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domingo, 27 de outubro de 2019

A beleza de caminhar juntos para servir


Depois da missa de encerramento do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-amazónica, o Papa recitou o Angelus com os fiéis e peregrinos apinhados na Praça de São Pedro e confidenciou-lhes, na alocução que antecedeu a oração mariana, que os participantes na assembleia sinodal sentiram “a beleza de caminharem juntos para servir”. E vincou que, tendo vindo da Amazónia “o grito dos pobres, junto ao grito da terra”, não podemos fazer de conta que não o ouvimos.
Com efeito, a Liturgia da palavra da Missa celebrada na Basílica de São Pedro de conclusão da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos, no 30.º domingo do Tempo Comum do Ano C, recorda-nos, com a 1.ª Leitura (Sir 35,12-14.16-18), o ponto de partida desta caminhada sinodal: a oração do pobre que “atravessa as nuvens”, pois ‘Deus escuta a oração do oprimido’. O grito dos pobres, com o grito da terra, veio da Amazónia – disse o Pontífice – e com esse grito amazónico vieram as vozes de tantos outros dentro e fora da Assembleia sinodal, pastores, jovens e cientistas que “nos impelem a não permanecer indiferentes”. Na verdade a frase “Depois é tarde demais”, que ouvimos muitas vezes, não pode permanecer um “slogan”.
Sobre o que foi o Sínodo, disse o Santo Padre:
Foi, como diz a palavra, um caminhar juntos, revigorados pela coragem e pelo consolo que vem do Senhor. Caminhamos, olhando-nos nos olhos e ouvindo-nos, com sinceridade, sem esconder as dificuldades, experimentando a beleza de caminhar unidos, para servir.”.
E Francisco sublinhou que Paulo nos incentiva a isso. Com efeito, como se pode ver pela 2.ª Leitura (2Tm 4,6-8.16-18), num momento dramático para ele (pois sabe que está para ser oferecido em sacrifício, ou seja, justiçado, e que chegou o momento de deixar esta vida), escreve:
O Senhor esteve a meu lado e deu-me forças. Ele fez com que o Evangelho fosse anunciado por mim integralmente e ouvido por todas as nações.”.
Assim, o último desejo do Apóstolo é de “não algo para si ou para alguns dos seus, mas para o Evangelho, para que seja anunciado a todos os povos”, o que “vem antes de tudo e conta acima de tudo”. E Francisco, questionando-se se “cada um de nós já se perguntou muitas vezes o que fazer de bom para a própria vida”, disse que hoje é o momento de cada um se interrogar: “O que eu posso fazer de bom pelo Evangelho?”. E adiantou:
No Sínodo, fizemo-nos essa pergunta com o desejo de abrir novas estradas ao anúncio do Evangelho. Anuncia-se somente o que se vive. Para viver de Jesus, para viver do Evangelho, é preciso sair de si mesmo.”.
Depois, disse aos fiéis e peregrinos: 
Sentimo-nos, então, impelidos a descolar, a deixar as costas confortáveis de nossos portos seguros para penetrar nas águas profundas: não nas águas pantanosas das ideologias, mas no mar aberto, onde o Espírito nos convida a lançar as redes”.
Por fim, incitou a invocar a Virgem Maria, para o caminho que virá, “venerada e amada como Rainha da Amazónia”. E disse que Maria adquiriu esse título não como conquistadora, “mas inculturando-se” e, “com a coragem humilde de mãe, tornou-se a protetora de seus filhos, a defesa dos oprimidos”. E precisou:
Sempre indo à cultura dos povos: não há uma cultura padrão, não há uma cultura pura que purifique os outros. Existe o Evangelho, puro, que se incultura. A Ela, que cuidou de Jesus na casa pobre de Nazaré, confiamos os filhos mais pobres e da nossa Casa comum.”.
***
Antes, na homilia da Missa, o Sumo Pontífice afirmou que a ‘religião do eu’ continua hipócrita com os seus ritos e as suas ‘orações’, mas que “muitos são católicos, se confessam católicos e se esqueceram de ser cristãos e humanos”. Assim, podemos dizer que a sua justiça não é superior à dos escribas e fariseus. Por outro lado, frisou que “ouvir o grito dos pobres” conduz ao “grito de esperança da Igreja”. O Papa conduziu a sua reflexão homilética a partir de três exemplos de orantes que as leituras da Liturgia da Palavra contemplam: na parábola de Jesus (Lc 18,9-14), rezam o fariseu e o publicano; na primeira Leitura, fala-se da oração do pobre.
Na sua oração, diz o Pontífice, o fariseu vangloria-se de cumprir do melhor modo preceitos particulares, “mas esquece o maior: amar a Deus e ao próximo. Transbordando de confiança na sua capacidade de observar os mandamentos, nos seus méritos e virtudes, “aparece centrado apenas em si mesmo”. O seu drama é viver sem amor. E, como diz São Paulo, “sem amor, até as melhores coisas de nada serviam”. Ora, sem amor, o resultado é:
Em vez de rezar, [o fariseu] elogia-se a si mesmo. De facto, não pede nada ao Senhor, porque não se sente necessitado nem em dívida, mas com crédito. Está no templo de Deus, mas pratica outra religião, a religião do eu. Muitos grupos ilustres, cristãos católicos, vão por esta estrada.”.
Por outro lado, Francisco diz que, além de Deus, o fariseu esquece o próximo, despreza-o, ou seja, não lhe dá valor. Considera-se melhor que os outros designados por ele como ‘o resto, os restantes’. E o Pontífice verifica amarguradamente:
Em outras palavras, são ‘restos’, descartados dos quais manter-se à distância. Quantas vezes vemos acontecer esta dinâmica na vida e na história! Quantas vezes quem está à frente, como o fariseu relativamente ao publicano, levanta muros para aumentar as distâncias, tornando os outros ainda mais descartados. Ou então, considerando-os atrasados e de pouco valor, despreza as suas tradições, cancela as suas histórias, ocupa os seus territórios e usurpa os seus bens. Quanta superioridade presumida, que se transforma em opressão e exploração, ainda hoje!”.
E disse que se viu isso no Sínodo ao falar-se “sobre a exploração da Criação, das pessoas, dos habitantes da Amazónia, do tráfico de pessoas e do comércio de pessoas”.
Para o Bispo de Roma, “os erros do passado não foram suficientes para deixarmos de saquear os outros e causar ferimentos aos nossos irmãos e à nossa irmã terra: vimos isso no rosto desfigurado da Amazónia”. E, em conformidade com o que verificou, exorta:
Rezemos pedindo a graça de não nos considerarmos superiores, não nos julgarmos íntegros, nem nos tornarmos cínicos e escarnecedores. Peçamos a Jesus que nos cure de criticar e queixar dos outros, de desprezar seja quem for: são coisas que desagradam a Deus.”.
E relevou a cumplicidade de quem acompanhou esta Missa de encerramento do Sínodo:
Provavelmente, hoje acompanham-nos nesta Missa não apenas os indígenas da Amazónia: mas também os pobres das sociedades desenvolvidas, os irmãos e irmãs doentes da Comunità dell’Arche. Estão connosco.”.
Ao invés, a oração do publicano  ajuda-nos a compreender o que é agradável a Deus. Na verdade, “este não começa pelas suas virtudes, mas pelas suas faltas; não pela riqueza, mas pela sua pobreza: não uma pobreza económica” (os publicanos eram ricos e cobravam também injustamente às custas de seus compatriotas), mas uma pobreza de vida, porque no pecado nunca se vive bem”.
E Francisco, salientando que a oração do publicano nasce do coração, destaca:
Aquele homem reconhece-se pobre diante de Deus, e o Senhor ouve a sua oração, feita apenas de sete palavras, mas de atitudes verdadeiras. De facto, enquanto o fariseu estava à frente, de pé, o publicano mantém-se à distância e ‘nem sequer ousava levantar os olhos ao céu’, porque crê que o Céu está ali e é grande, enquanto ele se sente pequeno. E ‘batia no peito’, porque no peito está o coração.”.
Ora, porque a oração que nasce do coração é transparente, o publicano coloca diante de Deus o coração, não as aparências: deixa-se olhar dentro por Deus “sem simulações, sem desculpas, nem justificações”. E o Papa comenta, aproximando esta atitude com o ocorrido no Sínodo:
Muitas vezes fazem-nos rir, os arrependimentos cheios de justificativas. Mais do que arrependimento, parece uma causa própria de canonização. Porque, do diabo, vêm escuridão e falsidade; de Deus, luz e verdade. Foi bom, e agradeço-vos, queridos padres e irmãos sinodais, termos dialogado, nestas semanas, com o coração, com sinceridade e franqueza, colocando fadigas e esperanças diante de Deus e dos irmãos.”.
E sublinhou que, através do publicano, “descobrimos o ponto de onde recomeçar: do facto de nos considerarmos, todos, necessitados de salvação”. É o primeiro passo da religião de Deus, que é misericórdia com quem se reconhece miserável. Considerar-se justo é deixar Deus, o único justo, fora de casa”. A este respeito, Jesus confronta a atitude da pessoa mais piedosa de então, o fariseu, com a do pecador público por excelência, o publicano. E o Papa anota:
E a sentença final inverte as coisas: quem é bom, mas presunçoso, falha; quem é deplorável, mas humilde, acaba exaltado por Deus. Se olharmos para dentro de nós com sinceridade, vemos os dois em nós: o publicano e o fariseu. Somos um pouco publicanos, porque pecadores, e um pouco fariseus, porque presunçosos, capazes de nos sentirmos justos, campeões na arte de nos justificarmos! Isto, com os outros, muitas vezes dá certo; mas, com Deus, não.”.
Por isso, o Santo Padre exorta a que peçamos a Deus “a graça de nos sentirmos necessitados de misericórdia, pobres intimamente”, pois faz-nos bem frequentar os pobres, para nos lembrarmos de que somos pobres e de que “a salvação de Deus só age num clima de pobreza interior”.
Depois, comentando a passagem do Livro de Ben-Sirá (1.ª Leitura), sublinha que a oração do pobre ‘chegará até as nuvens’. E assinala o contraste:
Enquanto a oração de quem se considera justo fica por terra, esmagada pela força de gravidade do egoísmo, a do pobre sobe, direta, até Deus. O sentido da fé do Povo de Deus viu nos pobres ‘os porteiros do Céu’: aquele sensus fidei que faltava no Documento final. São eles que nos abrirão, ou não, as portas da vida eterna; eles que não se consideraram senhores nesta vida, que não se antepuseram aos outros, que tiveram só em Deus a sua própria riqueza. São ícones vivos da profecia cristã.”.
E o Papa argentino fala desta dimensão do Sínodo:  
Neste Sínodo, tivemos a graça de escutar as vozes dos pobres e refletir sobre a precariedade de suas vidas, ameaçadas por modelos de progresso predatórios. E, no entanto, precisamente nesta situação, muitos testemunharam-nos que é possível olhar a realidade de modo diferente, acolhendo-a de mãos abertas como uma dádiva, habitando na criação, não como meio a ser explorado, mas como casa a ser protegida, confiando em Deus. Ele é Pai e ‘ouvirá a oração do oprimido’. Quantas vezes, mesmo na Igreja, as vozes dos pobres não são ouvidas, acabando talvez desprezadas ou silenciadas porque incómodas.”.
Por fim, Francisco concluiu, exortando a que rezemos “pedindo a graça de saber ouvir o grito dos pobres: é o grito de esperança da Igreja”. Com efeito, “assumindo nós o seu grito, temos a certeza de que a nossa oração atravessará as nuvens”.
***
O Cardeal Cláudio Hummes, relator-geral do Sínodo e presidente da REPAM (Rede Eclesial Pan-amazónica), disse que do Sínodo surgiu um apelo à humanidade para salvar o planeta e confessou:
Acredito que o Sínodo conseguiu mostrar novos caminhos e fazer também uma reflexão sobre que tipo de novos caminhos é necessário neste momento”.
Em conversa com Silvonei José, no dia 24, a propósito do Documento final do Sínodo, frisou:
O Sínodo corre dentro dessa grande crise socioambiental que o mundo todo, que o planeta todo, está padecendo, está sofrendo, ou seja, uma crise climática, uma crise ecológica e junto disso, a crise  da pobreza no mundo, dos pobres. Tudo isso, nós chamamos de uma crise socioambiental.”.
Segundo Dom Cláudio, o Documento final “deve ser lido não como se fosse um livro escrito por um autor que tem uma linha de pensamento muito conectado, com uma fluência muito grande”. É um documento construído – e esse é o seu valor – por toda uma grande assembleia, construído por muitas mãos. O importante são os conteúdos, e não se é belo literariamente. É um Documento pastoral, profundamente pastoral” em que devemos ler os conteúdos.  
Realçou o que se afirma na introdução: 
Depois de um longo caminho sinodal de escuta do Povo de Deus na Igreja da Amazónia, inaugurado pelo Papa Francisco na sua visita à Amazónia, em 19 de janeiro de 2018, o Sínodo foi realizado em Roma, num encontro fraterno de 21 dias, em outubro de 2019. O clima foi de trocas abertas, livres e respeitosas entre bispos, pastores da Amazónia, missionários e missionárias, leigos e leigas, e representantes dos povos indígenas da Amazónia. Fomos testemunhas participantes de um evento eclesial marcado pela urgência do tema que conclama abrir novos caminhos para a Igreja no território. Compartilhou-se um trabalho sério num clima marcado pela convicção de escutar a voz presente do Espírito Santo.”.
Disse que o Sínodo foi realizado em clima de fraternidade e oração, tendo várias vezes as intervenções sido acompanhadas por aplausos, cantos e com intervalos de silêncio contemplativo. Por outro lado, fora da sala sinodal, houve uma presença notável de pessoas vindas do mundo amazónico que organizaram atos de apoio em diferentes atividades, procissões, como a abertura com cantos e danças acompanhando o Santo Padre, do túmulo de Pedro à sala sinodal, sendo de referir a Via Sacra dos mártires da Amazónia, bem como uma presença maciça dos média internacionais.
Salientou que todos os participantes expressaram uma profunda consciência da dramática situação de destruição que afeta a Amazónia, o que significa a possibilidade do desaparecimento do território e dos seus habitantes, especialmente dos povos indígenas. Na verdade, a floresta amazónica é um “coração biológico” numa terra cada vez mais ameaçada e em desenfreada corrida para a morte. Requerem-se mudanças radicais de suma urgência e um novo direcionamento que permita salvá-la, pois está cientificamente comprovado que o desaparecimento do bioma Amazónia trará um impacto catastrófico para o planeta.
Relatou o purpurado que o caminho sinodal do Povo de Deus na fase preparatória envolveu, em torno do documento de consulta que inspirou o Instrumentum Laboris, toda a Igreja no território, os Bispos, os missionários e missionárias, os membros das Igrejas de outras confissões cristãs, os leigos e leigas e muitos representantes dos povos indígenas. E enfatizou a importância de se escutar a voz da Amazónia, movida pelo sopro maior do Espírito Santo no grito da terra ferida e de seus habitantes.
Disse que foi registada a participação ativa de mais de 87.000 pessoas, de diferentes cidades e culturas, bem como de inúmeros grupos de outros setores eclesiais e as contribuições académicas e organizações da sociedade civil nos temas centrais específicos.
Por fim, sublinhou que a celebração do Sínodo conseguiu destacar a integração da voz da Amazónia com a voz e o sentimento dos pastores participantes”. E concluiu:
Foi uma nova experiência de escuta para discernir a voz do Espírito Santo que conduz a Igreja a novos caminhos de presença, evangelização e diálogo intercultural na Amazónia. A afirmação, que surgiu no processo preparatório, de que a Igreja era aliada do mundo amazónico, foi fortemente confirmada. A celebração termina com grande alegria e esperança de abraçar e praticar o novo paradigma da ecologia integral, o cuidado da ‘casa comum’ e a defesa da Amazónia.”.
***
O Sínodo foi um tempo de graça de que é preciso dar graças a Deus que inspira as pessoas que se reúnem no Espírito Santo e O querem escutar. Importa assumir e levar à prática as suas conclusões sem medo e com audácia no Senhor ao serviço dos irmãos. Prosit. Deus adiuvet!
2019.10.27 – Louro de Carvalho

domingo, 6 de outubro de 2019

Por e com os irmãos na Amazónia, caminhemos juntos


É o apelo de Francisco deixado na missa inaugural da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, celebrada na manhã deste domingo, dia 6 de outubro, na Basílica de São Pedro, na profunda convicção de que “muitos irmãos e irmãs na Amazónia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja”. Por isso, é imperativo o caminho conjunto por eles e com eles.
A missa foi precedida de longa procissão de entrada e concelebrada com os treze novos cardeais, criados no Consistório presidido pelo Santo Padre no sábado à tarde e com os 185 padres sinodais (58 do Brasil); e, na assembleia, estavam representantes de comunidades indígenas.
É de recordar que o tema deste Sínodo, que terminará a 27 deste mês, é “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.
Dirigindo-se aos padres sinodais, bispos provenientes não só da região pan-amazónica, mas também de outras regiões, e tendo presente a 2.ª carta de São Paulo a Timóteo proposta nesta liturgia do XXVII Domingo do Tempo Comum, no Ano C, Francisco, salientou que o apóstolo Paulo, o maior missionário da história da Igreja, nos ajuda a ‘fazer Sínodo’, a ‘caminhar juntos’; e observou que o recado “parece dirigido a nós, Pastores ao serviço do povo de Deus, aquilo que escreve a Timóteo”. 
Depois, vincou que é preciso fazer Sínodo, ou seja, caminhar juntos. A sinodalidade é um dom que recebemos para sermos dom – disse o Pontífice, que explicitou:
Um dom não se compra, não se troca nem se vende: recebe-se e dá-se de prenda. Se nos apropriarmos dele, se nos colocarmos a nós no centro e não deixarmos no centro o dom, passamos de Pastores a funcionários: fazemos do dom uma função e desaparece a gratuitidade; assim acabamos por nos servir a nós mesmos, servindo-nos da Igreja.”.
E, prosseguindo o discurso sobre o dom, acentuou que “a nossa vida, dom recebido, é para servir”, pelo que toda a nossa alegria a colocamos em servir, “porque fomos servidos por Deus”, que Se fez nosso servo. Assim, exortou a que nos sintamos chamados para servir, “colocando no centro o dom de Deus” e não a nós próprios.
Ainda na perspetiva do dom, o Papa Francisco disse que “o dom que recebemos é amor ardente a Deus e aos irmãos”, é chamamento ao serviço, chamamento à missão. E, assumindo a ótica paulina, enfatizou que, para sermos fiéis a este chamamento, à nossa missão, “São Paulo lembra-nos que o dom deve ser reacendido”. E explicitou o sentido deste verbo fascinante: “reacender é, literalmente, dar vida a uma fogueira”. Assim, “o dom que recebemos é um fogo, é amor ardente a Deus e aos irmãos”, um fogo que “não se alimenta sozinho”, que “morre se não for mantido vivo”, que se apaga “se a cinza o cobrir”.
Aplicando este dinamismo ao Sínodo que acabou de ser inaugurado, o Pontífice explicou o sentido do reacender e que se trata duma graça do Espírito Santo. Eis as suas palavras:
Reacender o dom no fogo do Espírito é o oposto de deixar as coisas correr sem se fazer nada. E ser fiéis à novidade do Espírito é uma graça que devemos pedir na oração. Ele, que faz novas todas as coisas, nos dê a sua prudência audaciosa; inspire o nosso Sínodo a renovar os caminhos para a Igreja na Amazónia, para que não se apague o fogo da missão.”.
Não deixou o Santo Padre de fazer uma premente exortação aos Pastores a serviço do povo de Deus no sentido de se passar da pastoral de manutenção a uma pastoral missionária:
A Igreja não pode de modo algum limitar-se a uma pastoral de ‘manutenção’ para aqueles que já conhecem o Evangelho de Cristo. O ardor missionário é um sinal claro da maturidade de uma comunidade eclesial. Jesus veio trazer à terra, não a brisa da tarde, mas o fogo. O fogo que reacende o dom é o Espírito Santo, doador dos dons.”.
Verificando e lamentando o erro histórico do colonialismo em relação ao dom, disse que “o fogo de Deus, como no episódio da sarça ardente, arde mas não consome”, que é “um fogo de amor que ilumina, aquece e dá vida; não fogo que alastra e devora”. E, pondo o dedo na ferida, frisou: “Quando sem amor nem respeito se devoram povos e culturas, não é o fogo de Deus, mas do mundo”. E exclamou:
Contudo, quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos.”.
Aplicando ao caso da Amazónia o fenómeno da colonização em vez da evangelização, vincou:
O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazónia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros.”.
E exortou a reacender o dom; receber a prudência audaciosa do Espírito, fiéis à sua novidade, acrescentando que o anúncio do Evangelho é o critério primeiro para a vida da Igreja.
Por fim, na certeza de que os irmãos amazónicos aguardam a consolação do Evangelho, convidou a olhar juntos para Jesus Crucificado, para o seu coração aberto por nós, fez mais uma exortação, a exortação mais emblemática e em que ele mesmo se sente comprometido:
Muitos irmãos e irmãs na Amazónia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos.”.
***
Em complemento do que desenvolveu na homilia da missa de inauguração do Sínodo, o Papa, aquando da recitação da oração mariana do Angelus com os fiéis peregrinos reunidos na Praça São Pedro, pediu a todos queacompanhem com a oração este importante evento eclesial, a fim de que seja vivido na comunhão fraterna e na docilidade ao Espírito Santo”. E explicou aos peregrinos ali reunidos:
Durante três semanas os Padres sinodais, reunidos em torno do Sucessor de Pedro, refletirão sobre a missão da Igreja na Amazónia, sobre a evangelização e sobre a promoção de uma ecologia integral. Peço-vos que acompanheis com a oração este importante evento eclesial, a fim de que seja vivido na comunhão fraterna e na docilidade ao Espírito Santo, que sempre mostra os caminhos para o testemunho do Evangelho.”.
Na alocução que precedeu a susodita oração mariana, Francisco ateve-se ao Evangelho deste XXVII Domingo do Tempo Comum (Lc 17,5-10), cuja página evangélica apresenta o tema da fé: “Aumentai a nossa fé!” – pediam os apóstolos. “Uma bonita oração que devemos fazer muito durante o dia: Senhor, aumentai a minha fé!” – disse o Santo Padre.
Se na missa abordou a temática do dom e do serviço, desta vez, navegou pelo ângulo da fé e da humildade para desembocar no serviço.
Jesus responde ao pedido dos apóstolos de que lhes aumentasse a fé com as seguintes palavras: “Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘arranca-te e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria”. E observou:
A fé comparável a um grão de mostarda é uma fé que não é soberba e segura de si, não finge ser um grande crente e muitas vezes acaba a fazer bobagem, não! (…) É uma fé que na sua humildade sente uma grande necessidade de Deus e na sua pequenez se abandona a Ele com plena confiança. (…) É a fé que nos dá a capacidade de olhar com esperança as vicissitudes alternas da vida, que nos ajuda a aceitar também as derrotas, os sofrimentos, conscientes de que o mal jamais terá a última palavra.”.
Ora, se o revestimento da fé é a humildade, a sua medida é o serviço. E a este respeito, o Pontífice interroga-se: “Como podemos entender se temos realmente fé, ou seja, se a nossa fé, mesmo minúscula é genuína, pura, sincera?”. E avançou com a resposta:
Jesus explica-nos indicando qual é a medida da fé: o serviço. E fá-lo com uma parábola que no primeiro impacto resulta de certo modo desconcertante, porque apresenta a figura de um proprietário prepotente e indiferente. Mas propriamente desse modo de fazer do proprietário ressalta aquilo que é o verdadeiro centro da parábola, ou seja,  a atitude de disponibilidade do servo. Jesus quer dizer que assim é o homem de fé diante de Deus: coloca-se completamente à sua vontade, sem cálculos ou pretensões.”.
Depois, Francisco destacou o que Jesus ensina nesta passagem evangélica: “Somos servos inúteis, fizemos apenas o que devíamos fazer”. Com efeito, a expressão “servos inúteis”, que evangelicamente significa servidores “sem pretensões de ser agradecidos, sem reivindicações”, é, no dizer do Sumo Pontífice, uma expressão de humildade, disponibilidade que faz muito bem à Igreja e evoca a atitude justa para trabalhar nela: o serviço humilde, do qual Jesus deu exemplo, lavando os pés dos discípulos”.
Por fim, evocando a festa de Nossa Senhora do Rosário que se celebra amanhã, dia 7, e volvendo o seu olhar para a Virgem Mãe, exprimiu o voto de que “a Virgem Maria, mulher de fé, nos ajude a seguir neste caminho”.
***
Constituirá o discurso do dom e do serviço, da fé e da humildade, do fogo e do amor, da oração e da sinodalidade uma resposta consolidada às críticas dos opositores do pontificado de Francisco e, em especial, ao Sínodo pan-amazónico?
2019.10.06 – Louro de Carvalho

domingo, 6 de janeiro de 2019

O grande segredo que está na base de todo o Sermão da Montanha


Na primeira Audiência Geral do ano de 2019, a 2 de janeiro, Francisco deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre o Pai Nosso, iniciado em 5 de dezembro, inspirando-se, desta feita, em Mateus 6,5-6.9-13. Com efeito, reunidos em volta de Jesus no alto da colina, uma “assembleia heterogénea” formada pelos discípulos mais íntimos e por uma grande multidão de rostos anónimos é a primeira a receber a entrega do Pai Nosso.
Verificando a situação do texto do Pai Nosso no centro do Sermão da Montanha, encabeçado pelas Bem-aventuranças, o Papa contempla Jesus a coroar de felicidade pessoas que, tanto naquele tempo como neste, não gozavam de consideração:
Os pobres, os mansos, os que choram, os sedentos de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os artífices da paz, os inocentes perseguidos”.
Deste pórtico discursivo, arrojado inversor dos valores da história, emerge com todo o vigor a novidade do Evangelho. E, se temos o coração bom, predisposto para o amor, compreenderemos que toda e qualquer palavra de Deus deve ser encarnada na vida até às últimas consequências, ou seja, até amar os inimigos e rezar pelos perseguidores, pois, “fazendo assim” – assegura-nos Jesus – tornar-nos-emos “filhos do nosso Pai que está nos Céus”.
E este é o grande segredo que está na base de todo o Sermão da Montanha: “sede filhos do vosso Pai, que está no Céu”. Na verdade, o cristão não é alguém melhor do que os outros; sabe que é pecador como os outros; mas é uma pessoa que para, como Moisés, diante da Sarça-ardente, acolhendo a revelação de Deus, que já não se esconde sob um nome impronunciável, mas pede aos seus filhos que O invoquem com o afetuoso nome de “Pai”. Entretanto, na oração, não podemos agir como os hipócritas, que multiplicam suas orações ateias, pois rezam a si mesmos, rezam para serem admirados pelos homens. Ao invés, a oração cristã não busca outra testemunha credível a não ser a própria consciência. Mas, no segredo da consciência, o Pai vê. E isso basta. Para sermos atendidos, é suficiente pormo-nos sob o olhar de Deus, lembrando-nos do seu amor paterno, porque Deus não precisa de nada – não precisa de sacrifícios para ganhar o nosso favor – pede apenas que, na oração, mantenhamos aberto um canal de comunicação com Ele, para nos descobrirmos sempre como seus filhos muito amados e sabermos construir as arras da fraternidade que deriva da nossa condição de filhos deste Pai comum.
A oração feita em silêncio, do fundo do coração – em espírito e verdade –, e que gera mudanças na vida, e não aquela que desperdiça palavras, é a que verdadeiramente interessa.
De facto, o Evangelho é revolucionário, pois Jesus coroa de felicidade uma série de categorias de pessoas não é considerada. Esta é a revolução do Evangelho e onde está o Evangelho há uma revolução. Não nos deixa quietos, impulsiona-nos. E, como disse o Pontífice, “todas as pessoas capazes de amar, os pacíficos que até então ficaram à margem da história, são, ao contrário, construtores do Reino de Deus”. É como se Jesus dissesse: “Em frente, vós que trazeis no coração o mistério de um Deus que revelou sua omnipotência no amor e no perdão!”.
Daqui brota a novidade do Evangelho. E Francisco sublinhou:
A lei não deve ser abolida, mas precisa de nova interpretação, que a leve de volta ao seu significado original. Se uma pessoa tem um bom coração, está predisposta a amar, então compreende que cada palavra de Deus deve ser encarnada até suas últimas consequências. O amor não tem limites: pode-se amar o próprio cônjuge, o próprio amigo e até mesmo o próprio inimigo com uma perspetiva completamente nova.”.
E, ao invés de mero discurso moral, assegurou o teor teológico destes capítulos:
O cristão não é alguém que se esforça para ser melhor do  que os outros: ele sabe que é pecador como todos. O cristão é simplesmente o homem que para diante da nova Sarça Ardente, da revelação de um Deus que não traz o enigma de um nome impronunciável, mas que pede a seus filhos que o invoquem com o nome de ‘Pai’, para se deixar  renovar por seu poder e de  refletir um raio de sua bondade por este mundo tão sedento de bem, tão à espera de boas notícias.”.
Assim, fica ultrapassado o seu aparente discurso moral, evocando “uma ética tão exigente a ponto de parecer impraticável” e surgem consequências como se vê a seguir.
Coerência cristã. Como explica o Papa, Jesus introduz o ensinamento da oração do “Pai Nosso” distanciando dois grupos do seu tempo, começando pelos “hipócritas”, que rezam nas praças  e sinagogas para serem vistos. São pessoas capazes de tecer orações ateias, sem Deus, fazendo-o para serem admiradas pelos homens”. E o Pontífice critica a incoerência de tantos e tantas hoje:
E quantas vezes nós vemos o escândalo daquelas pessoas que vão à igreja, estão lá todo o dia, ou vão todos os dias, e depois vivem odiando os outros e falando mal das pessoas. Isto é um escândalo. Melhor não ir à igreja. Vive assim como ateu. Mas se vais vai à igreja, vive como filho, como irmão e dá um verdadeiro testemunho. Não um contratestemunho.”.
A oração cristã, pelo contrário, só tem como testemunho credível  a própria consciência, onde se entrelaça intensamente um diálogo contínuo com o Pai.
Rezar com o coração. Tomando Jesus “distância das orações dos pagãos”, que acreditavam ser ouvidos pela força das palavras, Francisco recordou a cena do Monte Carmelo, onde diferentemente dos sacerdotes de Baal que gritavam, dançavam, pediam tantas coisas, foi ao Profeta Elias, que ficou calado, que o Senhor se revelou:
Os pagãos pensam que falando, falando, falando, se reza. Também eu penso nos tantos cristãos que acreditam que rezar – desculpem-me – é falar a Deus como um papagaio. Não! Rezar se faz do coração, de dentro.”.
O “Pai Nosso” – reiterou o Papa Bergoglio – “poderia ser também uma oração silenciosa: basta no fundo colocar-se sob o olhar de Deus, recordar-se do seu amor de Pai; e isto é suficiente para serem ouvidos”. E disse a concluir:
“Que bonito pensar que o nosso Deus não precisa de sacrifícios para conquistar o seu favor! Ele não precisa de nada, nosso Deus: na oração pede somente que tenhamos aberto um canal de comunicação com ele, para nos descobrirmos sempre como seus amados filhos.”.
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Nada melhor para exaltar a fraternidade do que voltar ao presépio em que está patente à contemplação e adoração o Deus que Se fez nosso irmão em Jesus, que há de crescer e passar pelo mundo fazendo o bem. Por isso, apraz-me comentar as intervenções papais de 1 de janeiro.
Assim, Francisco, antes da recitação do Angelus, na Praça de São Pedro, dizia à multidão que celebramos, 8 dias depois do Natal, a Santa Mãe de Deus e, “como os pastores de Belém, ficamos com os olhos fixos n’Ela e na criança que Ela segura nos braços”. Ora, mostrando-nos Jesus, o Salvador do mundo, a mãe abençoa-nos a todos, abençoa o caminho de todo o homem e de toda a mulher neste ano, que está no início, o que será bom na medida em que tiver cada um recebido a bondade de Deus que Jesus veio trazer ao mundo. E, sobre esta bênção natalina, disse o Papa que é a bênção de Deus que dá sustentáculo aos bons desejos trocados nestes dias. 
Repetindo a fórmula da liturgia que transcreve a antiga bênção com que os sacerdotes israelitas abençoaram o povo, reiterou: “Que o Senhor te abençoe e te guarde. Que o Senhor faça seu rosto brilhar e te dê graça. O Senhor te dirija o rosto e te conceda a paz” (Nm 6,24-26). 
E frisou que o sacerdote repetia, por rês vezes, o nome de Deus, “Senhor”, estendendo as mãos sobre o povo reunido, pois, na Bíblia, o nome representa a realidade invocada. Por isso, “colocar o nome” de Deus sobre uma pessoa, uma família, uma comunidade significa oferecer a força benéfica que dele flui. Por outro lado, a repetição do nome “rosto” do Senhor de cada vez com duas ações – brilhar e agraciar, dirigir-se para ti e dar-te a paz – releva a abundância do dom de Deus e a sua ternura misericordiosa, de que o sacerdote é porta-voz para cada um dos seus ouvintes. É verdade que, de acordo com as Escrituras, o rosto de Deus é inacessível ao homem, o que testifica a transcendência de Deus. Mas a glória de Deus é todo Amor e, embora permaneça inacessível como o Sol que não pode ser olhado, Ele irradia a sua graça sobre toda criatura e, de modo especial, sobre os homens e as mulheres, em que ela fica mais refletida. Mas, pela sua indizível condescendência, em Cristo, torna-se acessível e estabelece o canal para podermos participar na sua vida divina, entrando em devido tempo na comunhão trinitária.
Depois, evocando a passagem da Carta aos Gálatas, referiu:
Quando a plenitude do tempo veio (Gl 4,4), Deus revelou-Se através de um homem, Jesus, ‘nascido de uma mulher’. E aqui voltamos ao ícone da festa de hoje, por onde começamos: o ícone da Santa Mãe de Deus, que nos mostra o Filho, Jesus Cristo, Salvador do mundo. Ele é a Bênção para toda a pessoa e para toda a família humana. Ele, Jesus, é uma fonte de graça, misericórdia e paz.”.
Por isso que o santo Papa Paulo VI estabeleceu que o 1.º de janeiro seja o Dia Mundial da Paz; e Francisco acentua que celebramos “hoje” o quinquagésimo segundo, com o tema a boa política está serviço da paz. Não está a política – frisa – reservada aos governantes: todos somos todos responsáveis ​​pela vida da “cidade”, pelo bem comum; e a política também será boa se cada um desempenhar o seu papel no serviço da paz – um compromisso diário para o qual pedimos a ajuda da Santa Mãe de Deus, a Rainha da Paz. Por isso, exortou a que todos a saudassem dizendo juntos três vezes “Santa Mãe de Deus”. 
Depois do Angelus, lembrando que dirigira, no dia de Natal, uma mensagem de fraternidade a Roma e ao mundo, renovou-a, desta vez, como um desejo de paz e prosperidade. E nós oramos todos os dias pela paz. E teceu agradecimentos ao Presidente da República Italiana, pelas saudações que lhe dirigira, pedindo ao Senhor que lhe abençoe o “alto e precioso serviço ao povo italiano”; e aos romanos e peregrinos que estavam na Piazza San Pietro, tão numerosos. Saudou os participantes do evento “Paz em todas as terras”, organizado pela Comunidade de Santo Egídio e expressou o apreço e proximidade às incontáveis ​​iniciativas de oração e compromisso pela paz que se realizam em toda a parte, promovidas pelas comunidades eclesiais, lembrando, em particular o que aconteceu em Matera.
Finalizou dizendo que, pela intercessão da Virgem Maria, o Senhor nos permite que sejamos artesãos da paz, o que deve começar em casa, na família e estender-se a todos os dias do ano novo. E desejou novamente a cada um “um ano bom e sagrado”. 
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Na homilia da Solenidade, o Papa Francisco desenvolveu o discurso em torno das seguintes expressões: maravilhar-se; deixar-se olhar; deixar-se abraçar; e deixar-se tomar pela mão.
Maravilhar-se. O Evangelho da Solenidade refere que todos se maravilhavam com o que diziam os pastores. Também somos chamados a este maravilhar-se de olhos fixos no menino pobre de nascimento, mas rico de amor, devendo nós ter esta atitude no alvor do ano, porque a vida é dom que nos leva a “começar sempre de novo”. Porém, este é o dia de nos maravilharmos diante da Mãe de Deus”: Deus é uma criança no colo duma mulher que alimenta o Criador. A imagem que temos é “a Mãe e o Menino tão unidos que parecem um só”, o que mostra que, longe de ser um senhor distante que habita solitário nos céus, Deus “é o Amor encarnado, nascido como nós duma mãe para ser irmão de cada um, para estar próximo”. É “o Deus da proximidade”, nos joelhos da mãe, “que é também nossa mãe”, e donde “derrama uma nova ternura sobre a humanidade”, para nos fazer entender “o amor divino, que é paterno e materno, como o duma mãe que não cessa de crer nos filhos e nunca os abandona”, e que nos ama apesar dos nossos erros, porque acredita na humanidade, em que sobressai a Mãe.
O nosso Deus é o Deus das surpresas e a Sua Mãe ajuda-nos a aceitar as surpresas do nosso Deus. Com efeito, Aquela que gerou o Senhor gera-nos para o Senhor. E esta é uma das maravilhas da fé, que é encontro. E o Pontífice diz que “também a Igreja precisa de renovar a sua maravilha por ser casa do Deus vivo”, a “Esposa do Senhor”, a “Mãe que gera filhos” e mostra Jesus; ao invés, corre o risco de se assemelhar a um lindo museu”. E é Nossa Senhora que “introduz na Igreja a atmosfera de casa, duma casa habitada pelo Deus da novidade”.
Por isso, exortou a que acolhamos maravilhados o mistério da Mãe de Deus, como os habitantes de Éfeso no tempo do seu Concílio, e A aclamemos “Santa Mãe de Deus”. E sugere: Deixemo-nos olhar, deixemo-nos abraçar, deixemo-nos tomar pela mão… por Ela.
Deixar-se olhar. É necessário sobretudo nos momentos de necessidade, enredados nos nós mais intricados da vida, que olhemos para a Mãe. Mas é importante também deixarmo-nos olhar por Ela, que “não vê pecadores, mas filhos”. Os olhos da Cheia de Graça, como espelhos da sua alma, mostrando a beleza de Deus, iluminam a escuridão e reacendem a esperança.
O olhar da Mãe ajuda a vermo-nos como filhos amados no povo crente de Deus e a amarmo-nos entre nós, apesar dos limites e opções de cada um; enraíza-nos na Igreja, onde a unidade conta mais que a diversidade; e exorta-nos a cuidarmos uns dos outros. Por isso, rezamos-Lhe: “Esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.
Deixar-se abraçar. Diz o Evangelho que Maria “conservava todas estas coisas, ponderando-as em seu coração”. Quer dizer: depois, do olhar, entra em cena o coração da Mãe, que “tomava tudo a peito, abraçava tudo, eventos favoráveis e contrários. E tudo ponderava, isto é, levava a Deus.”. E diz o Papa que este é “o seu segredo”. De igual modo, quer “abraçar todas as nossas situações e apresentá-las a Deus”, o que é importante ter em conta “na vida fragmentada de hoje”. Na verdade, como assegura o Pontífice, “é essencial o abraço da Mãe” no meio de “tanta dispersão e solidão em giro”. Num mundo contraditoriamente tão conectado e cada vez mais desunido, “precisamos de nos confiar à Mãe”.
E deixar-se tomar pela mão. A mãe toma pela mão os filhos e introdu-los amorosamente na vida. No entanto, muitos hoje, “seguindo por conta própria, perdem a direção” e de livres “tornam-se escravos”. Esquecidos do carinho materno, vivem zangados consigo próprios e indiferentes a tudo, muitas vezes reagindo a tudo e a todos com veneno e malvadez. Então – assegura Francisco – “precisamos de aprender com as mães que o heroísmo está em doar-se, a fortaleza em ter piedade, a sabedoria na mansidão”.
Se Deus não prescindiu da Mãe, por maior força de razão, precisamos nós d’Ela. E diz o Papa:
O próprio Jesus no-La deu; e não num momento qualquer, mas quando estava pregado na cruz: ‘Eis a tua mãe’ (Jo 19,27) – disse Ele ao discípulo, a cada discípulo. Nossa Senhora não é opcional: deve ser acolhida na vida. É a Rainha da paz, que vence o mal e guia pelos caminhos do bem, repõe a unidade entre os filhos, educa para a compaixão.”.
E terminou rezando e fazendo rezar:
Tomai-nos pela mão, Maria. Agarrados a Vós, superaremos as curvas mais fechadas da história. Levai-nos pela mão a descobrir os laços que nos unem. Reuni-nos, todos juntos, sob o vosso manto, na ternura do amor verdadeiro, onde se reconstitui a família humana: ‘À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus’. Digamo-lo, todos juntos, a Nossa Senhora: ‘À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus’.”.
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Então, prossigamos com a bênção e a paz, aclamando a Santa Mãe de Deus!
2019.01.05 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Na “casa do pão”, o Senhor marca encontro com a humanidade


O Papa Francisco celebrou a Missa da Meia-Noite do Natal (denominada vulgar e tradicionalmente de “Missa do Galo”) na Basílica de São Pedro, convidando a, diante da manjedoura e de Deus que se faz pequeno em Belém, compreendermos que não é a avidez e a ganância que alimentam a vida, mas o amor, a caridade e a simplicidade.
Esta celebração, um dos momentos litúrgicos mais aguardados do ano, que foi retransmitida ao vivo para o mundo todo em 8 idiomas, foi precedida pela “Kalenda”, tradicional canto grego do anúncio litúrgico do Natal do Senhor, em que Francisco revelou a imagem do Menino Jesus, tendo então os sinos da Basílica tocado e as luzes sido acesas.
Na sua homilia, para a descoberta conjunta do mistério do Natal, o Papa exortou a percorrer, com Maria e José, o caminho até Belém, cujo nome significa “casa do pão”. Nessa “casa”, diz o Pontífice, “o Senhor marca encontro com a humanidade” para oferecer o alimento que dá vida, porque os encontros e os pães do mundo “não saciam o coração”.
Neste sentido, considerou o Bispo de Roma:
O homem tornou-se ávido e voraz. Para muitos, o sentido da vida parece ser possuir, estar cheio de coisas. Uma ganância insaciável atravessa a história humana, chegando ao paradoxo de hoje em que alguns se banqueteiam lautamente enquanto muitos não têm pão para viver. Belém é o ponto de viragem no curso da história. Lá Deus, ‘na casa do pão’, nasce numa manjedoura; como se quisesse dizer-nos: ‘Estou aqui ao vosso dispor, como vosso alimento’.”
Deus, então, oferece de comer, diz o Papa, “não dá uma coisa, mas dá-Se a Si mesmo”, de modo que, “em Belém, descobrimos que Deus não é alguém que agarra a vida, mas Aquele que dá a vida”. Assim, com propriedade diremos, tendo em conta o percurso de Jesus da manjedoura de Belém até à mesa da última Ceia e ao patíbulo da cruz e o túmulo vazio – porque o mistério de Cristo não é divisível, mas uno –, que Jesus é “alimento de amor e simplicidade”. Isto compreende-se lendo o presépio à luz da instituição da Eucaristia em que Jesus se torna o pão partido e repartido para a via, verdade a vida do mundo.
Ao mesmo tempo, o Santo Padre vê em Jesus – e apresenta-o – “um novo modelo de vida” através da imagem do pequeno corpo do Menino Jesus, para renascer no amor e romper a espiral da avidez e da ganância: “não devorar e acumular, mas partilhar e dar”. Assim, disse:
Diante da manjedoura, compreendemos que não são os bens que alimentam a vida, mas o amor; não a voracidade, mas a caridade; não a abundância ostentada, mas a simplicidade que devemos preservar”.
No Natal, acrescenta o Pontífice, recebemos Jesus, “Pão do céu na terra”, um alimento sem data de validade e que ajuda a mudar o nosso coração, já que o centro da vida não é mais o “eu, faminto e egoísta”, mas Jesus, que nasce e vive por amor. Por isso, discorre interrogando;
Nesta noite, chamados a ir até Belém, casa do pão, interroguemo-nos: Qual é o alimento de que não posso prescindir na minha vida? É o Senhor ou outra coisa qualquer? [...] Será verdade que preciso de tantas coisas, de receitas complicadas para viver? Quais são os contornos supérfluos de que consigo prescindir para abraçar uma vida mais simples? [...]  No Natal, reparto o meu pão com aqueles que estão sem ele?”.
Depois de Belém como casa do pão, Francisco incita à reflexão sobre Belém, cidade de David, um pastor e, como tal, escolhido por Deus para guiar o povo. Com efeito, como Filho de David, nasceu e foi acolhido pelos pastores (David também era pastor antes de ser rei), uma figura que vence medos e ama todos, sem exceção. Os próprios pastores de Belém são pessoas simples que “não primavam por garbo, nem devoção”, mas permaneciam sempre vigilantes. E o Pastor universal desafia-nos:
O mesmo vale para nós. A nossa vida pode ser uma expectação, em que a pessoa, mesmo nas noites dos problemas, se confia ao Senhor e O deseja; então receberá a sua luz. Ou então uma pretensão, na qual contam apenas as próprias forças e meios; mas, neste caso, o coração permanece fechado à luz de Deus. O Senhor gosta de ser aguardado e não é possível aguardá-Lo no sofá, dormindo.”.
O pastor tem essa caraterística de não ficar parado, segundo o Papa, mas de “estar acordado, ir, arriscar e contar a beleza – gestos de amor”.
‘Vamos a Belém…’ (Lc 2,15): assim disseram e fizeram os pastores. E Francisco faz a aplicação, rezando e fazendo-nos rezar:
Também nós, Senhor, queremos vir a Belém. O caminho, ainda hoje, é difícil: é preciso superar os cumes do egoísmo, evitar escorregar nos precipícios da mundanidade e do consumismo. Quero chegar a Belém, Senhor, porque é lá que me esperas. E dar-me conta de que Tu, colocado numa manjedoura, és o pão da minha vida. Preciso da terna fragrância do teu amor, a fim de me tornar, por minha vez, pão repartido para o mundo. Toma-me sobre os teus ombros, bom Pastor: amado por Ti, conseguirei também eu amar tomando pela mão os irmãos. Então será Natal, quando Te puder dizer: ‘Senhor, Tu sabes tudo; Tu sabes que eu sou deveras teu amigo!’ (Jo 21,17).”.
No fim da celebração, o Santo Padre levou processionalmente a imagem do Menino ao presépio.
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No dia de Natal, Francisco assomou à sacada central da Basílica de São Pedro para a Mensagem e a Bênção Urbi et Orbi. E aos fiéis de Roma, aos peregrinos e a quem, das mais variadas partes do mundo estava sintonizado com o sucessor de Pedro, renovou o jubiloso anúncio: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado” (Lc 2,14). E disse que o sinal dado aos pastores “Um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12) continua eloquente para nós hoje, pelo que também nós, “em silêncio, nos ajoelhamos e adoramos”.
No sentido da força da espiritualidade do Natal, as boas festas natalícias do Pontífice são votos de fraternidade porque, “sem a fraternidade que Jesus Cristo nos concedeu, os nossos esforços por um mundo mais justo ficam sem fôlego; e mesmo os melhores projetos correm o risco de se tornar estruturas sem alma”.
Na verdade, aquele Menino, nascido, para nós, da Virgem Maria faz a mensagem universal do Natal, dizendo-nos que Deus é um Pai bom e que nós somos todos irmãos. Esta verdade está na base da visão cristã da humanidade, que é fraternidade, fraternidade entre pessoas de todas as nações e culturas, fraternidade entre pessoas de ideias diferentes, mas capazes de se respeitarem e ouvirem umas às outras, fraternidade entre pessoas de distintas religiões. Ou seja, Jesus veio revelar o rosto de Deus a todos aqueles que O procuram. E o rosto de Deus manifestou-Se num rosto humano concreto. Apareceu, não sob a forma dum anjo, mas dum homem, nascido num tempo e lugar concretos. E assim, com a sua encarnação, o Filho de Deus indica-nos que a salvação passa através do amor, da hospitalidade, do respeito por esta nossa pobre humanidade que todos compartilhamos na grande variedade de etnias, línguas, culturas... mas todos irmãos em humanidade! – assegura o Papa, que infere:
Então, as nossas diferenças não constituem um dano nem um perigo; são uma riqueza. Como no caso dum artista que queira fazer um mosaico: é melhor ter à sua disposição ladrilhos de muitas cores, que de poucas. A experiência da família no-lo ensina: irmãos e irmãs são diferentes um do outro e nem sempre estão de acordo, mas há um laço indissolúvel que os une, e o amor dos pais ajuda-os a quererem-se bem. O mesmo se passa com a família humana, mas, nesta, é Deus o ‘pai’, o fundamento e a força da nossa fraternidade.”.
Depois, sob o signo da fraternidade, Francisco pretende que este Natal permita a Israelitas e Palestinenses a retoma do diálogo e o encontro dum caminho de paz; e permita à Síria o reencontro da fraternidade “depois destes longos anos de guerra” e que “a Comunidade Internacional trabalhe com decisão para uma solução política que anule as divisões e os interesses de parte, de modo que o povo sírio, especialmente aqueles que tiveram de deixar as suas terras e buscar refúgio noutro lugar, possa voltar a viver em paz na sua pátria”. E o Papa pensa no Iémen “com a esperança de que a trégua mediada pela Comunidade Internacional possa, finalmente, levar alívio a tantas crianças e às populações exaustas pela guerra e a carestia”; na África, “onde há milhões de pessoas refugiadas ou deslocadas”, que “precisam de assistência humanitária e segurança alimentar”, para que “Deus Menino, Rei da paz, faça calar as armas e surgir uma nova aurora de fraternidade em todo o Continente”; na península coreana, para que o Natal “robusteça os vínculos fraternos” que a unem e ela consinta em “prosseguir no caminho de aproximação empreendido para se chegar a soluções compartilhadas que a todos assegurem progresso e bem-estar”; na Venezuela, para que reencontre a concórdia de modo que “todos os componentes da sociedade trabalhem fraternalmente para o desenvolvimento do país” e prestem “assistência aos setores mais vulneráveis da população”; na Ucrânia, “ansiosa por reaver uma paz duradoura, que tarda a chegar”, pois “só com a paz, respeitadora dos direitos de cada nação, é que o país poderá recuperar das tribulações sofridas e restabelecer condições de vida dignas para os seus cidadãos”; e na Nicarágua, para que, diante do Menino Jesus, se redescubram como irmãos os seus habitantes e “não prevaleçam as divisões e discórdias, mas todos trabalhem para favorecer a reconciliação” e, juntos, construam “o futuro do país”.
Por fim, o Papa lembra “os povos que sofrem colonizações ideológicas, culturais e económicas, vendo dilaceradas a sua liberdade e identidade, e que sofrem por causa da fome e da carência de serviços educativos e sanitários”. Pensa de modo particular nos perseguidos ou seja, os irmãos e irmãs que “celebram a Natividade do Senhor em contextos difíceis, para não dizer hostis, especialmente onde a comunidade cristã é uma minoria, por vezes frágil ou desconsiderada” e mesmo perseguida. E pede que “o Menino pequenino e com frio, que hoje contemplamos na manjedoura, proteja todas as crianças da terra e todas as pessoas frágeis, indefesas e descartadas” e “possamos todos nós receber paz e conforto do nascimento do Salvador e, sentindo-nos amados pelo único Pai celeste, reencontrarmo-nos e vivermos como irmãos!”.
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E, como vem sendo hábito, no dia a seguir ao Natal, o Papa também hoje, dia 26, assomou à janela dos seus aposentos oficiais para a oração mariana do Angelus com os fiéis concentrados na Praça São Pedro, falando sobre as analogias na vida de Estêvão e de Jesus.
Na verdade, na oitava do Natal, ainda no clima de alegria pelo anúncio do nascimento de Cristo, celebram-se alguns santos, segundo o calendário romano do Santoral, dos quais o primeiro é Santo Estêvão, no dia 26 (os outros são: São João, Apóstolo e Evangelista, a 27; Santos Inocentes, Mártires, a 28; São Tomás Becket, Bispo e Mártir, a 29; São Silvestre I, Papa, a 31; e Sagrada Família, Jesus, Maria e José, no domingo subsequente ao Natal ou no dia 30, se o Natal for a um domingo).
Santo Estêvão, diácono, é o primeiro mártir cristão, perseguido e morto em Jerusalém.
Antes da oração mariana do Angelus, o Papa falou aos fiéis, como se disse, sobre as analogias na vida de Estêvão e do próprio Jesus. Com efeito, ambos irmanados no pedido de perdão para os algozes (Cristo pediu ao Pai que lhes perdoasse porque não sabiam o que estavam a fazer e Estêvão pediu ao Senhor Jesus que não lhes imputasse este pecado), entregaram seu espírito a Deus no momento da morte: Estêvão ao ser lapidado, e Jesus na cruz. Assim, segundo o Pontífice, o comportamento do protomártir Estêvão, que imita fielmente o gesto de Jesus, constitui “um convite a cada um de nós a receber com fé, das mãos do Senhor, aquilo que a vida nos oferece de positivo e de negativo”. E Francisco discorre:
A nossa existência não é marcada apenas por circunstâncias felizes, mas também por dificuldades e perdas; mas a confiança em Deus ajuda-nos a acolher os momentos fadigosos e a vivê-los como ocasião de crescimento na fé e construção de novas relações com os irmãos. Trata-se de nos abandonarmos nas mãos do Senhor, que sabemos ser um Pai rico de bondade com seus filhos.”.
E o Papa, comentando o perdão como atitude comum a Estêvão e a Jesus, acentuou que nenhum dos dois maldisse os seus perseguidores, mas rezaram por eles. E vincou:
O perdão engrandece o coração, gera partilha, doa serenidade e paz. O protomártir Estêvão aponta-nos o caminho a percorrer nas relações interpessoais de família, na escola e no trabalho, na paróquia e nas comunidades. […] A lógica do perdão e da misericórdia é sempre vitoriosa e abre horizontes de esperança; mas o perdão cultiva-se com a oração, que nos permite fixar o olhar em Jesus.”.
Por último, o Pontífice lembrou que é a oração que nos fortalece e, por isso, temos de pedir sempre ao Espírito Santo que derrame sobre nós o dom da força, que cura os nossos medos, as nossas fraquezas, a nossa pequenez. E exortou:
 Invoquemos a intercessão de Maria e de Santo Estêvão. Que nos ajudem a entregarmo-nos sempre mais a Deus, especialmente nos momentos difíceis, e nos amparem no propósito de sermos homens e mulheres capazes de perdoar.”.
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Efetivamente, Jesus nasceu pequenino e próximo como Deus-amor. Quem ama sabe rezar, contemplar, agir e perdoar. O perdão abrange o abandono, a rejeição, a tibieza, a maldade, a perseguição, o insulto e a calúnia. O perdão ou é total ou não é perdão. Sem perdão, não faz sentido o Natal, não faz sentido a cruz e o martírio.
2018.12.26 – Louro de Carvalho