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domingo, 24 de maio de 2020

O dia em que Jesus “se desconfinou” e passou a estar em teletrabalho


Contou Dom Américo Aguiar, na homilia da Missa a que presidiu, neste dia 24 de maio, na igreja paroquial do Parque das Nações, que um miúdo à catequista que, na sua lição de catequese por videoconferência, perguntava o que é a ascensão de Jesus, respondera que é o dia em que Jesus passou a estar em teletrabalho. Na verdade, Ele subiu ao Céu, mas garantiu estar connosco todos os dias (“Eu convosco sou” – Egô meth’ hymôn eimi: note-se a proximidade entre “eu” e “vós”) até ao fim dos tempos. Mais do que sempre conectado, está próximo, muito próximo, pois, como disse o Cardeal Patriarca na sua homilia na Igreja de Cristo Rei da Portela, a ascensão mais não é que o desconfinamento de Jesus em relação à sua pátria terrena e a este mundo.    
Porém, agregado à ascensão e como corolário do Evangelho, está o mandato duma Igreja em saída ancorada em toda a autoridade (exousía) de Jesus, como perentoriamente falou dizendo (elálêsen légôn) aos discípulos, que, vendo-O (idóntes), O adoraram (prosekýnêsan):
Toda a autoridade me foi dada no Céu e na Terra. Por isso, indo, fazei discípulos de (ensinai – mathêteúsate) todas as nações, batizando-os no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar todas as coisas que vos mandei. E eis que Eu convosco Sou todos os dias até ao fim do mundo.”.
Alguns ainda duvidaram (edístasan) – diz o Evangelista –, o que só mostra que a via da fé não é linear, mas pode encontrar escolhos. Segundo o relato lucano (At 1,6), até interrogaram Jesus se era agora que ia restaurar o Reino de Israel (apokathistáteis tên basileían tôi Israêl?). Porém, Jesus remeteu a explicação, contrária à expectativa mundanal dos discípulos, para o desígnio paterno e para a ação do Espírito Santo, que os iria fazer testemunhas de Jesus até aos confins da Terra.    
O discurso de Jesus revela que a sua autoridade se radica na familiaridade e se concretiza na proximidade; a missão é universal (a todas as nações – tà ethnê) a cargo do conjunto dos discípulos, que não podem despegar do Mestre; os discípulos só ensinam o que Ele lhes mandou, não se podendo arvorar em mestres, o que releva a fidelidade em detrimento da nossa pretensa mestria ou iniciativa (Também o Filho e o Espírito Santo só falam do que ouviram ao Pai); é “indo” (poreuthéntes – traduzimos este particípio aoristo pelo gerúndio, com a marca da progressão e não da espera de que as coisas aconteçam) que se sentem enviados e se tornam apóstolos e missionários; e a missão de ir e ensinar, confiada aos discípulos, tornados irmãos de Jesus pela Ressurreição, significa o desconfinamento da missão de Jesus em relação aos filhos de Israel, pois agora vai a todas as nações, porque os confins da Terra verão a salvação do Nosso Deus por obra da ação missionária partilhada entre a comunidade discipular, Jesus e o Espírito Santo – quer os discípulos partam da Galileia, como fez Jesus e Mateus regista, quer partam de Jerusalém, onde Pedro fez o discurso querigmático.      
Segundo Dom António Couto, Bispo de Lamego (vd Jornal da Madeira, de 24 de maio), a soberania de Jesus, “nova, próxima e familiar”, é preparada quando “o anjo reorienta os passos das mulheres do túmulo para a Galileia”, dizendo-lhes que fossem depressa dizer aos discípulos que “Ele ressuscitou dos mortos e vos precede (proágei hymâs) na Galileia” (Mt 28,7). Porém, Jesus surpreendendo as mulheres no caminho, reformula o dizer angélico: “Ide e anunciai aos meus irmãos que partam para a Galileia, e lá me verão(Mt 28,10). É o tempo da “nova e indestrutível familiaridade” em que “o Ressuscitado aponta para nós e nos envolve a todos “num imenso abraço fraternal”.
O “indo a fazer discípulos de todas as nações” corporiza a missão infinda “colocada diante dos nossos olhos”, sendo que “todas as nações são todos os corações”. E, como lembrava Dom Manuel Clemente, dizia Santo Agostinho que seguimos com o coração a ascensão de Jesus na esperança de que iremos um dia ter com Ele, mas por agora também é preciso que levemos a Boa Nova a todos os corações, sabendo perscrutá-los e cuidar deles e da sua vida e dignidade.
Acentuando que não estamos sós nesta estrada sem medida, pois Ele está connosco e frisando que este é o caminho de Abraão, que partiu da sua terra, apoiado na promessa e na bênção, Dom António Couto faz o paralelo entre a abertura do Evangelho, em que se apresenta o Emanuel, Deus connosco, e o remate do Evangelho, em que Ele garante continuar connosco – o que remete para a figura literária da inclusão para garantir que toda a Boa Nova é a da presença de Deus entre nós e em nós.   
Os discípulos, pela palavra e pelas obras, testemunham esta visita de Deus em Jesus Cristo Ressuscitado às pessoas e aos povos. Ora, as testemunhas não inventam, mas dizem e põem o pescoço por aquilo que viram e ouviram. E dessa visita diz o Bispo de Lamego:
Não se trata de uma visita rápida, de quem está apenas de passagem. Ele vem para ficar connosco sempre, tanto nos ama. Imensa fraternidade em ascendente movimento filial, como uma seara nova e verdejante a ondular ao vento suavíssimo do Espírito, elevando-se da nossa terra do Alto visitada e semeada, ternamente por Deus olhada, agraciada, abençoada.”.
O Livro dos Atos dos Apóstolos (1,1-11) centra a instrução de Jesus nos 40 dias que mediaram entre a ressurreição e a ascensão no essencial: o Reino de Deus (Hé Basileía Tou Theoû), garantindo que, em breve, seriam batizados no Espírito Santo (hymeîs dè en pneúmati baptisthêsesthe hagíôi) e não só em água como era o batismo de João.
E, no momento da ascensão, evidencia-se o facto de “ver” (vários verbos que o significam) em contraste com a subtração pela nuvem e com a advertência dos dois homens vestidos de branco:
Vendo (blepóntôn) eles, Ele foi Elevado (epêrthê); e uma nuvem (nephélê) O subtraiu (hypélaben) dos olhos deles (apò tôn ophthalmôn autôn). E, tendo o olhar fixo (atenízontes) no céu para onde Ele ia, eis que (idoú) dois homens que estavam ao lado deles, em vestes brancas, e disseram: “Homens Galileus, por que estais de pé, mirando (emblépontes) o céu? Este Jesus que vos foi arrebatado (analêmphtheís) para o céu, assim virá (eleúsetai) do modo (trópon) que O vistes (etheásthe) ir para o céu.’ (Atos 1,9-11).”.
Ao arrebatamento de Jesus pelo céu, os dois homens vestidos de branco juntam a vinda final de Jesus. Não se verá mais a ascensão, mas a vinda. Entretanto, importa descolar da visão física do céu e alimentar a afeição por ele e partir para a missão segundo o mandato de Jesus e a moção do Espírito Santo. É nesse trabalho orante e testemunhal que se ganha eficazmente a afeição pelas coisas do Alto, ou seja, passando pelo mundo a pregar e a fazer o bem. Aliás, a ascensão e a vinda final não são fenómenos que se confinem à limitação e devir físicos, mas são categorias teológicas transcendentais que obviamente têm de se exprimir através da linguagem da fisicidade, a que os homens entendem e usam.
Por tudo isto, é conveniente seguir o exemplo de Paulo (Ef 1,17-23) agradecendo a Deus o dom da fé e a confiança que pôs na comunidade discipular em ordem à missão de testemunho, ensino e prática das boas obras entre nós e para com os irmãos de todos os quadrantes.
Porém, Paulo une à ação de graças fervorosa oração a Deus ao Pai (epíclese) para que dê aos destinatários da Carta, pelo Espírito Santo, o conhecimento profundo (epígnôsis) da “esperança a que foram chamados”. E a prova de que pode o Pai realizar essa “esperança” é o que Ele fez com Jesus: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita, exaltou-O e deu-Lhe a soberania sobre todos os poderes angélicos, soberania que se estende à Igreja – o “corpo” cuja “cabeça” é Cristo.
A ideia de que a comunidade discipular é um “corpo”, o “corpo de Cristo”, formado por muitos membros, já aparecera nas “grandes cartas”, sobretudo para definir a relação dos vários membros do “corpo” entre si. Contudo, nas “cartas do cativeiro”, Paulo retoma esta noção para refletir sobre a relação existente entre a comunidade e Cristo. E dois conceitos significativos definem aqui a relação entre Cristo e a Igreja: o de “cabeça” e o de “plenitude” (em grego, “pleroma”). Assumir Cristo como a “cabeça” da Igreja significa perceber que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre os dois uma comunhão total de vida e de destino; e significa também que Ele é o centro em torno do qual o “corpo” se articula, a partir do qual e em direção ao qual cresce, se orienta e constrói – em suma, é a origem e o fim desse “corpo”. Por outro lado, significa que a Igreja/corpo está submetida à obediência a Cristo/cabeça, pelo que a Igreja só de Cristo depende e só a Ele deve obediência. E dizer que a Igreja é a “plenitude” de Cristo é dizer que nela reside a “plenitude”, a “totalidade” de Cristo. Ela é o recetáculo, a morada, onde Cristo Se torna presente no mundo e é através desse “corpo” onde reside que Jesus Cristo continua todos os dias a realizar o seu projeto de salvação em favor dos homens. Presente nesse “corpo”, Cristo enche o mundo e atrai a Si todo o universo, até que o próprio Cristo “seja tudo em todos”.
Assim, Jesus subiu ao Céu, mas constituiu a sua Igreja como sinal e instrumento de salvação, sendo que, embora a Igreja não esgote as vias da graça e da salvação, porque o Espírito sopra donde e onde quer e o Verbo está espalhado como semente pelos corações (lógos spermatikós ou verbum seminale) – queiram eles dar-se conta dele e desenvolvê-lo em si – a salvação não pode vir contra a Igreja que siga no uso do sensus fidei e na perscrutação dos sinais dos tempos.
Assim, a ascensão como desconfinamento de Jesus ou passagem de Jesus ao teletrabalho dá lugar ao confinamento universal em torno do Cristo e ao trabalho missionário partilhado familiarmente, proximamente e fraternalmente entre Jesus, o Espírito Santo e a comunidade discipular que se torna apostolada, também pela preocupação e trabalho pelos que vivem longe.
Não sei se, neste Dia Mundial das Comunicações Sociais, a propósito do qual o Papa formula o voto de que esses meios se empenhem em dar boas notícias, estarão todos os elementos da comunidade discipular disponíveis para testemunhar por obras e palavras a boa notícia de que Jesus vive, nos ama, intercede por nós junto do Pai e nos quer a todos no Reino de Deus. Talvez seja este um desafio aos cristãos que trabalham com os meios de comunicação e aos que eles possam intervir, bem como a todos os profissionais dos media para que estejam atentos às boas notícias e as difundam.         
2020.05.24 – Louro de Carvalho

domingo, 2 de junho de 2019

Enquanto os abençoava, afastou-Se deles e foi elevado ao Céu


A Ascensão do Senhor, solenidade agendada pela Igreja para a quinta-feira que perfaz os 40 dias do tempo pascal (contados à maneira hebraica e romana) ou para o domingo seguinte, nos países em que a predita quinta-feira não é feriado, reporta-se ao mistério de Cristo que se relaciona com a pessoa e a missão do Filho de Deus. Este, fazendo-Se homem, “por nós homens e para nossa salvação” (do símbolo niceno-constantinoplitano), veio morar com os homens durante algum tempo na visibilidade da condição humana. Chegada a hora que o Pai fixara, voltou para Ele, mas passando pelo sofrimento, morte e ressurreição (trilogia que Lucas sintetiza com o verbo “paskheîn”) para que tenhamos a vida e a tenhamos em abundância (cf Jo 10,10). Por isso, este mistério diz respeito a toda a humanidade, ao mundo inteiro, a cada homem e a cada mulher.
Para referirmos a Ascensão de Jesus, recorremos a imagens da fisicidade (elevou-se, subiu, foi para o alto…). São expressões não tomandas à letra, mas que significam só que Jesus está na glória com o Pai, como diz a fé, a oferecer-nos os inefáveis benefícios que a exaltação de Cristo traz ao mundo – bens celestes que procedem do Espírito Santo prometido por Cristo que subiu ao Céu.  
No Ano C, o episódio da Ascensão é lido no final do 3.º Evangelho (Lc 24,46-53) e no início dos Atos dos Apóstolos (At 1,1-11). Enquanto o 3.º Evangelho reporta a um só dia a ressurreição e a ascensão, o livro dos Atos separa as duas vertentes do mistério por 40 dias (número simbólico da perfeição) a designar o tempo da duração do inteiro ensinamento do Ressuscitado aos discípulos, cujo tema central é o Reino de Deus, como referem várias passagens dos Evangelhos (sobretudo os sinóticos) – tempo simbólico que remete para o dos grandes acontecimentos da economia da salvação, por exemplo, os 40 anos da travessia do Sinai e os 40 dias e as 40 noites da passagem de Jesus pelo deserto, levado pelo Espírito Santo, antes de iniciar a sua pública pregação.    
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O livro dos Atos dos Apóstolos dirige-se, na década de 80 (cerca de 50 anos após a morte de Jesus) a comunidades que vivem em contexto de crise. Passara a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o Reino e uma certa desilusão apoderou-se das comunidades cristãs. Além disso, surge alguma confusão resultante de questões doutrinais; e da monotonia resulta uma vida cristã pouco empenhada e pouco entusiasmante, o que induz as comunidades a instalarem-se na mediocridade. Com efeito, continua igual o mundo, como continua adiada a esperada intervenção vitoriosa de Deus. E os cristãos interrogam-se sobre quando se concretiza plena e inequivocamente o plano divino de salvação. E neste quadro psicossocial se insere o texto tomado para 1.ª leitura (At 1,1-11) na Liturgia da Palavra da Solenidade da Ascensão, curiosamente comum a cada um dos três anos do ciclo (Anos A, B e C).
Não levando à letra as expressões tiradas da fisicidade e tendo em conta o número simbólico dos 40 dias, verificamos que Lucas, funcionando como catequista, adverte que o desenvolvimento do projeto de salvação em Cristo passa (após a ida de Jesus para junto do Pai onde intercede por nós) para as mãos da Igreja, animada e guiada pelo Espírito. Longe de estar concluída a edificação do “Reino”, ela é uma tarefa que é preciso concretizar na história e que exige o empenho contínuo de todos os crentes, com a orientação das lideranças. Os cristãos, quais discípulos chamados ao seguimento de Jesus e ao apostolado, são instados a redescobrir o seu papel para se tornarem capazes de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu.
O trecho em referência inicia-se com um prólogo (vv. 1-2) que relaciona os “Atos” com o 3.º Evangelho na referência ao mesmo Teófilo a quem foi endereçado o Evangelho e na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua ação no mundo (tema central do 3.º Evangelho). E o prólogo apresenta os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos (ambos vinculados com Jesus) – e menciona o facto de Jesus ter sido arrebatado ao Céu. Na verdade, tal como prometera o envio do Espírito Santo, também apareceu vivo aos apóstolos depois da sua Paixão, deu-lhes várias provas da ressurreição e falou-lhes do Reino de Deus.
Depois do prólogo, surge o tema da despedida de Jesus (vv. 3-8). Lucas, na sua catequese, começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos acerca do Reino de Deus. Como foi dito, número 40 é um número simbólico, o número que define o tempo necessário para um discípulo aprender e repetir as lições do mestre, definindo aqui o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado, levando à releitura do ensinamento anterior à Paixão, mas agora à luz e segundo os critérios da ressurreição, pelo a impertinente (e atual) tentação do messianismo político e espetacular (“É agora que vais restaurar o reino de Israel?”) é rejeitada liminarmente por Cristo.
As palavras de despedida de Jesus (vv. 4-8) sublinham duas vertentes: a vinda do Espírito e o testemunho (em grego “martýrion”) que os discípulos são chamados a dar “até aos confins do mundo”. Está aqui sintetizada a experiência missionária da comunidade lucana: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, de Jerusalém a Roma, atingindo diversas paragens. É o programa que Lucas desenvolve ao longo do livro, posto na boca do Ressuscitado. O autor mostra com o livro que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito.
O último tema é a Ascensão (vv. 9-11), passagem que deve ser interpretada de modo que, pela roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a clareza.
Em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao Céu (v. 9a). Não se trata de descolagem da terra por parte da pessoa de Jesus, mas dum facto teológico (não de reportagem): na verdade, a ascensão é um modo de afirmar que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supraterrenas; é o modo literário de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que “reentra”, por assim dizer, na glória da comunhão com o Pai. Depois, temos a nuvem (v. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Ora, a nuvem, pairando entre o céu e a terra, é, no Antigo Testamento, um símbolo da presença de Deus (cf Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Por outro lado, ao mesmo tempo, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não vê, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, sombra e luz, divino e humano, são dimensões agora sugeridas a propósito do Ressuscitado elevado à glória do Pai, mas que se mantém na caminhada com os discípulos.
Por sua vez, os discípulos ficam pasmados a olhar para o céu (v. 10a), o que significa a expectativa da comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar a cabo o projeto de libertação do homem e do mundo. Mas talvez seja precisa ação.
Talvez por isso e por fim, surgem dois homens vestidos de branco (v. 10b). Na brancura que sugere o mundo de Deus, indica-se que o testemunho destes homens vem de Deus, tal como o testemunho dos discípulos, pois têm de branquear as suas túnicas no sangue do Cordeiro (cf Ap 7,14). Recordo, a este respeito, que o Padre Laureano Alves, passionista, frisou hoje, em Santa Maria da Feira, a vertente grega do conceito de martírio: o mártir é não só aquele que dá a vida, com o derramamento de sangue por causa de Cristo e do seu Evangelho, mas também aquele que, seguindo-O, dá testemunho de Cristo ressuscitado pela palavra, atitudes e comportamentos, podendo, se necessário for, chegar ao martírio ou testemunho pelo sangue. Na verdade, entre os gregos, “mártyros” era quem, tendo visto e ouvido, não podia deixar de prestar o seu depoimento, correndo os riscos que isso comportava.      
Então os referidos homens de branco instam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; pois, agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar, na história, a obra de Jesus, com a esperança na segunda e definitiva vinda do Senhor.
O sentido fundamental da Ascensão não é a contemplação cómoda ou supina da elevação de Jesus, mas o apelo ao seguimento das pegadas de Jesus – Caminho, Verdade e Vida –, olhando para o futuro com entrega inequívoca à concretização do seu plano salvador no mundo.
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O Evangelho da Ascensão no Ano C (Lc 24,46-53) situa-nos no dia da Ressurreição. Cristo já se manifestara aos discípulos de Emaús (cf Lc 24,13-35) e aos onze, reunidos no cenáculo (cf Lc 24,36-43). Agora, seguem-se as últimas instruções de Jesus (cf Lc 24,44-49) e a Ascensão (cf Lc 24,50-53).
Ao invés de “Atos”, ressurreição, aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos e ascensão são postas no mesmo dia, o que será mais adequado em termos teológicos. Com efeito, Ressurreição e Ascensão não se podem diferenciar; são modos humanos de falar da passagem da morte à vida junto de Deus. Todavia, como “Atos” é posterior, Lucas aprimora o discurso na linha temporal das exigências da aprendizagem discipular e na perspetiva da necessidade de os corações se preparem para a livre receção do dom de Deus a culminar na infusão e efusão do Espírito Santo.  
Também este trecho final do livro (como o trecho inicial de “Atos”) está organizado em dois momentos: despedida dos discípulos (vv. 46-49) e ascensão (vv. 50-53).
No primeiro momento, temos as palavras de despedida. Os discípulos, feita a experiência do encontro pessoal com Jesus ressuscitado, são agora convocados para a missão: Jesus envia-os como testemunhas a pregar a “metanoia” – conversão, transformação radical da vida (mentalidade, coração, valores, atitudes, comportamentos) – e o perdão dos pecados. Não se prega a condenação, a ruína, o anátema, mas prega-se, em nome do Messias, como estava escrito no Antigo Testamento, o arrependimento e o perdão dos pecados. Ou seja, anuncia-se que Deus ama todos os homens e os convida a deixar o egoísmo, o orgulho e a autossuficiência para terem a vida de Homens Novos. Para esta enorme tarefa, os discípulos contam com a força do Alto, isto é, a ajuda e a assistência do Espírito. Estão, nas palavras de Jesus, todos os dados do que é a missão da Igreja: o testemunho apostólico tem como tema central a morte e ressurreição de Jesus, ou seja, a ação do Messias libertador anunciado pelas escrituras (vv. 44.46). De Jerusalém, este testemunho chegará a todas as nações – “percurso” que é explicitado no livro dos “Atos”.
No segundo momento, Lucas descreve a Ascensão, que situa em Betânia, havendo que realçar duas indicações de Lucas: a bênção que Jesus dá aos discípulos antes de ir para junto do Pai, bênção que sugere um dom que vem de Deus e que atinge positivamente toda a vida e toda a ação dos discípulos, capacitados para a missão pela força de Deus; e a alegria dos discípulos, alegria que é o grande sinal messiânico e escatológico e que indica o início do mundo novo, pois o projeto salvador e libertador de Deus está em marcha.
O mencionado Padre Laureano Alves chamou a atenção dos participantes na celebração da Missa para o facto de Lucas ter colocado a Ascensão em Betânia, para onde Jesus conduziu os discípulos – Betânia, terra onde estava Maria, Marta e Lázaro, que, ressuscitado por Jesus, serviu de garantia visível de que o Pai glorificaria o Filho e se glorificaria no Filho, amigos de Jesus. Assim, a Ascensão dá-se, não no Calvário, lugar de ignomínia, mas em terra de amigos, de família constituída a partir da Palavra de Jesus e do seguimento do Caminho, Verdade e Vida. Depois, enfatizou o fator da bênção e fez a remissão para a primeira bênção de que fala a Bíblia (vd Gn 1,28): tendo criado o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, como coroa de toda a criação, “abençoando-os, Deus disse-lhes: Crescei, multiplicai-vos, enchei e submetei a terra…”. E tem razão o sacerdote, porquanto, sendo a ação de Cristo uma nova criação, segundo a qual o Filho de Deus, desceu para que o homem (todos os homens) se eleve como Ele Se eleva, esta criação mereceu a nova bênção dada por Jesus ao novos promotores da nova humanidade: têm de crescer (ou seja, receber a força do Alto) e multiplicar-se (ir por todo mundo, desde Jerusalém ao confins da Terra, fazendo discípulos em todas as nações). Se a missão de Jesus tem em Jerusalém o ponto de chegada, a missão dos discípulos tem ali o ponto de partida (para os confins).
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Por fim, o trecho da Carta aos Efésios na 2.ª leitura (Ef 1,17-23) aparece na 1.ª parte da carta, que é talvez um dos exemplares duma “carta circular” enviada às igrejas da Ásia, quando Paulo está na prisão (em Roma, provavelmente), através de Tíquico, cerca dos anos 58/60. Veem alguns nela uma síntese da teologia paulina, num momento em que a missão do apóstolo está praticamente terminada na Ásia. O texto em causa integra uma ação de graças, em que Paulo agradece a Deus a fé dos Efésios e a caridade que eles manifestam para com todos os irmãos na fé.
A esta ação de graças, Paulo une uma fervorosa oração a Deus para que os destinatários da carta conheçam “a esperança a que foram chamados” (v. 18). E a prova de que o Pai pode realizar essa esperança, ou seja, conferir aos crentes a vida eterna como herança, é o que ele fez com Jesus: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita (v. 20), exaltou-O e deu-Lhe soberania sobre todos os poderes angélicos (Paulo acautela-os da tendência de alguns em dar importância exagerada aos anjos, colocando-os, até, acima de Cristo – cf Cl 1,6). Tal soberania estende-se, à Igreja – o corpo do qual Cristo é a cabeça, o que é deveras significativo para afastar a Igreja da autorreferência. De facto, a ideia de que a comunidade cristã é corpoo corpo de Cristo – formado por muitos membros, já aparece nas grandes cartas, acentuando-se sobretudo a relação dos vários membros do corpo com a Cabeça e entre si (cf Rm 12,3-8; 1Cor 6,12-20;10,16-17;12,12-27), mas nas cartas do cativeiro, Paulo retoma a noção de corpo de Cristo para vincar a relação existente entre a comunidade e Cristo e entre os diversos membros da comunidade.
Neste texto, em concreto, há dois conceitos significativos que definem a relação entre Cristo e a Igreja: o de cabeça (em grego, “kephalê”) e o de plenitude (em grego, “pleroma”). Chamar a Cristo cabeça da Igreja quer dizer que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre eles comunhão total de vida e destino; que Jesus é o centro à volta do qual o corpo se articula, a partir do qual e em direção ao qual o corpo cresce, se orienta e constrói (é a origem e o fim desse corpo); e que a Igreja/corpo se submete à obediência a Cristo/cabeça: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência. E chamar à Igreja a plenitude de Cristo quer dizer que nela reside a totalidade de Cristo, sendo ela o recetáculo (a habitação) onde Cristo Se torna presente para o mundo: é através desse corpo (em que todos são livres e interdependentes) onde reside que Jesus continua todos os dias a realizar o projeto de salvação em prol dos homens. A partir desse corpo, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo, até que Cristo “seja tudo em todos” (v. 23).
Por isso, este corpo (a crescer e a multiplicar-se) tem a bênção e o acompanhamento de Jesus, uma bênção concomitante ao gesto “eucarístico” e pelo qual os discípulos reconheciam o Senhor!
2019.06.02 – Louro de carvalho

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Jesus eleva-se ao Céu, envia os discípulos em missão e garante apoio efetivo


A celebração da Solenidade da Ascensão de Jesus – conclusão das aparições pascais e ponto de partida da missão dos apóstolos – ensina que, no final do caminho percorrido no amor e na doação, está a vida definitiva, a da comunhão com Deus e que Jesus nos deixou em testamento a incumbência de assumir e desenvolver, em união com Ele, o projeto libertador de Deus para os homens e para o mundo.
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O Ressuscitado, aparecendo aos discípulos, estimula-os a superar a desilusão e o comodismo, envia-os em missão como testemunhas do projeto de salvação e garante que a sua partida para junto do Pai não configura o seu alheamento da missão, mas a garantia da sua presença ubíqua junto dos discípulos em saída por todo o mundo, a todas as periferias existenciais. Ou seja, de ao pé do Pai, acompanha os discípulos e, por eles, a oferece a todos a vida nova e definitiva.
A perícopa (Mc 16,9-20) de que se toma um pequeno trecho para proclamação evangélica na Solenidade da Ascensão (Mc 9,15-20) distingue-se, no conjunto do Evangelho de Marcos, pelo estilo e vocabulário muito diferentes do resto do texto de Marcos, sendo que os manuscritos mais antigos deste Evangelho concluíam o relato em 16,8, com o medo das mulheres por, na manhã de Páscoa, encontrarem o túmulo vazio. Terá Marcos concluído a narrativa com um final “aberto” como que a convidar o leitor ou o ouvinte a completar o relato com a sua própria experiência pessoal de seguimento de Jesus, vencendo o medo e a propor-se ver Jesus e dar testemunho d’Ele. Porém, a insatisfação causada nos leitores induziu várias tentativas de oferecer ao 2.º Evangelho um final mais explícito e satisfatório. Dessas tentativas, algumas vêm atestadas em diversos documentos antigos portadores do 2.º Evangelho. E, de entre elas, uma se impôs. Trata-se dum texto do séc. II, que apresenta um relato sintético das aparições do Ressuscitado contadas por outros evangelistas. Embora tardio este, “final” é, contudo, parte integrante da Escritura. E a Igreja reconhece-o como inspirado por Deus e como Palavra divina.
Os elementos do trecho evangélico tomado para a Solenidade da Ascensão são a súmula dos relatos de outros evangelistas atinentes ao tema. Assim, a aparição do Ressuscitado aos Onze é retirada de Lc 24,36-43 e Jo 20,19-29; a definição da missão dos apóstolos, de Mt 28,16- 20 e Lc 24,44-49; e o relato da Ascensão, de Lc 24,50-53 e At 1,4-11.
O quadro traçado pelo autor do trecho mostra a reação negativa dos discípulos ao facto de Jesus já não estar com eles. Na manhã da ressurreição, estavam “em luto e em pranto” (Mc 16,10); depois, recebem o testemunho das mulheres que encontraram Jesus, com incredulidade e coração obstinado (cf Mc 16,14); e negam-se a continuar a aventura iniciada com Jesus. O medo do risco leva-os ao comodismo do lamento instalado. É a expressão do antisseguimento. Ora, o encontro com Jesus indu-los a sair do letargo e a assumir o compromisso e a responsabilidade inerentes à condição de membros ativos da comunidade do Reino, com vista à sua expansão.
A questão central é a do papel dos discípulos no mundo, após a partida de Jesus ao encontro do Pai. O texto consta de três elementos: o Ressuscitado define a missão dos discípulos; o Ressuscitado parte ao encontro do Pai; os discípulos partem ao encontro do mundo a concretizar a missão que o Ressuscitado lhes confiou.
Para a definição da missão (vv 15-18), o Ressuscitado acorda os discípulos da letargia em que estavam instalados e define a missão que são chamados a desempenhar no mundo. Esta missão para que são enviados tem como primeiro selo a universalidade. Com efeito, a missão destina-se a “todo o mundo” e não podendo deter-se face a barreiras étnicas, geográficas ou culturais. Depois, precisa o conteúdo do anúncio: o “Evangelho”. Ora, no Antigo Testamento (sobretudo no Déutero-Isaías e no Trito-Isaías), a palavra “evangelho” é a “boa notícia” da chegada da salvação para o Povo de Deus. Mas, na boca de Jesus, a palavra “Evangelho” designa o anúncio de que o “Reino de Deus” chegou à vida dos homens com a paz, a libertação, a felicidade. Assim, para os catequistas das primeiras comunidades cristãs, o “Evangelho” é o anúncio dum acontecimento único, fundamental: em Jesus Cristo, Deus veio ao encontro do homem, manifestou-lhe o seu amor, inseriu-o na sua família, convidou-o a integrar a comunidade do Reino e ofereceu-lhe a vida definitiva, a da comunhão com Deus, com os irmãos e com o mundo. Nestes termos, o único e exclusivo “evangelho” vem mudar o curso da história e transformar o sentido e os horizontes da existência. O anúncio do “Evangelho” obriga os homens a uma escolha. Quem aderir à proposta evangélica, chegará à vida plena (“quem crer e for batizado será salvo”); e quem a recusar, ficará à margem (“quem não acreditar será condenado” – v 16).
O anúncio do Evangelho atingirá não só os homens, mas “toda a criatura”. De facto, o homem, sob critérios de egoísmo, cobiça e lucro, explora a criação, “boa” e harmoniosa que Deus criou. E a proposta de salvação destina-se a transformar o coração do homem, eliminando o egoísmo e a maldade, daqui resultando uma nova relação do homem com todas as criaturas – marcada pelo respeito e pelo amor. Assim, desabrochará uma nova humanidade e uma nova natureza.
A presença da salvação tornar-se-á realidade através dos gestos dos discípulos. Comprometidos com Jesus, vencerão a divisão, injustiça e opressão (“expulsarão os demónios em meu nome” – da intriga, acusação), serão arautos da união, paz e entendimento (“falarão novas línguas”), levarão a esperança e a vida em abundância a todos os que sofrem e que são prisioneiros da doença e do sofrimento (“quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”); e Jesus estará com eles em todos os momentos, ajudando-os a vencer as contrariedades e oposições.
O segundo elemento do trecho em causa (v 19) mostra que Jesus sobe ao céu e Se senta à direita de Deus. A elevação de Jesus ao céu (ascensão) sugere que, após o cumprimento da sua missão no meio dos homens, Jesus foi ao encontro do Pai reentrando na comunhão com o Pai. É esta a entronização de Jesus que mostra a veridicidade da sua proposta. Na conceção dos povos antigos, quem se senta à direita do rei é uma personagem distinta que o rei quer honrar de forma especial. Ora, Jesus, tendo cumprido com total fidelidade o plano de Deus para com os homens, é honrado pelo Pai ficando sentado à sua direita. A proposta de Jesus acolhida pelos discípulos não é aventura sem sentido e sem saída, mas o projeto de salvação que Deus oferece ao homem.
E o terceiro elemento do texto em causa (v 20) sintetiza a ação missionária dos discípulos: eles partiram (i.e, deixaram para trás as seguranças e afetos humanos) a pregar (i.e, a anunciar com palavras e gestos concretos a vida nova que Deus ofereceu aos homens por Jesus) por toda a parte (propondo a todos os homens, sem exceção, a proposta salvadora de Deus).
E os discípulos não estão sozinhos ao longo durante a missão. Jesus, vivo e ressuscitado, está com eles, coopera com eles e manifesta-Se ao mundo nas palavras e nos gestos deles.
A Solenidade da Ascensão de Jesus é, sobretudo, o momento em que os discípulos se consciencializam da sua missão e papel no mundo. A Igreja – comunidade dos discípulos, reunida à volta de Jesus e animada pelo Espírito, não se esgotando em si própria, mas almejando a sua dilatação e o livre envolvimento de toda a criatura em prol do Reino de Deus – é, essencialmente, a comunidade missionária cuja missão é testemunhar no mundo a proposta de salvação e de libertação; e, por outro lado, preparar a entrada definitiva dos batizados na comunhão com o Pai e a ocupação dum lugar à Sua direita com e como Cristo.
***
A primeira leitura da Solenidade (At 1,1-11) reitera a mensagem essencial do mistério: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projeto do Pai, entra na vida definitiva da comunhão com Deus – a mesma que espera todos os que trilham o “caminho” que Jesus percorreu. E os discípulos não podem ficar a olhar para o céu em passividade pasmada e alienante, nem ficar a ver o mundo a partir da varanda do Palácio, mas têm de ir para o meio dos homens continuar o projeto de Jesus, testemunhando-o, presentificando-o e evidenciando-lhes os germes de futuro.
O livro dos “Atos dos apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem em contexto de crise (na década de 80, cerca de 50 anos após a morte de Jesus). Passada a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o Reino, surge a desilusão psicológica e a confusão nas questões doutrinais; a monotonia favorece a vida cristã ora pouco comprometida; as comunidades instalam-se na mediocridade; e falta o entusiasmo e o empenho. O mundo está na mesma e fica protelada a esperada intervenção vitoriosa de Deus. É neste ambiente que se insere o texto lucano e, em especial, o trecho tomado como primeira leitura da Solenidade. Nele, Lucas avisa que o projeto de salvação e de libertação passou de Jesus para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito. A construção do Reino é tarefa não consumada, mas tem de ser concretizada na história exigindo o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são, pois, instados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” percorrido por Jesus – Jesus ora presente no pobre, no doente e no descartado.
O trecho começa com o prólogo (vv 1-2) que relaciona “Atos” com o 3.° Evangelho, tanto na referência a Teófilo, a quem dedica o Evangelho, como na alusão a Jesus, seus ensinamentos e à sua ação no mundo (tema central do 3.° Evangelho). São ainda apresentados os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, vinculados com Jesus, presente na Palavra proclamada.
Depois desta apresentação, vem o relato da despedida de Jesus (vv 3-8). O autor faz referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, nos quais Jesus falou aos discípulos “sobre o Reino de Deus” (o que parece contradizer o Evangelho, onde ressurreição e ascensão são apresentadas no dia de Páscoa – cf Lc 24). O número quarenta, como número simbólico, define o tempo requerido para o discípulo aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado. As palavras de despedida (vv 4-8) realçam dois aspetos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos são chamados a dar “até aos confins do mundo”. Temos aqui em síntese a experiência missionária da comunidade de Lucas: o Espírito derramar-se-á sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, de Jerusalém a Roma. Trata-se do programa que Lucas apresenta, posto na boca de Jesus ressuscitado. O autor mostra com a sua obra que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito. E os temas da pregação apostólica ficam explicitados: uso das Escrituras; apelo à conversão; anúncio do perdão; e testemunho dos Doze. O último tema é o da ascensão (vv 9-11), passagem que precisa de interpretação para, na roupagem dos símbolos, a mensagem aparecer com toda a claridade. Na elevação de Jesus ao céu, não temos a pessoa a descolar literalmente da terra e a elevar-se. Estamos, antes, a falar num sentido teológico, pois a ascensão é a forma simbólica de expressar que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supraterrenas; é a forma literária de descrever o culminar da vida vivida para Deus por parte de quem agora reentra na glória da comunhão com o Pai, ora antecipada pela presença de Jesus na Eucaristia.
A seguir, temos a nuvem que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando entre o céu e a terra, a nuvem é teofânica, no A. T., ou seja, símbolo privilegiado de expressão da presença divina (cf Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Simultaneamente esconde e manifesta: sugere o Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes do percurso. Céu e terra, divino e humano, são dimensões inerentes ao Ressuscitado, ora elevado à glória do Pai, mas que, oculto, continua a caminhar com os discípulos.
E é esta simbiose da presença de Jesus com os discípulos, e na comunidade dos discípulos reunidos, e da consciência da missão que não permite à Igreja a condição de pasmada a olhar para o Alto sem ter os pés assentes na terra e aptos para o caminho (angelismo), mas que também não lhe permite caminhar pressurosamente sem a força do Alto e sem a sua referência (ativismo).
Temos, assim, que os discípulos se tentam a ficar a olhar para o céu. Ou seja, a comunidade tenta-se a ficar na ansiosa expectativa da segunda vinda de Cristo, a fim de passivamente levar a termo o projeto de libertação do homem e do mundo. Por isso, vêm os dois homens vestidos de branco, sugerindo o mundo de Deus, o que indica que o testemunho dos discípulos vem de Deus, mas que não pode fechar-se em si mesmo ou reduzir-se ao pequeno mundo dos atuais crentes. Assim, os dois homens convidam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; agora, é a comunidade que tem de continuar, na história, a obra de Jesus, embora com a esperança posta na definitiva vinda do Senhor.
O sentido fundamental da Ascensão não é admirar a elevação de Jesus, mas convidar-nos a seguir o “caminho” de Jesus, olhando, não para o ar ou para o balão, mas para o céu e para o futuro, entregando-nos à realização do seu projeto de salvação no meio do mundo.
Assim, a carta aos Efésios, tomada para 2.ª leitura insta os discípulos à consciência da esperança a que estão chamados, devendo caminhar ao encontro dela de mãos dadas com os irmãos – membros do mesmo “corpo” – e em comunhão com Cristo, a “cabeça” desse “corpo”. Cristo reside no seu “corpo”, que é a Igreja, e, nela torna-se hoje presente no meio dos homens.
Nesta nossa peregrinação, esta “esperança”, alicerçada na ressurreição, ascensão e glorificação de Jesus, é o garante da nossa própria ressurreição e glorificação. Formamos com Ele um “corpo” destinado à vida plena. Esta ótica dá-nos a força para enfrentar a história e avançar no “caminho” do amor e da entrega total que Cristo percorreu. Fazer parte do “corpo de Cristo” implica viver em comunhão com Ele e receber, a cada instante, a vida que nos alimenta na Palavra e na Eucaristia; e implica a comunhão, em solidariedade total com todos os irmãos, membros deste “corpo”, alimentados pela mesma vida. E crer que a Igreja é o “pleroma” de Cristo requer a obrigação de testemunhar Cristo, de O tornar presente no mundo, de levar à plenitude o projeto de libertação que Ele começou em favor dos homens. Esta é tarefa que só estará consumada quando, pelo testemunho e pela ação dos crentes, Cristo for “um em todos”.
2018.05.14 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

“Movidos pelo amor que se entrega na Cruz”

É o lema da “caminhada diocesana das Cinzas ao Pentecostes 2018” que as estruturas de topo da diocese do Porto propõem “a todos, famílias, paróquias, comunidades religiosas, instituições, escolas católicas, movimentos e associações”, como “oportunidade de dinamização pastoral e de exercício espiritual”, “simultaneamente, de descida e de subida, como o revela o dinamismo da Cruz, onde Jesus é humilhado e ao mesmo tempo exaltado”.
Assumindo, como Santa Rosa de Lima, a cruz como escada por que subimos para o Céu, propõem a visualização da via do amor de Deus, descendo e subindo os diversos degraus.
Desceremos da Quaresma à Páscoa e subiremos da Páscoa ao Pentecostes pelos degraus da Cruz, sinalizando-os com os atributos do amor, enunciados por Paulo no Hino ao Amor (1 Cor 13), amor que o Papa comentou na Amoris Laetitia (A alegria do amor em família), no capítulo IV, e que está no coração da 1.ª Carta de João, a proclamar como leitura do Apóstolo, no tempo pascal. E a cruz permite a aposição de duas escadas: uma apoiada no braço direito da Cruz, outra no seu braço esquerdo. E “a Cruz do Senhor está firme, enquanto o mundo gira, movido pelo Seu Amor.
Após a caminhada “do Advento à Epifania”, movidos pela Estrela que brilha no amor, é de continuar este movimento, atraídos, movidos e comovidos pela Cruz, onde resplandece a glória do amor de Deus por nós: Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o seu Filho Unigénito” (cf Jo 3,14-21).
Assim, a diocese sugere elementos de reflexão e ações práticas, “a acolher e a aplicar, de forma criativa e adaptada às circunstâncias” e que aqui se condensam.
1. Fora da cruz, não há escada por onde se suba ao céu
Com as palavras “vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51), aludindo à escada de Jacob, apresentou-Se a Natanael e aos primeiros discípulos Jesus como “o Mediador entre o Céu e a Terra, ficando o Céu aberto à humanidade”.
A nova aliança é feita com o Filho do homem, o Deus encarnado. E, ao longo da história, muitos autores espirituais e artistas viram na imagem da escada a figura antecipada da Cruz, na linha da revelação de Jesus a Nicodemos: “Ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do Homem” (Jo 3,14). E recorda-no-lo o Catecismo da Igreja Católica:
A cruz é o único sacrifício de Cristo, mediador único entre Deus e os homens. Mas porque, na sua pessoa divina encarnada, Ele Se uniu, de certo modo, a cada homem, a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal, por um modo só de Deus conhecido.”.
E acrescenta a imagem de Santa Rosa de Lima: “Há uma só escada verdadeira para o paraíso; fora da cruz, não há outra escada por onde se suba ao céu” (CIC, n.º 618).
As preditas escadas, apostas à Cruz ajudarão “a representar e a viver” o mistério pascal de Jesus, tomando “esta escada do amor, que Se entrega na Cruz, como imagem da nossa caminhada”. Com efeito, a Cruz é, simultaneamente, a escada por onde Jesus desce e é humilhado e por onde sobe para ser exaltado. Por ela, o cristão aprende de Cristo e assemelha-se a Ele, que “sobe descendo” e que “desce subindo”. E a aposição das duas escadas na Cruz ajuda a deixarmo-nos atrair (cf Jo 12,32) movidos pelo amor de Deus, que resplandece na Cruz, pois “o amor de Cristo nos impele, ao pensarmos que um só morreu por todos” (2 Cor 5,14).

2. O acento simbólico pascal da Quaresma e o tema do Amor no Ano B
O lecionário dominical do Ano B, para a Quaresma, mostra que o acento não se põe tanto na via de preparação para o Batismo, como no Ano A, nem na penitência, como via de purificação e renovação batismal, como no Ano C. Esta Quarema incide sobretudo “na compreensão e vivência do mistério pascal”, aliás a finalidade primeira deste tempo, como se reza na oração coleta do 1.º domingo: “que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho”.
Nos domingos centrais da Quaresma (3.º, 4.º e 5.º), com o Evangelho de João, a Igreja propõe o caminho de Jesus para a Sua exaltação e oferece três catequeses sobre o mistério pascal, com as imagens da elevação de Cristo na Cruz, prefigurada na serpente elevada no poste como sinal de salvação (3.º domingo), do templo destruído e reconstruído em três dias (4.º domingo) e do grão de trigo caído à terra que, graças à morte, frutifica (5.º domingo). Deste modo, nos símbolos da serpente, do templo e do grão de trigo, “Cristo oferece-nos o dinamismo da morte/ressurreição, da fecundidade, que passa pela autonegação e pela exaltação na Cruz.
Pode então sintetizar-se o sentido da Quaresma assim: introduz-nos na celebração do mistério pascal de Cristo, o grande acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, “como única e maior intervenção salvadora do poder de Deus, na história da humanidade”. 
O mistério pascal que celebramos é o do caminho de Jesus para a Sua Páscoa, que se converte, na celebração e na vida da Igreja, em itinerário de conversão e iluminação do cristão.
João oferece-nos a visão da Cruz como árvore da vida nova, que Jesus veio oferecer: “Quando elevardes o Filho do Homem, então sabereis quem Eu sou. E ainda: “Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 8,28; 12,32-33). 
De facto, o evangelista vê a Cruz como árvore da vida, da glorificação de Cristo e de cura dos que O aceitam. Ora, no deserto, para ser curado do veneno das serpentes, era necessário “olhar”; agora, para “ter a vida eterna”, é preciso “crer” em Jesus, que está levantado e é elevado na Cruz, isto é, subiu à condição divina, pela escada da árvore da Cruz (cf Jo 8,28; 12,32-34).
Por seu turno, o tempo pascal, no Ano B, oferece-nos a possibilidade de aprofundar o nosso lema pastoral “Movidos pelo amor de Deus”, sobretudo a partir 2.ª leitura, da 1.ª Carta de João, que desenvolve com particular profundidade a revelação de Deus como Amor e, em resposta permanente a este amor, a prática do mandamento novo.
O segredo desta “descida” ao abismo da Cruz e da morte, pela qual o Filho de Deus é exaltado na glória, é o amor de Deus: “Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigénito”, assim escutaremos no Evangelho do 3.º domingo (cf Jo 3,14-21).
            3. A escada como símbolo da cruz, caminho do Amor
A Bíblia fornece prefigurações da Cruz de Jesus na coluna de fogo e na nuvem e, sobretudo, na escada de Jacob, por onde desciam e subiam os anjos do céu (Gn 28,12). E, na perspetiva de João, Jesus, suspenso da Cruz, entre o Céu e a Terra, ao tornar-Se o mediador entre Deus e a humanidade pecadora, faz da Cruz a Sua escada de subida e descida até nós. Mediante ela, Deus comunica-Se com a humanidade; comunica à humanidade toda a riqueza do Seu amor.
Os grandes autores espirituais e místicos serviram-se da imagem da “escada” como símbolo da Cruz de Cristo e do caminho do amor, em que são necessárias purificações e amadurecimentos, ou do caminho da vida espiritual, nas suas diversas etapas, expressões ou degraus. É, de facto, significativo que a Cruz, enquanto “caminho do amor e a exigência da vida cristã” se compare ao subir ou descer os degraus duma escada. Pode-se tropeçar na subida porque os primeiros degraus estão na escuridão, mas, no cimo, há uma luz infinita, que se atinge com o archote da esperança e com o desejo da procura.
            4. A imagem da escada na nossa caminhada
Movidos pelo amor de Deus” aprendemos esta via de perfeição, que ultrapassa tudo (1 Cor 12,31), na medida em que permanecermos unidos e atraídos à Cruz de Cristo e ao seu amor por nós. Assim, Paulo, na 2.ª leitura do domingo de Ramos, refere o mistério da Cruz de Cristo: “Sendo de condição divina, aniquilou-Se a Si próprio; aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de Cruz; por isso Deus O exaltou” (cf Fl 2,6-11). A “subida que se faz descendo e esta descida que se faz subindo”, movidos pelo amor de Deus, pode representar-se nos sete degraus duma e doutra escadas, apostas junto à Cruz, como acontece em tantas imagens alusivas quer à elevação do Corpo de Cristo para ser pregado na Cruz, quer à descida do Corpo morto de Jesus, para a deposição e sepultura.
Pode, em alternativa, usar-se a mesma escada, na Quaresma e no Tempo Pascal, usando os seus dois lados, para a descida (Quaresma) e para a subida (tempo pascal). O que importa é destacar a Cruz e a “sua envolvência no espaço litúrgico”.
Em cada degrau, semana a semana, colocamos os atributos do amor, como nos são apresentados no célebre Hino ao amor (1 Cor 13), que é a “Magna Carta de todo o serviço eclesial” e que o Papa Francisco comenta, em perspetiva familiar e conjugal, no 4.º Capítulo da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia (A alegria do amor), como se disse acima.
É um belo texto a inspirar a caminhada, desde o 1.º domingo da Quaresma à plenitude da Páscoa, no domingo de Pentecostes. Sugere-se para cada domingo, o primeiro dia da semana, os atributos do amor, que parecem “combinar” com algum pensamento retirado dos textos da liturgia dominical.
Propõe-se a leitura comentada dos números correspondentes a partir da Amoris Laetitia e, a partir do referido Hino ao Amor, um exame de consciência e algumas preces para invocar e agradecer a alegria do amor.
***
Da Quarema à Páscoa:
O Amor é paciente (1.º domingo: Deus esperava com paciência a construção da arca – 2.ª leitura); não é interesseiro (2.º domingo: Deus não poupou o Filho – 2.ª leitura); não é invejoso (3.º domingo: Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem coisa algo que lhe pertença – 1.ª leitura); é amável (4.º domingo: Quis mostrar a riqueza da sua bondade para connosco – 2.ª leitura); não é arrogante nem orgulhoso (5.º domingo: Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento – 2.ª leitura); tudo suporta (Semana Santa e Tríduo Pascal).
Da Amoris laetitia (por semana): 1 – A paciência é uma qualidade do Deus da aliança (AL 91-92); 2 – O amor não procura o que é seu. Procura mais amar que ser amado (AL 101-102); 3 – Trata-se de cumprir o que pedem os dois últimos mandamentos (AL 95-96); 4 – Para se predispor para um verdadeiro encontro requer-se um olhar amável pousado nele (AL 99-100); 5 – É indispensável curar o orgulho e cultivar a humildade (AL 97-98); 6 – É preciso cultivar esta força do amor que permite lutar contra o mal que o ameaça (AL 118-119).
Da Páscoa ao Pentecostes:
Tudo crê (2.º domingo: Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé – 2.ª leitura); tudo desculpa (3.º domingo: Se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, como advogado junto do Pai – 2.ª leitura); não se irrita nem guarda ressentimento (4.º domingo: Ele é a pedra que vós rejeitastes e que veio a tornar-se pedra angular – 1.ª leitura); é prestável (5.º domingo: Não amemos com palavras e com a língua – 2.ª leitura); rejubila com a verdade (6.º domingo: Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós – Evangelho); tudo espera (Ascensão: “Porque estais a olhar para o Céu? – 1.ª leitura); o amor não acaba nunca (Pentecostes: O amor de Deus foi derramado em nossos corações – 2.ª leitura).
 Da Amoris laetitia (por semana): 1 – Esta confiança reconhece a luz acesa por Deus, que se esconde por trás da escuridão (AL 114-115); 2 – Aceita com simplicidade que todos somos uma complexa combinação de luzes e sombras (AL 111-113); 3 – Lutar contra o mal, mas sem violência interior. Não te deixes vencer pelo mal (AL 103-104); 4 – O amor mostra a sua bondade nas ações. Amar é fazer o bem (AL 93-94); 5 – Alegra-se com o bem do outro, quando se reconhece a sua dignidade (AL 109-110); 6 – Não desesperar do futuro. Aguardar aquela plenitude que, embora hoje não seja visível, há de receber um dia no Céu (AL 116-117); 7 – Este amor forte, derramado pelo Espírito Santo, é reflexo da aliança indestrutível entre Cristo e a humanidade que culminou na entrega até ao fim na Cruz. (AL 120). É preciso pôr de lado as ilusões e aceitá-lo como é: inacabado, chamado a crescer, em caminho (AL 218).
***
Das propostas feitas, destacam-se: o exame de consciência – a nível pessoal, familiar, grupal ou comunitário – de confronto da vida com as caraterísticas do amor acima enunciadas, bem como preces em consonância com o desejo de se configurar com elas; valorização do ato penitencial na linha do confronto com as marcas do amor; oração e meditação a partir do Hino ao Amor e a partir da Amoris laetitia; ações voluntárias de privação e partilha; celebração da Reconciliação; e participação na celebração da Eucaristia (Vale a pena adquirir os materiais).
***
Hino ao Amor - 1 Cor 13,1-7.13

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver amor, sou como um bronze que soa
ou um címbalo que retine.

Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver amor, nada sou.

Ainda que eu distribua todos os meus bens
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver amor, de nada me aproveita.

O amor é paciente, o amor é prestável,
não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso,
 nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita nem guarda ressentimento.
Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará.

(…)

Agora permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor;
mas a maior de todas é o amor.

2017.01.25 – Louro de Carvalho