de oração e compromisso pela paz que se realizam em toda a parte, promovidas pelas comunidades eclesiais, lembrando, em particular o que aconteceu em Matera.
Finalizou dizendo que, pela intercessão da Virgem Maria, o Senhor nos permite que sejamos artesãos da paz, o que deve começar em casa, na família e estender-se a todos os dias do ano novo. E desejou novamente a cada um “um ano bom e sagrado”. 
***
Na homilia da Solenidade, o Papa Francisco desenvolveu o discurso em torno das seguintes expressões: maravilhar-se; deixar-se olhar; deixar-se abraçar; e deixar-se tomar pela mão.
Maravilhar-se. O Evangelho da Solenidade refere que todos se maravilhavam com o que diziam os pastores. Também somos chamados a este maravilhar-se de olhos fixos no menino pobre de nascimento, mas rico de amor, devendo nós ter esta atitude no alvor do ano, porque a vida é dom que nos leva a “começar sempre de novo”. Porém, este é o dia de nos maravilharmos diante da Mãe de Deus”: Deus é uma criança no colo duma mulher que alimenta o Criador. A imagem que temos é “a Mãe e o Menino tão unidos que parecem um só”, o que mostra que, longe de ser um senhor distante que habita solitário nos céus, Deus “é o Amor encarnado, nascido como nós duma mãe para ser irmão de cada um, para estar próximo”. É “o Deus da proximidade”, nos joelhos da mãe, “que é também nossa mãe”, e donde “derrama uma nova ternura sobre a humanidade”, para nos fazer entender “o amor divino, que é paterno e materno, como o duma mãe que não cessa de crer nos filhos e nunca os abandona”, e que nos ama apesar dos nossos erros, porque acredita na humanidade, em que sobressai a Mãe.
O nosso Deus é o Deus das surpresas e a Sua Mãe ajuda-nos a aceitar as surpresas do nosso Deus. Com efeito, Aquela que gerou o Senhor gera-nos para o Senhor. E esta é uma das maravilhas da fé, que é encontro. E o Pontífice diz que “também a Igreja precisa de renovar a sua maravilha por ser casa do Deus vivo”, a “Esposa do Senhor”, a “Mãe que gera filhos” e mostra Jesus; ao invés, corre o risco de se assemelhar a um lindo museu”. E é Nossa Senhora que “introduz na Igreja a atmosfera de casa, duma casa habitada pelo Deus da novidade”.
Por isso, exortou a que acolhamos maravilhados o mistério da Mãe de Deus, como os habitantes de Éfeso no tempo do seu Concílio, e A aclamemos “Santa Mãe de Deus”. E sugere: Deixemo-nos olhar, deixemo-nos abraçar, deixemo-nos tomar pela mão… por Ela.
Deixar-se olhar. É necessário sobretudo nos momentos de necessidade, enredados nos nós mais intricados da vida, que olhemos para a Mãe. Mas é importante também deixarmo-nos olhar por Ela, que “não vê pecadores, mas filhos”. Os olhos da Cheia de Graça, como espelhos da sua alma, mostrando a beleza de Deus, iluminam a escuridão e reacendem a esperança.
O olhar da Mãe ajuda a vermo-nos como filhos amados no povo crente de Deus e a amarmo-nos entre nós, apesar dos limites e opções de cada um; enraíza-nos na Igreja, onde a unidade conta mais que a diversidade; e exorta-nos a cuidarmos uns dos outros. Por isso, rezamos-Lhe: “Esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.
Deixar-se abraçar. Diz o Evangelho que Maria “conservava todas estas coisas, ponderando-as em seu coração”. Quer dizer: depois, do olhar, entra em cena o coração da Mãe, que “tomava tudo a peito, abraçava tudo, eventos favoráveis e contrários. E tudo ponderava, isto é, levava a Deus.”. E diz o Papa que este é “o seu segredo”. De igual modo, quer “abraçar todas as nossas situações e apresentá-las a Deus”, o que é importante ter em conta “na vida fragmentada de hoje”. Na verdade, como assegura o Pontífice, “é essencial o abraço da Mãe” no meio de “tanta dispersão e solidão em giro”. Num mundo contraditoriamente tão conectado e cada vez mais desunido, “precisamos de nos confiar à Mãe”.
E deixar-se tomar pela mão. A mãe toma pela mão os filhos e introdu-los amorosamente na vida. No entanto, muitos hoje, “seguindo por conta própria, perdem a direção” e de livres “tornam-se escravos”. Esquecidos do carinho materno, vivem zangados consigo próprios e indiferentes a tudo, muitas vezes reagindo a tudo e a todos com veneno e malvadez. Então – assegura Francisco – “precisamos de aprender com as mães que o heroísmo está em doar-se, a fortaleza em ter piedade, a sabedoria na mansidão”.
Se Deus não prescindiu da Mãe, por maior força de razão, precisamos nós d’Ela. E diz o Papa:
O próprio Jesus no-La deu; e não num momento qualquer, mas quando estava pregado na cruz: ‘Eis a tua mãe’ (Jo 19,27) – disse Ele ao discípulo, a cada discípulo. Nossa Senhora não é opcional: deve ser acolhida na vida. É a Rainha da paz, que vence o mal e guia pelos caminhos do bem, repõe a unidade entre os filhos, educa para a compaixão.”.
E terminou rezando e fazendo rezar:
Tomai-nos pela mão, Maria. Agarrados a Vós, superaremos as curvas mais fechadas da história. Levai-nos pela mão a descobrir os laços que nos unem. Reuni-nos, todos juntos, sob o vosso manto, na ternura do amor verdadeiro, onde se reconstitui a família humana: ‘À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus’. Digamo-lo, todos juntos, a Nossa Senhora: ‘À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus’.”.
***
Então, prossigamos com a bênção e a paz, aclamando a Santa Mãe de Deus!
2019.01.05 – Louro de Carvalho

sábado, 26 de agosto de 2017

O culto da Virgem Maria não é exclusivo dos católicos e dos ortodoxos

Li com a devida atenção um texto de Jorge Aquino, ose – presbítero da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil – sob o título “Maria na tradição da Igreja Anglicana”, do qual se recolhem dados interessantes, que selecionei e sintetizei nos termos que vêm a seguir.
Diz o reverendo, embora passando ao lado dos textos de Calvino, Lutero e dos demais reformadores (que também comportam ensinamentos relevantes nesta matéria), que a Tradição Anglicana “possui em seu seio muito da tradição luterana e calvinista, o que pode facilitar a reflexão”.
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Resenha da panorâmica anglicana
Constituem a Comunhão Anglicana 40 Províncias (Igrejas) autónomas e autocéfalas, presentes em 164 países, congregando atualmente cerca de 95 milhões de pessoas. Estas Igrejas estão em comunhão com a Sé de Cantuária e possuem uma comum história, espiritualidade, liturgia e um ethos, para lá de importantes instâncias internacionais como a Conferência de Lambeth (reúne de 10 em 10 anos os bispos anglicanos), a Reunião dos Primazes e o Conselho Consultivo Anglicano – instâncias não deliberativas – pois cada Província é autocéfala – mas portadoras de “um enorme poder espiritual e representativo”. E a sua grande marca é o ethos inclusivo, compreensivo e diverso, situando o anglicanismo numa espécie de via média entre Roma (catolicismo) e Genebra (tradição protestante). O anglicanismo reconhece os séculos de tradição recebidos da Patrística e da Escolástica, mas não enjeita o sopro renovador da Reforma protestante. Assim, na prática, algumas comunidades identificam-se mais com a tradição católica (anglo-católicos ou Alta Igreja); e outras ligam-se mais à vertente reformada (Baixa Igreja).
A grande divergência em relação aos católicos romanos assenta no estatuto do Bispo de Roma, pois a estrutura anglicana assemelha-se mais à da Igreja Ortodoxa, com uma autoridade dispersa, sendo o Arcebispo de Cantuária visto como símbolo de unidade e primeiro entre iguais. Os anglicanos refletem teologicamente segundo o “tripé de Hooker”: Bíblia, Tradição Católica e Razão, enquanto os protestantes valorizam a Escritura e são latitudinários à razão e os anglo-católicos ressaltam o valor da Tradição, com especial ênfase nos 7 concílios ecuménicos.
O desenvolvimento da ala anglo-católica do anglicanismo teve lugar sobretudo no século XIX e está associado ao Movimento de Oxford. Dois dos seus líderes, John Henry Newman e Henry Edward Manning, ambos clérigos anglicanos, acabaram por aderir à Igreja Católica e tornaram-se Cardeais.
Embora o termo ‘catolicismo’ seja usado para designar a Igreja Católica Apostólica Romana, muitos anglicanos (e outras igrejas protestantes) usam-no para se referirem também a si, como parte da Igreja Católica geral (e não apenas Romana). Na verdade, algumas igrejas anglicanas, como a Catedral de St. Patrick, em Dublin, ou a Catedral Nacional da Igreja da Irlanda (anglicana), referem-se a si próprias como parte da “Comunhão Católica” e como “Igrejas Católicas”.
A prática da Igreja Anglicana reserva um lugar especial a Maria, um espaço bem maior do que o encontrado em outras comunidades da Reforma.
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Em termos factuais
Com efeito, a Igreja Anglicana tem muitas paróquias e catedrais dedicadas à memória da Virgem, por exemplo, a St Mary’s Cathedral, em Edinburgh, Escócia, a Igreja de St. Mary, em Nackington, Inglaterra, a Igreja de St. Mar, em Hong Kong, e tantas outras Igrejas e catedrais dedicadas à memória da mãe do Salvador.
É também prática muito comum, em toda a Comunhão Anglicana, dedicar-se, pelo menos, uma capela nas grandes igrejas e catedrais à Virgem e usar-se, nesses lugares, a figura de ícones marianos. Assim, a Catedral de Cantuária possui, no lado norte, a Capela da Bem-aventurada Virgem Maria. Além disso, em paróquias fortemente anglo-católicas, regista-se a presença de imagens de Maria. Pode mencionar-se, por exemplo, a presença duma imagem conhecida como “Our Lady of Canterbury” na cripta da Igreja Catedral de Cristo (Canterbury).
Outra prática comum à tradição anglo-católica é a existência de lugares de peregrinação mariana, onde é lembrada a pessoa da Virgem e vivido o seu exemplo. Pode referir-se, por exemplo, a capela de Nossa Senhora de Walsingham, na Inglaterra, que recebe anualmente, desde 1061, milhares de pessoas que lá vão lembrar a dedicação da Virgem ao Senhor e agradecer a Deus por ela.
E não podem ficar no olvido as muitas comunidades religiosas de espiritualidade mariana que existem em todo o mundo. De facto, a Comunhão Anglicana possui muitas comunidades (monásticas ou não, mistas ou não, celibatárias ou não) em que Maria é vista como exemplo e padrão de espiritualidade. Na Inglaterra, entre as inúmeras, destacam-se: The Community of Our Lady & Saint JohnThe Community of St Mary the VirginThe Community of Blessed Lady Mary, e The Congregation of the Sisters of the Visitation of Our Lady.
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A nível da Teologia

A Comunhão Anglicana sói dizer que não tem uma teologia oficial comum. Enquanto os luteranos estão ligados à pessoa e ideias de Martinho Lutero, os presbiterianos e reformados autointitulam-se “calvinistas” e o “tomismo” já teve (e continua a ter) um certo status na Igreja Romana. Porém, o anglicanismo não pretendeu ser luteranocalvinista ou tomista. Na realidade, existem no seio do anglicanismo aquelas três correntes e muitas outras. A Igreja, no entanto, nunca se autodefiniu como seguidora “deste” ou “daquele” teólogo. Questionados sobre o conteúdo da fé anglicana, normalmente os anglicanos apresentam o Livro de Oração Comum (LOC) como um texto que contém os pontos da crença. A Igreja crê como ora: Lex credendi lex orandi. E é assim em relação à pessoa da Virgem Maria: pesquisando o LOC, percebe-se o lugar dado à mãe do Salvador na Igreja Anglicana.
Além de ser mencionada dominicalmente na recitação do Símbolo dos Apóstolos ou no Credo Niceno, o LOC faz referência explícita à Virgem noutras ocasiões, em especial no Calendário, nos Próprios, nas Orações Eucarísticas e no Hinário.
No calendário do LOC, encontram-se três datas dedicadas a Maria: a festa da Anunciação da Bem-aventurada Virgem Maria, a 25 de março; a festa da Visitação da Bem-aventurada Virgem Maria, a 31 de maio; e a festa da Bem-aventurada Virgem Maria, a 15 de agosto. Além disso, os antigos LOC referiam outra festa, a da “Purificação da Virgem Maria”, a 2 de fevereiro, que passou a chamar-se de “Apresentação de Nosso Senhor Jesus Cristo no Templo”.
Os Próprios destes dias dão pistas sobre o papel que a Virgem Maria desempenha na teologia anglicana. O primeiro, lido no dia 25 de março, contém a seguinte oração (como no catolicismo):
Suplicamos-te, Senhor, que dotes com tua graça os nossos corações, para que, assim como pela mensagem de um anjo à Virgem Maria havemos conhecido a encarnação de teu filho Jesus Cristo, também por sua paixão e cruz sejamos levados à glória de sua ressurreição. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.
O segundo, que menciona a Virgem Maria, é o de 31 de maio, da Visitação da Bem-aventurada Virgem, e que diz:
Ó Pai Celestial, por cuja graça uma virgem pura foi escolhida e abençoada para ser mãe de teu Filho, Jesus, mas muito mais abençoada em ter ouvido e guardado tua palavra; concede, a nós que honramos a exaltação de sua humildade, sigamos o exemplo de sua devoção à tua vontade. Por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.
E o Próprio do dia 15 de agosto diz:
Ó Deus, que chamaste à tua presença Maria, bem-aventurada mãe de teu Filho Encarnado, por cujo sangue fomos redimidos; concede-nos participar com ela na glória do teu eterno reino, por Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.
Em relação às Orações Eucarísticas, Maria é mencionada na oração eucarística do Rito II, quando se diz acerca do filho: Tu O enviaste para assumir a carne humana, nascer da Virgem Maria e ser o Salvador e Redentor do mundo”. E também aparece no corpo da Grande Oração Eucarística B que diz:
Ó Pai, de tal maneira amaste o mundo que, na plenitude dos tempos, enviaste teu único Filho para ser nosso Salvador. Feito carne pelo Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria e viveu como um de nós, mas sem pecar”.
Ainda nesta mesma Oração, a Virgem aparece uma segunda vez ao dizer-se:
E concede que participemos da herança dos Santos, [com a Bem-aventurada Virgem Maria, os Patriarcas, Profetas, Apóstolos e Mártires (e com NN)] e com todos os que tiveram o teu favor nos tempos passados”.
As últimas referências feitas à Virgem Maria no LOC encontram-se nos lecionários dominicais e diários dos Dias Santos, acompanhadas com as respetivas leituras da Escritura.
O Hinário Anglicano possui poucas músicas referentes à Mãe do Salvador. Não obstante, destacam-se algumas das indicadas para os momentos litúrgicos que celebram os eventos da história da salvação (vg: Natal e Epifania) e as que apresentam a Mãe do Salvador ao lado dos apóstolos e demais santos em louvor ao Trino Deus ou a Cristo. Como exemplo deste tipo de Música, pode citar-se a terceira estrofe do hino 218 que diz:
“Ó Virgem Mãe do Redentor, / Cheia de graça, em seu louvor / Também cantas – aleluia! / Lá nas alturas entre os anjos, / Na companhia dos arcanjos: / Aleluia! Aleluia! Aleluia! Aleluia! Aleluia!”
De entre os hinos que podem servir de exemplo para as festas litúrgicas, é de relevar o n.º 107 do Hinário Episcopal, do Rev. Henrique Todd Júnior, apropriado para a festa da anunciação:
Honra demos a Maria, Virgem bem-aventurada. / Adoremos a seu filho, luz do céu a nós mandada. / Deus-menino veio à terra, Virgem-Mãe lhe deu beleza. / Fez-se carne o eterno Verbo, Nossa é dele a natureza. / Honra ao filho de Maria! Em seu lar de piedade, / Nem pobreza, nem fadiga, Nele impedem a bondade / Seu amor à mãe bendita é constante, puro e forte; / Se deveres os separam, nela pensa até na morte. / Toda a glória ao Pai se oferte, toda a glória ao Filho seja, / Toda a glória ao Paráclito – cante sempre a santa Igreja. / Essa mesma trilogia, lá no céu Maria entoa, / Repetida pelos santos, pela terra inteira ecoa!”

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Em suma, se é verdade que “quem procura um santo busca um exemplo”, vale a pena olhar para a Virgem Maria como um exemplo em muitas áreas da vida, desde logo pela humildade. Ao ser confrontada com o Anjo, ela reconhece a sua condição humana e fala de sua indignidade. E este é um grande ensinamento: Maria mostra-nos que Deus pode “encher de graça” aqueles que dela necessitam. E Lutero, comentando o Magnificat, explica porque traduziu o termo “humildade” por “nulidade” ou “ser insignificante”, afirmando que Maria pretendia dizer:
Deus olhou para mim, uma moça pobre, desprezada e insignificante. Ele poderia ter escolhido ricas importantes, nobres e poderosas rainhas, filhas de príncipes e grandes autoridades. Poderia muito bem ter escolhido a filha de Anás ou Caifás, que teriam sido os maiorais do país. Porém ele olhou para mim, por pura bondade e usou para este fim uma moça humilde e desprezada. Diante dele ninguém deveria vangloriar-se de ter sido digno disso. Também eu tenho que confessar que se trata de pura graça e bondade. Não há merecimento ou dignidade nenhuma de minha parte.”
Para Lutero, Maria, “a doce virgem”, não se vangloria da sua dignidade e nem tão pouco da sua indignidade, mas apenas do olhar gracioso de Deus sobre ela. Segundo o reformador, ela não se envaideceria da sua virgindade nem da sua humildade, mas apenas da graciosa observação divina. Por isso, nos diz,
“A ênfase não está na palavrinha ‘humildade’, mas em ‘contemplar’. Não é a sua humildade que deve ser louvada, mas a atenção por parte de Deus. Como quando um príncipe estende a mão a um mendigo, não se elogia nulidade do mendigo, mas a misericórdia e a bondade do príncipe].
Maria é modelo de desprendimento. Em vez de especularmos sobre o que teria sucedido se ela tivesse rejeitado a proposta de Deus, devemos sublinhar que ela abraçou o convite de Javé e, ao fazê-lo, disse não à própria vida, aos seus projetos, aos seus sonhos, a tudo o que havia imaginado com o seu futuro marido. Ela estaria eterna e intimamente unida àquele que seria seu Filho e Salvador do mundo e à sua Missão. Mas Ela é também exemplo de submissão. Disse ela: “Eis aqui a serva do Senhor. Cumpra-se segundo a sua vontade”. Como mulher submissa a Deus, apresenta-se para servir as indicações de Deus, com tudo o que tem, a sua vida.
E ela é um excelso exemplo de santidade. Ser “santo” significa ser “separado”“dedicado” a algo ou alguém. E Maria era assim: dedicada (consagrada) com todo o seu corpo e alma a Deus e ao seu projeto misterioso.
Maria é, pois, a mais Bem-aventurada de todas as mulheres, por ser a mãe do Salvador, por receber em seu ventre o Verbo da vida, por amamentar aquele que nos sustenta com sua mão, por cuidar daquele que cuida de nós, mas sobretudo pela fé em tudo o que lhe foi dito da parte do Senhor e pela esperança de que todo será realizado. O que presenciou, viveu, sentiu, contemplou, nunca poderá ser feito por outra mortal. Assim, ela é mesmo a Bem-aventurada!
Enfim, pode assumir-se tudo o que foi dito por Karl Barth quando se exprimiu assim: 
“Maria é um fator indispensável na proclamação bíblica pela ausência da ênfase na sua pessoa, pelo significado infinito da sua modéstia e humildade, de quem só recebe a bênção”.
Em linha com esta leitura, a sua grande caraterística é, nas palavras do Bispo Sumio Takatsu, “a vida oculta em Cristo, sem aparecer no primeiro plano e no ‘kerygma’ apostólico”.
E, como mãe preocupada com o bem-estar dos seus filhos, Maria continua a dar-nos a mesma orientação que deu aos que estavam nas bodas de Caná: “fazei tudo quanto Ele vos disser” (Jo 2,5). Se conseguirmos também hoje ouvir as instruções da Virgem, com certeza não faltará o vinho da alegria aos convidados para a festa do Reino e todos, a exemplo da Bem-aventurada Virgem Maria, seremos mais dedicados ao serviço da vida e da esperança.
(cf https://pt.wikipedia.org/wiki/Anglocatolicismo; Rev. Jorge Aquino, ose. Maria na tradição da Igreja Anglicana: http://www.psj.org.br/2015/12/04/maria-na-tradicao-da-igreja-anglicana/; TEIXEIRA, Luiz Caetano G. A Bem-aventurada Virgem Maria no Anglicanismo. In Grande Sinal – Revista de Espiritualidade, Ano LII-1999/2. Petrópolis, Instituto Teológico Franciscano, 1999).

2017.08.26 – Louro de Carvalho