segunda-feira, 25 de maio de 2020

A propósito do uso da mitra pelo Papa e pelos Bispos


A irmã Mercedes Loring (de 95 anos), da Congregação das Irmãs da Assunção, fundada em 1839, em Paris, por Anne-Eugenie Milleret de Brou (Maria Eugénia de Jesus, na vida consagrada), se tivesse possibilidade de realizar o sonho de ver o Papa, pedir-lhe-ia que tirasse a mitra a si mesmo e aos bispos. Com efeito, desde sempre, as mitras episcopais lhe pareceram ‘gorros ridículos’.
É uma voz com autoridade moral, visto que nasceu numa família rica e empreendedora, mas a quem, segundo conta, “comunistas agressivos” mataram o pai, ficando a mãe viúva aos 35 anos, com 5 filhas e 3 filhos, como se pode ler no site da “Fraternitas”, e passando a família a viver na pobreza e na fome, sujeita à ajuda de outras famílias. Entretanto, Mercedes Loring, deixada a vida de dançarina aos 20 anos e feita religiosa, dedicou a vida a promover os pobres no Equador e na Espanha. Daí, apesar de a guerra civil lhe ter lesado gravemente a família, lamenta que os bispos espanhóis, embora nem todos, estejam encostados à direita política, ousando dizer que a hierarquia da Igreja espanhola tem que deixar de estar tão vinculada à direita e abandonar o poder, porque Cristo não o quer e o povo também não, e recomendar aos prelados que façam como o Papa Francisco, que é simples e humilde e está com os pobres.
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Talvez valha a pena ver o que se passa com a mitra, teoricamente branca.
mitra (do grego μίτρα: cinta, faixa para a cabeça, diadema) é uma cobertura, fendida, da cabeça, de duas peças rígidas, de forma pentagonal, terminadas em ponta, chamadas corno ou cúspides, costuradas pelos lados e unidas por cima por um tecido, podendo ser dobradas conjuntamente. As duas cúspides superiores são livres e, na parte inferior, forma-se um espaço que lhe permite circundar a cabeça. Na zona posterior, duas faixas franjadas, as ínfulas, descem até às espáduas.
É insígnia pontifical utilizada pelos prelados da Igrejas católica, ortodoxa e anglicana: Papa, cardeais, arcebispos, bispos e abades. E houve privilégio, embora limitado, de concessão do uso a prelados menores: dignitários de cabido, prelado da Cúria Romana e Protonotários. E chegou a ser permitida às abadessas de mosteiros femininos. Trata-se da cobertura de cabeça prelatícia de cerimónia, pelo que é utilizável em algumas celebrações com determinado impacto litúrgico.
De origem romana, deriva do camelauco, uma cobertura, não litúrgica, da cabeça, exclusiva do Papa, da qual teve origem também a tiara e, segundo alguns, também o camauro.
camauro (do latim camelaucum; e este do grego καμιλαυκίον – kamelauchíon, significa “chapéu de pele de camelo”, talvez de κάμιλος: corda, ou de κάμηλος: camelo, pelo uso da pele. Alguns autores afirmaram ser corruptela de καλυμμαύχιον, de καλυμμα: véu) é um gorro usado pelo Papa no inverno. É vermelho com bordas brancas de arminho. Bastante utilizado na Idade Média, caiu em desuso nos últimos tempos. Antes de Bento XVI, que o usou em 2005, por alegadamente sentir frio, o último Papa a aparecer de camauro em público foi São João XXIII.
camelauco (de etimologia igual à de camauro), é um barrete frígio, cónico, alto, de tecido branco, que do Oriente passou a Roma, simbolizando a liberdade face ao poder político e sendo, pelo fim do século IV, adotado pelos papas. Porém, não se confirma, historicamente, a afirmação de que o Papa Silvestre I o tenha recebido de Constantino I , em sinal da liberdade da Igreja. O certo é que os papas usavam, inicialmente o camelauco, símbolo tradicional de soberania oriental, sendo uma peça distinta da mitra dos bispos.
Que o camelauco era usado antes do século VIII, é referido na biografia do Papa Constantino inserida no “Liber Pontificalis”. Segundo o nono ‘’Ordo’’, o camelauco era confecionado dum material branco e em forma de capacete. As moedas dos papas Sérgio III e Bento VII, segundo as quais São Pedro usava um camelauco, dão-lhe a forma de cone, que é a forma original da mitra. O camelauco foi usado pelos papas sobretudo nas procissões solenes. A mitra evoluiu do camelauco, no curso do século X, quando o Papa começou a usar a mitra nas procissões à igreja e no serviço religioso subsequente. Não se pode afirmar que tenha havido alguma influência do ornamento de cabeça sacerdotal do sumo sacerdote veterotestamentário Foi só depois de a mitra estar a ser universalmente usada pelos bispos que se levantou a hipótese de ela ser uma imitação da cobertura de cabeça sacerdotal hebraica.
Janice Bennett, no livro “Sacred Blood, sacred Image”, menciona a tradição seguida por Tadei de Edessa segundo a qual, no cristianismo, a mitra se desenvolveu a partir da prática de São Pedro colocar o Sudário de Cristo na sua própria cabeça como símbolo dum ministério curativo, facto que não tem respaldo histórico ou teológico.
Alguns autores creem que o uso da mitra é anterior aos tempos apostólicos, portanto anterior ao cristianismo; outros dizem que remonta aos séculos VIII ou IX; e outros afirmam que surgiu por volta do início do 2.º milénio, sendo dantes usado um ornamento para a cabeça na forma de grinalda ou coroa. O certo é que um ornamento episcopal para a cabeça, em forma de faixa, nunca existiu em Europa ocidental e que a mitra foi usada primeiro em Roma por volta da metade do século X, e fora de Roma no ano 1000 (vd “Die liturgische Gewandung im Occident und Orient”, pp. 431-48). A mitra é descrita pela primeira vez em duas miniaturas do começo do século XI: uma delas está num registo batismal; a outra num pergaminho do Exultet, da catedral de Bari (Itália). A primeira referência escrita sobre a mitra é duma bula de 1049 do Papa Leão IX, anteriormente bispo de Toul (França), que confirmou a primazia da Sé de Tréveris ao Bispo Eberardo de [Tréveris]], anteriormente seu metropolita que o tinha acompanhado a Roma. Como sinal desta primazia, Leão IX concedeu ao Bispo Eberardo a mitra romana, que a poderia usar de acordo com o costume romano ao executar os ofícios da Igreja. E, pelos anos 1100 a 1150, já o uso da mitra se havia generalizado entre os bispos.
Todavia, os cardeais já usavam a mitra no fim do século XI, provavelmente tendo adquirido este direito na primeira metade daquele século. E Leão IX concedeu, em 1051, este privilégio aos cónegos da catedral de Besançon. A primeira concessão da mitra a um abade data do ano 1063, quando o Papa Alexandre II a concedeu ao abade Egelsino, na Abadia de Santo Agostinho, em Cantuária. Desde então as concessões aos abades foram aumentando até se generalizarem.
Também aos príncipes cristãos foi concedida, por vezes, a permissão de usar a mitra, como uma marca da distinção. Assim, o Duque Wratislaw, na Boémia recebeu este privilégio do Papa Alexandre II e Pedro de Aragão recebeu-o do Papa Inocêncio III. E também o Imperador alemão gozou de idêntico privilégio.
O Cerimonial dos Bispos distingue dois tipos de mitra: ornada e simples. A Ornada é guarnecida de adornos mais ou menos ricos. As mitras ornadas dividem-se em: Preciosa (Pretiosa), decorada com pedras preciosas e ouro; Aurifrisada (Auriphrygiata), de tecido liso de ouro ou seda branca bordada a ouro e prata; e Faixada, com duas faixas ornamentais ou galões, uma (circulus) na borda mais baixa, e outra (titulus) em posição vertical, no meio de cada pala. A Simples é inteiramente de tecido branco, interna e externamente, sem ornamentos, nem mesmo nas ínfulas, que têm franjas vermelhas. É de linho para os bispos e de seda adamascada branca para os cardeais. O Papa usa três tipos de mitra: a Gloriosa, ornada de pedras preciosas e dum círculo de ouro que lhe forma a base (nesta categoria, inclui-se a mitra com a tripla faixa dourada); a Preciosa, ricamente decorada, mas sem o círculo da base; e a Argêntea, de lhama de prata, correspondente à mitra simples dos bispos. Se a mitra papal tiver o formato duma coroa tripla, é chamada tiara papal ou triregnum. O seu uso foi abandonado pelo Papa São Paulo VI, que adotou a mitra comum para enfatizar a índole pastoral da autoridade pontifícia em detrimento de qualquer resquício de poder político.
A origem da tiara é incerta. Os historiadores assentam em que é lendária a afirmação de o Papa Silvestre I (314-335) ter recebido a tiara do Imperador Constantino. Segundo M. Pfeffel, Clóvis I ofereceu ao Papa Símaco a tiara na igreja de São Martinho, em Tours no século V. Porém, um ornamento branco usado na cabeça pelo Papa – o camelaucum ou frigium – é registado na biografia do Papa Constantino do “Liber Pontificalis”. Para James Noonan-Charles e Bruno Heim, a mais baixa das três coroas apareceu na base da chapelaria branca tradicional dos papas no século IX, quando eles assumiram efetivamente o poder temporal nos Estados Pontifícios. A coroa da base foi decorada com joias para se assemelhar à coroa principesca, pelo que passou a chamar-se Regnum. O termo “tiara” é citado pela primeira vez na biografia do Papa Pascoal II, no “Liber Pontificalis”, em 1118. Heim supõe que a segunda coroa foi adicionada pelo Papa Bonifácio VIII em 1298, aquando do confronto com Filipe, o Belo (Rei da França), para mostrar que a autoridade espiritual era superior à autoridade civil. E a tiara passou a denominar-se Biregnum. Contudo, um afresco da Capela de São Silvestre (consagrada em 1247) na igreja Santi Quattro Coronati (Roma) representa o Papa com a tiara de pano de duas coroas, o que indica que o Biregnum tem origem anterior. E os historiadores divergem quanto à data e quem acrescentou a terceira coroa, com a qual a tiara passou a denominar-se Triregnum. São sugeridos os papas João XXII (1316-1334), Urbano V (1362-1370), Clemente V (1305-1314), Bento XI (1303-1304), ou Bento XII (justamente em 1334). Mostra no Papa o tríplice múnus de Cristo: profético, sacerdotal e régio-pastoral – bem como a cúpula do “poder” eclesial, ficando o serviço para trás.
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O pior é que a mitra (ou a tiara) passou de objeto utilitário ou de símbolo do poder e superioridade social e política a objeto sagrado. E o Cerimonial dos Bispos manda que mitra, anel e báculo sejam abençoados antes da ordenação episcopal sendo que a primeira imposição deve ser feita durante o rito, depois da imposição dos livro dos Evangelhos. Daí até a mitra ganhar significado crístico foi um passo: parece a boca dum peixe (que era a senha dos cristãos até ao ano 313) voltada ao alto e a encimar a cabeça do bispo, Alter Christus com a plenitude do sacerdócio.
Recorde-se a simplificação a que o Cerimonial dos Bispos procedeu. A paramentação do Bispo para Missa de Pontifical, após tirar a mozeta e o roquete, incluía: polainas; cáligas; amito; alva; cíngulo; estola; tunicela; dalmática; casula; manípulo; cruz peitoral; quirotecas; anel; mitra; e báculo. Mantêm-se alva e cíngulo, estola, casula, cruz, anel, mitra e báculo. Só ficaria bem simplificar ainda mais. Ou então porque não atribuir ao Bispo o uso da tiara?
A mitra já não faz sentido, muito menos com os espécimes vários acima referidos, se até nem a pode o Bispo usar enquanto faz orações. E não veríamos bispos a utilizá-la de forma incorreta. O solidéu basta para assinalar a figura do Bispo na assembleia litúrgica. Todavia, a mitra não estorva a profecia, o sacerdócio e o pastoreio episcopais. E o báculo do bispo-pastor poderia ser bem mais simples, tal como o anel. O que importa é a voz, a orientação e o testemunho!
2020.05.25 – Louro de Carvalho

domingo, 24 de maio de 2020

O dia em que Jesus “se desconfinou” e passou a estar em teletrabalho


Contou Dom Américo Aguiar, na homilia da Missa a que presidiu, neste dia 24 de maio, na igreja paroquial do Parque das Nações, que um miúdo à catequista que, na sua lição de catequese por videoconferência, perguntava o que é a ascensão de Jesus, respondera que é o dia em que Jesus passou a estar em teletrabalho. Na verdade, Ele subiu ao Céu, mas garantiu estar connosco todos os dias (“Eu convosco sou” – Egô meth’ hymôn eimi: note-se a proximidade entre “eu” e “vós”) até ao fim dos tempos. Mais do que sempre conectado, está próximo, muito próximo, pois, como disse o Cardeal Patriarca na sua homilia na Igreja de Cristo Rei da Portela, a ascensão mais não é que o desconfinamento de Jesus em relação à sua pátria terrena e a este mundo.    
Porém, agregado à ascensão e como corolário do Evangelho, está o mandato duma Igreja em saída ancorada em toda a autoridade (exousía) de Jesus, como perentoriamente falou dizendo (elálêsen légôn) aos discípulos, que, vendo-O (idóntes), O adoraram (prosekýnêsan):
Toda a autoridade me foi dada no Céu e na Terra. Por isso, indo, fazei discípulos de (ensinai – mathêteúsate) todas as nações, batizando-os no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar todas as coisas que vos mandei. E eis que Eu convosco Sou todos os dias até ao fim do mundo.”.
Alguns ainda duvidaram (edístasan) – diz o Evangelista –, o que só mostra que a via da fé não é linear, mas pode encontrar escolhos. Segundo o relato lucano (At 1,6), até interrogaram Jesus se era agora que ia restaurar o Reino de Israel (apokathistáteis tên basileían tôi Israêl?). Porém, Jesus remeteu a explicação, contrária à expectativa mundanal dos discípulos, para o desígnio paterno e para a ação do Espírito Santo, que os iria fazer testemunhas de Jesus até aos confins da Terra.    
O discurso de Jesus revela que a sua autoridade se radica na familiaridade e se concretiza na proximidade; a missão é universal (a todas as nações – tà ethnê) a cargo do conjunto dos discípulos, que não podem despegar do Mestre; os discípulos só ensinam o que Ele lhes mandou, não se podendo arvorar em mestres, o que releva a fidelidade em detrimento da nossa pretensa mestria ou iniciativa (Também o Filho e o Espírito Santo só falam do que ouviram ao Pai); é “indo” (poreuthéntes – traduzimos este particípio aoristo pelo gerúndio, com a marca da progressão e não da espera de que as coisas aconteçam) que se sentem enviados e se tornam apóstolos e missionários; e a missão de ir e ensinar, confiada aos discípulos, tornados irmãos de Jesus pela Ressurreição, significa o desconfinamento da missão de Jesus em relação aos filhos de Israel, pois agora vai a todas as nações, porque os confins da Terra verão a salvação do Nosso Deus por obra da ação missionária partilhada entre a comunidade discipular, Jesus e o Espírito Santo – quer os discípulos partam da Galileia, como fez Jesus e Mateus regista, quer partam de Jerusalém, onde Pedro fez o discurso querigmático.      
Segundo Dom António Couto, Bispo de Lamego (vd Jornal da Madeira, de 24 de maio), a soberania de Jesus, “nova, próxima e familiar”, é preparada quando “o anjo reorienta os passos das mulheres do túmulo para a Galileia”, dizendo-lhes que fossem depressa dizer aos discípulos que “Ele ressuscitou dos mortos e vos precede (proágei hymâs) na Galileia” (Mt 28,7). Porém, Jesus surpreendendo as mulheres no caminho, reformula o dizer angélico: “Ide e anunciai aos meus irmãos que partam para a Galileia, e lá me verão(Mt 28,10). É o tempo da “nova e indestrutível familiaridade” em que “o Ressuscitado aponta para nós e nos envolve a todos “num imenso abraço fraternal”.
O “indo a fazer discípulos de todas as nações” corporiza a missão infinda “colocada diante dos nossos olhos”, sendo que “todas as nações são todos os corações”. E, como lembrava Dom Manuel Clemente, dizia Santo Agostinho que seguimos com o coração a ascensão de Jesus na esperança de que iremos um dia ter com Ele, mas por agora também é preciso que levemos a Boa Nova a todos os corações, sabendo perscrutá-los e cuidar deles e da sua vida e dignidade.
Acentuando que não estamos sós nesta estrada sem medida, pois Ele está connosco e frisando que este é o caminho de Abraão, que partiu da sua terra, apoiado na promessa e na bênção, Dom António Couto faz o paralelo entre a abertura do Evangelho, em que se apresenta o Emanuel, Deus connosco, e o remate do Evangelho, em que Ele garante continuar connosco – o que remete para a figura literária da inclusão para garantir que toda a Boa Nova é a da presença de Deus entre nós e em nós.   
Os discípulos, pela palavra e pelas obras, testemunham esta visita de Deus em Jesus Cristo Ressuscitado às pessoas e aos povos. Ora, as testemunhas não inventam, mas dizem e põem o pescoço por aquilo que viram e ouviram. E dessa visita diz o Bispo de Lamego:
Não se trata de uma visita rápida, de quem está apenas de passagem. Ele vem para ficar connosco sempre, tanto nos ama. Imensa fraternidade em ascendente movimento filial, como uma seara nova e verdejante a ondular ao vento suavíssimo do Espírito, elevando-se da nossa terra do Alto visitada e semeada, ternamente por Deus olhada, agraciada, abençoada.”.
O Livro dos Atos dos Apóstolos (1,1-11) centra a instrução de Jesus nos 40 dias que mediaram entre a ressurreição e a ascensão no essencial: o Reino de Deus (Hé Basileía Tou Theoû), garantindo que, em breve, seriam batizados no Espírito Santo (hymeîs dè en pneúmati baptisthêsesthe hagíôi) e não só em água como era o batismo de João.
E, no momento da ascensão, evidencia-se o facto de “ver” (vários verbos que o significam) em contraste com a subtração pela nuvem e com a advertência dos dois homens vestidos de branco:
Vendo (blepóntôn) eles, Ele foi Elevado (epêrthê); e uma nuvem (nephélê) O subtraiu (hypélaben) dos olhos deles (apò tôn ophthalmôn autôn). E, tendo o olhar fixo (atenízontes) no céu para onde Ele ia, eis que (idoú) dois homens que estavam ao lado deles, em vestes brancas, e disseram: “Homens Galileus, por que estais de pé, mirando (emblépontes) o céu? Este Jesus que vos foi arrebatado (analêmphtheís) para o céu, assim virá (eleúsetai) do modo (trópon) que O vistes (etheásthe) ir para o céu.’ (Atos 1,9-11).”.
Ao arrebatamento de Jesus pelo céu, os dois homens vestidos de branco juntam a vinda final de Jesus. Não se verá mais a ascensão, mas a vinda. Entretanto, importa descolar da visão física do céu e alimentar a afeição por ele e partir para a missão segundo o mandato de Jesus e a moção do Espírito Santo. É nesse trabalho orante e testemunhal que se ganha eficazmente a afeição pelas coisas do Alto, ou seja, passando pelo mundo a pregar e a fazer o bem. Aliás, a ascensão e a vinda final não são fenómenos que se confinem à limitação e devir físicos, mas são categorias teológicas transcendentais que obviamente têm de se exprimir através da linguagem da fisicidade, a que os homens entendem e usam.
Por tudo isto, é conveniente seguir o exemplo de Paulo (Ef 1,17-23) agradecendo a Deus o dom da fé e a confiança que pôs na comunidade discipular em ordem à missão de testemunho, ensino e prática das boas obras entre nós e para com os irmãos de todos os quadrantes.
Porém, Paulo une à ação de graças fervorosa oração a Deus ao Pai (epíclese) para que dê aos destinatários da Carta, pelo Espírito Santo, o conhecimento profundo (epígnôsis) da “esperança a que foram chamados”. E a prova de que pode o Pai realizar essa “esperança” é o que Ele fez com Jesus: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita, exaltou-O e deu-Lhe a soberania sobre todos os poderes angélicos, soberania que se estende à Igreja – o “corpo” cuja “cabeça” é Cristo.
A ideia de que a comunidade discipular é um “corpo”, o “corpo de Cristo”, formado por muitos membros, já aparecera nas “grandes cartas”, sobretudo para definir a relação dos vários membros do “corpo” entre si. Contudo, nas “cartas do cativeiro”, Paulo retoma esta noção para refletir sobre a relação existente entre a comunidade e Cristo. E dois conceitos significativos definem aqui a relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”). Assumir Cristo como a “cabeça” da Igreja significa perceber que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; e significa também que Ele é o centro em torno do qual o “corpo” se articula, a partir do qual e em direção ao qual cresce, se orienta e constrói – em suma, é a origem e o fim desse “corpo”. Por outro lado, significa que a Igreja/corpo está submetida à obediência a Cristo/cabeça, pelo que a Igreja só de Cristo depende e só a Ele deve obediência. E dizer que a Igreja é a “plenitude” de Cristo é dizer que nela reside a “plenitude”, a “totalidade” de Cristo. Ela é o recetáculo, a morada, onde Cristo Se torna presente no mundo e é através desse “corpo” onde reside que Jesus Cristo continua todos os dias a realizar o seu projeto de salvação em favor dos homens. Presente nesse “corpo”, Cristo enche o mundo e atrai a Si todo o universo, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos”.
Assim, Jesus subiu ao Céu, mas constituiu a sua Igreja como sinal e instrumento de salvação, sendo que, embora a Igreja não esgote as vias da graça e da salvação, porque o Espírito sopra donde e onde quer e o Verbo está espalhado como semente pelos corações (lógos spermatikós ou verbum seminale) – queiram eles dar-se conta dele e desenvolvê-lo em si – a salvação não pode vir contra a Igreja que siga no uso do sensus fidei e na perscrutação dos sinais dos tempos.
Assim, a ascensão como desconfinamento de Jesus ou passagem de Jesus ao teletrabalho dá lugar ao confinamento universal em torno do Cristo e ao trabalho missionário partilhado familiarmente, proximamente e fraternalmente entre Jesus, o Espírito Santo e a comunidade discipular que se torna apostolada, também pela preocupação e trabalho pelos que vivem longe.
Não sei se, neste Dia Mundial das Comunicações Sociais, a propósito do qual o Papa formula o voto de que esses meios se empenhem em dar boas notícias, estarão todos os elementos da comunidade discipular disponíveis para testemunhar por obras e palavras a boa notícia de que Jesus vive, nos ama, intercede por nós junto do Pai e nos quer a todos no Reino de Deus. Talvez seja este um desafio aos cristãos que trabalham com os meios de comunicação e aos que eles possam intervir, bem como a todos os profissionais dos media para que estejam atentos às boas notícias e as difundam.         
2020.05.24 – Louro de Carvalho

sábado, 23 de maio de 2020

Aonde quer que vá o Papa, é central a mensagem da ‘Laudato si’


É uma verificação de Viriato Soromenho Marques, filósofo e ambientalista, em declarações à Renascença e à Ecclesia, em entrevista publicada a 22 de maio, em que, referindo-se à encíclica “Laudato si”, na semana dedicada a este documento papal, recorda ter dito, há 5 anos, que “era o documento que faltava para a Igreja ocupar o seu espaço-tempo na contemporaneidade de forma mais interveniente e efetiva”. E agora diz também, no contexto da pandemia que assola o mundo, que “temos de aprender a habitar a terra de outra maneira”.
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Questionado se já se notam alguns efeitos dos ensinamentos da encíclica, opina que, embora as ideias demorem muito tempo a surtir o seu efeito, a avaliar pelos documentos, “a encíclica se carateriza por um impacto crescente”, graças “à solidez das teses” e à existência de “uma linha de coerência ao longo destes cinco anos”. Com efeito, em documentos similares, é usual haver “um pico de interesse por um tema” seguido do seu “abandono” ou “esquecimento”. Ora, sucede que, “em todo o pontificado, na ação do Papa, aonde quer que ele vá, a mensagem da ‘Laudato si’ surge como central”.
Apesar de não ter sido Francisco quem descobriu o tema, pois, como diz o Santo Padre, já São João XXIII, São Paulo VI, São João Paulo II e Bento XVI escreveram sobre ele, “mas há uma diferença fundamental: o Papa, para construir a encíclica, consultou muitas pessoas, cientistas de muitos ramos, e levou para o texto o percurso de uma vida riquíssima”.
A encíclica foi publicada antes da Cimeira de Paris, mas o mundo não parou pelas alterações climáticas, mas só pela crise sanitária, paragem que levou ao significativo decréscimo dos níveis de poluição. E a questão que se levanta é se este decréscimo se manterá no pós-confinamento ou se perderemos tudo, logo que as pessoas voltem a fazer a vida de sempre.
A isto o entrevistado responde com a necessidade de se distinguir entre “o desejável” e “o que será possível realisticamente”. A nível do desejável, “nós, como indivíduos, como coletivos, da família aos governos do mundo”, devíamos colher “uma lição de humildade” e “de força” do que está a suceder.
Na verdade, “um vírus, que nem é um organismo vivo” (apesar de ter impacto sobre a vida orgânica, não é um organismo vivo), “foi capaz de parar, de facto, o motor económico do mundo e obrigar-nos a ficar confinados, onde fosse possível”. E, ao invés do que se tem dito, Soromenho Marques, nega que tenha sido surpresa, pois, como refere, “os epidemiologistas há muitos anos que chamavam a atenção para que, nos últimos 30 a 40 anos, 75% das novas doenças [seriam] resultantes do mesmo processo que nos levou a esta zoonose, um processo de transmissão de um vírus que vive num organismo animal para o nosso ecossistema biológico”.
E aponta que não é por acaso que o vírus se transmite, mas mercê da “forma intrusiva como a nossa espécie está a atuar sobre a biodiversidade”. De facto, “nós estamos a destruir os habitats, as florestas, as zonas onde vivem espécies cada vez mais perseguidas, em perigo”.
Neste contexto, a ‘Laudato si’, mais do que um interessante roteiro para ajudar no processo de desconfinamento, constitui “uma lição de sabedoria”, pois as ideias que nela encontramos vertidas “ajudam-nos” a “construir uma interpretação do que nos está a acontecer”. Com efeito, “a pior tragédia” é estarmos “numa situação para a qual não temos uma compreensão” ou a que temos é errada, sendo que a pandemia resulta do desrespeito crónico do “espaço existencial de outras espécies”.
Ora, nós, “como seres humanos, como indivíduos e até como cidadãos, somos sensíveis” consoante a informação de que dispomos. E “a maioria da população não tem conhecimento tão detalhado destas questões”. E o filósofo ambientalista discorre:
Precisamos de ter um conhecimento aberto, holístico, perceber a relação que isto tem com a crise do ambiente. (…) Nós estamos a habitar a terra como se ela nos pertencesse. Mais, nós habitamos a terra como não habitamos as nossas casas: que eu saiba, nas nossas casas, não partimos as portas, destruímos a mobília, deixamos os resíduos ficar nos sítios onde dormimos ou onde comemos. E nós estamos a fazer isso, na terra, exatamente.”.
Neste aspeto, emerge como problema crucial a “organização coletiva” ou a “governação”, um dos temas centrais da ‘Laudato si’, que leva a questionarmo-nos como vamos nós governar “esta casa comum”. E o entrevistado observa:
O nosso confinamento é uma forma de ação. Muitas vezes a forma mais inteligente de agir é uma ação interior, que aparentemente é passiva. Nós baixamos a pressão sobre o mundo, sobre a terra, sobre os ecossistemas e a resposta foi a diminuição da emissão de gases de efeito estufa, uma primavera mais visível para todos nós, com a manifestação da vida natural com uma exuberância que não estávamos habituados a ter.”.
Depois, chama a atenção para um pormenor relevante: só se contabilizam as baixas da Covid-19, não se contabilizando as vidas poupadas: os que não morreram de doenças pulmonares, em acidentes automobilísticos ou noutro tipo de situações. E adverte:
Não podemos estar confinados toda a vida. Temos de aprender a habitar a terra de uma outra maneira, o que significa que temos de fazer um esforço, já indicado na ‘Laudato si’, de termos uma economia completamente diferente.”.
Admite que o tema, conexo com a encíclica e com toda a ação de Francisco, “acaba por gerar muitos anticorpos dentro da própria Igreja Católica”. E esclarece:
Dizer que esta economia mata não é um insulto, é uma simples fotografia de uma economia que transforma complexidade em simplificação; que transforma uma atmosfera saudável numa atmosfera que está a alterar o clima; que substitui a plenitude da diversidade biológica por paisagens completamente uniformes; que destrói a diversidade das florestas por monoculturas de produção, que depois provocam incêndios. E que, depois, no fundo, leva tantos milhões de seres humanos a viver na pobreza e no lixo.”.
Estribado na experiência, que teve em países africanos, de ver, nos arredores das grandes capitais, pessoas a conviver com os resíduos e o lixo ou as crianças a brincar no meio dos detritos, o que levava a incríveis surtos de mortalidade infantil, insiste:
Dizer que esta economia mata é um dado objetivo, porque, se não mudarmos a forma como organizamos a nossa economia – se continuarmos a ter uma economia que se baseia no transporte de carbono que está na litosfera e que, depois, através do consumo do carvão, do petróleo, do gás natural, vai para a atmosfera, alterando os mecanismos climáticos, complexos e subtis –, estaremos a passar de uma pandemia, que é grave, para umas situação de calamidade e catástrofe climática, que será muito pior. Estamos a falar de mudanças que vão determinar os próximos séculos.”.
Confrontado com a hipótese de a necessidade de boas práticas sanitárias levar a exageros, como o regresso massivo à utilização de descartáveis e de plásticos, acede a que a questão é relevante, não sabendo ninguém como evoluirá. Verifica no facto “uma hiperreação” corrigível pela “capacidade comunicacional”. Na verdade, como assente, as pessoas, em geral, escutam as mensagens e agem em conformidade. Ora, se se mantiver a “atmosfera de comunicação” (racional, pedagógica), “as pessoas agem em conformidade, porque o que está aqui em causa é o interesse de todos e de cada um” – tal como “será do interesse de todos e de cada um que a saída da pandemia” venha a incentivar “a resposta à crise ambiental e climática” com que nos comprometemos nos termos do acordo de Paris, em 2015, para o qual “a ‘Laudato si’ teve um papel crucial”. Obviamente é preciso aumentar o compromisso e concretizá-lo, pois está em causa a “imagem de nós mesmos como seres humanos”, não podendo nós estar condenados “a ter de optar entre sobreviver” lesando “as gerações futuras”. E, colocando a questão se temos “a capacidade de reinventar a forma como fazemos a nossa economia, como habitamos o nosso planeta”, desenvolve:
Olhando (…) para a quantidade de pessoas em todo o mundo que amam os seus filhos, que amam os seus netos, que percebem o que está a acontecer desde há décadas, com uma economia global a entrar numa situação de ‘U’ invertido, ou seja, tivemos gerações e gerações que foram educadas no mito do progresso, na ideia de que cada geração viveria melhor, mas depois daquele planalto, as gerações dos anos 90, se compararmos o rendimento, as oportunidades de trabalho, a segurança no emprego, nos países desenvolvidos… Não têm comparação, são muito inferiores aos da minha geração, que sou um homem do final dos anos 50. (…) E aqueles jovens que têm a idade de Greta Thunberg, que já é uma menina do terceiro milénio, a situação tenderá a ser ainda mais grave.”.
Reconhece que a civilização do conhecimento, de pessoas capacitadas e de empresas que sabem responder a estímulos, consegue encarar aos desafios que lhe são lançados. E exemplifica com as empresas portuguesas que, em pandemia – algumas sem apoio do Estado – “avançaram fazendo máscaras, construindo ventiladores…”, para dizer que esta “é uma guerra pelos nossos filhos e os nossos netos”, sendo mais importante travá-la que alimentar “uma elite de super-ricos, que tem uma vida numa riqueza (…) pornográfica, obscena”. E questiona se não temos moral e ética para dizer “basta” a pessoas que se deslocam em aviões particulares “como se fossem uma espécie de semideuses, tomam o pequeno-almoço num país e seguem para outro” e, “atrevendo-se, muitas vezes, a aparecer como representantes de causas nobres e justas”.
Considerando que a ‘Laudato si’ é uma encíclica social, a sublinhar a dimensão da sobriedade, da mudança de estilo de vida e que há pessoas a quem é imposta uma condição de que dificilmente saem, e outras que têm a opção de assumir estilos de vida diferentes, Soromenho Marques é interpelado sobre o passo a dar para que seja interiorizada a ideia de que é possível um futuro diferente. E responde:
A pandemia criou um quadro de transição. (…) Estruturas, regras, normas, sistemas de Governo que eram muito sólidos ontem, estão muito periclitantes. (…) Não sabemos para onde é que vai a União Europeia. (…) O futuro de Portugal, como o dos alemães ou dos holandeses, está muito… totalmente dependente da forma como nos vamos governar. Temos sinais contraditórios: sinais que apontam no sentido da fragmentação, outros sinais que apontam no sentido da solidariedade.”.
Ora, apesar de “cada indivíduo” ter “uma responsabilidade especial”, o que produz mudanças estruturais, com resultados permanentes, são as mudanças que passam pelas instituições, leis e normas. Mas, como “quem as faz são as pessoas”, “cada um de nós” deve “ser capaz de ajudar a criar os consensos e o diálogo de que precisamos, as decisões operativas”.
Sobre o ano especial dedicado à “Laudato si”, que se inicia no dia 24, para propor compromissos em ordem à sustentabilidade total em 7 anos, assegura que “é possível almejar o impossível”. E, se quem podia obviar à crise ambiental colocou “a agenda política ou a sua grande empresa à frente do interesse mundial e do interesse humano”, hoje cumpre “adaptarmo-nos a danos” já “impossíveis de evitar” e fazê-lo ativamente “para evitar danos maiores, esses sim irreversíveis e ingeríveis”, pois “o custo da remediação é um custo muitíssimo elevado”, como se vê nos EUA, no Brasil, em que “é a própria noção do Estado funcional, um Estado que respeita os seus cidadãos, que os defende, que está em causa”.
E conclui dizendo que “não são as guerras contra os outros” que mais nos condicionam, mas as “que travamos dentro de nós próprios: entre o melhor de nós, que muitas vezes vive esmagado, a melhor voz de nós e a pior voz de nós”. De momento, “coletivamente, temos a pior voz de nós”, que bloqueia o futuro. Porém, é preciso que a nossa melhor voz “tenha músculo suficiente para travar esta guerra que vai demorar muitos anos e da qual só podemos sair vitoriosos”.
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Vale a pena ler a entrevista: uma boa reflexão sobre a lição da pandemia e da encíclica.
2020.05.23 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Em atípico Dia Mundial do Abraço


Dia Mundial do Abraço surgiu no âmbito duma campanha de 2004, quando Juan Man começou a oferecer ‘abraços de graça’ no centro de Sydney, na Austrália, a maior cidade do país. Ao vencer uma fase de depressão e solidão, tomou a iniciativa e decidiu que o carinho aleatório, mesmo duma pessoa estranha, pode salvar vidas ao demonstrar simplesmente carinho.  A razão por que tomou a iniciativa tem a ver, segundo contou, com o facto de, estando numa festa, um desconhecido ter ido até ele e abraçá-lo. Aí, sentiu-se como um rei e confessa que foi o melhor sentimento que teve. Com o cartaz ‘abraços grátis’, começou a receber e a dar abraços às pessoas nas ruas e ganhou notoriedade. Em 2006, a banda australiana Sick Puppies postou um vídeo no Youtube com a música “All the Same” e tornou-se viral.
Este dia pretende que as pessoas, com um ato de bondade, se sintam melhor.
O abraço ou amplexo acontece quando duas ou mais pessoas, geralmente duas, ficam parcial ou completamente nos braços uma da outra. Faz-se, dependendo da cultura local, como forma de demonstração de afeto duma pessoa para com outra. Pode ser um cumprimento, sobretudo depois de longa ausência, como pode ser ação conjunta de várias pessoas abraçadas que pretendem exprimir um sentimento ou objetivo comum. Pode apenas expressar sentimentos de carinho, ternura, amor, compaixão, saudade, congratulação, terror, etc. E um abraço a alguém pode demonstrar proteção instintiva.
O abraço, associado ou não ao beijo carinhoso, erótico ou de cortesia, é uma forma de comunicação não verbal. Dependendo da cultura, do contexto e do relacionamento, permite a exteriorização de sentimentos de amor, amizade, fraternidade ou simpatia. Ao invés doutros tipos de contacto físico, o abraço pode dar-se em público – sem conotações e manifestações de outro tipo – e em privado, sem estigma em muitos países e diferentes religiões e culturas, independentemente de sexo ou idade. E indica familiaridade ou camaradagem com o outro.
Há também o abraço impessoal, que geralmente é apenas dito e não é dado de facto. É bastante comum cumprimentar ou despedir-se dizendo “um abraço”, mas muitas vezes não abraçando de facto. Esse tipo de abraço impessoal é um sinal de mínima intimidade, mas é comum também entre pessoas desconhecidas. 
E há o abraço duma personalidade para um coletivo, que também não se dá efetivamente, mas que se supõe dar a cada pessoa, o que só se não faz por alegada impossibilidade.
No quadro da amplexoterapia, abraçar será uma ótima terapia contra a tristeza e depressão, pois o abraço será muito mais do que um simples “apertão” de braços, e que no momento em que abraçamos afetuosamente a quem apreciamos, transmitimos emoções como o amor e a paz.
A expressão “ósculos e amplexos” significa “beijos e abraços”. Enquanto a palavra ósculo (do latim “osculum, i”, boca pequenina ou boquinha – sendo que “os, oris” significa “boca”; e “osculum, i” é seu diminutivo) significa “beijo”, o termo “amplexo” é “abraço”, derivando do latim “amplexus, que significa “contorno”, “circuito”, “envoltura”, “abraço”. O amplexo é sinal de afeto bastante comum entre os seres humanos, consistindo em manter os braços entrelaçados entre o corpo do outro, mantendo uma aproximação física. O ósculo é um gesto de cumprimento entre duas pessoas, expressado através de um beijo (os romanos tinham o “basium” – passagem dos lábios pela face ou pela mão do outro; o “osculum”, o beijo repenicado; e o “suavium”, exclusivo da arte amatória) que representa um sinal de amizade ou conciliação, bastante utilizado entre os membros da comunidade cristã.
Como se referiu, etimologicamente, a palavra “ósculo surgiu” a partir do latim “osculum, que significa “boquinha” ou “beijo” repenicado. Mas na biologia e na botânica, o ósculo é um orifício exalante das esponjas (poríferos), por onde passa o fluxo de água, e que se encontra na extremidade livre do corpo desses animais que vivem nos oceanos.
ósculo santo, também conhecido por “beijo da paz”, coexistente com o “abraço da paz” (por isso é que se diz apenas: “saudai-vos na paz de Cristo” ou “oferecei a paz uns aos outros”), foi uma forma de cumprimento criada por Jesus Cristo, segundo a religião cristã. O ato consiste em dar um beijo na face doutra pessoa em sinal de fraternidade. Com os lábios cerrados, o beijo é referido apenas como toque subtil em alguma parte do rosto da pessoa.
Os apóstolos Pedro e Paulo recomendam o uso do ósculo santo em várias passagens bíblicas.
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Entretanto, a pandemia provocada pelo SARS CoV-2, transforma o Dia Mundial do Abraço de 2020 em Dia do Abraço Virtual. É um paradoxo um abraço, que à partida implica contacto físico seja celebrado num dia que recai em tempo que não desaconselha o contacto físico.  
Até 2020, a distância social, praticada com maior frequência na cultura nórdica, era alvo de críticas, especialmente das pessoas mais amorosas. E uma das mais marcantes quebras de protocolo da vida da princesa Diana foi a de cumprimentar afetuosamente as pessoas, rompendo com a distância física esperada da realeza. A proximidade e de troca de carinho em público passou a ser também um dos ‘defeitos’ apontados a Meghan Markle. Porém, tudo mudou: agora, tocar ou estar muito perto das pessoas pode custar vidas. E o peso emocional da distância já vem afetando muita gente. Por isso, o Dia Mundial do Abraço, celebrado a 22 de maio há 16 anos, tem hoje novo momento: virtual, mas de igual importância, se não maior.
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É de recordar que o cardeal José Tolentino Mendonça, a 4 de janeiro deste ano, escrevia para o Expresso online um precioso texto conexo com o abraço. Citando Martin Buber, assegurava que “o mundo não é compreensível, mas é abraçável”, referindo-se não só ao mundo que nos é exterior, mas também ao especificamente humano, “àquela porção de experiência e de mistério que com cada pessoa emerge de forma única no tempo”. E do abraço dizia que a sua “grandeza” é que “pode muitas vezes chegar aonde a compreensão não chega”, pois “o abraço aceita a separação ontológica que a pele do outro significa, detendo-se aquém da pele” e “reconhece que existe uma pele deste lado e do outro, e que, mesmo na intimidade das relações, essa película perdura”. E, estribado em Aristóteles, que sustentava que, ao tocarmos, “não eliminamos uma espécie de intervalo que persiste entre nós e a realidade”, assegurava que “avizinharmo-nos dos outros não é consumir os outros, como se os pudéssemos reduzir a objeto”.
E, para ilustrar que precisamos daquilo que “o toque significa”, evoca o facto de a capa do catálogo da 1.ª exposição surrealista na Europa após a II Guerra Mundial, confiada a Marcel Duchamp, ter uma imagem com a legenda: “Prière de toucher”, quando é usual, junto às obras de arte, colocar-se o aviso para não tocar. A razão é que “era preciso uma mensagem reparadora, capaz de fazer esquecer a segregação e o arame farpado”. Por isso, esperamos que a pandemia passe, para nos tornarmos a abraçar na humildade do abraço de que necessitamos mesmo, pois como diz o cardeal madeirense, “o abraço é o momento do encontro em que o contacto se realiza, mas é também o momento seguinte, quando a separação vem assumida como forma profunda de comunhão”. O “até à próxima” tem muita força anímica.
2020.05.22 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O estado do Novo Banco passou de ruinoso a escandaloso e ultrajante


Por mais voltas que os responsáveis pelo caso deem, bem como os apologistas das soluções encontradas, tanto a “cobaização” de Portugal para salvar um banco através da criação dum fundo de resolução com garantias de privilégio por parte do Estado como o processo de venda do banco bom – o Novo Banco (NB), que resultou da desmembração do BES para se livrar dos produtos tóxicos – como ainda a execução do instrumento contratual constituem um péssimo exemplo da carga que o sistema financeiro impôs aos cidadãos portugueses sob a égide do poder político, quer na vertente que resulta do voto do eleitorado, quer na que deriva da convenção de que os magistrados formados à custa do povo procedem à ministração da justiça em nome deste mesmo povo, que unido jamais seria vencido.
A resolução do BES imposta pelo BCE (Banco Central Europeu), exercida pelo BdP Banco de Portugal), com a cobertura do Governo num fim de semana de agosto de 2014, foi um dos maiores crimes de colarinho branco, como assegurou Rui Rio no mais recente debate parlamentar com o Primeiro-Ministro. É óbvio que foi legal, mas a legalidade foi forjada com dois decretos-lei formulados um numa sexta-feira e outro no domingo seguinte. O Fundo de Resolução, constituído por um sindicato de bancos, em que a parte de leão inversa coube à CGD, foi a nuvem de poeira atirada para o ar a convencer o povo de que não haveria custos para os contribuintes e alegadamente a garantir os depósitos.
Do Governo que decretou o lastro para a resolução saiu um secretário de Estado para o BdP que ficou encarregado de proceder à venda do NB. E, supostamente depois de muitas tentativas falhadas, vendeu-o, já no consulado de António Costa, a um fundo norte-americano em que as disposições contratuais mais não significam do que a Lone Star compra e o Estado Português paga através do Fundo de Resolução. Qualquer outra alternativa era menos má que esta.
Nos últimos dias, esteve na ribalta pública a transferência de 850 milhões alegadamente sem conhecimento do Primeiro-Ministro, que garantiu no Parlamento que tal operação não se faria sem que se conhecessem os resultados da auditoria em curso sobre a gestão de 2017 e 2018 e que, primeiro, pediu desculpa ao grupo parlamentar que levantou a questão e, depois, veio dizer que não tinha havido crise nenhuma no Governo. O Ministro das Finanças veio dizer que todos sabiam porque faz parte do contrato e do OE (Orçamento do Estado), prometendo que, enquanto for ministro, não permitirá um debate destes sobre o banco. O Presidente da República, que não comenta o funcionamento interno do Governo, disse que o Primeiro-Ministro esteve muito bem.       
Do Presidente já se espera que faça comentários: está no seu direito e no “seu” entendimento das prerrogativas constitucionais. O Primeiro-Ministro garantiu o que não podia, pois não ouviu o Ministro das Finanças, e agora vem garantir que o Fundo de Resolução pode reaver a verba transferida se as conclusões da auditoria forem pela administração incompetente e ruinosa, o que só os tribunais podem concluir. E o Ministro parece renunciar à defesa da coisa pública em benefício dum banco, como parece desconhecer que não basta uma cláusula contratual existir para que seja boa, não bastando uma verba estar inscrita no OE para ser automaticamente disponibilizada, pois sabe que, a par do decreto de execução orçamental, é necessário o ato de autorização de despesa. Mais: quando uma das partes dum contrato reconhece que está a ser gravemente lesada e/ou que a outra parte não está a cumprir o clausulado nos termos que lhe dizem respeito, cabe-lhe a denúncia do contrato com vista à correção ou à sua anulação.
Tudo isto é verificável em situações normais e, se o não é por alegadamente o contrato ter ficado blindado, os responsáveis têm de responder por isso. Para isso existem os tribunais.   
Porém, a questão do NB torna-se escandalosa para os contribuintes pelos milhares de milhão de euros que já absorveu do Estado a par dos prejuízos acumulados ao longo do tempo, contra as expectativas que a publicidade inventou no início, do aumento de 75% dos vencimento dos gestores desde a tomada de posse do NB pela Lone Star e dos chorudos prémios com que os mesmos gestores têm sido contemplados. E, no âmbito da gestão, é de esperar que os gestores deem as cambalhotas necessárias para que o NB possa retirar do Estado, através do Fundo de Resolução, tudo o que puder obter em termos contratuais até ao último cêntimo.        
E este estado de exceção do NB, além de ser um escândalo nacional, é um ultraje à enorme fatia de cidadãos que a covid-19 atirou para o desemprego, agora em constante aumento, aos que a situação de pandemia levou à pobreza, ao isolamento e à morte, aos que serviam e o medo sentido ou imposto, atirou para a inatividade, às empresas e serviços que encerraram, que ficaram em meia atividade, se reconverteram ou precisaram de recorrer às migalhas do Estado. E é um insulto aos outros bancos a quem o Governo e a oposição advertiram de que não podem aproveitar-se da crise para acumular lucros escandalosos e a quem a sociedade está a solicitar apoio às empresas e às famílias.
Não contando, porque não estiveram para isso, com a crise socioeconómica que flagelo como este pudesse provocar, sabendo-se que isto é cíclico, a banca em geral não aprendeu com a crise financeira de 2008, havendo a esperança, na época, de que o choque obrigasse à profunda reforma do sistema financeiro, que não aconteceu. Mudou-se algo para que tudo ficasse na mesma, prosseguindo grosso modo os hábitos e o modus faciendi pré-2008. O poder que a Idade Média cria ser confiado por Deus ao monarca é detido pela banca que se julga acima de todos.  
No atinente ao BES, o banco mau ficou com o nome de Banco Espírito Santo e o banco bom, o NB, recebe tranches de proventos do Estado a título de garantias para as “debilidades” que vão surgindo convenientemente. Tem crédito mal parado de que não informa o avalista Estado e vende património sem autorização do credor Fundo de Resolução. Ora, o cidadão que tenha empréstimo bancário para habitação ou para uma unidade empresarial costuma estar sujeito a hipoteca imobiliária, não se podendo desfazer do bem sem o acordo do credor. E quando lhe é concedido financiamento para um projeto, deve periodicamente prestar contas da administração que faz do projeto em causa e das respetivas atividades. Porém, ao NB tudo é lícito. Parte inferior do formulárioApesar de acumular prejuízos sobre prejuízos e continuar a ter capital injetado pelo Estado (um empréstimo que qualquer contribuinte desejaria ter a várias décadas), os salários dos administradores subiram 75% com a venda à Lone Star e os prémios de eleição continuam a ser religiosamente concedidos.
Por fim, supostamente nada obsta a que o Ministro das Finanças passe a Governador do BdP, porque tem feito um papel fantástico como governante e porque o mesmo sucedeu com outros como Pinto Barbosa, Silva Lopes e Miguel Beleza. Só nos esquecemos que ao BdP incumbirá provavelmente avaliar finalmente todo o percurso do NB de que o próprio não pode alijar responsabilidades tal como a sua antecessora – o que não se aplica aos preditos. E, quanto ao desempenho como governante não é despiciendo o garrote que impôs à despesa pública que ia continuando a estrangular o SNS na esteira do tempo da troika. Não éramos todos “Centeno”?
Constitui, pois, o percurso do NB uma forte interpelação aos poderes do Estado!
2020.05.21 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Evocando o sofrimento do Padre Manuel Souto, de Freixinho


Passaria hoje, dia 20 de maio, mais um aniversário do seu nascimento, mas faleceu a 14 de janeiro de 1980, uma segunda-feira, já lá vão 40 anos. Sucedi-lhe na paróquia de Freixinho (Sernancelhe), donde era natural e que paroquiou nos últimos anos de vida, tendo-o acompanhado nos seus últimos meses. Conheci os seus pais António da Cunha Rebelo e Ângela Rebelo.
É certo que o conhecimento que tive deste sacerdote ordenado em e para a arquidiocese de Luanda – falava com unção e saudade do arcebispo Dom Manuel Nunes Gabriel – não dá para tecer muitas considerações. Não obstante, não posso deixar de salientar alguns factos.
Regressou à metrópole em virtude de se sentir doente, pelo que, residindo na casa materna, coadjuvava em Freixinho e Fonte Arcada (aí residia o pároco) o Padre Alfredo Pedrinho, que terá falecido de pneumonia em que não fora assistido supostamente por o então Hospital de Sernancelhe não estar munido de oxigénio e a deslocação a Lamego ou a Viseu ser ao tempo complicada, bem como a tendência natural dos doentes era ir esperando a ver se passava com as mezinhas caseiras.
Apesar da doença, o Padre Manuel Rebelo da Cunha Souto, passou a paroquiar Fonte Arcada e Freixinho, até que, impossibilitado de se deslocar e de manter uma atividade regular, Fonte Arcada foi entregue ao Padre José Amorim, então pároco de Ferreirim e de Macieira, e o Padre Manuel ficou apenas com Freixinho até à sua completa debilitação.
Entretanto, na tarde do dia 10 de março de 1979, Dom António de Castro Xavier Monteiro, Arcebispo-bispo de Lamego, que se encontrava em Vila Nova de Paiva, numa reunião do clero do então arciprestado, mandou-me chamar ao saber que eu estava de serviço na Escola Preparatória. Fiquei admirado quando o Padre Sílvio Pinto do Amaral me sussurrou que aceitasse tudo o que o prelado me pedisse. O pedido de Dom António era que eu me encarregasse da paróquia de Freixinho, promovesse as catequeses, presidisse à celebração da Palavra ao domingo na ausência de sacerdote, com homilia e distribuição da Comunhão, presidisse a funerais e chamasse sacerdotes para o serviço de confissões, santa unção, batismos e matrimónios e acompanhasse o Padre Manuel, que tinha sido operado a um tumor cerebral e estava cada vez mais debilitado, na celebração da Missa em privado em sua casa. A única credenciação que eu tinha era o curso de Teologia e a instituição nos ministérios de Leitor (27 de abril de 1974) e de Acólito (15 de junho de 1974).
Apenas referi ao prelado lamecense que só era preciso o entendimento com o Padre Lucas Ribeiro, com quem ainda estava em estágio, o que obviamente não era difícil de conseguir. Assim, o Arcebispo levou-me a Freixinho a apresentar-me ao Padre Manuel, à família e a algumas pessoas que por ali se encontravam. Depois, viemos falar com o Padre Lucas. E, como eu não tinha meio de transporte próprio, o senhor Manuel Salgado, da Sarzeda, vinha buscar-me para Freixinho ao domingo, o que sucedeu logo no dia seguinte pela primeira vez, levando-me, a seguir, para a Sarzeda, onde faria também a celebração da Palavra, sendo que no fim do dia me traria a casa do Padre Lucas, em Caria.
Advertindo-me o prelado de que tivesse cuidado porque o sacerdote poderia não ter capacidade para celebrar a missa, tranquilizei-o nos termos seguintes: ajudá-lo-ia a celebrar a missa sempre que ele o desejasse (arranjaria meio de ir a Freixinho muitas vezes para esse efeito). Se ele não conseguisse fazer a consagração, não havia missa, pelo que as coisas se deixariam no ponto em que estavam; se conseguisse fazer a consagração, eu próprio e/ou outra pessoa que ali estivesse faríamos a comunhão. E não haveria problema, pois casos excecionais merecem tratamento adequado.
E assim se procedeu. Os padres do arciprestado organizaram-se para as confissões quaresmais; o Padre Amorim celebrou a Missa e fez a procissão no dia 8 de maio, festa de São Miguel; o Padre Adélio da Cunha Fonte, espiritano, fez a procissão e celebrou a Missa da Páscoa (em Freixinho e Sarzeda), aonde eu fui na segunda-feira fazer a celebração da palavra e a visita pascal, tendo ficado no domingo a ajudar o Padre Lucas. A partir de 15 de agosto, ordenado diácono, já podia oficiar em batismos e matrimónios; e, a partir de 29 de setembro, ordenado de presbítero, podia assumir a gestão normal da paróquia e celebrar a Missa, a Reconciliação e a Unção dos doentes. E, a 1 de novembro, passei também a Vila da Ponte e Granjal e deixei Sarzeda.
O Padre Manuel Souto, cada vez mais debilitado e choroso, por vezes, “incomodava” os conterrâneos, que não compreendiam que tudo provinha da doença que o consumia. Porém, alguns lembravam-se da ajuda que ele dispensava a muitos graças à sua habilidade na reparação dos motores e sistemas de regra e na reparação de avarias em eletrodomésticos e da sua boa disposição e jeito um pouco para tudo quando a situação de doença ainda era controlável.
Quem mostrou sempre um carinho especial pelo sacerdote foram as crianças da época, mercê do jeito pedagógico das catequistas e da professora do então ensino primário Odete Duarte.
A este propósito, recordo que acompanhei estas crianças à peregrinação a Fátima, a 9 e 10 de junho de 1980 (segunda e terça-feira). E foi uma verdadeira festa tanto no Santuário como na casa das Irmãs da Apresentação de Maria, onde ficaram alojadas.
Devo ainda recordar que, a 20 de maio de 1982, estando eu em serviço como capelão militar no Regimento de Infantaria de Viseu, a assinalar postumamente o aniversário do Padre Manuel, as crianças de Freixinho, como fora previamente combinado com o comando, foram recebidas no quartel, tendo-lhes sido mostrado o que era de mostrar. Aquilo que mais apreciaram foi ver passar os soldados em formatura e o museu regimental. Almoçámos ao ar livre no Parque do Fontelo e, a meio da tarde, celebrámos missa de grupo pelo Padre Manuel.
Não posso deixar de sublinhar que no seu funeral, além do Arcebispo, compareceram em massa os sacerdotes como era é usual – e penso que ainda é – na diocese de Lamego e que o Seminário de Lamego promoveu, anos depois, uma celebração de sufrágio e ação de graças pelo dom deste sacerdote na Igreja de Freixinho, que envolveu toda a paróquia.
Bem recordo aqueles tempos, assim como a oferta da batina preta e da batina branca. Esta ainda a utilizei várias vezes no verão ou noutras ocasiões sob a capa negra – parecendo um pinguim. E ainda há dias folheei um livrinho de canto coral que ele me deu, editado em Angola em 1958.
Porém, o que é de salientar é o testemunho do padre dedicado e macerado pelo sofrimento num termo de vida em que os amigos nem sempre mostraram a conveniente compreensão e a devida tolerância, não por maldade, mas por falta da avaliação concreta da realidade concreta. Só Deus é que sabe dar o justo valor a todos e a cada um, usando mais a misericórdia que a justeza.
2020.05.20 – Louro de Carvalho