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sexta-feira, 22 de maio de 2020

Em atípico Dia Mundial do Abraço


Dia Mundial do Abraço surgiu no âmbito duma campanha de 2004, quando Juan Man começou a oferecer ‘abraços de graça’ no centro de Sydney, na Austrália, a maior cidade do país. Ao vencer uma fase de depressão e solidão, tomou a iniciativa e decidiu que o carinho aleatório, mesmo duma pessoa estranha, pode salvar vidas ao demonstrar simplesmente carinho.  A razão por que tomou a iniciativa tem a ver, segundo contou, com o facto de, estando numa festa, um desconhecido ter ido até ele e abraçá-lo. Aí, sentiu-se como um rei e confessa que foi o melhor sentimento que teve. Com o cartaz ‘abraços grátis’, começou a receber e a dar abraços às pessoas nas ruas e ganhou notoriedade. Em 2006, a banda australiana Sick Puppies postou um vídeo no Youtube com a música “All the Same” e tornou-se viral.
Este dia pretende que as pessoas, com um ato de bondade, se sintam melhor.
O abraço ou amplexo acontece quando duas ou mais pessoas, geralmente duas, ficam parcial ou completamente nos braços uma da outra. Faz-se, dependendo da cultura local, como forma de demonstração de afeto duma pessoa para com outra. Pode ser um cumprimento, sobretudo depois de longa ausência, como pode ser ação conjunta de várias pessoas abraçadas que pretendem exprimir um sentimento ou objetivo comum. Pode apenas expressar sentimentos de carinho, ternura, amor, compaixão, saudade, congratulação, terror, etc. E um abraço a alguém pode demonstrar proteção instintiva.
O abraço, associado ou não ao beijo carinhoso, erótico ou de cortesia, é uma forma de comunicação não verbal. Dependendo da cultura, do contexto e do relacionamento, permite a exteriorização de sentimentos de amor, amizade, fraternidade ou simpatia. Ao invés doutros tipos de contacto físico, o abraço pode dar-se em público – sem conotações e manifestações de outro tipo – e em privado, sem estigma em muitos países e diferentes religiões e culturas, independentemente de sexo ou idade. E indica familiaridade ou camaradagem com o outro.
Há também o abraço impessoal, que geralmente é apenas dito e não é dado de facto. É bastante comum cumprimentar ou despedir-se dizendo “um abraço”, mas muitas vezes não abraçando de facto. Esse tipo de abraço impessoal é um sinal de mínima intimidade, mas é comum também entre pessoas desconhecidas. 
E há o abraço duma personalidade para um coletivo, que também não se dá efetivamente, mas que se supõe dar a cada pessoa, o que só se não faz por alegada impossibilidade.
No quadro da amplexoterapia, abraçar será uma ótima terapia contra a tristeza e depressão, pois o abraço será muito mais do que um simples “apertão” de braços, e que no momento em que abraçamos afetuosamente a quem apreciamos, transmitimos emoções como o amor e a paz.
A expressão “ósculos e amplexos” significa “beijos e abraços”. Enquanto a palavra ósculo (do latim “osculum, i”, boca pequenina ou boquinha – sendo que “os, oris” significa “boca”; e “osculum, i” é seu diminutivo) significa “beijo”, o termo “amplexo” é “abraço”, derivando do latim “amplexus, que significa “contorno”, “circuito”, “envoltura”, “abraço”. O amplexo é sinal de afeto bastante comum entre os seres humanos, consistindo em manter os braços entrelaçados entre o corpo do outro, mantendo uma aproximação física. O ósculo é um gesto de cumprimento entre duas pessoas, expressado através de um beijo (os romanos tinham o “basium” – passagem dos lábios pela face ou pela mão do outro; o “osculum”, o beijo repenicado; e o “suavium”, exclusivo da arte amatória) que representa um sinal de amizade ou conciliação, bastante utilizado entre os membros da comunidade cristã.
Como se referiu, etimologicamente, a palavra “ósculo surgiu” a partir do latim “osculum, que significa “boquinha” ou “beijo” repenicado. Mas na biologia e na botânica, o ósculo é um orifício exalante das esponjas (poríferos), por onde passa o fluxo de água, e que se encontra na extremidade livre do corpo desses animais que vivem nos oceanos.
ósculo santo, também conhecido por “beijo da paz”, coexistente com o “abraço da paz” (por isso é que se diz apenas: “saudai-vos na paz de Cristo” ou “oferecei a paz uns aos outros”), foi uma forma de cumprimento criada por Jesus Cristo, segundo a religião cristã. O ato consiste em dar um beijo na face doutra pessoa em sinal de fraternidade. Com os lábios cerrados, o beijo é referido apenas como toque subtil em alguma parte do rosto da pessoa.
Os apóstolos Pedro e Paulo recomendam o uso do ósculo santo em várias passagens bíblicas.
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Entretanto, a pandemia provocada pelo SARS CoV-2, transforma o Dia Mundial do Abraço de 2020 em Dia do Abraço Virtual. É um paradoxo um abraço, que à partida implica contacto físico seja celebrado num dia que recai em tempo que não desaconselha o contacto físico.  
Até 2020, a distância social, praticada com maior frequência na cultura nórdica, era alvo de críticas, especialmente das pessoas mais amorosas. E uma das mais marcantes quebras de protocolo da vida da princesa Diana foi a de cumprimentar afetuosamente as pessoas, rompendo com a distância física esperada da realeza. A proximidade e de troca de carinho em público passou a ser também um dos ‘defeitos’ apontados a Meghan Markle. Porém, tudo mudou: agora, tocar ou estar muito perto das pessoas pode custar vidas. E o peso emocional da distância já vem afetando muita gente. Por isso, o Dia Mundial do Abraço, celebrado a 22 de maio há 16 anos, tem hoje novo momento: virtual, mas de igual importância, se não maior.
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É de recordar que o cardeal José Tolentino Mendonça, a 4 de janeiro deste ano, escrevia para o Expresso online um precioso texto conexo com o abraço. Citando Martin Buber, assegurava que “o mundo não é compreensível, mas é abraçável”, referindo-se não só ao mundo que nos é exterior, mas também ao especificamente humano, “àquela porção de experiência e de mistério que com cada pessoa emerge de forma única no tempo”. E do abraço dizia que a sua “grandeza” é que “pode muitas vezes chegar aonde a compreensão não chega”, pois “o abraço aceita a separação ontológica que a pele do outro significa, detendo-se aquém da pele” e “reconhece que existe uma pele deste lado e do outro, e que, mesmo na intimidade das relações, essa película perdura”. E, estribado em Aristóteles, que sustentava que, ao tocarmos, “não eliminamos uma espécie de intervalo que persiste entre nós e a realidade”, assegurava que “avizinharmo-nos dos outros não é consumir os outros, como se os pudéssemos reduzir a objeto”.
E, para ilustrar que precisamos daquilo que “o toque significa”, evoca o facto de a capa do catálogo da 1.ª exposição surrealista na Europa após a II Guerra Mundial, confiada a Marcel Duchamp, ter uma imagem com a legenda: “Prière de toucher”, quando é usual, junto às obras de arte, colocar-se o aviso para não tocar. A razão é que “era preciso uma mensagem reparadora, capaz de fazer esquecer a segregação e o arame farpado”. Por isso, esperamos que a pandemia passe, para nos tornarmos a abraçar na humildade do abraço de que necessitamos mesmo, pois como diz o cardeal madeirense, “o abraço é o momento do encontro em que o contacto se realiza, mas é também o momento seguinte, quando a separação vem assumida como forma profunda de comunhão”. O “até à próxima” tem muita força anímica.
2020.05.22 – Louro de Carvalho

domingo, 16 de dezembro de 2018

Natal: o abraço do Deus misericordioso, próximo do homem ferido



Depois de considerar o presépio como centro do Natal por ser o sítio onde Deus Se colocou no mundo dos homens e que Maria tornou no primeiro altar de adoração familiar com abertura escancarada a todos (vd “Tu também tens de ser o presépio”, 2 de dezembro), é pertinente considerar outras vertentes do mistério da condescendência divina para com o homem perdido no pecado por via do seu egocentrismo, culto exacerbado do prazer e da inveja, já que a soberba da vida, o orgulho dos olhos e a concupiscência da carne toldam a prontidão do Espírito.
Neste sentido, quis refletir sobre a atitude de disponibilidade para aceitarmos o mistério pondo-nos na atitude de confiante espera do Senhor para que Ele nos conduza aos sítios onde Ele vive a pobreza e o descarte para que, mediante a nossa humildade cooperante, o mundo se torne cada vez mais segundo o coração de Deus pela via da reconciliação com o projeto divino, da renúncia aos erros e da forte vivência e promoção da alegria. Com efeito, o Senhor veio historicamente nascendo em Belém, há dois mil anos, como prometido a Abraão, lembrado pelos profetas, esperado pelo Povo; vem agora e continua a vir, na Igreja, nos corações – pela Palavra, pela Eucaristia e pela caridade fraterna; e virá, no fim dos tempos e nós O aguardamos na esperança orante e no trabalho. (vd “Não podemos viver de esperas, mas devemos viver na espera”, 1 de dezembro).
Neste esforço de reflexão, deparei-me com a figura de Maria, que se voluntariou para serva do Senhor, deixando que em Si e por Si se cumprisse a Palavra de Deus. E, como a Palavra de Deus é o próprio Filho de Deus, que em Maria Se tornou carne humana, Ela é simultaneamente a morada da Palavra, a serva da Palavra e a oferente sempre discreta da Palavra ao Mundo – o modelo do ser e da ação da Igreja e de cada um dos crentes (vd “Maria, a beleza luminosa no Advento/Natal”, 8 de dezembro). E ontem, 15 de dezembro, com o texto “Natal, ‘O abraço misericordioso’ – exposição fundada numa parábola”, pretendi ver o Natal como o desejável encontro de Deus – bondoso, paciente e respeitador – com o homem, que O abandonou, se sente sozinho e oprimido pela miséria, para que o Pai bondoso possa acolher o filho perdido que se reencontrou, correr até junto dele e o abraçar, mandar vesti-lo com a nova túnica, calçar-lhe as sandálias típicas da casa do Pai, colocar-lhe o anel no dedo, mandar matar o vitelo gordo e convocar todos para a festa, festa em que é desejo do Pai que o filho mais velho, que nunca transgredira, pelos vistos, uma ordem do Pai (considerava-o um patrão), se integre com alegria e solidariedade. Com efeito, na casa do Pai, não patrão, os filhos não cumprem ordens, partilham das preocupações e alegrias da família, que são as alegrias e preocupações do Pai, com vista à abertura da Casa a todos, pois, nela todos têm o seu lugar sem se invejarem, atropelarem, apertarem ou se sobreporem.
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Hoje, no III domingo do Advento, o da alegria da comunidade peregrina que divisa o seu Senhor, o que a enche de alegria a ficar plena aquando do ósculo e do amplexo do Senhor, seu Pai e doravante amoroso companheiro de todas as horas, tenho diante dos olhos a parábola do bom samaritano, explanada no capítulo 10 do Evangelho de Lucas (vd Lc 10,30-37):
Tomando a palavra, Jesus respondeu:     
Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia pelo caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: ‘Trata bem dele e o que gastares a mais pagar-to-ei quando voltar.
‘Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?’
Respondeu [o doutor da Lei]: ‘O que usou de misericórdia para com ele’. Jesus retorquiu: ‘Vai e faz tu também o mesmo’.”.
Este homem espancado e prostrado na berma do caminho, sem capacidade para se erguer, é bem a imagem de cada um de nós, quando nos esquecemos de Deus e das exigências do espírito, que são fundamentais no ser e no devir do homem e da comunidade que ele integra. E, quando isso acontece, o homem deixa de sentir a pertença à comunidade, sente-se um estranho e isola-se. Pode mesmo considerar os outros como inimigos: em vez de pontes, levantam-se barreiras ou cavam-se fossos. E tudo pode acontecer.
Mas nós também estamos bem representados naqueles salteadores: cheios de manha e força, surgiram de súpito, roubaram e maltrataram, não se incomodando com os danos causados, mas somente com a satisfação dos seus intentos e interesses.
E também ficamos bem na fotografia com o sacerdote e o levita, que ofuscados pelo serviço do Templo ou com medo de se conspurcarem com sangue alheio, optaram pela indiferença saloia e passaram quanto mais longe melhor.
Ora, era urgente mudar esta situação. Mas os salteadores, satisfeitos com a sua proeza indigna, fugiram; o sacerdote e o levita, levados pelo falso zelo ou pelo escrúpulo, seguiram a sua vidinha. E o desgraçado do caminhante morreria na berma do caminho abandonado de todos.     
Eis que passa um samaritano, pelos vistos não de boas graças com os judeus. Não obstante, “chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão; aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele.
São nove formas verbais a caraterizar a ação do samaritano: chegar ao pé dele, ver, compadecer-se (encher-se de compaixão), aproximar-se, ligar as feridas, deitar azeite e vinho, colocar sobre a montada, levar para estalagem e cuidar.
E não podemos esquecer que o samaritano quis implicar no cuidado o estalajadeiro: “Trata bem dele e o que gastares a mais pagar-to-ei quando voltar”.
É precisamente este dinamismo que Deus tem para com quem está ferido e sozinho, vítima da maldade e da indiferença. Queremos ósculo ou abraço de Deus melhor do que este?
E Deus bem quer tratar de forma adequada os salteadores. Eles fugiram, mas Deus não desiste. Quer britar a indiferença, o excesso de zelo cultual e o escrúpulo dos sacerdotes e levitas, o que se torna difícil, porque no seu coração empedernido estão convictos de que são os santos, ao passo que os outros é que são pecadores. Mas Deus há de arranjar forma de lhes dar uma oportunidade, porque Deus não desiste! 
E a melhor forma de Deus se fazer “bom samaritano” foi e é vir ao mundo na figura de menino, crescer como os demais homens e passar pelo mundo a fazer o bem, ensinando, escutando, rezando e curando e, por fim, entregando-se à morte por amor e triunfando pela ressurreição. Este Deus feito homem e bem próximo de nós, de cada um de nós, como o pastor das suas ovelhas, é Jesus. Conhece todas e cada uma das suas ovelhas, chama cada uma pelo seu nome; e elas ouvem a sua voz. Mas Ele não descansa enquanto não juntar ao redor de Si todas as ovelhas: as fiéis, as perdidas, as maltratadas, as sozinhas ou descartadas, as violentadas e exploradas, as sem vez nem voz, as maltratantes, as exploradoras e violentas, as que fogem, as que têm excesso e desvio de zelo, as escrupulosas. Por isso, criou a família dos discípulos para correrem mundo e fundarem comunidades que, em toda a parte e até ao fim dos séculos, sejam testemunhas desta proximidade e deste ósculo e abraço de Deus em Jesus Cristo ao homem. Como o samaritano Deus e o Seu Cristo querem implicar a todos no cuidado do Evangelho, neste agregar todos em redor do único Pastor e médico das nossas almas.
São estes homens e estas mulheres – a quem somos convidados a juntar-nos – que junto de nós e connosco replicam diariamente a oração da paternidade divina “Pai nosso, que estais nos Céus…”, a sementeira da fraternidade, porque filhos do Pai comum, somos irmãos.
Assim, sendo o Natal o Abraço do Pai a cada um dos filhos, há de consequentemente ser o abraço da fraternidade.
Por isso, aceitemos ser transportados à estalagem do cuidado das feridas, ergamo-nos, enverguemos a túnica nova, calcemos as sandálias, ponhamos o anel no dedo, mandemos matar o vitelo gordo, convidemo-nos uns aos outros para a festa, a festa de Deus, a festa dos homens.
E, assim, se formos mais fortes que o mundo, a onda consumista, em vez de nos atrair e arrastar, servirá de paisagem emoldurante da Festa de Natal, enquanto festa de Deus e do Homem. E a paz passará a ser o estilo de vida de todos.
Assim vale a pena o Natal, o Natal que desejo a todos os amigos e amigas!
2018.12.16 – Louro de Carvalho

sábado, 15 de dezembro de 2018

Natal: ‘O abraço misericordioso’ – exposição fundada numa parábola


Segundo o Vatican News, a exposição O abraço misericordioso, uma fonte de perdão”, sobre o perdão e a misericórdia, acompanhará os jovens na próxima JMJ (Jornada Mundial da Juventude) que se realizará no Panamá.
Esta informação leva-me a pensar no ponto fulcral do evento natalício. Com efeito, os sinais contemporâneos do Natal são muitos e diversificados – alguns até desviantes do cerne do mistério natalício – abundando as orçamentações visuais, sonoras e cinéticas por tudo quanto é sítio. As luzes, as árvores, os sinos, as fitas, as prendas, as movimentações, as ceias, os doces, as pausas no trabalho, as renas, os trenós ou os skates e o conhecido anónimo “Pai Natal” (de que algumas crianças têm medo, mas que lhes impõem) ironicamente quase abafam o presépio, que teima em subsistir neste meio ambiente que chama a atenção para o homem. Não é mal chamar a atenção para o homem, sua família, sofrimentos, alegrias, limitações e possibilidades, fracassos e êxitos, pois é no homem e no seu bem-estar que Deus se quer mirar. Porém, esquecer ou subvalorizar a fonte do Natal – o Deus misericordioso, que resolve caminhar ao encontro do homem para o abraçar e fazer entrar no seu mistério de comunhão amorosa, diriam os transmontanos que nem ao diabo lembraria. Será que a Palavra-semente ou o Verbo de Deus será abafado pela aridez ou pelos espinhos do terreno consumista, consumidor e “consumendo”?   
Não haja dúvida de que o Natal é Cristo, ou seja, o abraço misericordioso e amoroso de Deus-Homem ao homem que histórica e humanamente se obstinou no afastamento de Deus. Na verdade, depois de muitos e repetidos avisos através dos patriarcas, juízes, reis, salmistas e profetas, o Senhor resolveu fazer-Se homem em Jesus, para que visivelmente surgisse o abraço apertado e contínuo entre Deus e o homem (a condescendência divina elevante para com a humanidade arredia) e desencadeasse o abraço fraterno entre os homens e povos.
Entretanto, vamo-nos divertindo ao sabor dos apetites pessoais e das solicitações alheias que, pronta ou renitentemente, assumimos, ignorando, explorando e descartando aqueles que não têm vez nem voz ou anulando os que nos fazem sombra e que temos por inimigos. É a negação da condescendência de Deus para connosco e o ultraje à fraternidade! Mas ainda hipocritamente vamos rezando “Pai Nosso…”, Pai de todos nós, que somos, por isso, irmãos.    
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Uma paróquia de Itália, face à política antimigratória do Governo central e da autarquia local resolveu fazer greve ao Natal, ou seja, suspendeu toda a sua atividade durante a quadra natalícia em sinal de protesto contra a onda de política desumana persecutória aos irmãos.
Louva-se o gesto. Porém, é de nos interrogarmos se é a atitude que Deus aprecia. Com efeito, Deus sabia que não encontraria lugar digno de um homem nascer, que iria nascer num estábulo abandonado dos entretidos no mundo da ocupação, diversão e orgias. Mas nasceu, porque Deus não desiste. E os anjos cantaram a persistência de Deus, e abriram espaço para que os pastores pudessem vir e adorar, como para os magos do Oriente pudessem fazer longa viagem e apresentar-se em adoração e com as suas ofertas. E Jesus, o Homem-Deus, sabia que não iria ser aceite pelos seus, mas continuou a pregar e a curar; sabia que tinha no seu colégio homens rudes e obstinados pelas honrarias, que disputavam os melhores lugares, que O trairiam, negariam e fugiriam. Mas não desistiu deles, porque Deus não desiste. Sabia que iria ser flagelado, coroado de espinhos e crucificado. Mas não desistiu, antes pediu ao Pai que perdoasse, pois eles não sabiam o que faziam. Deus não desiste. Mataram-Lhe o Filho, que Se Lhe entregou nas mãos, mas Ele Constituiu-O o Messias Senhor em quem e por quem se pregaria o arrependimento e a remissão dos pecados. E foram os que O negaram, que almejavam os primeiros lugares mundanos e fugiram que, tenho recebido a força do Alto, correram as Sete Partidas do Mundo a semear o anúncio do Evangelho e a constituir comunidades de fé, santidade e unidade.
É que Deus, na sua infinda misericórdia sabe fintar as forças do Mal e abraçar o homem com todo o amor de que é capaz, fazendo de gente simples e tímida os arautos, de gente fraca os heróis, de pecadores os apóstolos, de gente empedernida os corações misericordiosos.    
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A predita exposição, que estreou há dois anos em Rimini, Itália, no Jubileu da Misericórdia, combina impressões de pinturas, esculturas, textos, vídeos e iluminação, tudo relacionado com o tema do perdão e da misericórdia. E pode ser visitada desde o dia 6 de dezembro até ao dia 30 de janeiro no Albrook Mall, um dos centros comerciais mais movimentados da capital panamenha, próximo ao Canal do Panamá.
Na apresentação da iniciativa à imprensa, Dom José Domingo Ulloa, Arcebispo do Panamá, disse que “uma das melhores maneiras para nos prepararmos para a JMJ é esta exposição, cujo tema central é o perdão, algo de que temos necessidade hoje”.
A mostra O abraço misericordioso, uma fonte de perdão” ocupa um espaço de 940m2 organizado por 5 salas. E a sua imagem de marca é uma réplica da pintura “O Filho Pródigo”, do pintor holandês Rembrandt, um óleo sobre tela que pintado por volta de 1662.
Para os organizadores, “o conteúdo narrativo da exposição é composto por depoimentos em vídeo e perguntas que levam os visitantes à reflexão em todos os momentos” e onde se poderá encontrar “explicação de como surgiu sobre a face da terra a misericórdia e o perdão e como os homens os receberam” ou como se mostraram renitentes a esta oferta divina.
O mencionado prelado observou a este respeito:
Somos uma sociedade constantemente em conflito.  Através do perdão é possível curar as nossas feridas.”.
É de referir que o projeto resulta da iniciativa da Embaixada de Honduras junto da Santa Sé desde 2014, com o apoio do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização e de três Universidades Pontifícias – a que se uniram a Fundação RIMINI e o Movimento Comunhão e Libertação, bem como as Embaixadoras da Bósnia-Herzegovina e do Panamá junto da Santa Sé e os Embaixadores de El Salvador, Guatemala, Hungria, Paraguai e Rússia junto da Santa Sé.
O patrocinador da produção e montagem da 1.ª edição foi o Programa MARCA PAIS Honduras, com apoio da Engenheira Hilda Hernández (QDDG), falecida em acidente há um ano.
Por seu turno, o Cardeal Oscar Andres Rodriguez Maradiaga, Arcebispo de Tegucigalpa, une-se com entusiasmo ao projeto e acompanha-o na gestão que busca obter o financiamento para a produção e montagem pelo Banco Ficohsa.
No Panamá, a aliada estratégica da Embaixada de Honduras junto da Santa Sé foi a Universidade de Arte GANEXA, que, com o empenho do reitor, o professor Ricaurte Martínez – escultor panamenho e artista de renome internacional, autor da estátua de São João Paulo II, localizada no Albrook Mall – preparou com a embaixada o planeamento, a produção e a montagem da exposição, segundo informou o embaixador junto à Santa Sé, Carlos Ávila, que declarou que esta produção, é recebida pelo Centro Comercial Albrook, que desde o pedido de apoio abriu as suas portas para aderir a este presente que, no período de Natal, é oferecido ao povo panamenho, sem qualquer distinção a todos os peregrinos da JMJ e aos demais visitantes.
A cerimónia de abertura, no passado dia 6, contou com a presença de autoridades do Vaticano, como o Núncio Apostólico no Panamá, Dom Miroslaw Adamczyk, e o Secretário do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, Dom Octavio Ruiz Arenas, além do Arcebispo de Panamá, Dom José Domingo Ulloa, e Dom José Antonio Canales – representando a Conferência Episcopal de Honduras – e membros do Corpo Diplomático, autoridades de Ficohsa, GANEXA e convidados especiais.
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O mistério da misericordiosa condescendência de Deus com o homem arredio, que Deus procura para o elevar às alturas da dignidade divina, fica bem patente na tríplice parábola da misericórdia explanada no capítulo 15 do Evangelho de Lucas.  
Na verdade, cada um de nós é aquela ovelha tresmalhada, aquela moeda perdida, aquele filho que esbanjou a própria liberdade, seguindo ídolos falsos, miragens de felicidade, e que perdeu tudo. Mas Deus não desiste de nós, é Pai que nunca nos abandona. Paciente, espera-nos sempre, respeita a nossa liberdade, mas permanece fiel. E, quando voltamos, corre ao nosso encontro, acolhe-nos como filhos na sua casa, porque nem sequer por um momento deixa de esperar por nós com amor... (Papa Francisco, Mensagem para as Jornadas Mundiais de Juventude, 2016).
Mas não só. O Pai não nos espera lá do Céu. Desceu à Terra, embora não de modo espetacular (nasceu num estábulo e foi posto numa manjedoura); caminha pelos nossos vales e montes, não em disco voador ou drone, mas calcorreando; entra em nossas casas sem as invadir; é companheiro sem ser intruso; é conselheiro, sem tirar o direito à opinião e ao erro.
Ora natal é a boa notícia. Começou a festa na casa do Pai. E “Vinde todos” é o convite para explicar o amor sem limites de Deus, pai e mãe, por meio da extraordinária página, conhecida, de forma enviesada, como a ‘parábola do filho pródigo’ – designação parcial, por ter em conta apenas o filho mais novo e descurar não só o mais velho (que é igualmente, ou ainda mais, merecedor de censura), como o próprio Pai, o suprassumo da bondade. O título mais adequado seria ‘parábola do pai misericordioso’, visto que é ele o protagonista: o seu amor está no centro da narração. O livro de Lucas é já conhecido como o ‘Evangelho da misericórdia’, mas nele o capítulo 15 (com a tríplice parábola) é definido ‘um evangelho no Evangelho’ – a notícia mais bela!
O trecho evangélico (Lucas 15) começa com o contexto da parábola, “Jesus acolhe publicanos e pecadores e come com eles”, vindo a seguir, os destinatários: os fariseus e os escribas que murmuram (v. 1-3). Mas os destinatários reaparecem no fim na figura do irmão mais velho.
Depois dos episódios do encontro da ovelha perdida e da dracma perdida com o convite à alegria, porque há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por 99 justos que não precisam de perdão (vv. 4-10), o evangelista fixa-se na história do abandono da casa paterna pelo filho mais novo, que sofre as agruras resultantes do uso desordenado da sua liberdade. Porém, acerca do regresso, devidamente deliberado pela consciência sofrente, mas lúcida, são de sublinhar os 5 verbos, com que Lucas descreve o amor efusivo do pai pelo filho que volta: vê-o (ao longe), comove-se, corre ao seu encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e beijou-o (v. 20). Seguem as cinco ordens do pai para autenticar a plena reabilitação do filho reencontrado, antes morto e agora redivivo: a túnica nova (sinal da dignidade em família), o anel no dedo (sinal do poder, do prestígio), as sandálias nos pés (sinal do homem livre), o vitelo gordo (para as ocasiões solenes) e a grande festa para todos (v. 22-23). A festa parece ser precisamente o elemento que aborrece o filho mais velho que regressa do campo (v. 25.29.30). O pai sai para o ajudar a entender a razão de tanta alegria: era preciso fazer festa, o teu irmão voltou! (v. 23).
Em cada um de nós convivem os dois irmãos, o mais novo e o mais velho, ambos com atitudes reprováveis e necessitados de conversão. Do mais novo sabemos que se converteu; do mais velho não sabemos.
Para Jesus, o modelo para estabelecermos comparação é o Pai misericordioso: acolhe todos sem limites, perdoa com gratuitidade, quer que todos vivam em sua casa. Relativamente a este itinerário de conversão, Henri J. M. Nouwen escreveu o livro de meditações – ‘O regresso do filho pródigo’ – partindo do famoso quadro de Rembrandt, que enquadra a predita exposição. Eis uma das suas fortes mensagens:
Estou destinado a ocupar o lugar do meu Pai e oferecer aos outros a mesma compaixão que Ele me ofereceu a mim. O regresso ao Pai é em última análise o desafio a tornar-se o Pai.”.
A parábola de Jesus permanece aberta. Não é dito que o irmão mais velho tenha entrado na festa; não sabemos se o mais novo deixou de fazer asneiras; o que sabemos é que na casa há lugar para todos e que há ainda muitos lugares para ocupar. E uma coisa é certa: sobre o amor do pai não há dúvidas para ninguém, filhos e servos. Porém, todos sabemos que Ele gosta de ter em sua casa filhos, não escravos; pessoas que partilham o seu projeto de amor, não apenas as coisas a fazer (v. 31). Só vivendo na casa do Pai é que encontramos vida e felicidade, porque Ele quer o nosso verdadeiro bem, a nossa realização, e ensina-nos como e onde encontrá-la. Não somos nós os criadores e arquitetos do nosso destino. Não encontraremos vida e felicidade procurando o êxito pessoal longe da casa do Pai; encontrá-las-emos pondo-nos no seguimento do Senhor, com todo o coração, juntamente com tantos irmãos e irmãs, na Igreja.
Na casa daquele pai inaugurou-se o novo modo de viver, não mais como escravos mas como filhos. Experiência semelhante vivera-a o povo de Israel que, após ter atravessado o rio Jordão e passado os 40 anos de deserto, toma posse da terra prometida, onde não comerá mais com a precariedade do estrangeiro, mas se alimentará com os frutos de casa, cultivados por ele mesmo.
E São Paulo ensina que toda a boa experiência deve ser partilhada com os outros. De facto, quem fez a experiência da bondade misericordiosa de Deus e começou a viver com Ele uma relação nova como filho e amigo quer envolver os outros na mesma experiência de vida e de reconciliação. Nisto consiste a missão que o Natal postula: partilhar a experiência e levar os outros a acolher na sua vida o amor misericordioso e regenerador do Pai. É anunciar a misericórdia do Pai e trabalhar para que a misericórdia se torne o tecido de relações novas entre as pessoas e entre os povos, como afirmava São João Paulo II:
O mundo dos homens pode tornar-se cada vez mais humano somente se introduzir no âmbito das relações interpessoais e sociais, juntamente com a justiça, o amor misericordioso que constitui a mensagem messiânica do Evangelho” (encíclica Dives in Misericórdia, n.º14).
***
Quantos de nós estamos longe da Casa do Pai ou da sua tenda presepial e, consequentemente, da via crucis e da gloria da ressurreição, ineptos para a missão! Quantos, eivados da negra inveja, não queremos participar na festa que o Pai organiza para os filhos pródigos e falhamos na missão! Quantos desistimos de Deus e dos homens e fazemos greve ao Natal e à vida pelos priores motivos!
2018.12.15 – Louro de Carvalho