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domingo, 12 de janeiro de 2020

Filhos em quem o Pai pôs toda a sua complacência


Pela morte e ressurreição de Jesus (o seu verdadeiro Batismo), tornámo-nos filhos no Filho. Tanto assim é que, enquanto os anjos diziam às mulheres que O procuravam no sepulcro que fossem dizer aos “seus discípulos” que Ele os precederia na Galileia (cf Mt 28,7-8), Ele próprio, aparecendo-lhes daí a instantes, lhes disse: “Não temais. Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão.(Mt 28,10).
Por isso, tal como se lê em modo pascal, ou seja, à luz da ressurreição de Cristo, a perícopa de Atos dos Apóstolos (At10,34-38) assumida como 2.ª leitura da Liturgia da Palavra da Festa da Batismo do Senhor, também se deve ler neste modo o texto do 1.º canto do Servo de Javé (Is 42,1-4.6-7), assumido como 1.ª leitura, e a perícopa do evangelho mateano que relata o episódio do Batismo de Jesus no Jordão (Mt 3,13-17), tomado como proclamação evangélica da Festa.
Na verdade, a ressurreição do Senhor, subsequente à sua Paixão e Morte na Cruz, é a grande epifania de Deus que fez do Filho, que depois de Ele se submeter ao Batismo pregado por João, o Messias Senhor, “o Senhor de todos”. Com efeito, nesse Batismo de penitência e purificação, de que não precisava, mas que recebeu para que se cumprisse “toda a justiça”, ou seja, todo o plano de Deus, “Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder” e, a começar pela Galileia, andando por toda a Judeia, passava a fazer o bem e a curar todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele. Por isso, Pedro passou a compreender que “Deus não faz aceção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável”. E, a sustentar esta compreensão da missão universal, Pedro evocou os principais elementos do ministério messiânico de Jesus, prestes a fazer o primeiro anúncio do Senhor de todos a um pagão a quem ia ministrar o Batismo.
Já Isaías profetizava, em nome do Senhor, a propósito do servo que escolhera desde o seio materno e que, sendo por Deus protegido, constituía o seu enlevo, a sua complacência, o seu agrado. Por isso, fez repousar sobre Ele o seu espírito para que “leve às nações a verdadeira justiça”. E este enviado excecional de Deus tem caraterísticas igualmente excecionais de mansidão e humildade; é um Messias pacífico, possuidor duma invencível força interior, pois Ele protagonizará a revolução profunda a partir de dentro: 
Não gritará, não levantará a voz, não clamará nas ruas. Não quebrará a cana rachada, não apagará a mecha que ainda fumega. Anunciará com toda a fidelidade a verdadeira justiça. Não desanimará, nem desfalecerá, até estabelecer na terra o direito, as leis que os povos das ilhas esperam dele.” (Is 42, 2b-4).
A sua vocação e toda a proteção que o Senhor Lhe confere gravitam em torno do desígnio divino: “fazer do servo a aliança dum povo e a luz das nações”, com a inefável missão de:  abrir os olhos aos cegos, tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que vivem nas trevas.
O Evangelho de Mateus já não fala do servo eleito, mas do Filho muito amado. Anote-se o percurso de Jesus da Galileia para o Jordão para ser batizado e recorde-se o percurso de Jesus sinteticamente evocado por Pedro a seguir a esse Batismo.
Isto leva-nos a pensar que há um caminho a percorrer para chegarmos ao Batismo. Neste aspeto, como noutros, o Batismo de Jesus na água do Jordão (rio que desagua no Mar Morto, cuja água passa por razões químico-climáticas à evaporação ali) é paradigmático do nosso. Temos de seguir um caminho para o Batismo e inaugurar uma nova caminhada com ele, depois dele e por causa dele. E temos que o pedir. E, se não formos nós a caminhar para ele e a pedi-lo, alguém tem de o fazer por nós: pais e padrinhos. Mas é caminhada após o Batismo é a nossa, mas em comunidade.
O Batismo de Jesus não é de purificação, só porque dela Ele não precisava, mas o nosso é, embora muitos, quando o recebem, tenham pouco de que se purificar, mas há sempre a apresentação da nossa condição humana limitada.
O Batismo do Jordão é o início da caminhada messiânica para o evento fundante da Igreja, da comunidade, do povo de redimidos – a Paixão e Morte de Jesus a desembocar na ressurreição. Aqui há a semelhança com o Jordão que caminha para o Mar Morto irmanando-se com os químicos que não deixam viver as águas, as plantas, os peixes, mas em que as águas acabam por evaporar-se saindo do campo da morte e voltando à atmosfera viva (evoca-se a ressurreição de Cristo e a sua ascensão). E, nós pelo Batismo, incorporamo-nos em Cristo, filho do Pai e rio de águas vivas, recebemos a unção do Espírito Santo, Senhor e Fonte de Vida, como Cristo a recebeu no Jordão e na cruz, assimilamo-nos a Cristo na morte, sepultura e ressurreição e ascenderemos ao céu por graça divina.       
“Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o céu abriu-se e Jesus viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo pousar sobre ele. E do céu veio uma voz que dizia:Este é o meu Filho amado, no qual me agradei (no qual me comprazi – ev ô eudókêsa –, me enlevei, de quem me orgulho) (Mt 3,16-17).
Como em Isaías, o Espírito do Senhor repousou sobre Jesus. De facto, o céu abriu-se. Pensavam os judeus que o céu estava fechado porque, mercê dos pecados do povo, Deus abandonara o povo: não mandava profetas, nem juízes, nem reis com poder – estavam subjugados ao império romano. Agora, com a abertura do céu, mostra-se que Deus vem acompanhar o seu povo e tornar-se presente e próximo. E quem corporiza essa presença é Aquele que recebeu o Batismo de João. E Jesus reconhece o Espírito de Deus na pomba que desce e repousa sobre Si próprio. É o Espírito que o unge para a missão profética, sacerdotal e régia. Mas a teofania manifesta em Jesus e no Espírito Santo em forma de pomba é sublimada com a audição da voz “Este é o meu Filho amado, no qual me agradei”. Só aqui e na transfiguração é que se ouve a voz do Pai a clamar que Ele é o Filho. Mas Jesus por várias vezes Se dirige ao Pai e do Alto da Cruz suplica: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem(Lc 23,34). E, por fim, clama: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito(Lc 23,46). É o Batismo na cruz – no sangue e no Espírito.
Também aqui o Batismo jordânico é paradigmático do nosso Batismo. Como a Jesus, sabemo-lo, o Pai nos considera filhos em quem se compraz e o Espírito Santo nos unge para a missão de testemunhas e arautos de Deus no mundo. Pelo Batismo somos membros dum povo de profetas, sacerdotes e reis-pastores, pelo que não podemos ficar inertes e inermes no anúncio do Evangelho, segundo a nossa condição de pessoas inseridas no mundo, na santificação e oferta das nossas vidas em sacrifício a Deus e ao próximo e no cuidado dos outros e da casa comum.
Temos de seguir as pegadas de Jesus: passar pelo mundo a fazer o bem e a contribuir para a libertação dos oprimidos pelos demónios, sejam eles anjos malditos, sejam homens perversos.
Mais: a filiação divina com que somos prendados pela irmanação com Jesus é fruto do amor de Deus infinito, que não acontece porque O amamos, nem porque Ele precise do nosso amor, mas porque Ele é amor e a liberalidade do seu amor não tem limites.
Mas o amor de Deus é um desafio para nós. Devemos amá-Lo porque Ele ama primeiro, porque merece, porque Se compraz no amor e se compraz na boa sorte dos filhos, “filhos no Filho”.
2020.01.12 – Louro de Carvalho  

domingo, 8 de setembro de 2019

Ao lado da Igreja, não sobre a Igreja


Tinha de ir ao local ver de perto o monumento a Dom António Francisco dos Santos. Apesar de a informação e as imagens veiculadas pela comunicação social terem, há um ano, dado um retrato bastante fiel da obra e as palavras dos intervenientes, nomeadamente as do Bispo diocesano Dom António Couto terem sido elucidativas, não ficaria bem comigo sem visitar o monumento e lá passar uns minutos, ainda que breves, de reflexão. Exigia-o a memória do santo prelado portuense, repentinamente falecido, e a amizade com que sempre se afirmou para comigo em todas as etapas da vida em que nos cruzamos em lides pastorais ou docentes.

Todavia, parece que nunca chegava o momento de ir a Tendais. E, no passado dia 7, após um almoço-convívio com antigos alunos do Externato de Castro Daire, minha mulher e eu fomos a Tendais, terra natal de Dom António Francisco, ver o monumento inaugurado e benzido a 29 de agosto de 2018.
Já há muitos anos que não passava pela EN 321, que desde Carneiro/Loivos do Mote (EN 101) passando por Baião, Cinfães, Tendais e Alhões, atravessa o Montemuro até ao cruzamento com a EN2 em Vila Pouca, perto de Castro Daire. Gostei de fazer o percurso até Tendais. Reparei na sinalética a apontar o monumento a Dom António Francisco na EN 321, uns metros abaixo do Café Restaurante Tendais, e depois na rua, no início da travessa que dá para a igreja.
E a primeira observação que me foi dado fazer, pensando, é a simbólica posição da estátua do Bispo e a sua relação com o templo, além dos 4 painéis referentes a frases emblemáticas que pronunciou em cada uma das quatro dioceses em que serviu a Igreja (Lamego, Braga, Aveiro e Porto): a plataforma onde pousa a estátua e o patamar que enquadra os preditos painéis ajudam a construir a proporção do monumento em relação ao templo e adro.       
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Porém, a reflexão que pude fazer a partir da passagem do templo onde habita realmente Jesus Cristo e se reúne a Igreja/assembleia para a Igreja comunidade/povo de Deus/Corpo de Cristo foi a seguinte:
O Bispo está ao lado da Igreja, não sobre a Igreja. O Bispo preside à Igreja, que está, no dizer inaciano onde está o Bispo, mas presidir não é ser superior.
Em contraste, apraz-me recordar que, numa amostra de desenhos por crianças da catequese e do 1.º Ciclo do Ensino Básico numa determinada paróquia que eu conheço, um dos miúdos desenhou a igreja/templo da sua terra com o pároco devidamente paramentado em cima do telhado da nave como se estivesse a cavalo. Não. O Bispo ou o Padre não estão sobre a Igreja, mas ao lado e, se for necessário, um pouco à frente (dum lado ou do outro como for mais conveniente, já que a Igreja caminha no meio do mundo) – a apresentá-la, a incitar os crentes a prosseguir na fé, a levantar os braços para animar a fé pela palavra, a fazer a santificação pela oração e pelos sacramentos, a urgir e organizar caridade pela atenção a todos os que precisam de bens materiais e espirituais, corrigindo as situações que atentem contra a dignidade humana, sempre anunciando Jesus Cristo e o Reino de Deus, comprometendo-se com a esperança e mobilizando todos para ela e em torno dela para o dinamismo e os frutos do Reino.
Recordando-me de algumas palavras do pároco da freguesia pronunciadas a propósito da inauguração e bênção do monumento, pareceu-me que o reverendo Padre Adriano Alberto Pereira percebeu bem o significado do gesto do Bispo e fez passar a mensagem.
Se o templo aparece em Tendais não sobranceiro e altaneiro como nalgumas localidades, mas aberto à comunidade – relativamente perto fica o Centro Social e Paroquial de Tendais – e em encosta como muitos dos grandes rincões territoriais da paróquia, Dom António Francisco dos Santos está em posição de saída como a Igreja que o Papa Francisco pretende que seja a Igreja de Cristo hoje.
Na verdade, o Bispo, que se formou no discipulado de proximidade com Jesus Cristo, que se instituiu como sucessor dos Apóstolos e apóstolo, há de ser a primeira testemunha qualificada do Ressuscitado e, por conseguinte, o primeiro missionário. Por isso, há de ser o primeiro a estar disponível para a caminhada eclesial e, depois, como sugere o Papa, o Bispo dos Bispos, ir à frente para rasgar o caminho, ir a meio para tentar acertar o passo dos caminhantes ou ir na retaguarda para dar um impulso adicional a quem tenha mais dificuldades.
Porém, se tem a caminhada estabilizada, deve caminhar ao lado para dar voz à Igreja, a apresentar com simplicidade ao mundo, campear a apresentação das razões da esperança, defender a Igreja dos adversários e das ideias adversas e solicitar a adesão de todas as pessoas de boa vontade à caminhada eclesial. Também deve estar ao lado da Igreja para promover a sua reforma contínua, a advertir para as magnas possibilidades de que o dom do Espírito Santo a dota permanentemente, mas também das suas limitações humanas e até erros humanos, e a pô-la em diálogo paciente e aberto com o mundo, sem agastamento, sem contemporizações indevidas, más sem anátemas e juízos indevidos.
Para tanto, deve rogar e cultivar o dom da sabedoria, que instrui nas coisas divinas e humanas (ouvindo Deus e as palpitações dos homens), para bem orientar, o dom da fortaleza, para se defender do maligno e saber defender a Igreja e os pobres, o dom da piedade, para criar, manter e reforçar a ligação a Deus intercedendo pelos homens e ser porta-voz e portador de Deus para os homens – tudo no quadro duma sadia e eficaz antropagogia.            
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Dizia Hélder Carvalho, o autor da estátua, que os 2,20 metros em bronze “não chegam” para retratar a “grandeza do coração” de Dom António. É verdade, mas o escultor retratou bem aquilo que entendo como a perspetiva António-franciscana e parece-me que bem conseguiu esculpir a “figura e a alma” do bispo do Porto, pois, como o artista explicou, “há um leve sorriso a tentar fazer passar a sua bondade, ponderação e serenidade” e o todo responde ao que Hélder Carvalho pretendeu: “que as pessoas se aproximassem o mais possível de forma a poderem interagir podendo ver ao pormenor ou à distância”.
O monumento que evoca a vida e a missão de Dom António Francisco, para o Prelado lamecense serve de “importante testemunho” para as próximas gerações sobre o bispo que soube “inaugurar uma nova proximidade”. Com efeito, como explicava Dom António Couto, durante a homilia da Eucaristia de homenagem ao falecido Bispo, “há em Dom António Francisco uma proximidade nova que não se mede a metro, pela distância, muito ou pouco entre as pessoas” mas que “não é essa a verdadeira proximidade, não é estar encostadinho ao meu irmão ao lado, mas a responsabilidade pelo outro”. E Dom Manuel, seu sucessor na diocese do Porto, destacava a proximidade e “sensibilidade humana” com que Dom António Francisco dos Santos “conquistou corações”.
Dom António Couto dizia com pertinência aos jornalistas que o monumento “não seria muito do agrado do Senhor Dom António” que não era homem destas coisas mas “mais como os passarinhos, poisava aí em qualquer lado”. Todavia, pensando nas palavras do Padre Adriano Alberto que integrava um videograma adrede produzido para a circunstância e na reflexão a que me prestei proceder, talvez Dom António Francisco não ficasse pessoalmente muito confortável com a homenagem e com o monumento, mas é verdade que assumia todo o significado teológico-pastoral da obra. Disso não tenho dúvidas pelo que sei da sua alma sábia e santa.    
2019.09.08 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Jesus eleva-se ao Céu, envia os discípulos em missão e garante apoio efetivo


A celebração da Solenidade da Ascensão de Jesus – conclusão das aparições pascais e ponto de partida da missão dos apóstolos – ensina que, no final do caminho percorrido no amor e na doação, está a vida definitiva, a da comunhão com Deus e que Jesus nos deixou em testamento a incumbência de assumir e desenvolver, em união com Ele, o projeto libertador de Deus para os homens e para o mundo.
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O Ressuscitado, aparecendo aos discípulos, estimula-os a superar a desilusão e o comodismo, envia-os em missão como testemunhas do projeto de salvação e garante que a sua partida para junto do Pai não configura o seu alheamento da missão, mas a garantia da sua presença ubíqua junto dos discípulos em saída por todo o mundo, a todas as periferias existenciais. Ou seja, de ao pé do Pai, acompanha os discípulos e, por eles, a oferece a todos a vida nova e definitiva.
A perícopa (Mc 16,9-20) de que se toma um pequeno trecho para proclamação evangélica na Solenidade da Ascensão (Mc 9,15-20) distingue-se, no conjunto do Evangelho de Marcos, pelo estilo e vocabulário muito diferentes do resto do texto de Marcos, sendo que os manuscritos mais antigos deste Evangelho concluíam o relato em 16,8, com o medo das mulheres por, na manhã de Páscoa, encontrarem o túmulo vazio. Terá Marcos concluído a narrativa com um final “aberto” como que a convidar o leitor ou o ouvinte a completar o relato com a sua própria experiência pessoal de seguimento de Jesus, vencendo o medo e a propor-se ver Jesus e dar testemunho d’Ele. Porém, a insatisfação causada nos leitores induziu várias tentativas de oferecer ao 2.º Evangelho um final mais explícito e satisfatório. Dessas tentativas, algumas vêm atestadas em diversos documentos antigos portadores do 2.º Evangelho. E, de entre elas, uma se impôs. Trata-se dum texto do séc. II, que apresenta um relato sintético das aparições do Ressuscitado contadas por outros evangelistas. Embora tardio este, “final” é, contudo, parte integrante da Escritura. E a Igreja reconhece-o como inspirado por Deus e como Palavra divina.
Os elementos do trecho evangélico tomado para a Solenidade da Ascensão são a súmula dos relatos de outros evangelistas atinentes ao tema. Assim, a aparição do Ressuscitado aos Onze é retirada de Lc 24,36-43 e Jo 20,19-29; a definição da missão dos apóstolos, de Mt 28,16- 20 e Lc 24,44-49; e o relato da Ascensão, de Lc 24,50-53 e At 1,4-11.
O quadro traçado pelo autor do trecho mostra a reação negativa dos discípulos ao facto de Jesus já não estar com eles. Na manhã da ressurreição, estavam “em luto e em pranto” (Mc 16,10); depois, recebem o testemunho das mulheres que encontraram Jesus, com incredulidade e coração obstinado (cf Mc 16,14); e negam-se a continuar a aventura iniciada com Jesus. O medo do risco leva-os ao comodismo do lamento instalado. É a expressão do antisseguimento. Ora, o encontro com Jesus indu-los a sair do letargo e a assumir o compromisso e a responsabilidade inerentes à condição de membros ativos da comunidade do Reino, com vista à sua expansão.
A questão central é a do papel dos discípulos no mundo, após a partida de Jesus ao encontro do Pai. O texto consta de três elementos: o Ressuscitado define a missão dos discípulos; o Ressuscitado parte ao encontro do Pai; os discípulos partem ao encontro do mundo a concretizar a missão que o Ressuscitado lhes confiou.
Para a definição da missão (vv 15-18), o Ressuscitado acorda os discípulos da letargia em que estavam instalados e define a missão que são chamados a desempenhar no mundo. Esta missão para que são enviados tem como primeiro selo a universalidade. Com efeito, a missão destina-se a “todo o mundo” e não podendo deter-se face a barreiras étnicas, geográficas ou culturais. Depois, precisa o conteúdo do anúncio: o “Evangelho”. Ora, no Antigo Testamento (sobretudo no Déutero-Isaías e no Trito-Isaías), a palavra “evangelho” é a “boa notícia” da chegada da salvação para o Povo de Deus. Mas, na boca de Jesus, a palavra “Evangelho” designa o anúncio de que o “Reino de Deus” chegou à vida dos homens com a paz, a libertação, a felicidade. Assim, para os catequistas das primeiras comunidades cristãs, o “Evangelho” é o anúncio dum acontecimento único, fundamental: em Jesus Cristo, Deus veio ao encontro do homem, manifestou-lhe o seu amor, inseriu-o na sua família, convidou-o a integrar a comunidade do Reino e ofereceu-lhe a vida definitiva, a da comunhão com Deus, com os irmãos e com o mundo. Nestes termos, o único e exclusivo “evangelho” vem mudar o curso da história e transformar o sentido e os horizontes da existência. O anúncio do “Evangelho” obriga os homens a uma escolha. Quem aderir à proposta evangélica, chegará à vida plena (“quem crer e for batizado será salvo”); e quem a recusar, ficará à margem (“quem não acreditar será condenado” – v 16).
O anúncio do Evangelho atingirá não só os homens, mas “toda a criatura”. De facto, o homem, sob critérios de egoísmo, cobiça e lucro, explora a criação, “boa” e harmoniosa que Deus criou. E a proposta de salvação destina-se a transformar o coração do homem, eliminando o egoísmo e a maldade, daqui resultando uma nova relação do homem com todas as criaturas – marcada pelo respeito e pelo amor. Assim, desabrochará uma nova humanidade e uma nova natureza.
A presença da salvação tornar-se-á realidade através dos gestos dos discípulos. Comprometidos com Jesus, vencerão a divisão, injustiça e opressão (“expulsarão os demónios em meu nome” – da intriga, acusação), serão arautos da união, paz e entendimento (“falarão novas línguas”), levarão a esperança e a vida em abundância a todos os que sofrem e que são prisioneiros da doença e do sofrimento (“quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados”); e Jesus estará com eles em todos os momentos, ajudando-os a vencer as contrariedades e oposições.
O segundo elemento do trecho em causa (v 19) mostra que Jesus sobe ao céu e Se senta à direita de Deus. A elevação de Jesus ao céu (ascensão) sugere que, após o cumprimento da sua missão no meio dos homens, Jesus foi ao encontro do Pai reentrando na comunhão com o Pai. É esta a entronização de Jesus que mostra a veridicidade da sua proposta. Na conceção dos povos antigos, quem se senta à direita do rei é uma personagem distinta que o rei quer honrar de forma especial. Ora, Jesus, tendo cumprido com total fidelidade o plano de Deus para com os homens, é honrado pelo Pai ficando sentado à sua direita. A proposta de Jesus acolhida pelos discípulos não é aventura sem sentido e sem saída, mas o projeto de salvação que Deus oferece ao homem.
E o terceiro elemento do texto em causa (v 20) sintetiza a ação missionária dos discípulos: eles partiram (i.e, deixaram para trás as seguranças e afetos humanos) a pregar (i.e, a anunciar com palavras e gestos concretos a vida nova que Deus ofereceu aos homens por Jesus) por toda a parte (propondo a todos os homens, sem exceção, a proposta salvadora de Deus).
E os discípulos não estão sozinhos ao longo durante a missão. Jesus, vivo e ressuscitado, está com eles, coopera com eles e manifesta-Se ao mundo nas palavras e nos gestos deles.
A Solenidade da Ascensão de Jesus é, sobretudo, o momento em que os discípulos se consciencializam da sua missão e papel no mundo. A Igreja – comunidade dos discípulos, reunida à volta de Jesus e animada pelo Espírito, não se esgotando em si própria, mas almejando a sua dilatação e o livre envolvimento de toda a criatura em prol do Reino de Deus – é, essencialmente, a comunidade missionária cuja missão é testemunhar no mundo a proposta de salvação e de libertação; e, por outro lado, preparar a entrada definitiva dos batizados na comunhão com o Pai e a ocupação dum lugar à Sua direita com e como Cristo.
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A primeira leitura da Solenidade (At 1,1-11) reitera a mensagem essencial do mistério: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projeto do Pai, entra na vida definitiva da comunhão com Deus – a mesma que espera todos os que trilham o “caminho” que Jesus percorreu. E os discípulos não podem ficar a olhar para o céu em passividade pasmada e alienante, nem ficar a ver o mundo a partir da varanda do Palácio, mas têm de ir para o meio dos homens continuar o projeto de Jesus, testemunhando-o, presentificando-o e evidenciando-lhes os germes de futuro.
O livro dos “Atos dos apóstolos” dirige-se a comunidades que vivem em contexto de crise (na década de 80, cerca de 50 anos após a morte de Jesus). Passada a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o Reino, surge a desilusão psicológica e a confusão nas questões doutrinais; a monotonia favorece a vida cristã ora pouco comprometida; as comunidades instalam-se na mediocridade; e falta o entusiasmo e o empenho. O mundo está na mesma e fica protelada a esperada intervenção vitoriosa de Deus. É neste ambiente que se insere o texto lucano e, em especial, o trecho tomado como primeira leitura da Solenidade. Nele, Lucas avisa que o projeto de salvação e de libertação passou de Jesus para as mãos da Igreja, animada pelo Espírito. A construção do Reino é tarefa não consumada, mas tem de ser concretizada na história exigindo o empenho contínuo de todos os crentes. Os cristãos são, pois, instados a redescobrir o seu papel, no sentido de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” percorrido por Jesus – Jesus ora presente no pobre, no doente e no descartado.
O trecho começa com o prólogo (vv 1-2) que relaciona “Atos” com o 3.° Evangelho, tanto na referência a Teófilo, a quem dedica o Evangelho, como na alusão a Jesus, seus ensinamentos e à sua ação no mundo (tema central do 3.° Evangelho). São ainda apresentados os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos, vinculados com Jesus, presente na Palavra proclamada.
Depois desta apresentação, vem o relato da despedida de Jesus (vv 3-8). O autor faz referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, nos quais Jesus falou aos discípulos “sobre o Reino de Deus” (o que parece contradizer o Evangelho, onde ressurreição e ascensão são apresentadas no dia de Páscoa – cf Lc 24). O número quarenta, como número simbólico, define o tempo requerido para o discípulo aprender e repetir as lições do mestre. Aqui define, portanto, o tempo de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado. As palavras de despedida (vv 4-8) realçam dois aspetos: a vinda do Espírito e o testemunho que os discípulos são chamados a dar “até aos confins do mundo”. Temos aqui em síntese a experiência missionária da comunidade de Lucas: o Espírito derramar-se-á sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, de Jerusalém a Roma. Trata-se do programa que Lucas apresenta, posto na boca de Jesus ressuscitado. O autor mostra com a sua obra que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito. E os temas da pregação apostólica ficam explicitados: uso das Escrituras; apelo à conversão; anúncio do perdão; e testemunho dos Doze. O último tema é o da ascensão (vv 9-11), passagem que precisa de interpretação para, na roupagem dos símbolos, a mensagem aparecer com toda a claridade. Na elevação de Jesus ao céu, não temos a pessoa a descolar literalmente da terra e a elevar-se. Estamos, antes, a falar num sentido teológico, pois a ascensão é a forma simbólica de expressar que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supraterrenas; é a forma literária de descrever o culminar da vida vivida para Deus por parte de quem agora reentra na glória da comunhão com o Pai, ora antecipada pela presença de Jesus na Eucaristia.
A seguir, temos a nuvem que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Pairando entre o céu e a terra, a nuvem é teofânica, no A. T., ou seja, símbolo privilegiado de expressão da presença divina (cf Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Simultaneamente esconde e manifesta: sugere o Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não pode ver, mas cuja presença adivinha nos acidentes do percurso. Céu e terra, divino e humano, são dimensões inerentes ao Ressuscitado, ora elevado à glória do Pai, mas que, oculto, continua a caminhar com os discípulos.
E é esta simbiose da presença de Jesus com os discípulos, e na comunidade dos discípulos reunidos, e da consciência da missão que não permite à Igreja a condição de pasmada a olhar para o Alto sem ter os pés assentes na terra e aptos para o caminho (angelismo), mas que também não lhe permite caminhar pressurosamente sem a força do Alto e sem a sua referência (ativismo).
Temos, assim, que os discípulos se tentam a ficar a olhar para o céu. Ou seja, a comunidade tenta-se a ficar na ansiosa expectativa da segunda vinda de Cristo, a fim de passivamente levar a termo o projeto de libertação do homem e do mundo. Por isso, vêm os dois homens vestidos de branco, sugerindo o mundo de Deus, o que indica que o testemunho dos discípulos vem de Deus, mas que não pode fechar-se em si mesmo ou reduzir-se ao pequeno mundo dos atuais crentes. Assim, os dois homens convidam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; agora, é a comunidade que tem de continuar, na história, a obra de Jesus, embora com a esperança posta na definitiva vinda do Senhor.
O sentido fundamental da Ascensão não é admirar a elevação de Jesus, mas convidar-nos a seguir o “caminho” de Jesus, olhando, não para o ar ou para o balão, mas para o céu e para o futuro, entregando-nos à realização do seu projeto de salvação no meio do mundo.
Assim, a carta aos Efésios, tomada para 2.ª leitura insta os discípulos à consciência da esperança a que estão chamados, devendo caminhar ao encontro dela de mãos dadas com os irmãos – membros do mesmo “corpo” – e em comunhão com Cristo, a “cabeça” desse “corpo”. Cristo reside no seu “corpo”, que é a Igreja, e, nela torna-se hoje presente no meio dos homens.
Nesta nossa peregrinação, esta “esperança”, alicerçada na ressurreição, ascensão e glorificação de Jesus, é o garante da nossa própria ressurreição e glorificação. Formamos com Ele um “corpo” destinado à vida plena. Esta ótica dá-nos a força para enfrentar a história e avançar no “caminho” do amor e da entrega total que Cristo percorreu. Fazer parte do “corpo de Cristo” implica viver em comunhão com Ele e receber, a cada instante, a vida que nos alimenta na Palavra e na Eucaristia; e implica a comunhão, em solidariedade total com todos os irmãos, membros deste “corpo”, alimentados pela mesma vida. E crer que a Igreja é o “pleroma” de Cristo requer a obrigação de testemunhar Cristo, de O tornar presente no mundo, de levar à plenitude o projeto de libertação que Ele começou em favor dos homens. Esta é tarefa que só estará consumada quando, pelo testemunho e pela ação dos crentes, Cristo for “um em todos”.
2018.05.14 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

“Movidos pelo amor que se entrega na Cruz”

É o lema da “caminhada diocesana das Cinzas ao Pentecostes 2018” que as estruturas de topo da diocese do Porto propõem “a todos, famílias, paróquias, comunidades religiosas, instituições, escolas católicas, movimentos e associações”, como “oportunidade de dinamização pastoral e de exercício espiritual”, “simultaneamente, de descida e de subida, como o revela o dinamismo da Cruz, onde Jesus é humilhado e ao mesmo tempo exaltado”.
Assumindo, como Santa Rosa de Lima, a cruz como escada por que subimos para o Céu, propõem a visualização da via do amor de Deus, descendo e subindo os diversos degraus.
Desceremos da Quaresma à Páscoa e subiremos da Páscoa ao Pentecostes pelos degraus da Cruz, sinalizando-os com os atributos do amor, enunciados por Paulo no Hino ao Amor (1 Cor 13), amor que o Papa comentou na Amoris Laetitia (A alegria do amor em família), no capítulo IV, e que está no coração da 1.ª Carta de João, a proclamar como leitura do Apóstolo, no tempo pascal. E a cruz permite a aposição de duas escadas: uma apoiada no braço direito da Cruz, outra no seu braço esquerdo. E “a Cruz do Senhor está firme, enquanto o mundo gira, movido pelo Seu Amor.
Após a caminhada “do Advento à Epifania”, movidos pela Estrela que brilha no amor, é de continuar este movimento, atraídos, movidos e comovidos pela Cruz, onde resplandece a glória do amor de Deus por nós: Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o seu Filho Unigénito” (cf Jo 3,14-21).
Assim, a diocese sugere elementos de reflexão e ações práticas, “a acolher e a aplicar, de forma criativa e adaptada às circunstâncias” e que aqui se condensam.
1. Fora da cruz, não há escada por onde se suba ao céu
Com as palavras “vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51), aludindo à escada de Jacob, apresentou-Se a Natanael e aos primeiros discípulos Jesus como “o Mediador entre o Céu e a Terra, ficando o Céu aberto à humanidade”.
A nova aliança é feita com o Filho do homem, o Deus encarnado. E, ao longo da história, muitos autores espirituais e artistas viram na imagem da escada a figura antecipada da Cruz, na linha da revelação de Jesus a Nicodemos: “Ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do Homem” (Jo 3,14). E recorda-no-lo o Catecismo da Igreja Católica:
A cruz é o único sacrifício de Cristo, mediador único entre Deus e os homens. Mas porque, na sua pessoa divina encarnada, Ele Se uniu, de certo modo, a cada homem, a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal, por um modo só de Deus conhecido.”.
E acrescenta a imagem de Santa Rosa de Lima: “Há uma só escada verdadeira para o paraíso; fora da cruz, não há outra escada por onde se suba ao céu” (CIC, n.º 618).
As preditas escadas, apostas à Cruz ajudarão “a representar e a viver” o mistério pascal de Jesus, tomando “esta escada do amor, que Se entrega na Cruz, como imagem da nossa caminhada”. Com efeito, a Cruz é, simultaneamente, a escada por onde Jesus desce e é humilhado e por onde sobe para ser exaltado. Por ela, o cristão aprende de Cristo e assemelha-se a Ele, que “sobe descendo” e que “desce subindo”. E a aposição das duas escadas na Cruz ajuda a deixarmo-nos atrair (cf Jo 12,32) movidos pelo amor de Deus, que resplandece na Cruz, pois “o amor de Cristo nos impele, ao pensarmos que um só morreu por todos” (2 Cor 5,14).

2. O acento simbólico pascal da Quaresma e o tema do Amor no Ano B
O lecionário dominical do Ano B, para a Quaresma, mostra que o acento não se põe tanto na via de preparação para o Batismo, como no Ano A, nem na penitência, como via de purificação e renovação batismal, como no Ano C. Esta Quarema incide sobretudo “na compreensão e vivência do mistério pascal”, aliás a finalidade primeira deste tempo, como se reza na oração coleta do 1.º domingo: “que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho”.
Nos domingos centrais da Quaresma (3.º, 4.º e 5.º), com o Evangelho de João, a Igreja propõe o caminho de Jesus para a Sua exaltação e oferece três catequeses sobre o mistério pascal, com as imagens da elevação de Cristo na Cruz, prefigurada na serpente elevada no poste como sinal de salvação (3.º domingo), do templo destruído e reconstruído em três dias (4.º domingo) e do grão de trigo caído à terra que, graças à morte, frutifica (5.º domingo). Deste modo, nos símbolos da serpente, do templo e do grão de trigo, “Cristo oferece-nos o dinamismo da morte/ressurreição, da fecundidade, que passa pela autonegação e pela exaltação na Cruz.
Pode então sintetizar-se o sentido da Quaresma assim: introduz-nos na celebração do mistério pascal de Cristo, o grande acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, “como única e maior intervenção salvadora do poder de Deus, na história da humanidade”. 
O mistério pascal que celebramos é o do caminho de Jesus para a Sua Páscoa, que se converte, na celebração e na vida da Igreja, em itinerário de conversão e iluminação do cristão.
João oferece-nos a visão da Cruz como árvore da vida nova, que Jesus veio oferecer: “Quando elevardes o Filho do Homem, então sabereis quem Eu sou. E ainda: “Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 8,28; 12,32-33). 
De facto, o evangelista vê a Cruz como árvore da vida, da glorificação de Cristo e de cura dos que O aceitam. Ora, no deserto, para ser curado do veneno das serpentes, era necessário “olhar”; agora, para “ter a vida eterna”, é preciso “crer” em Jesus, que está levantado e é elevado na Cruz, isto é, subiu à condição divina, pela escada da árvore da Cruz (cf Jo 8,28; 12,32-34).
Por seu turno, o tempo pascal, no Ano B, oferece-nos a possibilidade de aprofundar o nosso lema pastoral “Movidos pelo amor de Deus”, sobretudo a partir 2.ª leitura, da 1.ª Carta de João, que desenvolve com particular profundidade a revelação de Deus como Amor e, em resposta permanente a este amor, a prática do mandamento novo.
O segredo desta “descida” ao abismo da Cruz e da morte, pela qual o Filho de Deus é exaltado na glória, é o amor de Deus: “Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigénito”, assim escutaremos no Evangelho do 3.º domingo (cf Jo 3,14-21).
            3. A escada como símbolo da cruz, caminho do Amor
A Bíblia fornece prefigurações da Cruz de Jesus na coluna de fogo e na nuvem e, sobretudo, na escada de Jacob, por onde desciam e subiam os anjos do céu (Gn 28,12). E, na perspetiva de João, Jesus, suspenso da Cruz, entre o Céu e a Terra, ao tornar-Se o mediador entre Deus e a humanidade pecadora, faz da Cruz a Sua escada de subida e descida até nós. Mediante ela, Deus comunica-Se com a humanidade; comunica à humanidade toda a riqueza do Seu amor.
Os grandes autores espirituais e místicos serviram-se da imagem da “escada” como símbolo da Cruz de Cristo e do caminho do amor, em que são necessárias purificações e amadurecimentos, ou do caminho da vida espiritual, nas suas diversas etapas, expressões ou degraus. É, de facto, significativo que a Cruz, enquanto “caminho do amor e a exigência da vida cristã” se compare ao subir ou descer os degraus duma escada. Pode-se tropeçar na subida porque os primeiros degraus estão na escuridão, mas, no cimo, há uma luz infinita, que se atinge com o archote da esperança e com o desejo da procura.
            4. A imagem da escada na nossa caminhada
Movidos pelo amor de Deus” aprendemos esta via de perfeição, que ultrapassa tudo (1 Cor 12,31), na medida em que permanecermos unidos e atraídos à Cruz de Cristo e ao seu amor por nós. Assim, Paulo, na 2.ª leitura do domingo de Ramos, refere o mistério da Cruz de Cristo: “Sendo de condição divina, aniquilou-Se a Si próprio; aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de Cruz; por isso Deus O exaltou” (cf Fl 2,6-11). A “subida que se faz descendo e esta descida que se faz subindo”, movidos pelo amor de Deus, pode representar-se nos sete degraus duma e doutra escadas, apostas junto à Cruz, como acontece em tantas imagens alusivas quer à elevação do Corpo de Cristo para ser pregado na Cruz, quer à descida do Corpo morto de Jesus, para a deposição e sepultura.
Pode, em alternativa, usar-se a mesma escada, na Quaresma e no Tempo Pascal, usando os seus dois lados, para a descida (Quaresma) e para a subida (tempo pascal). O que importa é destacar a Cruz e a “sua envolvência no espaço litúrgico”.
Em cada degrau, semana a semana, colocamos os atributos do amor, como nos são apresentados no célebre Hino ao amor (1 Cor 13), que é a “Magna Carta de todo o serviço eclesial” e que o Papa Francisco comenta, em perspetiva familiar e conjugal, no 4.º Capítulo da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia (A alegria do amor), como se disse acima.
É um belo texto a inspirar a caminhada, desde o 1.º domingo da Quaresma à plenitude da Páscoa, no domingo de Pentecostes. Sugere-se para cada domingo, o primeiro dia da semana, os atributos do amor, que parecem “combinar” com algum pensamento retirado dos textos da liturgia dominical.
Propõe-se a leitura comentada dos números correspondentes a partir da Amoris Laetitia e, a partir do referido Hino ao Amor, um exame de consciência e algumas preces para invocar e agradecer a alegria do amor.
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Da Quarema à Páscoa:
O Amor é paciente (1.º domingo: Deus esperava com paciência a construção da arca – 2.ª leitura); não é interesseiro (2.º domingo: Deus não poupou o Filho – 2.ª leitura); não é invejoso (3.º domingo: Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem coisa algo que lhe pertença – 1.ª leitura); é amável (4.º domingo: Quis mostrar a riqueza da sua bondade para connosco – 2.ª leitura); não é arrogante nem orgulhoso (5.º domingo: Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento – 2.ª leitura); tudo suporta (Semana Santa e Tríduo Pascal).
Da Amoris laetitia (por semana): 1 – A paciência é uma qualidade do Deus da aliança (AL 91-92); 2 – O amor não procura o que é seu. Procura mais amar que ser amado (AL 101-102); 3 – Trata-se de cumprir o que pedem os dois últimos mandamentos (AL 95-96); 4 – Para se predispor para um verdadeiro encontro requer-se um olhar amável pousado nele (AL 99-100); 5 – É indispensável curar o orgulho e cultivar a humildade (AL 97-98); 6 – É preciso cultivar esta força do amor que permite lutar contra o mal que o ameaça (AL 118-119).
Da Páscoa ao Pentecostes:
Tudo crê (2.º domingo: Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé – 2.ª leitura); tudo desculpa (3.º domingo: Se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, como advogado junto do Pai – 2.ª leitura); não se irrita nem guarda ressentimento (4.º domingo: Ele é a pedra que vós rejeitastes e que veio a tornar-se pedra angular – 1.ª leitura); é prestável (5.º domingo: Não amemos com palavras e com a língua – 2.ª leitura); rejubila com a verdade (6.º domingo: Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós – Evangelho); tudo espera (Ascensão: “Porque estais a olhar para o Céu? – 1.ª leitura); o amor não acaba nunca (Pentecostes: O amor de Deus foi derramado em nossos corações – 2.ª leitura).
 Da Amoris laetitia (por semana): 1 – Esta confiança reconhece a luz acesa por Deus, que se esconde por trás da escuridão (AL 114-115); 2 – Aceita com simplicidade que todos somos uma complexa combinação de luzes e sombras (AL 111-113); 3 – Lutar contra o mal, mas sem violência interior. Não te deixes vencer pelo mal (AL 103-104); 4 – O amor mostra a sua bondade nas ações. Amar é fazer o bem (AL 93-94); 5 – Alegra-se com o bem do outro, quando se reconhece a sua dignidade (AL 109-110); 6 – Não desesperar do futuro. Aguardar aquela plenitude que, embora hoje não seja visível, há de receber um dia no Céu (AL 116-117); 7 – Este amor forte, derramado pelo Espírito Santo, é reflexo da aliança indestrutível entre Cristo e a humanidade que culminou na entrega até ao fim na Cruz. (AL 120). É preciso pôr de lado as ilusões e aceitá-lo como é: inacabado, chamado a crescer, em caminho (AL 218).
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Das propostas feitas, destacam-se: o exame de consciência – a nível pessoal, familiar, grupal ou comunitário – de confronto da vida com as caraterísticas do amor acima enunciadas, bem como preces em consonância com o desejo de se configurar com elas; valorização do ato penitencial na linha do confronto com as marcas do amor; oração e meditação a partir do Hino ao Amor e a partir da Amoris laetitia; ações voluntárias de privação e partilha; celebração da Reconciliação; e participação na celebração da Eucaristia (Vale a pena adquirir os materiais).
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Hino ao Amor - 1 Cor 13,1-7.13

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver amor, sou como um bronze que soa
ou um címbalo que retine.

Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver amor, nada sou.

Ainda que eu distribua todos os meus bens
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver amor, de nada me aproveita.

O amor é paciente, o amor é prestável,
não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso,
 nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita nem guarda ressentimento.
Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará.

(…)

Agora permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor;
mas a maior de todas é o amor.

2017.01.25 – Louro de Carvalho