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sexta-feira, 1 de maio de 2020

Maio, o mês mariano, homenageia com ênfase Maria, mãe de Jesus


No mês de maio, milhões de pessoas participam em romarias e peregrinações a santuários marianos, fazem orações especiais a Maria e oferecem-Lhe presentes espirituais e materiais.
De facto, em maio, a homenagem da Igreja na dimensão de povo piedoso volta-se para Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa, Rainha dos homens e dos anjos. O mês mariano, mais do que marcado por várias aparições da Virgem no Mundo, é palco espiritual do fervor devoto dos católicos para a sublime figura que Ela representa de amor, fé, obediência à Deus e compaixão.
Identificada no Novo Testamento e no Alcorão, Maria recebe as designações de Nossa Senhora, Santíssima Virgem e Virgem Maria. Estava noiva de José quando recebeu a visita do anjo Gabriel, que lhe anunciou que fora a escolhida para mãe do filho de Deus. Pelo seu sim, expresso na frase optativa “Faça-se em mim a tua vontade”, iniciou-se o plano de salvação da humanidade com a conceção de Jesus por obra e graça do Espírito Santo.
Exemplo divino-humano de figura materna, Maria esteve bem presente em cada fase da vida de Jesus como mãe amorosa e dedicada a zelar por seu filho amado, acompanhou-O nos seus primeiros passos, testemunhou os seus primeiros sorrisos e zelou por cada sua noite de sono. Com José – pai terreno de Jesus – ensinou-o na fé, amor, lei de Deus e na condição de homem justo. Como exemplo de fortaleza, pois, face às dificuldades, não se deixou abalar na fé. Aceitou sem medo o desígnio de Deus, enfrentou cada momento difícil e nunca abandonou a oração. Quando Jesus foi crucificado, estava lá sentindo na alma a dor de ver brutalmente sacrificado o mesmo Jesus que tinha transportado no ventre e carregado nos braços. É inimaginável a dor da mãe ao ver o filho torturado, humilhado e condenado à morte e morte tão cruel. No auge da paixão, Jesus fez de Maria a mãe da humanidade: “Eis o teu filho…Eis a tua mãe”.
Falando das aparições da Senhora, é de advertir que não se limitam a apenas relatos milenares. Ao longo da História, Maria reapareceu em vários lugares e eventos. São famosas as aparições da Virgem de feição particular, muitas delas reconhecidas e veneradas pela Igreja Católica por estimularem no mundo a fé, a esperança, a compaixão e a solidariedade. Ocorrem em épocas conflituosas, mostrando o maternal carinho de Maria e a sua grande preocupação para com os seus filhos, como têm ocorrido para acentuar verdades da fé católica. Como nossa intercessora junto de Jesus, apresenta-Lhe os nossos dramas, pecados, necessidades e êxitos, expressos na frase bíblica “Não têm vinho”, e, como missionária de Jesus junto de nós e nossa conselheira, avisa que não O ofendamos, que façamos o que Ele manda e ajuda a resolver os problemas existentes ou traz conforto e aponta alternativas aos filhos que sofrem.
Podem mencionar-se as aparições de Guadalupe e Aparecida, vindas de Maria em épocas de escravidão e sofrimento de índios e negros na América Latina; as de Nossa Senhora Auxiliadora que protegeu a Igreja no conflito da guerra; as de Lourdes, a confirmar o dogma da Imaculada Conceição; e as de Fátima, a alertar a humanidade para os acontecimentos que viriam à tona.
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Pelo século XII, a Igreja Católica, instaurou a tradição de Tricesimum ou a devoção de 30 dias a Maria. A época começou por incidir nos meses de setembro e outubro (nalguns lugares de 15 de agosto a 14 de setembro), mas, por força da coincidência do mês de maio com o Tempo Pascal e por maio ser, no auge da primavera, o mês das flores, atinou-se neste mês como o mais apto para celebrar a Mãe de Deus, até em consonância com a tradição antropológico-cultural. Com efeito, ao longo da história antecristã, maio foi o mês de outras homenagens de culturas e épocas. Na Grécia Antiga, nele era celebrada a deusa Artemisa, da fecundidade. Do mesmo modo, a Antiga Roma e a época medieval atribuíam ao mês a celebração da Flora, a deusa da vegetação, por ser o tempo dos começos da primavera. Em Roma, celebravam-se os ‘ludi florales(jogos florais) no fim do mês de abril e pediam sua intercessão.
Na época medieval abundaram costumes similares, tudo centrado na chegada do bom clima e o afastamento do inverno. O dia 1.º de maio era considerado como o apogeu da primavera.
Dedicar o mês de maio a Maria – o “mês das flores” no hemisfério norte – é uma devoção arraigada há séculos. Com sua poesia “Ben vennas Mayo”, das Cantigas de Santa Maria, Afonso X, o Sábio, revela-nos que esta tradição já existia na Idade Média. Porém, foi no século XVII que se combinaram em definitivo o mês de maio e de Maria, fazendo com que esta celebração conte com devoções especiais organizadas em cada dia durante todo o mês. Este costume durou, sobretudo, durante o século XIX e é praticado até hoje.
As formas nas quais Maria é honrada em maio são tão variadas como as pessoas que a honram.
As paróquias costumam rezar diariamente o Terço e muitas preparam um altar especial com um quadro ou imagem de Maria. Além disso, trata-se duma grande tradição a coroação de Nossa Senhora, costume conhecido como Coroação de Maio. Normalmente, a coroa é feita de lindas flores que representam a beleza e a virtude de Maria e lembra que os fiéis se devem esforçar por imitar as suas virtudes. Em algumas regiões, a coroação acontece numa grande celebração e, em geral, fora da Missa. Entretanto, os altares e coroações não são apenas atividades de paróquia: o mesmo pode ser feito nos lares para participar mais plenamente na vida da Igreja. Deve-se preparar um lugar especial para Maria, não por ser tradição ou pelas graças especiais que se podem alcançar, mas porque Ela é nossa Mãe, mãe de todo o mundo e porque se preocupa com todos nós, intercedendo inclusive em assuntos menores.
A Igreja tem sempre incentivado esta devoção, por exemplo recomendando a oração do Rosário, concedendo indulgências e produzindo alguns documentos do Magistério papal, como a encíclica “Mense Maio”, de São Paulo VI, em 1965. São Paulo VI, São João Paulo II, Bento XVI e Francisco estiveram em Fátima em 13 de maio: 1967, 1981, 1991, 2000, 2010 e 2017.
Ao começar o mês de maio em 1979, São João Paulo II declarou em audiência geral:
O mês de maio estimula-nos a pensar e a falar de modo particular d’Ela. De facto, este é o seu mês. Assim, o período do ano litúrgico [Ressurreição] e ao mesmo tempo o mês corrente chamam e convidam os nossos corações a abrirem-se de maneira singular para Maria.”.
O cardeal São John Henry Newman, no seu livro póstumo “Meditações e devoções(1893), dá várias razões por que o mês de maio é propício à devoção mariana, apesar de haver várias festas marianas noutros meses. Escrevendo dum país do hemisfério norte, refere que “é o tempo em que a terra faz surgir a terna folhagem e os verdes pastos, depois do frio e da neve do inverno, da cruel atmosfera, do vento selvagem e das chuvas da primavera”. E, continua a justificar:
Porque os dias se tornam longos, o sol nasce cedo e se põe tarde. Porque semelhante alegria e júbilo externo da natureza são os melhores acompanhantes da nossa devoção Àquela que é a Rosa Mística e a Casa de Deus. (…) Ninguém pode negar que este seja pelo menos o mês da promessa e da esperança. Ainda que o tempo não seja favorável, é o mês que dá início e é prelúdio do verão. (…) Maio é o mês, se não da consumação, pelo menos da promessa, e não é este o sentido no qual mais propriamente recordamos a Santíssima Virgem Maria, a quem dedicamos o mês?”.
Autores como Vittorio Messori veem nesta manifestação de religiosidade a cristianização duma celebração pagã: a dedicação do mês de maio às deusas da fecundidade, já apontada acima. De facto, maio deve o seu nome a Maia, deusa da primavera. Além disso, em muitos países, em maio, comemora-se o Dia da Mãe; e a lembrança dirige-se também à Mãe do Céu.
O Catecismo da Igreja Católica, no n.º 971, a respeito da devoção à Maria Santíssima, afirma:
«Todas as gerações me hão de proclamar ditosa» (Lc 1,48): «a piedade da Igreja para com a santíssima Virgem pertence à própria natureza do culto cristão». A santíssima Virgem «é com razão venerada pela Igreja com um culto especial. E, na verdade, a santíssima Virgem é, desde os tempos mais antigos, honrada com o título de ‘Mãe de Deus’, e sob a sua proteção se acolhem os fiéis implorando-a em todos os perigos e necessidades [...]. Este culto [...], embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração que se presta por igual ao Verbo Encarnado, ao Pai e ao Espírito Santo, e favorece-o poderosamente». Encontra a sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus e na oração mariana, como o santo rosário, «resumo de todo o Evangelho».
Também vários Papas na história da Igreja enfatizaram a importância de se rezar o rosário.
São João Paulo II fala do rosário nos termos seguintes:
O Rosário é […] uma oração profundamente cristológica. Na sobriedade das suas partes, o Rosário consolida-se da profundidade da Boa Nova, da qual ele é quase um resumo. […] Com o Rosário, o povo cristão anda na Escola de Maria para se deixar guiar, contemplando a beleza do rosto de Cristo e experienciando a profundidade do Seu amor. Ao contemplar os mistérios do Rosário, o crente obtém a graça em plenitude como se recebesse das próprias mãos da Mãe do Redentor.”.
E, falando no âmbito do testemunho pessoal, assegura:  
Esta oração tem assumido um papel importante na minha vida espiritual desde a minha infância e juventude. A oração do Rosário tem-me acompanhado nos momentos de alegria e de provação. Muitas preocupações entreguei nesta oração e, por meio dela, sempre experienciei fortalecimento e consolação.”.
Por seu turno, Bento XVI desafiou:
Se não sabeis como rezar, pedi-Lhe para vos ensinar e pedi à Mãe do Céu para rezar convosco e por vós. A oração do Rosário pode ajudar-vos a aprender a arte de rezar com a simplicidade e profundidade de Maria.”.
E, este ano, a 25 de abril, o Papa Francisco endereçou uma carta a todos os fiéis sobre o mês de maio, em que “o povo de Deus manifesta, de forma deveras intensa, o seu amor e devoção à Virgem Maria”. E, sendo tradição rezar o Terço em casa, com a família (dimensão doméstica), que a pandemia nos forçou a valorizar, inclusive do ponto de vista espiritual, propôs a redescoberta da beleza de rezar o Terço em casa, no mês de maio, juntos ou individualmente, de acordo com as situações, valorizando ambas as possibilidades. E disse que o segredo é a simplicidade e que há bons esquemas para seguir na sua recitação, facilmente encontráveis mesmo na Internet.
Além disso, oferece-nos duas orações à Senhora, que poderemos rezar no fim do Terço. Tudo, porque “a contemplação do rosto de Cristo, juntamente com o coração de Maria, nossa Mãe, tornar-nos-á ainda mais unidos como família espiritual e ajudar-nos-á a superar esta prova”. E o Papa rezará por nós, “especialmente pelos que mais sofrem”, e pede rezemos por ele.
Eis as duas orações: uma currente calamo, mas com muita profundidade; outra, quase poesia:
Oração a Maria
«À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus».
Na dramática situação atual, carregada de sofrimentos e angústias que oprimem o mundo inteiro, recorremos a Vós, Mãe de Deus e nossa Mãe, refugiando-nos sob a vossa proteção.
Ó Virgem Maria, volvei para nós os vossos olhos misericordiosos nesta pandemia do novo coronavírus e confortai a quantos se sentem perdidos e choram pelos seus familiares mortos e, por vezes, sepultados duma maneira que fere a alma. Sustentai aqueles que estão angustiados por pessoas enfermas de quem não se podem aproximar, para impedir o contágio. Infundi confiança em quem vive ansioso com o futuro incerto e as consequências sobre a economia e o trabalho.
Mãe de Deus e nossa Mãe, alcançai-nos de Deus, Pai de misericórdia, que esta dura prova termine e volte um horizonte de esperança e paz. Como em Caná, intervinde junto do vosso Divino Filho, pedindo-Lhe que conforte as famílias dos doentes e das vítimas e abra o seu coração à confiança.
Protegei os médicos, os enfermeiros, os agentes de saúde, os voluntários que, neste período de emergência, estão na vanguarda arriscando a própria vida para salvar outras vidas. Acompanhai a sua fadiga heroica e dai-lhes força, bondade e saúde. Permanecei junto daqueles que assistem noite e dia os doentes, e dos sacerdotes que procuram ajudar e apoiar a todos, com solicitude pastoral e dedicação evangélica.
Virgem Santa, iluminai as mentes dos homens e mulheres de ciência, a fim de encontrarem as soluções justas para vencer este vírus.
Assisti os responsáveis das nações, para que atuem com sabedoria, solicitude e generosidade, socorrendo aqueles que não têm o necessário para viver, programando soluções sociais e económicas com clarividência e espírito de solidariedade.
Maria Santíssima, tocai as consciências para que as somas enormes usadas para aumentar e aperfeiçoar os armamentos sejam, antes, destinadas a promover estudos adequados para prevenir catástrofes do género no futuro.
Mãe amadíssima, fazei crescer no mundo o sentido de pertença a uma única grande família, na certeza do vínculo que une a todos, para acudirmos, com espírito fraterno e solidário, a tanta pobreza e inúmeras situações de miséria. Encorajai a firmeza na fé, a perseverança no serviço, a constância na oração.
Ó Maria, Consoladora dos aflitos, abraçai todos os vossos filhos atribulados e alcançai-nos a graça que Deus intervenha com a sua mão omnipotente para nos libertar desta terrível epidemia, de modo que a vida possa retomar com serenidade o seu curso normal.
Confiamo-nos a Vós, que resplandeceis sobre o nosso caminho como sinal de salvação e de esperança, ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria. Ámen
Oração a Maria
Ó Maria,
Vós sempre resplandeceis sobre o nosso caminho
como um sinal de salvação e de esperança.
Confiamo-nos a Vós, Saúde dos Enfermos,
que permanecestes, junto da cruz, associada ao sofrimento de Jesus,
mantendo firme a vossa fé.


Vós, Salvação do Povo Romano,
sabeis do que precisamos
e temos a certeza de que no-lo providenciareis
para que, como em Caná da Galileia,
possa voltar a alegria e a festa
depois desta provação.

Ajudai-nos, Mãe do Divino Amor,
a conformar-nos com a vontade do Pai
e a fazer aquilo que nos disser Jesus,
que assumiu sobre Si as nossas enfermidades
e carregou as nossas dores
para nos levar, através da cruz,
à alegria da ressurreição. Ámen.

À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus;
não desprezeis as nossas súplicas na hora da prova
mas livrai-nos de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita

2020.05.01 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 24 de abril de 2020

A subida de Jesus ao Céu fez de Maria o coração materno da Igreja


Na verdade, do alto da cruz, antes de entregar o espírito, Jesus confiou a mãe ao discípulo amado e o discípulo amado à mãe. E o discípulo recebeu-a em sua casa (cf Jo 19,25-27). A hermenêutica não confina esta entrega a duas pessoas singulares: a mãe que perdera o filho; e um homem novo que, por acaso, era discípulo do falecido.
Desde sempre se viram nestas palavras do 4.º Evangelho a constituição testamentária de Maria como a mãe de todos os que partilham do estatuto do discipulado, ali representados pelo apóstolo mais novo, o que não abandonou o Mestre e o aquele que, ao ver o túmulo vazio e os despojos do que ali fora sepultado em boa ordem, começou a acreditar, antes dos outros. Enfim, a mãe do Messias torna-se também a mãe dos que partilham da missão evangelizadora, santificadora e organizadora na caridade, bem como dos destinatários e beneficiários dessa mesma missão, que têm o ensejo, o direito e o dever de se tornarem agentes da mesma segundo a sua condição de vida. Por isso, o discípulo recebeu a mãe do Senhor como sua mãe e a aceitou em sua casa, o que os demais discípulos vieram a fazer como vem espelhado no livro dos Atos dos Apóstolos (cf At 1,14), que refere que “todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2,4).
Não só a comunidade dos discípulos, que se fazem apóstolos segundo o mandato divino, tem Maria por mãe, como, nesta comunidade, Maria se torna a mãe dos que pregam a salvação, dos que a aceitam e se tornam seus instrumentos.
Assim, Maria é, ao mesmo tempo, mãe da Igreja e protótipo da Igreja-mãe. É, em última análise, pela sua vertente discreta e de omnipotência suplicante (intercede por nós junto de Jesus e apresenta-lhe nossos dramas e êxitos, tal como é missionaria de Jesus junto de nós avisando e aconselhando-nos), não tanto as mãos de quem trabalha, mas sobretudo o coração de quem pulsa no Espírito Santo e os pés de caminhante com a marcha da Igreja.
A este respeito, o n.º 63 da Lumen gentium (Constituição Dogmática sobre a Igreja) ensina:
Pelo dom e missão da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, e pelas suas singulares graças e funções, está a Virgem intimamente ligada à Igreja: a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo, como já ensinava Santo Ambrósio. Com efeito, no mistério da Igreja, que é também com razão chamada mãe e virgem, a bem-aventurada Virgem Maria foi adiante, como modelo eminente e único de virgem e de mãe. Porque, acreditando e obedecendo, gerou na terra, sem ter conhecido varão, por obra e graça do Espírito Santo, o Filho do eterno Pai; nova Eva, que acreditou sem a mais leve dúvida, não na serpente antiga, mas no mensageiro celeste. E deu à luz um Filho, que Deus estabeleceu primogénito de muitos irmãos (Rm 8,29), isto é, dos fiéis, para cuja geração e educação Ela coopera com amor de mãe.”.
O Papa São Paulo VI, no dia 21 de novembro de 1964, “no discurso conclusivo da III Sessão Conciliar”, no ato público de promulgação da Constituição Lumen Gentium, proclamou Maria como “Mãe da Igreja”. Fê-lo perante mais de dois mil bispos reunidos na Basílica de São Pedro, embora com o “parecer negativo dos bispos alemães e da comissão doutrinal”, que se preocupavam com a conveniência ecuménica da proclamação, bem como com críticas particulares como as do seu amigo o filósofo Jean Guitton. Contudo, já o Papa São João XXIII, em 1960, tinha atribuído a Nossa Senhora este título e São Paulo VI tinha manifestado, no final da II Sessão Conciliar, a “esperança de que se chegasse àquela proclamação”.
No dia 3 de março de 2018, foi publicado um Decreto da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, pelo qual Francisco decidiu a inscrição da Memória da “Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja” no Calendário Romano Geral. E o Cardeal Robert Sarah, prefeito daquele dicastério, comentando o Decreto, afirmava que a maturação da veneração litúrgica de Maria decorre de uma melhor compreensão da sua presença no mistério de Cristo e da Igreja.
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E é esta a razão que está explicitamente na base do ato a que os Bispos do Canadá e dos Estados Unidos da América vão proceder de consagração a Maria no próximo dia 1 de maio.
Com efeito, unidos, os Bispos destes dois países vão renovar a consagração das respetivas nações à Virgem Maria, entregando-se aos seus cuidados no início do mês mariano.
Dom José Gomez, Arcebispo de Los Angeles e presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, em carta enviada a 22 de abril, convidou os Bispos do país a unirem-se, no 1.º de maio, para consagrar os Estados Unidos à Santíssima Virgem Maria neste momento de crise causado pela pandemia, evento que coincidirá com a consagração do Canadá à Mãe de Deus. E, explicado que a consagração mariana será feita com o título de “Maria, Mãe da Igreja”, referiu:
Todos os anos a Igreja busca a intercessão especial da Mãe de Deus durante o mês de maio. Este ano, buscamos com maior fervor a assistência de Nossa Senhora enquanto enfrentamos juntos os efeitos da pandemia global causada pelo coronavírus.”.
Este pedido vem na sequência da decisão dos Bispos do Canadá de consagrarem o seu país à Virgem Maria. Na verdade, como diz Dom José Gomez, no âmbito do diálogo com os líderes da Conferência dos Bispos do Canadá, o Comité da Conferência estadunidense reuniu-se e confirmou a data de 1 de maio de 2020 como oportunidade para que os Bispos dos Estados Unidos voltem a consagrar a nação à Nossa Senhora e o façam com o título de “Maria, Mãe da Igreja”, no mesmo dia que os irmãos Bispos do Canadá e com o mesmo título.
Tendo o título de “Maria, Mãe da Igreja” sido dado à Santíssima Virgem por São Paulo VI e acrescentado na memória do calendário litúrgico da Igreja em 2018 por Francisco, Dom José Gomez, celebrando este acontecimento em 2018, disse que “quando Jesus ressuscitou dos mortos e subiu ao Céu, Maria se converteu no coração materno da Igreja”.
Por outro lado, o ato de consagração, como ato de entrega e de confiança, constituirá uma boa oportunidade para rogar a intercessão de Maria durante a pandemia. Ou seja, esta consagração “dará à Igreja a oportunidade de rezar pela proteção contínua de Nossa Senhora aos vulneráveis, à cura dos enfermos e à sabedoria dos que trabalham para encontrar a cura deste vírus”, como afirmou o presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, que concluiu:
No tempo de Páscoa, continuamos a jornada com nosso Senhor ressuscitado para que, entre as graças deste tempo, possamos ter cuidado e fortaleza, especialmente para todos os que estão sofrendo pelo efeito da pandemia”.
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É boa resposta aos críticos da Igreja católica que aduzem que não se fazem preces para arredar as situações de calamidade, como seca severa, alagamentos, terramotos e outros cataclismos, incluindo epidemias e pandemias. Aliás, os Bispos de Portugal e Espanha, a que se juntou uma vintena de Conferências Episcopais, consagraram os seus países ao Coração de Jesus e ao Coração de Maria, no dia 25 de março; o Papa convocou o momento extraordinário de oração para o dia 27 do mesmo mês, que o mundo pôde contemplar e a que pôde unir-se; e os Bispo da Europa compuseram a “oração para pedir ajuda, conforto e salvação” em tempo de pandemia.
Resta a atitude de cada um em aderir à oração, replicá-la e torná-la compromisso pessoal de vida mais solidária e justa na comunidade.
2020.04.24 – Louro de Carvalho