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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Na “casa do pão”, o Senhor marca encontro com a humanidade


O Papa Francisco celebrou a Missa da Meia-Noite do Natal (denominada vulgar e tradicionalmente de “Missa do Galo”) na Basílica de São Pedro, convidando a, diante da manjedoura e de Deus que se faz pequeno em Belém, compreendermos que não é a avidez e a ganância que alimentam a vida, mas o amor, a caridade e a simplicidade.
Esta celebração, um dos momentos litúrgicos mais aguardados do ano, que foi retransmitida ao vivo para o mundo todo em 8 idiomas, foi precedida pela “Kalenda”, tradicional canto grego do anúncio litúrgico do Natal do Senhor, em que Francisco revelou a imagem do Menino Jesus, tendo então os sinos da Basílica tocado e as luzes sido acesas.
Na sua homilia, para a descoberta conjunta do mistério do Natal, o Papa exortou a percorrer, com Maria e José, o caminho até Belém, cujo nome significa “casa do pão”. Nessa “casa”, diz o Pontífice, “o Senhor marca encontro com a humanidade” para oferecer o alimento que dá vida, porque os encontros e os pães do mundo “não saciam o coração”.
Neste sentido, considerou o Bispo de Roma:
O homem tornou-se ávido e voraz. Para muitos, o sentido da vida parece ser possuir, estar cheio de coisas. Uma ganância insaciável atravessa a história humana, chegando ao paradoxo de hoje em que alguns se banqueteiam lautamente enquanto muitos não têm pão para viver. Belém é o ponto de viragem no curso da história. Lá Deus, ‘na casa do pão’, nasce numa manjedoura; como se quisesse dizer-nos: ‘Estou aqui ao vosso dispor, como vosso alimento’.”
Deus, então, oferece de comer, diz o Papa, “não dá uma coisa, mas dá-Se a Si mesmo”, de modo que, “em Belém, descobrimos que Deus não é alguém que agarra a vida, mas Aquele que dá a vida”. Assim, com propriedade diremos, tendo em conta o percurso de Jesus da manjedoura de Belém até à mesa da última Ceia e ao patíbulo da cruz e o túmulo vazio – porque o mistério de Cristo não é divisível, mas uno –, que Jesus é “alimento de amor e simplicidade”. Isto compreende-se lendo o presépio à luz da instituição da Eucaristia em que Jesus se torna o pão partido e repartido para a via, verdade a vida do mundo.
Ao mesmo tempo, o Santo Padre vê em Jesus – e apresenta-o – “um novo modelo de vida” através da imagem do pequeno corpo do Menino Jesus, para renascer no amor e romper a espiral da avidez e da ganância: “não devorar e acumular, mas partilhar e dar”. Assim, disse:
Diante da manjedoura, compreendemos que não são os bens que alimentam a vida, mas o amor; não a voracidade, mas a caridade; não a abundância ostentada, mas a simplicidade que devemos preservar”.
No Natal, acrescenta o Pontífice, recebemos Jesus, “Pão do céu na terra”, um alimento sem data de validade e que ajuda a mudar o nosso coração, já que o centro da vida não é mais o “eu, faminto e egoísta”, mas Jesus, que nasce e vive por amor. Por isso, discorre interrogando;
Nesta noite, chamados a ir até Belém, casa do pão, interroguemo-nos: Qual é o alimento de que não posso prescindir na minha vida? É o Senhor ou outra coisa qualquer? [...] Será verdade que preciso de tantas coisas, de receitas complicadas para viver? Quais são os contornos supérfluos de que consigo prescindir para abraçar uma vida mais simples? [...]  No Natal, reparto o meu pão com aqueles que estão sem ele?”.
Depois de Belém como casa do pão, Francisco incita à reflexão sobre Belém, cidade de David, um pastor e, como tal, escolhido por Deus para guiar o povo. Com efeito, como Filho de David, nasceu e foi acolhido pelos pastores (David também era pastor antes de ser rei), uma figura que vence medos e ama todos, sem exceção. Os próprios pastores de Belém são pessoas simples que “não primavam por garbo, nem devoção”, mas permaneciam sempre vigilantes. E o Pastor universal desafia-nos:
O mesmo vale para nós. A nossa vida pode ser uma expectação, em que a pessoa, mesmo nas noites dos problemas, se confia ao Senhor e O deseja; então receberá a sua luz. Ou então uma pretensão, na qual contam apenas as próprias forças e meios; mas, neste caso, o coração permanece fechado à luz de Deus. O Senhor gosta de ser aguardado e não é possível aguardá-Lo no sofá, dormindo.”.
O pastor tem essa caraterística de não ficar parado, segundo o Papa, mas de “estar acordado, ir, arriscar e contar a beleza – gestos de amor”.
‘Vamos a Belém…’ (Lc 2,15): assim disseram e fizeram os pastores. E Francisco faz a aplicação, rezando e fazendo-nos rezar:
Também nós, Senhor, queremos vir a Belém. O caminho, ainda hoje, é difícil: é preciso superar os cumes do egoísmo, evitar escorregar nos precipícios da mundanidade e do consumismo. Quero chegar a Belém, Senhor, porque é lá que me esperas. E dar-me conta de que Tu, colocado numa manjedoura, és o pão da minha vida. Preciso da terna fragrância do teu amor, a fim de me tornar, por minha vez, pão repartido para o mundo. Toma-me sobre os teus ombros, bom Pastor: amado por Ti, conseguirei também eu amar tomando pela mão os irmãos. Então será Natal, quando Te puder dizer: ‘Senhor, Tu sabes tudo; Tu sabes que eu sou deveras teu amigo!’ (Jo 21,17).”.
No fim da celebração, o Santo Padre levou processionalmente a imagem do Menino ao presépio.
***
No dia de Natal, Francisco assomou à sacada central da Basílica de São Pedro para a Mensagem e a Bênção Urbi et Orbi. E aos fiéis de Roma, aos peregrinos e a quem, das mais variadas partes do mundo estava sintonizado com o sucessor de Pedro, renovou o jubiloso anúncio: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado” (Lc 2,14). E disse que o sinal dado aos pastores “Um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12) continua eloquente para nós hoje, pelo que também nós, “em silêncio, nos ajoelhamos e adoramos”.
No sentido da força da espiritualidade do Natal, as boas festas natalícias do Pontífice são votos de fraternidade porque, “sem a fraternidade que Jesus Cristo nos concedeu, os nossos esforços por um mundo mais justo ficam sem fôlego; e mesmo os melhores projetos correm o risco de se tornar estruturas sem alma”.
Na verdade, aquele Menino, nascido, para nós, da Virgem Maria faz a mensagem universal do Natal, dizendo-nos que Deus é um Pai bom e que nós somos todos irmãos. Esta verdade está na base da visão cristã da humanidade, que é fraternidade, fraternidade entre pessoas de todas as nações e culturas, fraternidade entre pessoas de ideias diferentes, mas capazes de se respeitarem e ouvirem umas às outras, fraternidade entre pessoas de distintas religiões. Ou seja, Jesus veio revelar o rosto de Deus a todos aqueles que O procuram. E o rosto de Deus manifestou-Se num rosto humano concreto. Apareceu, não sob a forma dum anjo, mas dum homem, nascido num tempo e lugar concretos. E assim, com a sua encarnação, o Filho de Deus indica-nos que a salvação passa através do amor, da hospitalidade, do respeito por esta nossa pobre humanidade que todos compartilhamos na grande variedade de etnias, línguas, culturas... mas todos irmãos em humanidade! – assegura o Papa, que infere:
Então, as nossas diferenças não constituem um dano nem um perigo; são uma riqueza. Como no caso dum artista que queira fazer um mosaico: é melhor ter à sua disposição ladrilhos de muitas cores, que de poucas. A experiência da família no-lo ensina: irmãos e irmãs são diferentes um do outro e nem sempre estão de acordo, mas há um laço indissolúvel que os une, e o amor dos pais ajuda-os a quererem-se bem. O mesmo se passa com a família humana, mas, nesta, é Deus o ‘pai’, o fundamento e a força da nossa fraternidade.”.
Depois, sob o signo da fraternidade, Francisco pretende que este Natal permita a Israelitas e Palestinenses a retoma do diálogo e o encontro dum caminho de paz; e permita à Síria o reencontro da fraternidade “depois destes longos anos de guerra” e que “a Comunidade Internacional trabalhe com decisão para uma solução política que anule as divisões e os interesses de parte, de modo que o povo sírio, especialmente aqueles que tiveram de deixar as suas terras e buscar refúgio noutro lugar, possa voltar a viver em paz na sua pátria”. E o Papa pensa no Iémen “com a esperança de que a trégua mediada pela Comunidade Internacional possa, finalmente, levar alívio a tantas crianças e às populações exaustas pela guerra e a carestia”; na África, “onde há milhões de pessoas refugiadas ou deslocadas”, que “precisam de assistência humanitária e segurança alimentar”, para que “Deus Menino, Rei da paz, faça calar as armas e surgir uma nova aurora de fraternidade em todo o Continente”; na península coreana, para que o Natal “robusteça os vínculos fraternos” que a unem e ela consinta em “prosseguir no caminho de aproximação empreendido para se chegar a soluções compartilhadas que a todos assegurem progresso e bem-estar”; na Venezuela, para que reencontre a concórdia de modo que “todos os componentes da sociedade trabalhem fraternalmente para o desenvolvimento do país” e prestem “assistência aos setores mais vulneráveis da população”; na Ucrânia, “ansiosa por reaver uma paz duradoura, que tarda a chegar”, pois “só com a paz, respeitadora dos direitos de cada nação, é que o país poderá recuperar das tribulações sofridas e restabelecer condições de vida dignas para os seus cidadãos”; e na Nicarágua, para que, diante do Menino Jesus, se redescubram como irmãos os seus habitantes e “não prevaleçam as divisões e discórdias, mas todos trabalhem para favorecer a reconciliação” e, juntos, construam “o futuro do país”.
Por fim, o Papa lembra “os povos que sofrem colonizações ideológicas, culturais e económicas, vendo dilaceradas a sua liberdade e identidade, e que sofrem por causa da fome e da carência de serviços educativos e sanitários”. Pensa de modo particular nos perseguidos ou seja, os irmãos e irmãs que “celebram a Natividade do Senhor em contextos difíceis, para não dizer hostis, especialmente onde a comunidade cristã é uma minoria, por vezes frágil ou desconsiderada” e mesmo perseguida. E pede que “o Menino pequenino e com frio, que hoje contemplamos na manjedoura, proteja todas as crianças da terra e todas as pessoas frágeis, indefesas e descartadas” e “possamos todos nós receber paz e conforto do nascimento do Salvador e, sentindo-nos amados pelo único Pai celeste, reencontrarmo-nos e vivermos como irmãos!”.
***
E, como vem sendo hábito, no dia a seguir ao Natal, o Papa também hoje, dia 26, assomou à janela dos seus aposentos oficiais para a oração mariana do Angelus com os fiéis concentrados na Praça São Pedro, falando sobre as analogias na vida de Estêvão e de Jesus.
Na verdade, na oitava do Natal, ainda no clima de alegria pelo anúncio do nascimento de Cristo, celebram-se alguns santos, segundo o calendário romano do Santoral, dos quais o primeiro é Santo Estêvão, no dia 26 (os outros são: São João, Apóstolo e Evangelista, a 27; Santos Inocentes, Mártires, a 28; São Tomás Becket, Bispo e Mártir, a 29; São Silvestre I, Papa, a 31; e Sagrada Família, Jesus, Maria e José, no domingo subsequente ao Natal ou no dia 30, se o Natal for a um domingo).
Santo Estêvão, diácono, é o primeiro mártir cristão, perseguido e morto em Jerusalém.
Antes da oração mariana do Angelus, o Papa falou aos fiéis, como se disse, sobre as analogias na vida de Estêvão e do próprio Jesus. Com efeito, ambos irmanados no pedido de perdão para os algozes (Cristo pediu ao Pai que lhes perdoasse porque não sabiam o que estavam a fazer e Estêvão pediu ao Senhor Jesus que não lhes imputasse este pecado), entregaram seu espírito a Deus no momento da morte: Estêvão ao ser lapidado, e Jesus na cruz. Assim, segundo o Pontífice, o comportamento do protomártir Estêvão, que imita fielmente o gesto de Jesus, constitui “um convite a cada um de nós a receber com fé, das mãos do Senhor, aquilo que a vida nos oferece de positivo e de negativo”. E Francisco discorre:
A nossa existência não é marcada apenas por circunstâncias felizes, mas também por dificuldades e perdas; mas a confiança em Deus ajuda-nos a acolher os momentos fadigosos e a vivê-los como ocasião de crescimento na fé e construção de novas relações com os irmãos. Trata-se de nos abandonarmos nas mãos do Senhor, que sabemos ser um Pai rico de bondade com seus filhos.”.
E o Papa, comentando o perdão como atitude comum a Estêvão e a Jesus, acentuou que nenhum dos dois maldisse os seus perseguidores, mas rezaram por eles. E vincou:
O perdão engrandece o coração, gera partilha, doa serenidade e paz. O protomártir Estêvão aponta-nos o caminho a percorrer nas relações interpessoais de família, na escola e no trabalho, na paróquia e nas comunidades. […] A lógica do perdão e da misericórdia é sempre vitoriosa e abre horizontes de esperança; mas o perdão cultiva-se com a oração, que nos permite fixar o olhar em Jesus.”.
Por último, o Pontífice lembrou que é a oração que nos fortalece e, por isso, temos de pedir sempre ao Espírito Santo que derrame sobre nós o dom da força, que cura os nossos medos, as nossas fraquezas, a nossa pequenez. E exortou:
 Invoquemos a intercessão de Maria e de Santo Estêvão. Que nos ajudem a entregarmo-nos sempre mais a Deus, especialmente nos momentos difíceis, e nos amparem no propósito de sermos homens e mulheres capazes de perdoar.”.
***
Efetivamente, Jesus nasceu pequenino e próximo como Deus-amor. Quem ama sabe rezar, contemplar, agir e perdoar. O perdão abrange o abandono, a rejeição, a tibieza, a maldade, a perseguição, o insulto e a calúnia. O perdão ou é total ou não é perdão. Sem perdão, não faz sentido o Natal, não faz sentido a cruz e o martírio.
2018.12.26 – Louro de Carvalho   

domingo, 3 de dezembro de 2017

Vêm aí as árvores de Natal!

Aproxima-se o Natal e, em tempo litúrgico de preparação para as grandes solenidades, que é conhecido como Advento, já se multiplicam as árvores de Natal.
A árvore é símbolo de vida pujante, sustentada e sustentável. É forte, é atraente, é benéfica para a vida, é proteção, abrigo, suporte; permite a respiração e a produção de clorofila; e dá flores que geram os frutos. A árvore embeleza e alimenta.  É sinal de esperança pela verdura das folhas, de beleza pela abundância e, muitas vezes, variedade das cores floridas e de vida pelo valor e sabor dos frutos, mesmo que eventualmente seja amargo.  
Civilizações antigas que habitaram os continentes europeu e asiático, no III milénio antes de Cristo, consideravam as árvores como um símbolo divino. Cultivam-nas e realizavam festivais em torno e em favor delas. Essas crenças ligavam as árvores a entidades mitológicas e a sua projeção vertical, desde as raízes fincadas no solo até à liberdade do espaço, marcava a simbólica aliança entre o pai Céu e a mãe Terra.
Os povos pagãos da região do Báltico, nas vésperas do solstício de inverno, cortavam pinheiros, que levavam para os lares e enfeitavam de forma muito semelhante à que se faz nos dias de hoje. A tradição passou aos povos Germânicos, que já colocavam presentes para as crianças sob o carvalho sagrado de Odin.
No início do século VIII, o monge beneditino São Bonifácio tentou acabar com essa crença pagã que havia na Turíngia, para onde fora enviado como missionário. A golpe de machado cortou um pinheiro sagrado, que os locais adoravam no alto de um monte, e, como teve notório insucesso na erradicação da crença, decidiu associar o formato cónico de silhueta triangular do pinheiro à Santíssima Trindade e suas folhas resistentes e perenes à eternidade de Jesus. Nascia assim ali a proto-história da Árvore de Natal.
Porém, a primeira árvore de Natal foi decorada em Riga, na Letónia, em 1510. E acredita-se que esta tradição se arreigou em 1530, na Alemanha, com Martinho Lutero. Diz-se que, certa noite, enquanto caminhava pela floresta, Lutero ficou deveras impressionado com a beleza dos pinheiros cobertos de neve. As estrelas do céu ajudaram a compor a imagem que Lutero reproduziu com galhos de árvore em sua casa. Além das miniaturas de estrelas, utilizou algodão e outros enfeites, como velas acesas, para mostrar aos seus familiares a bela cena que havia presenciado na floresta. Mas há outras versões, segundo as quais a moderna árvore de Natal teria realmente surgido na Alemanha entre o século XVI e o XVIII, não se referindo exatamente em que cidade ela tenha surgido. No século XIX a prática foi levada para outros países europeus e para os Estados Unidos. Apenas no século XX essa tradição chegou à América Latina.
E a árvore de Natal é uma das mais populares tradições associadas à celebração do Natal. É normalmente uma árvore conífera de folhas perenes se silhueta triangular (um pinheiro bravo ou manso) ou uma árvore artificial. A moda das árvores artificiais resultou da preocupação ecológica de preservação das árvores em função da sanidade do meio ambiente. Porém, a monda das árvores enquanto são pequenas não deixa de ser benéfica para a robustez das demais e o clareiramento florestal só dificulta o surto incendiário. Além disso, se o pinheiro não se corta no Natal, arde no estio. Em consonância com a tradição, enfeita-se a árvore com bolas coloridas e outros adornos natalinos, como a estrela, o algodão a sugerir a neve e o sino de Natal. De facto, o Natal deve ser anunciado com sons do Alto presentes na Terra.
Para lá dos sinos e das estrelas, temos como adereços da árvore: as luzes em pisca-pisca com diversas lâmpadas, que é utilizado para decoração de casas e árvores de Natal representando o brilho e a cintilação das estrelas, remetendo-nos para um ambiente celestial nesta época colado ao todo terrestre; as bolas de Natal, esferas decoradas e coloridas que simbolizam os bons frutos que o Natal traz a cada pessoa, a cada família, a cada comunidade; os minibonecos do Pai Natal, a recordar e a sintetizar o valor afetivo das prendas para as crianças na esteira cristã de São Nicolau, Bispo de Mira, o anónimo presenteador das crianças pobres da sua diocese; e a ponteiras, que podem ser estrelas ou objetos em forma circular que ficam no ponto mais alto da árvore representando a estrela principal, que simboliza a estrela que guiou os Magos no percurso para Belém ao encontro do Menino Deus, Rei dos Judeus. Com efeito, Jesus é a verdadeira estrela de David em quem o Pai colocou toda a sua complacência. É a grande luz que brilhará como todos os anjos e santos. É justo e salutar recebê-Lo “por entre aclamações dos montes e das colinas, por entre aplausos das árvores” (vd 2.ª antífona de Laudes do I domingo do Advento), pois o grande Profeta que há de vir “renovará Jerusalém” (vd 3.ª antífona de Laudes do I domingo do Advento). A tradição da árvore natalina é comum a católicos, protestantes e ortodoxos.
O dia de montar as decorações natalinas varia em cada país. Enquanto nos EUA se monta a árvore no Dia de Ação de Graças, no Brasil o dia para a montar é o IV domingo antes do Natal, ou seja, o primeiro do Advento. Já em Portugal a tradição diz que deve ser montada a 8 de dezembro, dia da Imaculada Conceição. E convencionou-se que no dia 6 de janeiro, em que se comemora o Dia de Reis, data que assinala a chegada dos Três Reis Magos a Belém, encerrando as festas do Natal, quando são desfeitas a árvore de Natal e demais decorações natalinas.
Porém, apesar de toda a beleza e simbolismo da árvore, não podemos fixar-nos exclusivamente nela, pois não ultrapassaríamos as categorias do paganismo antigo ou do consumismo de agora: o Natal é muito mais que a árvore. Temos de pensar nas árvores do Éden de que os primeiros pais se alimentavam e que, aliadas à abundância da água dos rios (o Tigre e o Eufrates) que atravessavam o Jardim e alimentavam aquela verdura de ervas e plantas e o vigor e a agilidade daqueles animais, sintetizavam o ideal de felicidade do homem primevo. E, sobretudo, temos de nos deixar orientar pela árvore messiânica que, pela via da pulcritude, gera abundantes frutos de salvação disponíveis para todos quantos aceitam penetrar no mistério da encarnação do Filho de Deus para redenção do homem. E, se queremos viver a festa permanente da alegria, da união e da abundância, temos de aceitar o mistério de Jesus que é a verdadeira vide (vd Jo 15,1.5), de que o Pai é o agricultor (vd Jo 15,1), e nós os sarmentos, não podendo nós, por conseguinte, separar-nos d`’Ele e dos irmãos. Também por isso, Natal é pessoa inteira, família, comunidade, Igreja, alegria, festa. Deus desceu à Terra e vive nela entre nós, connosco e dentro de nós.
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O Natal é também um tempo de criatividade. E esta criatividade deve tornar-se alimento do espírito e da comunidade, em vez de se orientar exclusiva ou principalmente para a exploração comercial reduzindo o Natal aos fluxos e refluxos comerciais e às relações sociais assumidas como que por obrigação.
O JN de 30 de novembro pp apresenta uma enorme variedade de árvores de Natal.
Consoante o setor de atividade é replicado de muitos modos o pinheiro de Natal, exibindo os produtos de forma criativa. Todos os anos as associações ecológicas apelam a que não se cortem árvores, mas se reciclem materiais. Ora, para conseguir fazer uma grande e bela árvore natalina, é importante armazenar matérias-primas: CD, sapatos de ballet, caricas, rolos de papel de cozinha ou higiénico, garrafas incluindo tampas, rolhas de cortiça, frutos, bacalhaus, folhas, pinhas, cápsulas de café, livros, etc. Tudo o que é de uso diário na alimentação, na bebida, na satisfação de outras necessidades, no gosto, no resguardo, na produção de conforto e no fomento da beleza é utilizável para celebrar o Natal enquanto celebração de Deus que se humilha em prol do homem e do Homem que se exalta graças à benevolência divina para sua felicidade e glória de Deus – que são coincidentes.
Também a árvore de Natal pode constituir uma boa forma de afirmação duma comunidade. A este respeito, dá-se um exemplo. Segundo o JN de 13 de novembro pp, Em 2016, a Cincork e a Junta de Freguesia de Santa Maria de Lamas, no concelho de Santa Maria da Feira, anunciaram para esse ano a construção da maior árvore de Natal do Mundo em rolhas de cortiça. Com oito metros de altura e vinte e sete mil rolhas recicladas, a construção colocada na Rua da Ribeirinha recolhia o galardão de destaque, até agora.
Este ano, um grupo de 15 pessoas trabalhou todos os dias, em horário noturno, na freguesia de São Paio de Oleiros para bater este recorde. Desde o dia 3 de outubro, os amigos reuniam-se depois de cada dia de trabalho para darem cor e forma a mais um pedaço da maior árvore de Natal em rolhas de cortiça, que assenta numa base com cerca de 6 metros de raio e foi inaugurada a 2 de dezembro, ficando exposta no Arraial até 31 de dezembro. João Lima, membro da Comissão da Comissão de Festas de São Paio de Oleiros, sustentava para o JN:
Esta vai ser a maior árvore de rolhas de cortiça do Mundo. Neste momento, a maior árvore de Natal de cortiça do Mundo tem oito metros de altura, e foi elaborada com cerca de 27 mil rolhas. A árvore que estamos a construir terá à volta de 20 metros, e estamos a prever utilizar cento e vinte mil rolhas. Começámos a trabalhar neste projeto no dia 3 de outubro, todos os dias, em horário pós-laboral, já que cada um de nós tem uma ocupação profissional fora disto, mas todos os dias nos juntamos, à noite, para construirmos mais um pedacinho da árvore”.
O incêndio de 2016, que pôs fim ao presépio da Cavalinho, levou os oleirenses a alimentar a vontade de voltar a trazer um marco natalício à freguesia. O mesmo João Lima dizia:
A ideia para a elaboração desta árvore surge há precisamente 3 a4 anos, quando organizei a última festa de S. Paio de Oleiros, em 2014. Inicialmente tinham planeado fazer esta árvore e colocá-la no presépio da Cavalinho. Entretanto, o presépio acabou por desaparecer por causa do incêndio, e pensámos então em colocá-la aqui no arraial, visto ser o centro da freguesia. Como tínhamos o presépio da Cavalinho, que era o maior presépio do Mundo, quisemos também ter alguma projeção a esse nível. Acaba por surgir quase como uma alternativa ao próprio presépio, embora inicialmente a ideia fosse ser parte integrante dele”.
Há ainda um presépio, também ele em cortiça, comes e bebes, espetáculos de rua. Tudo para que São Paio de Oleiros seja um ponto de encontro durante a quadra do Natal.
***
É certo que uma comunidade não pode fazer tudo em grande. Porém, é imperioso que os cristãos não se fiquem pela árvore. Importa que partam ao encontro do presépio para contemplarem a grandeza de Deus feita pequenez do homem. E, adorando, colham as devidas lições pessoais, familiares e comunitárias pensando naqueles que são pobres à força, não tendo sequer a capacidade e a oportunidade de fazer opção pela pobreza evangélica, pois a miséria os esmaga com a conivência dos que deviam ser testemunhas e pregoeiros do Natal!

2017.12.03 – Louro de Carvalho