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segunda-feira, 25 de maio de 2020

A propósito do uso da mitra pelo Papa e pelos Bispos


A irmã Mercedes Loring (de 95 anos), da Congregação das Irmãs da Assunção, fundada em 1839, em Paris, por Anne-Eugenie Milleret de Brou (Maria Eugénia de Jesus, na vida consagrada), se tivesse possibilidade de realizar o sonho de ver o Papa, pedir-lhe-ia que tirasse a mitra a si mesmo e aos bispos. Com efeito, desde sempre, as mitras episcopais lhe pareceram ‘gorros ridículos’.
É uma voz com autoridade moral, visto que nasceu numa família rica e empreendedora, mas a quem, segundo conta, “comunistas agressivos” mataram o pai, ficando a mãe viúva aos 35 anos, com 5 filhas e 3 filhos, como se pode ler no site da “Fraternitas”, e passando a família a viver na pobreza e na fome, sujeita à ajuda de outras famílias. Entretanto, Mercedes Loring, deixada a vida de dançarina aos 20 anos e feita religiosa, dedicou a vida a promover os pobres no Equador e na Espanha. Daí, apesar de a guerra civil lhe ter lesado gravemente a família, lamenta que os bispos espanhóis, embora nem todos, estejam encostados à direita política, ousando dizer que a hierarquia da Igreja espanhola tem que deixar de estar tão vinculada à direita e abandonar o poder, porque Cristo não o quer e o povo também não, e recomendar aos prelados que façam como o Papa Francisco, que é simples e humilde e está com os pobres.
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Talvez valha a pena ver o que se passa com a mitra, teoricamente branca.
mitra (do grego μίτρα: cinta, faixa para a cabeça, diadema) é uma cobertura, fendida, da cabeça, de duas peças rígidas, de forma pentagonal, terminadas em ponta, chamadas corno ou cúspides, costuradas pelos lados e unidas por cima por um tecido, podendo ser dobradas conjuntamente. As duas cúspides superiores são livres e, na parte inferior, forma-se um espaço que lhe permite circundar a cabeça. Na zona posterior, duas faixas franjadas, as ínfulas, descem até às espáduas.
É insígnia pontifical utilizada pelos prelados da Igrejas católica, ortodoxa e anglicana: Papa, cardeais, arcebispos, bispos e abades. E houve privilégio, embora limitado, de concessão do uso a prelados menores: dignitários de cabido, prelado da Cúria Romana e Protonotários. E chegou a ser permitida às abadessas de mosteiros femininos. Trata-se da cobertura de cabeça prelatícia de cerimónia, pelo que é utilizável em algumas celebrações com determinado impacto litúrgico.
De origem romana, deriva do camelauco, uma cobertura, não litúrgica, da cabeça, exclusiva do Papa, da qual teve origem também a tiara e, segundo alguns, também o camauro.
camauro (do latim camelaucum; e este do grego καμιλαυκίον – kamelauchíon, significa “chapéu de pele de camelo”, talvez de κάμιλος: corda, ou de κάμηλος: camelo, pelo uso da pele. Alguns autores afirmaram ser corruptela de καλυμμαύχιον, de καλυμμα: véu) é um gorro usado pelo Papa no inverno. É vermelho com bordas brancas de arminho. Bastante utilizado na Idade Média, caiu em desuso nos últimos tempos. Antes de Bento XVI, que o usou em 2005, por alegadamente sentir frio, o último Papa a aparecer de camauro em público foi São João XXIII.
camelauco (de etimologia igual à de camauro), é um barrete frígio, cónico, alto, de tecido branco, que do Oriente passou a Roma, simbolizando a liberdade face ao poder político e sendo, pelo fim do século IV, adotado pelos papas. Porém, não se confirma, historicamente, a afirmação de que o Papa Silvestre I o tenha recebido de Constantino I , em sinal da liberdade da Igreja. O certo é que os papas usavam, inicialmente o camelauco, símbolo tradicional de soberania oriental, sendo uma peça distinta da mitra dos bispos.
Que o camelauco era usado antes do século VIII, é referido na biografia do Papa Constantino inserida no “Liber Pontificalis”. Segundo o nono ‘’Ordo’’, o camelauco era confecionado dum material branco e em forma de capacete. As moedas dos papas Sérgio III e Bento VII, segundo as quais São Pedro usava um camelauco, dão-lhe a forma de cone, que é a forma original da mitra. O camelauco foi usado pelos papas sobretudo nas procissões solenes. A mitra evoluiu do camelauco, no curso do século X, quando o Papa começou a usar a mitra nas procissões à igreja e no serviço religioso subsequente. Não se pode afirmar que tenha havido alguma influência do ornamento de cabeça sacerdotal do sumo sacerdote veterotestamentário Foi só depois de a mitra estar a ser universalmente usada pelos bispos que se levantou a hipótese de ela ser uma imitação da cobertura de cabeça sacerdotal hebraica.
Janice Bennett, no livro “Sacred Blood, sacred Image”, menciona a tradição seguida por Tadei de Edessa segundo a qual, no cristianismo, a mitra se desenvolveu a partir da prática de São Pedro colocar o Sudário de Cristo na sua própria cabeça como símbolo dum ministério curativo, facto que não tem respaldo histórico ou teológico.
Alguns autores creem que o uso da mitra é anterior aos tempos apostólicos, portanto anterior ao cristianismo; outros dizem que remonta aos séculos VIII ou IX; e outros afirmam que surgiu por volta do início do 2.º milénio, sendo dantes usado um ornamento para a cabeça na forma de grinalda ou coroa. O certo é que um ornamento episcopal para a cabeça, em forma de faixa, nunca existiu em Europa ocidental e que a mitra foi usada primeiro em Roma por volta da metade do século X, e fora de Roma no ano 1000 (vd “Die liturgische Gewandung im Occident und Orient”, pp. 431-48). A mitra é descrita pela primeira vez em duas miniaturas do começo do século XI: uma delas está num registo batismal; a outra num pergaminho do Exultet, da catedral de Bari (Itália). A primeira referência escrita sobre a mitra é duma bula de 1049 do Papa Leão IX, anteriormente bispo de Toul (França), que confirmou a primazia da Sé de Tréveris ao Bispo Eberardo de [Tréveris]], anteriormente seu metropolita que o tinha acompanhado a Roma. Como sinal desta primazia, Leão IX concedeu ao Bispo Eberardo a mitra romana, que a poderia usar de acordo com o costume romano ao executar os ofícios da Igreja. E, pelos anos 1100 a 1150, já o uso da mitra se havia generalizado entre os bispos.
Todavia, os cardeais já usavam a mitra no fim do século XI, provavelmente tendo adquirido este direito na primeira metade daquele século. E Leão IX concedeu, em 1051, este privilégio aos cónegos da catedral de Besançon. A primeira concessão da mitra a um abade data do ano 1063, quando o Papa Alexandre II a concedeu ao abade Egelsino, na Abadia de Santo Agostinho, em Cantuária. Desde então as concessões aos abades foram aumentando até se generalizarem.
Também aos príncipes cristãos foi concedida, por vezes, a permissão de usar a mitra, como uma marca da distinção. Assim, o Duque Wratislaw, na Boémia recebeu este privilégio do Papa Alexandre II e Pedro de Aragão recebeu-o do Papa Inocêncio III. E também o Imperador alemão gozou de idêntico privilégio.
O Cerimonial dos Bispos distingue dois tipos de mitra: ornada e simples. A Ornada é guarnecida de adornos mais ou menos ricos. As mitras ornadas dividem-se em: Preciosa (Pretiosa), decorada com pedras preciosas e ouro; Aurifrisada (Auriphrygiata), de tecido liso de ouro ou seda branca bordada a ouro e prata; e Faixada, com duas faixas ornamentais ou galões, uma (circulus) na borda mais baixa, e outra (titulus) em posição vertical, no meio de cada pala. A Simples é inteiramente de tecido branco, interna e externamente, sem ornamentos, nem mesmo nas ínfulas, que têm franjas vermelhas. É de linho para os bispos e de seda adamascada branca para os cardeais. O Papa usa três tipos de mitra: a Gloriosa, ornada de pedras preciosas e dum círculo de ouro que lhe forma a base (nesta categoria, inclui-se a mitra com a tripla faixa dourada); a Preciosa, ricamente decorada, mas sem o círculo da base; e a Argêntea, de lhama de prata, correspondente à mitra simples dos bispos. Se a mitra papal tiver o formato duma coroa tripla, é chamada tiara papal ou triregnum. O seu uso foi abandonado pelo Papa São Paulo VI, que adotou a mitra comum para enfatizar a índole pastoral da autoridade pontifícia em detrimento de qualquer resquício de poder político.
A origem da tiara é incerta. Os historiadores assentam em que é lendária a afirmação de o Papa Silvestre I (314-335) ter recebido a tiara do Imperador Constantino. Segundo M. Pfeffel, Clóvis I ofereceu ao Papa Símaco a tiara na igreja de São Martinho, em Tours no século V. Porém, um ornamento branco usado na cabeça pelo Papa – o camelaucum ou frigium – é registado na biografia do Papa Constantino do “Liber Pontificalis”. Para James Noonan-Charles e Bruno Heim, a mais baixa das três coroas apareceu na base da chapelaria branca tradicional dos papas no século IX, quando eles assumiram efetivamente o poder temporal nos Estados Pontifícios. A coroa da base foi decorada com joias para se assemelhar à coroa principesca, pelo que passou a chamar-se Regnum. O termo “tiara” é citado pela primeira vez na biografia do Papa Pascoal II, no “Liber Pontificalis”, em 1118. Heim supõe que a segunda coroa foi adicionada pelo Papa Bonifácio VIII em 1298, aquando do confronto com Filipe, o Belo (Rei da França), para mostrar que a autoridade espiritual era superior à autoridade civil. E a tiara passou a denominar-se Biregnum. Contudo, um afresco da Capela de São Silvestre (consagrada em 1247) na igreja Santi Quattro Coronati (Roma) representa o Papa com a tiara de pano de duas coroas, o que indica que o Biregnum tem origem anterior. E os historiadores divergem quanto à data e quem acrescentou a terceira coroa, com a qual a tiara passou a denominar-se Triregnum. São sugeridos os papas João XXII (1316-1334), Urbano V (1362-1370), Clemente V (1305-1314), Bento XI (1303-1304), ou Bento XII (justamente em 1334). Mostra no Papa o tríplice múnus de Cristo: profético, sacerdotal e régio-pastoral – bem como a cúpula do “poder” eclesial, ficando o serviço para trás.
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O pior é que a mitra (ou a tiara) passou de objeto utilitário ou de símbolo do poder e superioridade social e política a objeto sagrado. E o Cerimonial dos Bispos manda que mitra, anel e báculo sejam abençoados antes da ordenação episcopal sendo que a primeira imposição deve ser feita durante o rito, depois da imposição dos livro dos Evangelhos. Daí até a mitra ganhar significado crístico foi um passo: parece a boca dum peixe (que era a senha dos cristãos até ao ano 313) voltada ao alto e a encimar a cabeça do bispo, Alter Christus com a plenitude do sacerdócio.
Recorde-se a simplificação a que o Cerimonial dos Bispos procedeu. A paramentação do Bispo para Missa de Pontifical, após tirar a mozeta e o roquete, incluía: polainas; cáligas; amito; alva; cíngulo; estola; tunicela; dalmática; casula; manípulo; cruz peitoral; quirotecas; anel; mitra; e báculo. Mantêm-se alva e cíngulo, estola, casula, cruz, anel, mitra e báculo. Só ficaria bem simplificar ainda mais. Ou então porque não atribuir ao Bispo o uso da tiara?
A mitra já não faz sentido, muito menos com os espécimes vários acima referidos, se até nem a pode o Bispo usar enquanto faz orações. E não veríamos bispos a utilizá-la de forma incorreta. O solidéu basta para assinalar a figura do Bispo na assembleia litúrgica. Todavia, a mitra não estorva a profecia, o sacerdócio e o pastoreio episcopais. E o báculo do bispo-pastor poderia ser bem mais simples, tal como o anel. O que importa é a voz, a orientação e o testemunho!
2020.05.25 – Louro de Carvalho

domingo, 8 de setembro de 2019

Ao lado da Igreja, não sobre a Igreja


Tinha de ir ao local ver de perto o monumento a Dom António Francisco dos Santos. Apesar de a informação e as imagens veiculadas pela comunicação social terem, há um ano, dado um retrato bastante fiel da obra e as palavras dos intervenientes, nomeadamente as do Bispo diocesano Dom António Couto terem sido elucidativas, não ficaria bem comigo sem visitar o monumento e lá passar uns minutos, ainda que breves, de reflexão. Exigia-o a memória do santo prelado portuense, repentinamente falecido, e a amizade com que sempre se afirmou para comigo em todas as etapas da vida em que nos cruzamos em lides pastorais ou docentes.

Todavia, parece que nunca chegava o momento de ir a Tendais. E, no passado dia 7, após um almoço-convívio com antigos alunos do Externato de Castro Daire, minha mulher e eu fomos a Tendais, terra natal de Dom António Francisco, ver o monumento inaugurado e benzido a 29 de agosto de 2018.
Já há muitos anos que não passava pela EN 321, que desde Carneiro/Loivos do Mote (EN 101) passando por Baião, Cinfães, Tendais e Alhões, atravessa o Montemuro até ao cruzamento com a EN2 em Vila Pouca, perto de Castro Daire. Gostei de fazer o percurso até Tendais. Reparei na sinalética a apontar o monumento a Dom António Francisco na EN 321, uns metros abaixo do Café Restaurante Tendais, e depois na rua, no início da travessa que dá para a igreja.
E a primeira observação que me foi dado fazer, pensando, é a simbólica posição da estátua do Bispo e a sua relação com o templo, além dos 4 painéis referentes a frases emblemáticas que pronunciou em cada uma das quatro dioceses em que serviu a Igreja (Lamego, Braga, Aveiro e Porto): a plataforma onde pousa a estátua e o patamar que enquadra os preditos painéis ajudam a construir a proporção do monumento em relação ao templo e adro.       
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Porém, a reflexão que pude fazer a partir da passagem do templo onde habita realmente Jesus Cristo e se reúne a Igreja/assembleia para a Igreja comunidade/povo de Deus/Corpo de Cristo foi a seguinte:
O Bispo está ao lado da Igreja, não sobre a Igreja. O Bispo preside à Igreja, que está, no dizer inaciano onde está o Bispo, mas presidir não é ser superior.
Em contraste, apraz-me recordar que, numa amostra de desenhos por crianças da catequese e do 1.º Ciclo do Ensino Básico numa determinada paróquia que eu conheço, um dos miúdos desenhou a igreja/templo da sua terra com o pároco devidamente paramentado em cima do telhado da nave como se estivesse a cavalo. Não. O Bispo ou o Padre não estão sobre a Igreja, mas ao lado e, se for necessário, um pouco à frente (dum lado ou do outro como for mais conveniente, já que a Igreja caminha no meio do mundo) – a apresentá-la, a incitar os crentes a prosseguir na fé, a levantar os braços para animar a fé pela palavra, a fazer a santificação pela oração e pelos sacramentos, a urgir e organizar caridade pela atenção a todos os que precisam de bens materiais e espirituais, corrigindo as situações que atentem contra a dignidade humana, sempre anunciando Jesus Cristo e o Reino de Deus, comprometendo-se com a esperança e mobilizando todos para ela e em torno dela para o dinamismo e os frutos do Reino.
Recordando-me de algumas palavras do pároco da freguesia pronunciadas a propósito da inauguração e bênção do monumento, pareceu-me que o reverendo Padre Adriano Alberto Pereira percebeu bem o significado do gesto do Bispo e fez passar a mensagem.
Se o templo aparece em Tendais não sobranceiro e altaneiro como nalgumas localidades, mas aberto à comunidade – relativamente perto fica o Centro Social e Paroquial de Tendais – e em encosta como muitos dos grandes rincões territoriais da paróquia, Dom António Francisco dos Santos está em posição de saída como a Igreja que o Papa Francisco pretende que seja a Igreja de Cristo hoje.
Na verdade, o Bispo, que se formou no discipulado de proximidade com Jesus Cristo, que se instituiu como sucessor dos Apóstolos e apóstolo, há de ser a primeira testemunha qualificada do Ressuscitado e, por conseguinte, o primeiro missionário. Por isso, há de ser o primeiro a estar disponível para a caminhada eclesial e, depois, como sugere o Papa, o Bispo dos Bispos, ir à frente para rasgar o caminho, ir a meio para tentar acertar o passo dos caminhantes ou ir na retaguarda para dar um impulso adicional a quem tenha mais dificuldades.
Porém, se tem a caminhada estabilizada, deve caminhar ao lado para dar voz à Igreja, a apresentar com simplicidade ao mundo, campear a apresentação das razões da esperança, defender a Igreja dos adversários e das ideias adversas e solicitar a adesão de todas as pessoas de boa vontade à caminhada eclesial. Também deve estar ao lado da Igreja para promover a sua reforma contínua, a advertir para as magnas possibilidades de que o dom do Espírito Santo a dota permanentemente, mas também das suas limitações humanas e até erros humanos, e a pô-la em diálogo paciente e aberto com o mundo, sem agastamento, sem contemporizações indevidas, más sem anátemas e juízos indevidos.
Para tanto, deve rogar e cultivar o dom da sabedoria, que instrui nas coisas divinas e humanas (ouvindo Deus e as palpitações dos homens), para bem orientar, o dom da fortaleza, para se defender do maligno e saber defender a Igreja e os pobres, o dom da piedade, para criar, manter e reforçar a ligação a Deus intercedendo pelos homens e ser porta-voz e portador de Deus para os homens – tudo no quadro duma sadia e eficaz antropagogia.            
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Dizia Hélder Carvalho, o autor da estátua, que os 2,20 metros em bronze “não chegam” para retratar a “grandeza do coração” de Dom António. É verdade, mas o escultor retratou bem aquilo que entendo como a perspetiva António-franciscana e parece-me que bem conseguiu esculpir a “figura e a alma” do bispo do Porto, pois, como o artista explicou, “há um leve sorriso a tentar fazer passar a sua bondade, ponderação e serenidade” e o todo responde ao que Hélder Carvalho pretendeu: “que as pessoas se aproximassem o mais possível de forma a poderem interagir podendo ver ao pormenor ou à distância”.
O monumento que evoca a vida e a missão de Dom António Francisco, para o Prelado lamecense serve de “importante testemunho” para as próximas gerações sobre o bispo que soube “inaugurar uma nova proximidade”. Com efeito, como explicava Dom António Couto, durante a homilia da Eucaristia de homenagem ao falecido Bispo, “há em Dom António Francisco uma proximidade nova que não se mede a metro, pela distância, muito ou pouco entre as pessoas” mas que “não é essa a verdadeira proximidade, não é estar encostadinho ao meu irmão ao lado, mas a responsabilidade pelo outro”. E Dom Manuel, seu sucessor na diocese do Porto, destacava a proximidade e “sensibilidade humana” com que Dom António Francisco dos Santos “conquistou corações”.
Dom António Couto dizia com pertinência aos jornalistas que o monumento “não seria muito do agrado do Senhor Dom António” que não era homem destas coisas mas “mais como os passarinhos, poisava aí em qualquer lado”. Todavia, pensando nas palavras do Padre Adriano Alberto que integrava um videograma adrede produzido para a circunstância e na reflexão a que me prestei proceder, talvez Dom António Francisco não ficasse pessoalmente muito confortável com a homenagem e com o monumento, mas é verdade que assumia todo o significado teológico-pastoral da obra. Disso não tenho dúvidas pelo que sei da sua alma sábia e santa.    
2019.09.08 – Louro de Carvalho

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Desviante formação e significado de algumas palavras

o

 Já em tempos me referi à maneira desviante de formação de algumas palavras e do significado que lhes é atribuído. Recordo que, por motivos então explicados, o “oftalmologista” deveria ser “oftalmiatra” ou “oftalmoterapeuta” porque, mais do que perceber de olhos, ele trata dos olhos ou cura (tenta curar) as doenças oftálmicas (em grego, “ophthalmós” significa “olho”, e iatréuô e terapéuô significam “curo, trato de”) das pessoas; e que o “ginecologista” devia ser “giniatra” ou ginoterapeuta porque, mais do que perceber de mulheres, trata de doenças de senhoras ou tenta curá-las (em grego,günê, günaicós” significa “senhora, mulher”). Aliás, nós temos bons casos de vocábulos bem formados, tais como: geriatra e geriatria, pediatra e pediatria, terapia e terapeuta.
Recordo que a ortopedia e o ortopedista, que hoje tratam sobretudo problemas de ossos, tendões e articulações, originariamente tratavam dessas coisas nas crianças (em grego, “ortós” quer dizer “direito”, “reto”; e “pais, paidós” significa “criança, menino, menina”). É que, segundo a filosofia popular, “de pequenino se torce o pepino”; e estas correções, dantes, se fossem feitas na idade adulta, dificilmente teriam sucesso. Por outro lado, a idade do “pais, paidós” ia até aos 12 anos de idade. Em Roma, os equivalentes “puer” e “puella” iam até aos 17/18 anos.  
Também é detestável o significado atribuído a alguns vocábulos, longe do significado originário. Recordo o caso da “pedofilia” (“filía”, em grego, significa amizade, amor, atração). Não deveria ter o significado que lhe dá o uso, que, depois de consolidado, é a máxima lei de fixação da língua. Já estão bem formadas palavras como “necrofilia”, atração sexual por cadáveres (do grego “νεκρός”, “cadáver” ou “morto”; e “φιλία”,  “amor” ou “atração”); e “coprofilia”, em biologia, a condição do microrganismo que vive nas fezes, ou, em psicologia a excitação erótica motivada pelo cheiro, visão ou contacto com excrementos humanos, que pode chegar à “coprofagia” (do grego “cópros”, “excremento, sujidade” e “phagéo” e “phágomai”, “como”).
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Ainda agora, a propósito das vítimas mortais do acidente de Vila Nova da Rainha, Tondela, falou-se de “autópsia”. Ora, esta palavra formou-se a partir dos elementos gregos “autós” (o mesmo, ele próprio) e o verbo “oráô” (ver, observar, examinar). Porém, nenhum morto consegue ver-se ou examinar-se a si próprio por fora, através dum espelho ou objeto similar, muito menos por dentro. Então o que deveria chamar-se a esse exame que os médicos legistas ou os médicos patologistas são chamados a fazer era a “necropsia”.
Por isso, modernamente, criou-se a sinonímia por “necropsia”, composta de “νεκρός” (nekrós, “morto”) e “ὄψις” (ópsis, “visão”) e por necrocirugia (de “queir, quirós”, mão), que significa cirurgia praticada num cadáver – para evitar que o nome “autópsia” gere confusão, por poder ser entendido, equivocadamente, como “exame de si mesmo”. Porém, diz-se normalmente “autopsia” (em espanhol e italiano), autopsie (em francês) e autopsy (em inglês), pois o termo permanece válido, segundo alguns, enquanto envolve o examinador para ver pelos seus próprios olhos as causas da morte.
Há dois tipos de necropsias: a forense, realizada por razões médico-legais, que normalmente é falada na comunicação social, feita por médicos especializados (médicos-legistas), solicitada pelas autoridades judiciárias e não impugnável pelos familiares, por morte de acidente, morte desconhecida, morte súbita ou morte por suspeita de crime; e a clínica de anatomia patológica, normalmente realizada por médicos patologistas (patologista é o médico que estuda as diversas patologias), com fins de estudo e pesquisa, para determinar, não só a causa da morte, que, em muitos casos, é conhecida, mas todos os processos patológicos que afetam o indivíduo. 
Dois grandes pesquisadores na medicina do século XIX, Rudolf Virchow e Carl von Rokitansky, que realizou 30.000 autópsias, trabalharam na base o legado do Renascimento para forjar as duas técnicas distintas de autópsia que ainda levam os seus nomes. A sua demonstração da relação entre condições patológicas em corpos mortos e sintomas e doenças em seres vivos abriu o caminho para uma forma diferente de pensar sobre as doenças e seus tratamentos.
Podia chamar-se “endoscopia”, exame por dentro (do grego, “endon”, dentro de, e “scopéô”, observo, examino). Mas o vocábulo está cativo por outra atividade. Com efeito endoscopia, que significa o olhar para dentro do paciente, é uma especialidade médica que se ocupa de obter imagens médicas diagnósticas utilizando um endoscópio. O endoscópio é um aparelho que consta basicamente de uma fonte de luz e alguma forma de visualização da imagem para dentro, que pode ser dada por via anal, ventricular ou gastrointestinal. É conhecida a prática colonoscópica.
E, quando se certifica o óbito apenas pelo mero exame exterior, fala-se do simples exame “anatomotanatológico” (comboio de palavras gregas: anatomia – de “ἀνατέμνω, anatemnō” – cortar em partes, “thánatos”, morte; e “logos” com o sufixo -ia – palavra, tratado, estudo). Foi este o único exame que as autoridades vaticanas autorizaram por ocasião do óbito do Papa João Paulo I.
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Há dias, ia a passar na rua e vi um painel a anunciar “Osteopata…”. E eu pensei: “um doente não faz propaganda de si próprio. Há de haver aqui algum equívoco.”, pois, “osteopata” vem dos termos gregos “osteon (ὀστέον), “osso” e “pathos” (πάθὀσ), “doença”. Portanto, deve ser uma pessoa que sofre dos ossos. Também psicopata é o doente de comportamento antissocial, diminuição da capacidade de empatia/remorso e baixo controlo comportamental ou com a presença de atitudes de dominância desmedida, a que vem associado comportamento agonista conexo com a ocorrência de delinquência, crime, falta de remorso e dominância, mas também é associado com competência social e liderança. E o sociopata é o indivíduo com transtorno de personalidade caraterizado por um egocentrismo exacerbado, que leva a uma desconsideração em relação aos sentimentos e opiniões dos outros.
Porém, depois de ler tudo, verifiquei que estava mal enganado. Afinal, a osteopatia – criada, em 1874, pelo médico estadunidense Andrew Taylor Still – é tida como uma prática de medicina alternativa que consiste na utilização de técnicas de mobilização e manipulação articular, bem como de tecidos moles.  Os osteopatas creem que esses procedimentos ajudam o corpo a curar-se sozinho.
Há muito pouca evidência de que a “osteopatia” sirva de alguma ajuda no tratamento de qualquer condição médica, já que não há estudos que comprovem a eficácia desse tipo de tratamento. Os seus praticantes são considerados osteopatias, quando o deviam ser os doentes. Em sentido literal, osteopatia significa doença dos ossos. Por isso, esta prática deveria, pelo menos, à primeira vista, chamar-se osteoterapia ou osteopatoterapia e os seus praticantes de osteoterapeutas ou osteopatoterapeutas, como temos a psicopatologia e o psicopatologista. Mas nem isso, como se verá adiante.
A prática osteopática baseia-se na convicção de que todos os sistemas do corpo estão relacionados, o que é verdade. Assim, qualquer disfunção em um sistema afeta todos os outros. Além disso, crê que o corpo tem total capacidade de se curar sozinho, desde que todas as suas estruturas estejam equilibradas, o que é difícil.
Em Portugal, a prática da osteopatia é uma profissão de saúde, autónoma (em diagnóstico e terapêutica), sendo classificada no âmbito das terapêuticas não convencionais (acupuntura, fitoterapia, homeopatia, medicina tradicional chinesa, naturopatia, osteopatia, e quiropraxia) e regulamentada como tal pelas Leis n.os 45/2003, de 22 de outubro, e 71/2013, de 2 setembro, sendo o título de osteopata protegido por lei. Atualmente, em Portugal, existem cinco faculdades que ensinam o curso de quatro anos com atribuição do grau de licenciado em osteopatia. As consultas e tratamentos de osteopatia, tal como as restantes terapêuticas não convencionais já mencionadas, passaram a estar isentas do IVA (imposto de valor acrescentado), desde janeiro de 2017 pela Lei n.º 1/2007, de 16 de janeiro, à semelhanças dos restantes profissionais paramédicos.
No seu livro Filosofia da Osteopatia, o predito cientista Still enuncia os quatro grandes princípios em que repousa a filosofia osteopática:
- A determinação da função pela estrutura. Com efeito, apesar de o ser humano ser um todo indivisível, as suas estruturas são as diferentes partes do seu corpo (ossos, músculos, pele, glândulas, etc.) e a função é a atividade de cada uma das partes (respiratória, cardíaca, digestiva, etc.). Todas as partes do corpo têm uma estreita relação entre estrutura e função. Para Still, se a estrutura está em harmonia e equilíbrio, não pode haver doença. Toda a doença se origina num distúrbio na harmonia da estrutura. E, se como dizia Darwin, a função cria o órgão, também o preserva e mantém na sua vitalidade.
- A unidade do corpo. O corpo humano tem a capacidade de se autorregular, reencontrando a harmonia e o equilíbrio nas suas estruturas. Para se referir a essa capacidade, Still usa o termo homeostasia (a partir dos termos gregos “hómeo”, “similar” ou “igual”; e “stasis”, “estático”), situando-a no que ele chama de sistema miofascioesquelético. Tal sistema teria a capacidade de guardar “na memória” qualquer trauma físico sofrido.
- A Autocura. Still afirma que o corpo tem em si mesmo tudo o que é necessário para curar e evitar as doenças. Porém, é necessário que não haja obstruções nos canais nervosos, linfáticos e vasculares, além da necessidade de nutrição celular e de eliminação de dejetos.
- O caráter absoluto da regra da artéria. Segundo Still, sendo o mecanismo de envio de nutrientes para as células, a função arterial é primordial. Se as artérias não funcionarem corretamente, o sistema venoso será mais lento, o que fará acumular toxinas, gerando doenças.
Como se vê, a osteopatia tem muito pouco a ver com ossos, a não ser como um dos suportes estruturais das terapias. Poderia muito bem designar-se esta atividade por outros termos como hemopatia (de “haima, háimatos”, sangue), terapia holística, (de “hólos”, todo), dermatoterapia (de “derma, dérmatos”, pele), mioteapia (de “müs, müós”, músculo), adenoterapia (de “adên, adénos”, glândula).
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Estas imprecisões de nomenclatura não aconteceriam se houvesse sempre o espírito de cooperação na comunidade científica, devendo, a solicitação dos cientistas, os linguistas e filólogos contribuir para a fixação da terminologia científica – para bem da ciência e para bem das línguas.
2018.01.16 – Louro de Carvalho