segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O caso do Padre Giselo já conhece desfecho

Com data de 28 de janeiro de 2018, o Padre Carlos Almada, Secretário Episcopal da diocese do Funchal, tornou pública uma nota da Secretaria Episcopal em que dá conta do decreto do Bispo diocesano, de 25 de janeiro, que nomeia, “como Administrador Paroquial da Paróquia do Monte, o Reverendo Cónego Vítor dos Reis Franco Gomes, pároco da Sé, em regime de acumulação de funções. E aduz que o ora nomeado “já ali paroquiou, conhece o meio e as pessoas e aceitou generosamente prestar esta colaboração”.
Mais refere que se trata de uma situação provisória. Porém, apesar das limitações que lhe são inerentes, garante que “tudo se fará para levar por diante os projetos em curso, nomeadamente a tão desejada construção da capela da Imaculada Conceição, nas Babosas, como sinal de consolação e esperança”.
É verdade que a mesma nota refere que a nomeação do novo administrador da paróquia surge para substituir o Padre Giselo Andrade.
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A referida nota da Secretaria Episcopal reconhece a ampla difusão que, na Madeira e não só, foi dada ao caso do sacerdote diocesano, até agora pároco do Monte, “que assumiu publicamente a paternidade de uma criança”. E sublinha que o sacerdote manifestara, com tal gesto e “no compromisso de assumir todas as responsabilidades inerentes à situação criada” apurado sentido de responsabilidade.
Este sentido de responsabilidade foi apreciado por muita gente, muito embora se tenham também percebido os aspetos negativos que o caso comporta.
E o documento episcopal recorda que, “na verdade, os sacerdotes católicos aceitam e comprometem-se, em plena liberdade, a viver o dom do celibato no seu ministério de serviço ao Povo de Deus, em conformidade mais plena a Cristo Pastor, com frutos abundantes para a Igreja, ainda que com o sacrifício de algumas expressões e alegrias da vida familiar”.
Por outro lado, salienta o facto de esta situação ter gerado, “nos órgãos da comunicação social e nas redes sociais”, tanto “uma oportunidade de debate e reflexão” como um pretexto e “uma ocasião ou motivo para questionar e contestar a atual disciplina da Igreja, desconhecendo-se o sentido espiritual da mesma”.
Com efeito, o celibato sacerdotal obrigatório é-o para a Igreja Latina e com hiatos ao longo da História da Igreja, embora de forma ininterrupta desde o Concílio Tridentino. Não é uma exigência dogmática, mas disciplinar. Tanto assim é que as Igrejas do Oriente, mesmo as que estão em comunhão com o Bispo de Roma, ordenam de presbíteros homens casados. Porém, nem é de entre estes que são escolhidos os Bispos nem eles voltarão a casar se enviuvarem.
Também sucede que os pastores de outras confissões religiosas, casados, que se converterem ao catolicismo, podem continuar na liderança eclesial, se o pretenderem, em consonância com as respetivas esposas, sendo-lhes, para o efeito, ministrado o sacramento da Ordem até ao grau de presbítero, inclusive.
Todavia, apesar de não se tratar de uma exigência dogmática, não devem obnubilar-se as vantagens do celibato eclesiástico, sobretudo se resultar da livre e inteiramente responsável opção pessoal em prol do bem da Igreja, que se sintetizam nos seguintes pontos: conformação mais plena com a Pessoa de Cristo e seu perfil de profeta, sacerdote e rei – na linha da amorosa  e eloquente entrega voluntária e sacrificial ao Pai pela vida dos homens; o testemunho, por antecipação, da vida escatológica, onde as pessoas vivem sem as limitações e exigências corporais; e a maior disponibilidade, sem divisão de coração e dispersão de preocupações.    
Também o documento episcopal da diocese da Madeira refere que “a Igreja não é estática, é dinâmica; tem uma história que lhe permite reconhecer e avaliar os seus valores e as suas faltas, o positivo e o negativo da sua presença junto das pessoas e da sociedade”, mas entende que as mudanças “não se operam por razões de mera popularidade ou estatística de opiniões”.
Ora, isso é inteiramente verdade e assim deve ser. No entanto, a questão merece debate, porquanto, sendo a Eucaristia a expressão eminente da vida da Igreja e a celebração de excelência do mistério da Fé, é temerário prosseguir na privação da celebração eucarística muitas das nossas comunidades. E, embora seja altamente meritório o encargo confiado aos leigos nas celebrações da Palavra com distribuição da Sagrada Comunhão, dentro do quadro que lhes cabe, por direito próprio, por terem sido incorporados em Cristo pelo Batismo, com a mesma força com que lhes foi confiado o múnus de “anunciar e testemunhar Jesus Cristo no mundo (família, escola, trabalho, diversão, associações, etc.)”, como escreve o reverendo pároco de Tarouca, tal não devia acontecer exclusivamente por falta de padres. É, pois, justo que se comece a pensar, ao menos, na ordenação de pessoas maduras para o ministério presbiteral, mesmo que sejam casadas.     
É óbvio que todos sabemos que ninguém obrigou os candidatos à ordenação e que eles já sabiam quais eram as condições. Contudo, não estamos a lidar com pessoas perfeitas; e não vale a pena remar contra a corrente quando ela absorve as pessoas. Contra o não querer ou não se sentir capaz pouco há a fazer.
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Relativamente ao até agora pároco do Monte, diz a aludida nota que “ele próprio manifestou o desejo de continuar a exercer o ministério sacerdotal, nas condições exigidas pela Igreja”. Neste sentido e desde logo, se sentiu na necessidade “de um discernimento claro, em ordem a uma opção responsavelmente assumida e maturada na reflexão e na oração, um discernimento feito com serenidade e livre de pressões, acompanhado pelo Bispo da Diocese”
No cume de tal discernimento, “após diálogos com o próprio sacerdote, ouvidas algumas instâncias da Igreja e percecionando um sentido eclesial comum, por parte de sacerdotes, consagrados e leigos”, ou seja, tentando apurar-se um determinado sensus Ecclesiae, entendeu-se constituir “maior bem para o padre Giselo Andrade e para a Igreja diocesana” dispensá-lo da paroquialidade do Monte, mas facultando-lhe a continuação do exercício do ministério pastoral, “através de algumas atividades que lhe estavam já confiadas, na área das comunicações, e outras que eventualmente lhe sejam atribuídas”.
Não se deixa de aplaudir a adoção dum tempo e dum perfil de discernimento consentâneo com a delicadeza da situação, a pressuposta solicitude do clero da diocese e o acompanhamento discreto do Ordinário diocesano. Todavia, parece que seria vantajoso que esse discernimento pudesse ter começado ainda antes da pública assunção da paternidade, que não devia fazer-se esperar (ou seja, tal assunção não foi feita demasiado cedo). Por outro lado, embora entenda que tenha sido favorável uma saída do pároco da paróquia do Monte, questiono-me por que motivo não lhe são atribuídas funções de paroquialidade noutra freguesia ou como pároco in solidum ou como adjunto paroquial.
Um padre no ministério sacerdotal em funções na área das comunicações parece configurar uma solução menor e de meio-termo ou, mesmo, uma postura de querer agradar a gregos e a troianos, o que não é de todo esclarecedora.
Oxalá eu não tenha razão. Não queria que eventualmente se tivesse perdido a oportunidade de clarificar a posição da Igreja não dando azo às más-línguas que tudo querem derrubar ou àqueles para quem está sempre tudo bem ou por servilismo ou por indiferença.

2018.01.29 – Louro de Carvalho

domingo, 28 de janeiro de 2018

“As metamorfoses da caridade: a ação social e a Igreja do Porto”

É o tema das Jornadas de Teologia 2018 que a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Porto) realiza, de 29 de janeiro a 1 de fevereiro, em colaboração a Diocese do Porto. As Jornadas decorrem diariamente das 10 às 16,30 horas, com exceção do último dia, em que ocupam apenas a manhã e encerram com a celebração da Eucaristia.
Inserem-se no quadro proporcionado pelo Plano Pastoral da Diocese do Porto para o ano pastoral em curso e do desafio que foi lançado em junho passado à Faculdade de Teologia por Dom António Francisco dos Santos, então Bispo diocesano, para que se refletisse sobre esta área temática. Assim, estas Jornadas procurarão abordar de um modo abrangente o vasto tema da caridade, designadamente no atinente à ação social, considerando o contexto português e portucalense, no passado e no presente.
Com efeito, o aludido Plano Pastoral da Diocese do Porto inscreve expressamente a Universidade Católica no ponto 11) das Propostas de Ação Pastoral, nos termos seguintes:
Valorizar as iniciativas formativas do Centro de Cultura Católica e da Universidade Católica Portuguesa, no âmbito da formação dos agentes da caridade e de um laicado mais ativo e comprometido nos diversos mundos, social, laboral e cultural”.
Por outro lado, o mesmo Plano elege a Universidade Católica como agente na Pastoral do Anúncio da Fé e na Pastoral Comunitária – isto sem esquecer a ação própria dos centros universitários e da estrutura diocesana da Pastoral Universitária no âmbito da evangelização, da celebração da fé e na pastoral da caridade.
Constituirão, pois, as Jornadas uma reflexão também para ajudar a pensar as instituições sociais da Igreja. E, embora destinadas primariamente à comunidade académica, elas serão também úteis a todos aqueles que buscam as razões da sua fé e configuram uma iniciativa fundamental de formação permanente do clero da Diocese do Porto.
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Tanto o site da Diocese como o da UCP elencam o programa com os seguintes itens:
No dia 29 de janeiro: “A caridade e os direitos sociais”, por  Julio Martínez Martínez, da Pontifícia Universidade Comillas (Madrid); “O lugar da Igreja num tempo de assistencialismo do Estado”, também por Julio Martínez Martínez; “O catolicismo social oitocentista em Portugal e no Porto: A intervenção do cardeal Dom Américo”, por Adélio Fernando Abreu, do CEHR (Centro de Estudos de História Religiosa) da Faculdade de Teologia, UCP-Porto; “Do amor que encarece: A metanoia da justiça em Leonel de Oliveira, presbítero”, por José Pedro Angélico, do CITER (Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião) da Faculdade de Teologia, UCP-Porto.
No dia 30 de janeiro: “O anúncio do evangelho e a solicitude para com o próximo”, por Bernardo d’Almeida, da Faculdade de Teologia da UCP-Porto; “Os direitos sociais: Sua evolução e justificação”, por João Carlos Espada, do Instituto de Estudos Políticos da UCP-Lisboa; “A relevância do serviço à comunidade na génese e no funcionamento das organizações de economia social em Portugal”, por Américo Mendes, da Católica Porto Business School da UCP-Porto; “A ação das Instituições Particulares de Solidariedade Social da Igreja: Entre a caridade e a justiça”, por Lino Maia, da Confederação Nacional das Instituições Particulares de Solidariedade Social; “Arco Maior: Dar oportunidades educativas a quem é excluído da escola”, por Joaquim Azevedo, da Faculdade de Educação e Psicologia da UCP-Porto.
No dia 31 de janeiro: “Entre evangelização e promoção social: Antigas e novas prioridades da ação da Igreja”, por Jorge Cunha, do CEFi (Centro de Estudos de Filosofia) da Faculdade de Teologia da U CP-Porto; “O catolicismo social em Portugal e no Porto no século XX”, por Paulo Fontes, do CEHR da UCP-Lisboa; “A caridade em Padre Américo: Alicerces de um conceito-programa”, por Luís Leal, do CEHR da UCP-Porto; “A intervenção social de Dom António Ferreira Gomes no contexto do pensamento portuense”, por Arnaldo Cardoso de Pinho, da Faculdade de Teologia da UCP-Porto.
E, no dia 1 de fevereiro: “O amor feito ajuda material: A esmola nos Padres da Igreja”, por Alexandre Freire Duarte, da Faculdade de Teologia da UCP-Porto; e “Ação sócio-caritativa e vulnerabilidades futuras”, por Dom Manuel Linda, da Faculdade de Teologia da UCP-Porto e Bispo das Forças Armadas e de Segurança.
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A este respeito, o Padre Adélio Abreu, Diretor Adjunto da Faculdade de Teologia da UCP, deu uma entrevista à Voz Portucalense, em que esclareceu a temática, o programa e os objetivos das Jornadas de Teologia 2018 da Universidade Católica do Porto, desta vez, dedicadas ao tema da caridade por especial vontade de Dom António Francisco dos Santos. Dela se recolhem os aspetos considerados mais pertinentes.
Sobre o objetivo da temática das Jornadas, sustenta que se pretende refletir sobre a realidade da fé cristã na relação com a cultura e o quadro em que vivemos” para se poder “ler a realidade à luz da fé e contribuir também para uma reflexão em que o saber teológico, o saber universitário tem uma palavra a dizer”. Por outro lado, surgiu uma outra vertente teleológica das Jornadas, desde há uns anos a esta parte: constituirão um “espaço de formação permanente dos presbíteros e dos diáconos”, pelo que resultam da organização conjunta da Faculdade de Teologia da UCP e da Diocese do Porto. E são as duas entidades que fazem “o esforço de ver onde é que é necessário tocar e incidir”. E, em concreto, “a questão da caridade tem como quadro a temática da diocese para o corrente ano pastoral”. Desde logo, “o lema da diocese é Movidos pelo amor de Deus, que levou a que houvesse “um esforço para incidir neste âmbito”. Apesar de se ter colocado “a hipótese de tratar da questão da família”, foi por vontade de Dom António Francisco, que “decidimos tratar o tema da ação social”.
A propósito de, nestas Jornadas, se fazerem “referências a importantes figuras que marcaram a história da diocese, tais como, o Cardeal Dom Américo, Dom António Ferreira Gomes, o Padre Américo e o Padre Leonel”, Adélio Abreu não tem dúvidas de que “a caridade é uma das marcas da Igreja do Porto”, aliás como é “uma marca da Igreja em todos os lugares”. 
Depois, salientou que a preocupação “de incidir sobre a realidade da Igreja do Porto” quer dizer que se desejou que a reflexão fazer “sobre a caridade não se ficasse por uma abordagem em abstrato, apenas de um ponto de vista teológico, mas que incidisse na nossa realidade concreta, no nosso tecido social e eclesial”. Ademais, foi esta uma vontade de Dom António Francisco dos Santos: “termos uma atenção para com a Igreja do Porto”. Para tanto, ter-se-á em linha de conta “a reflexão do catolicismo social quer no século XIX quer no século XX destacando uma ou outra figura”.  
Sem a pretensão da exaustividade, releva-se o Cardeal Dom Américo, figura que, no século XIX, teve uma enorme importância, pois foi quem, de entre as figuras do episcopado da altura, melhor repercutiu o conteúdo e o espírito da “Rerum Novarum”, encíclica de Leão XIII sobre o trabalho e a questão social em geral. A seguir, destacam-se outros: o Padre Américo, pela importância que tem, não só no Porto, mas a nível nacional com a ‘Obra da Rua’; Dom António Ferreira Gomes, pelo que dele conhecemos e porque é possível olhar para a sua intervenção social no contexto mais vasto do pensamento portuense.  
Porém, a constituição do programa não podia ficar-se pela preocupação de olhar para as figuras: tinha de “olhar o tema sob diferentes perspetivas”, nomeadamente a perspetiva histórica e a perspetiva teológica – “mais a partir da moral social, na qual destacamos o padre Julio Martínez Martínez, um jesuíta espanhol, especialista em moral social, atualmente reitor da Pontifícia Universidade Comillas de Madrid” e “especialistas nossos, da própria Faculdade de Teologia, como o Prof. Jorge Cunha e o Dom Manuel Linda. E, na explicitação seguinte, em que se releva a importância do período patrístico e o papel das instituições sociais da Igreja, disse:
Teremos também um olhar sobre como a caridade era vista no período patrístico: nos inícios da Igreja a questão da esmola. E depois também que esta reflexão sobre a caridade possa servir de horizonte teórico da concretização da caridade na ação pastoral. E recordo-me que, em diálogo com Dom António Francisco, percebi que havia a preocupação de que esta reflexão, mesmo que não diretamente, pudesse ajudar a pensar, por exemplo, a questão das instituições sociais da Igreja e dos centros sociais paroquiais.”.
Quanto à questão de esta temática ficar como uma marca da breve passagem de Dom António Francisco na liderança da diocese do Porto, o entrevistado refere que “a preocupação social é uma marca muito significativa quer do pensamento quer da ação pastoral” deste prelado. Com efeito, os seus textos “estão perpassados da necessidade da atenção às pessoas concretas, àquelas que vivem na pobreza, à realidade das marginalidades de hoje” e da “marca de como é que a Igreja deverá fazer a ação social hoje”. É uma preocupação “muito patente” na pessoa do último Bispo do Porto, em resultado, “certamente, da sua ação pastoral, mas também do seu modo de ser”. Era um Bispo cujo “modo de ser” era “muito marcado pela questão da proximidade”, da proximidade a todos: “aos padres, aos leigos, aos pobres, a toda a realidade humana”.
E o Padre Abreu sustenta que, “quando se tem no horizonte de vida este aspeto da proximidade, certamente, que esta precisa de ser exercida relativamente aos mais frágeis e àqueles que precisam de ser mais necessariamente objeto da ação social da Igreja, porque vivem em circunstâncias de pobreza”.
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Oxalá estas Jornadas sejam a pedra de toque para a UCP ser cada vez mais universidade, cada vez mais católica e cada vez mais portuguesa como desejava o Papa Francisco no discurso que lhe dirigiu por ocasião do seu 50.º aniversário e que, pelo menos, os teólogos, os economistas, os juristas e os gestores, ali formados, tenham a perspetiva da opção preferencial da Igreja pelos pobres e uma grande sensibilidade para a magnitude das questões sociais – nomeadamente o trabalho estável, digno e remunerado, a pobreza, a educação, a saúde e a proteção na doença, no desemprego e na velhice.

2018.01.28 – Louro de Carvalho

sábado, 27 de janeiro de 2018

A Justiça em Dom Pedro I segundo o cronista

Dos inúmeros temas tratados ao longo da Crónica de el-rei Dom Pedro I ou Crónica de Dom Pedro, destaca-se a Justiça a que dedicou o Prólogo, para a explicitação do conceito e, pelo menos, mais 5 dos 44 capítulos, para a descrição de casos específicos da aplicação da Justiça.
Na verdade, Fernão Lopes quis dar de Dom Pedro a imagem do rei preocupado com a Justiça, a justificar a razão por que recebeu o cognome de Justiceiro ou Justiçoso, ou de Cruel, neste caso pelo tipo de castigos sentenciados e que executou ou mandou executar mesmo na sua presença.  
Acerca da importância da Justiça no governo do reino, escreve Fernão Lopes no Prólogo:
Justiça é uma virtude que é chamada toda virtude, assim que qualquer que é justo, este cumpre toda a virtude, porque a justiça, assim como a lei de Deus, defende que não forniques nem sejas gargantão e, isto guardando, se cumpre a virtude da castidade e da temperança. E assim podeis entender dos outros vícios e virtudes.”.
É de registar o conceito globalizante que a Justiça assume compendiando todas as virtudes (de que é a rainha), à semelhança do que a Bíblia perfila para o homem justo. Por outro lado, este conceito fernandino de justiça privilegia algumas virtudes: a castidade, contra a luxúria (fornicação); a temperança, contra a gula; e a humildade/discrição, contra a soberba. Tal conceito, sem o negar, ultrapassa o conceito simplista e redutor da justiça pela qual se castigam os maus e se deixam os bons viver em paz.
Porém, o rei-centro desta crónica não é lá muito exemplo naquelas matérias setoriais da justiça. Lopes diz de Dom Pedro que era guloso (viandeiro), contrariando a moderação e temperança. Só não terá sido tão gargantão por ser gago, mas não se livra da fama de rispidez e sobranceria para com os prevaricadores, excedendo-se na ira e na determinação da crueldade, a executar por si ou por outrem. E, quanto à castidade, soube bem, valendo-se da condição de príncipe e de soberano “filhar” as damas por quem se deixava seduzir. E mesmo a relação com outros homens não era tão sadia como seria de esperar do rei. O cronista não se coíbe de afirmar que a um determinado pajem o rei “amava-o mais do que devia”.
Relativamente à noção da Justiça enquanto “virtude que é toda a virtude”, provavelmente Lopes terá conhecido os textos de Aristóteles, que, na Ética a Nicómaco, cita um provérbio grego com uma ideia da qual muito se aproxima o cronista: “A justiça contém todas as outras virtudes”.
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No âmbito da incumbência de contar a vida ou, melhor, o reinado dos reis, Lopes, no Prólogo da Crónica de Dom Pedro, revela uma outra finalidade da sua escrita. Munido de grande domínio retórico, reflete sobre a justiça, as virtudes, os vícios, o papel do rei e o papel do povo.
 “Esta virtude é mui necessária ao rei e isso mesmo aos seus súbditos, porque havendo no rei virtude de justiça fará leis por que todos vivam direitamente e em paz. E os seus sujeitos, sendo justos, cumprirão as leis que ele puser e, cumprindo-as, não farão cousa injusta contra ninguém, e tal virtude como esta pode cada um ganhar por obra de bom entendimento.”.
Assim, na conceção do cronista, a justiça entende-se em duas dimensões: no soberano e nos súbditos. Se o soberano está imbuído do sentido da justiça, produzirá leis justas, que darão paz à comunidade; e, se os súbditos forem justos, cumprirão as leis que o soberano estabelecer e as relações entre os súbditos serão sadias e exemplares. Sem a justiça, a aplicar aos súbditos e aos de fora, o Reino desconjunta-se tal como acontece ao corpo quando a alma dele se aparta. É a justiça que faz a coesão do povo e o mantém no rumo certo, promovendo assim o bem comum.
Porém, a questão da justiça não está só do lado da produção da lei e do espírito do legislador. Está também e, sobretudo, na aplicação da lei quando as atitudes e comportamentos dos súbditos indiciam a transgressão da lei. O juiz eivado do sentido de justiça aprecia as condições da prática do crime e julga segundo a lei e não segundo os estados de alma ou o acinte pessoal. Por outro lado, pune de modo equitativo e respeitando o princípio da proporcionalidade e tendo em vista o bem comum. O que Dom Pedro muitas vezes não fez.
É certo que o Justiceiro nunca julgou sem a lei do seu lado, mas, sentindo-se acima da lei e não sujeito à lei (havia até o princípio de que o legislador não estava sujeito à lei e é por isso que o legislador moderno é um coletivo, sendo que, por não ser a lei emanada de um indivíduo, nenhum se pode considerar fora da alçada porque nenhum é legislador). Aliás, o Prólogo afirma a proeminência do rei:
“Porque se a lei é regra do que se há de fazer, muito mais o deve de ser o rei que a põe e o juiz que a há de encaminhar, porque a lei é príncipe sem alma, como dissemos, e o príncipe é lei e regra da justiça com alma […] Quanto a cousa com alma tem melhoria sobre outra sem alma, tanto o rei deve ter excelência sobre as leis.”.
Nos cinco capítulos da crónica que tratam de casos específicos de justiça, capítulos 6 a 10, um descreve o roubo e assassínio de um judeu (cap. 6), que Dom Pedro castiga porque os cristãos não têm o direito de matar nem perseguir por motivos religiosos, sendo os restantes quatro casos de adultério. Em dois dos cinco casos referidos, o caso dum bispo (alto clero, cap. 7) e outro do almirante do reino (alta nobreza, cap. 10), os castigos decididos numa primeira fase pelo rei acabaram por não ser aplicados face aos pedidos de clemência por parte de pessoas influentes.
Por outro lado, foi extremamente duro, cruel sanguinário no castigo que mandou infligir aos carrascos que liquidaram Inês de Castro, não tendo em conta que obedeceram a ordens régias ou que aconselharam o monarca reinante em função do que entendiam como interesse do Reino. Contudo, apercebendo-se, no leito da morte de que um dos algozes, que não fora morto por ter fugido, mas a quem confiscara os bens, era inocente, arrependeu-se e determinou o perdão com a devolução dos bens.
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Noutro lugar do Prólogo, Lopes declara que “el Rei Dom Pedro, cujo reinado se segue, usou da justiça de que a Deus mais praz”. O cronista é explícito na intenção que tem na crónica, o de responder ao desejo de saber dos outros: “alguns desejam saber que virtude é esta, e pois é necessária ao Rei, se o é assim ao povo”. Por isso, pode concluir-se que pretende, através da exposição dos feitos do rei – justo ou não tanto assim – provocar o fortalecimento das virtudes no povo português, fortalecimento que ocasiona a “formosura do espírito”, mais importante que a do corpo. E reitera, ao final do Prólogo, que “desta virtude da justiça, que poucos acha que a queiram por hóspeda, […] usou muito el Rei Dom Pedro”.
Percebe-se que o supremo ideal cristão terá guiado a vida do rei e a composição da história de Lopes. O Cristianismo sai enfatizado ao declarar que o rei “de cuidar é que houve o galardão da justiça, cuja folha e fruto é: honrada fama neste mundo e perdurável folgança no outro”.
Porém, surpreendentemente a crónica desnuda o rei, evidenciando os hábitos e caraterísticas pessoais do rei, até pela forma como o faz. São disto exemplos: “este Rei Dom Pedro era muito gago”; “ele era muito viandeiro sem ser comedor mais que outro homem”, “este Rei não quis casar depois da morte de Dona Inês […] mas houve amigas com quem dormiu”.
O tempo verbal do pretérito e a pretensa omnisciência do narrador, resultante de pesquisas em diversas fontes, parecem remeter para a caraterização duma personagem fictícia. Recordem-se, a este respeito, outras passagens como: “não fazemos mais longo processo por não sabermos quanto prazeriam aos que as ouvissem”; “foram armados outros cavaleiros cujos nomes não curamos dizer”; “não curamos de dizer mais, por não sair fora de propósito”. Estes segmentos revelam o processo de seleção dos factos para garantir a verosimilhança interna ou do projeto historiográfico. Longe de querer desqualificar a escrita fernandina, o escopo é perceber como um modelo historiográfico interessado na escrita da verdade, transmissor da totalidade dos factos ou da verdade sem mescla, assume a sua incapacidade de representar a realidade na sua totalidade. Contudo, isto não abala propriamente a verdade, mas a reconstituição das falas das personagens históricas, como atesta a seguinte:
“– Crede-me de conselho e ser-vos-á proveitoso; apartai-vos dos vossos e vamos a um vale não longe daqui, e ali vos direi a maneira como vos ponhais em salvo”.
Esta fala é dum manco. E é o que sabemos desta personagem. Parece que a sua inserção na história, para dar conta da fuga de Diogo Lopez, como esta amostra do seu discurso parecem fruto da criatividade, que não de fontes históricas. Este e outros casos geram a dúvida se Lopes estava mais preocupado com a transmissão da verdade factual ou com a sensação de verdade através da linguagem. Torquato de Sousa Soares (in Fernão Lopes. Crónica de D. Pedro I: Trechos Escolhidos. Lisboa: Clássica, 1963), diz:
Fernão Lopes não se limita a seriar os factos já descritos: toma uma atitude crítica que lhe impõe desde logo um primeiro postulado – a certidam da verdade, que é ‘fruito prinçipal da alma... pela qual todallas cousas estam em sua firmeza’, e que, por isso, ‘há de ser clara e nom fingida’. Ele próprio o afirma […] dizendo que todo o seu desejo foi ‘escrepver verdade, sem outra mestura, leixamdo nos boõs aqueeçimentos todo fimgido louvor, e nuamente mostrar ao poboo, quaaes quer comtrairas cousas, da guisa que aveherom’.” (SOARES, 1963, pgs. 26-27).
Das duas, uma: ou Lopes age contrariando o seu plano; ou o que chama “verdade correspondia” à investigação das mentalidades epocais (assim, a antecipação da nova história não seria tão forçada ou audaz) a um trabalho levantador das possibilidades de realização dos factos. Torquato Soares (1963, p.36) sustenta uma conceção estética à historiografia de Fernão Lopes, caraterizando-a pela capacidade de fazer renascer a cena histórica a partir da organização linguística. É curioso registar que Dom Pedro, prestes a morrer, segundo o cronista, “lembrou-se como, depois da morte d’Alvoro Gonçalves e Pero Coelho, ele fora certo que Diego Lopez não fora em culpa da morte de Dona Inês”. E, mesmo que a devolução dos bens ateste o arrependimento do rei, a construção da sentença aponta para a intromissão do narrador no pensamento do moribundo (focalização interna) – procedimento que manifesta a dimensão de causa-efeito na História, em que supostamente repousam as decisões dos grandes líderes, cujos atos – legislativos, executivos moderadores ou justiceiros – são sempre eminentemente políticos enquanto perseguem o bem comum, a causa pública e a tranquilidade na ordem e no progresso.
(cf também Thiago da Camara Figueredo, Na Fronteira entre os discursos histórico e literário; facto e ficção m Amadis de Gaula e na Crónica de El-rei Dom Pedro I, http://www.assis.unesp.br/Home/PosGraduacao/Letras/RevistaMiscelanea/Artigo23-Thiago_da_Camara_Figueredo.pdf)
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Aqui se transcreve, para ilustração do que foi referido e como joia histórico-político-literária o Prólogo, com atualização da grafia.
Deixados os modos e definições da justiça, que, por desvairadas guisas, muitos em seus livros escrevem, somente daquela para que o real poderio foi estabelecido, que é por serem os maus castigados e os bons viverem em paz, é nossa intenção, neste prólogo, muito curtamente falar, não como buscador de novas razões, por própria invenção achadas, mas como ajuntador, em um breve molho, dos ditos de alguns que nos aprouveram. À uma, por espertar os que ouvirem, que entendam parte do que fala a história; à outra, por seguirmos inteiramente a ordem do nosso arrazoado, no primeiro prólogo já tangida.
E porquanto el-rei Dom Pedro, cujo reinado se segue, usou da justiça, de que a Deus mais praz que cousa boa que o rei possa fazer, segundo os santos escrevem, e alguns desejam saber que virtude é esta, e pois é necessária ao rei, se o é assim ao povo: vós, naquele estilo que o simplesmente apanhámos, o podeis ler por esta maneira.
Justiça é uma virtude, que é chamada toda virtude; assim que qualquer que é justo, este cumpre toda virtude; porque a justiça, assim como lei de Deus, defende que não forniques nem sejas gargantão e, isto guardando, se cumpre a virtude da castidade e da temperança, e assim podeis entender dos outros vícios e virtudes.
Esta virtude é mui necessária ao rei, e isso mesmo aos seus sujeitos, porque, havendo no rei virtude de justiça, fará leis por que todos vivam direitamente e em paz, e os seus sujeitos sendo justos, cumprirão as leis que ele puser, e cumprindo-as não farão cousa injusta contra nenhum. E tal virtude, como esta, pode cada um ganhar por obra de bom entendimento, e às vezes nascem alguns assim naturalmente a ela dispostos, que com grande zelo a executam, posto que a alguns vícios sejam inclinados.
A razão por que esta virtude é necessária nos súbditos, é por cumprirem as leis do príncipe, que sempre devem de ser ordenadas para todo bem, e quem tais leis cumprir sempre bem obrará, cá as leis são regra do que os sujeitos hão de fazer, e são chamadas príncipe não animado, e o rei é príncipe animado, porque elas representam, com vozes mortas, o que o rei diz por sua voz viva: e porém a justiça é muito necessária, assim no povo como no rei, porque sem ela nenhuma cidade nem reino pode estar em sossego. Assim, que o reino, onde todo o povo é mau, não se pode suportar muito tempo, porque, como a alma suporta o corpo e partindo-se dele, o corpo se perde, assim a justiça suporta os reinos e partindo-se deles perecem de todo.
Ora, se a virtude da justiça é necessária ao povo, muito mais o é ao rei; porque se a lei é regra do que se há de fazer, muito mais o deve de ser o rei que a põe e o juiz que a há de encaminhar, porque a lei é príncipe sem alma, como dissemos, e o príncipe é lei e regra da justiça com alma. Pois quanto a cousa com alma tem melhoria sobre outra sem alma, tanto o rei deve ter excelência sobre as leis: cá o rei deve de ser de tanta justiça e direito, que cumpridamente dê às leis a execução; de outra guisa, mostrar-se-ia seu reino cheio de boas leis e maus costumes, que era cousa torpe de ver. Pois duvidar se o rei há de ser justiçoso, não é outra cousa senão duvidar se a regra há de ser direita, a qual, se em direitura desfalece, nenhuma cousa direita se pode por ela fazer.
Outra razão por que a justiça é muito necessária ao rei, assim é porque a justiça não tão somente aformoseia os reis de virtude corporal, mas ainda espiritual, pois quanto a formosura do espírito tem avantagem da do corpo, tanta a justiça no rei é mais necessária que outra formosura.
A terceira razão se mostra da perfeição da bondade, porque então dizemos alguma cousa ser perfeita, quando fazer pode alguma semelhante a si, e portanto se chama uma cousa boa, quando sua bondade se pode estender a outros, ao menos, sequer por exemplo, e então se mostra, por prática, quanto cada um é bom, quando é posto em senhorio.
Porém, cumpre aos reis ser justiçosos por a todos seus sujeitos poder vir bem, e a nenhum o contrário, trabalhando que a justiça seja guardada, não somente aos naturais de seu reino, mas ainda aos de fora dele, porque, negada a justiça a alguma pessoa, grande injúria é feita ao príncipe e a toda sua terra.
Desta virtude da justiça, que poucos acha que a queiram por hospeda, posto que rainha e senhora seja das outras virtudes, segundo diz Túlio, usou muito el-rei Dom Pedro, segundo ver podem os que desejam de o saber, lendo parte de sua história.
E pois que ele, com bom desejo, por natural inclinação, refreou os males, regendo bem seu reino, ainda que outras mínguas por ele passassem, de que penitencia podia fazer, de cuidar é, que houve o galardão da justiça, cuja folha e fruto é honrada fama neste mundo e perdurável folgança no outro.”.

2018.01.27 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A partir duma inscrição na igreja do Alandroal

O Diário de Notícias de hoje publica uma referência de Manuel Carlos Freire sob o título Lápide em igreja desvenda mistério sobre o cronista Fernão Lopes”.
Atribui ao acaso o facto de o investigador João Torcato ter reparado, há dois anos, na inscrição tumular existente à entrada da igreja matriz do Alandroal, vindo agora a publicar, com o historiador José d’Encarnação, os fundamentos da tese que lhes parece resolver um enigma histórico. Com efeito, ninguém tem sabido dizer ao certo onde nasceu e onde está sepultado o cronista. E querem dizer-nos que este “mistério com mais de 500 anos na História de Portugal, sobre quem foi o cronista Fernão Lopes, pode ter chegado ao fim com a descoberta desse nome numa lápide à entrada da Igreja Matriz do Alandroal, vila do distrito de Évora”.
João Torcato, investigador que trocou a vida na capital pelo regresso ao Alandroal, disse ao DN:
Acho que é uma contribuição definitiva para estudar um homem sobre cuja vida não se sabe nada, terra pequena e perdida no meio da planície alentejana onde esta descoberta é uma mais-valia em termos culturais e turísticos”.
A descoberta será, pelos vistos, publicada amanhã na edição online da revista especializada Al-Madan, em artigo coassinado por Torcato e por José d’Encarnação, contactado pelo primeiro enquanto especialista em epigrafia para analisar as inscrições naquela pedra mármore.
Encarnação, por seu turno, declarou ao DN que “nunca se tinha pensado nem se sabia onde Fernão Lopes estava sepultado”. Agora, embora com as reservas naturais dos investigadores, justifica a conclusão de os restos mortais do 4.º Guarda-Mor da Torre do Tombo estarem na Igreja de Nossa Senhora da Graça com o conjunto de factos que até aqui não tinham explicação.
Apontam os dois especialistas para a hipótese de ser o cronista por terem “uma explicação para o privilégio, para a importância dada a essa zona” por Fernão Lopes nos textos que escreveu, sendo que Torcato evoca os 9 capítulos da Crónica de Dom João, “o da Boa Memória” que o autor dedica ao Alandroal numa época – a crise de 1383-1385 – em que ali “praticamente não houve nada de relevante” e quando “o país estava num estado de guerra absoluto”. E aduz como exemplos as batalhas dos Atoleiros, Trancoso, Aljubarrota e Valverde.
Para Fernão Lopes, considerado o fundador da historiografia portuguesa, apontava-se até agora para Lisboa como local de nascimento (entre 1380 e 1390) e morte (cerca de 1460), já depois de se confessar “velho e flaco”. Além de responsável pelos arquivos da Torre do Tombo, foi o autor das crónicas sobre os reis Dom João I, Dom Pedro e Dom Fernando, bem como de outros monarcas cujos textos terão desaparecido. A sua escrita, que era marcada por uma objetividade excecionalmente fundamentada para a época, revestida dum realismo descritivo invejável e, por vezes, marcada pela alternância entre a descrição estática e o movimento, com uma indizível veia narrativa, rompia com as tradições da época onde, como lembra João Torcato, os membros do povo – sobretudo na sua componente de arraia-miúda – passaram a ser protagonistas muitas vezes. Era o escritor “cuidadoso e meticuloso”, que procurava escrever pautado só pela “certidão da verdade”, pelo que parece “estranho” falar tanto do Alandroal naquele período crítico da independência face a Castela, insiste o artista plástico.
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Diz o aludido articulista que João Torcato, presidente da cooperativa sociocultural Mouro M’Fez, reparou, por acaso na inscrição ainda legível naquela pedra tumular “quando ia a sair da igreja, que estava fechada para limpezas. Tendo já estudado várias coisas sobre Fernão Lopes, percebera que havia um vazio tão grande sobre a vida dele, o que era estranho, pelo que terá começado “a estudar a questão com mais profundidade”.
Refere que o caso “tem sido um processo de reflexão” com algum secretismo, começando a fazer sentido o que ia lendo à luz daquela hipótese. E explica o “facto de ainda ninguém ter identificado a tumba” com a inscrição “Fernão Lopez” por a porta tapar o nome quando se “abre para a direita” – o que “também terá garantido a legibilidade daquela primeira linha de texto na pedra tumular, quando a generalidade das outras inscrições quase desapareceu devido ao repisar dos crentes desde os meados do século XV”.
José d’Encarnação perfilha essa hipótese sobre o “porque é que nunca se tinha visto a inscrição” que, segundo os investigadores, “corresponde ao formulário habitual do século XV” e em que o apelido “Lopes” se grafava “com Z, como era normal na época”. E até agora, “não havia nada escrito sobre a existência da lápide” com o nome do cronista naquela igreja matriz.
Segundo Encarnação, é legítimo questionar se aquele nome pode corresponder a outra personagem que não o famoso cronista. Todavia os elementos informativos existentes levam a concluir que só pode ser o autor da Crónica de Dom João I.
Com efeito, além de o cronista referir exaustivamente a vila do Alandroal, a única vila do Alentejo cujo brasão de armas é semelhante ao da Casa de Avis (dominante naquela zona fronteiriça), existia um convento que funcionava como escola – o que explicará a sua erudição e terá permitido a alguém de origem humilde chegar a Guarda-Mor da Torre do Tombo – e o tornou conhecido pelos responsáveis da Ordem de Avis.
Para João Torcato acresce o pormenor de as pessoas nessa época “serem sepultadas na terra natal” para reforçar a tese de que Fernão Lopes era natural da vila do Alandroal. Porém, o investigador diz estar “fora de questão” requerer o levantamento da urna para investigar se ainda ali estão algumas ossadas e a quem pertencem, embora admita essa possibilidade se a iniciativa “partir do mundo académico”, pois, segundo Torcato, “o facto de a igreja matriz do Alandroal ter sofrido várias obras de remodelação ao longo destes séculos e de a própria pedra tumular estar partida não dá garantias de que ainda haja algo por baixo”.
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Fernão Lopes, embora não abandone o conceito providencialista da História (v.g: diz que as tribulações de Lisboa cercada não foram piores e mais duradouras porque aprouve a Deus apressar os acontecimentos), na atividade historiográfica redimensiona o género cronístico limitando as narrativas tradicionais panegíricas. Graças à crise dos valores, emergente na revolução de Avis, Lopes desvia-se das formas tradicionais da crónica, por as achar insuficientes “para explicitar uma nova ordem distinta da senhorial vigente”, e abre espaço de autonomia à narrativa histórica com uma metodologia em que seja viável chegar à “verdade nua”. Assume a posição de autoridade, de distanciamento e isenção, atributos capazes de detetar e controlar as subjetividades do discurso (mundanall afeiçom) e chegar à “certidão da verdade”. E estabelece uma hierarquia de relevância nos factos, discernindo o que é de narrar e privilegiando a descrição do que torna a história mais ordenada e inteligível, sem distrativas minúcias e detalhes. Contudo, mais do que a busca da verdade – relevando o testemunho documental – põe-se na posição de intérprete dos acontecimentos, tentando desfazer as contradições entre as fontes e esclarecer para a posteridade o sentido e propósito do encadeamento dos factos históricos, descartando como mentirosas, parciais ou fantasiosas as versões divergentes da sua.
Apesar de designado oficialmente para compor uma história portuguesa, a sua historiografia não é meramente regiocêntrica. Mesmo que ponha o rei no centro da história, a sua narrativa evidencia genuíno interesse pelo povo, colocando-o como importante protagonista nas transformações sociais, para lá de burilar de forma inédita aspetos psicológicos, económicos e humanistas que influem nos agentes e rumos da História. O grande espaço que deu ao povo nas crónicas, muitas vezes identificando-se com ele e considerando-o a expressão do mais lídimo espírito português, reflete-se no estilo, enraizando a sua escrita na expressão oral em jeito coloquial e no universo do agir popular. Privilegiou e prestigiou o vernáculo quando a maioria dos eruditos produzia textos em latim e foi um representante do saber popular. No entanto, o cronista foi um dos primeiros cultores em Portugal dum novo tipo de saber de cunho humanista, universalista, classicizante, que estava então a surgir.
Tão grande é a preocupação pela imparcialidade que assegura expressamente não se topar nas suas páginas a formosura das palavras, mas a nudez da verdade. Mesmo assim, a prosa direta, desembaraçada e cheia de charme, o magistral domínio das técnicas narrativas, os originais modos de estabelecer significados por via indireta, a capacidade de evocar cenas complexas, movimentadas e eivadas de dramatismo, prendendo a atenção do leitor, a compreensão do drama humano, entre outros predicados, tornam as suas crónicas as maiores obras-primas da nossa literatura medieval, que, apesar da distância dos séculos, continuam a exercer fascínio sobre leigos e especialistas. Segundo António José Saraiva, a prosa fernandina “conserva o tom ‘falado’ dos romances de cavalaria”, mas enditado por vocabulário e imagens reveladores de grande sentido do concreto, e “com os recursos da oratória clerical, tocada oportunamente por um arrepio de solenidade bíblica, como quando fala da boa e mansa oliveira portuguesa”. O tom é repassado de emoção, que não exclui a ironia, como se verifica na descrição do cerco de Lisboa. O dito popular, a anedota e a majestade de tom adequado aos grandes momentos sucedem-se naturalmente, sem eclipsar o tecnicismo retórico epocal, que magistralmente dominava. E parece desprender-se das suas palavras uma poderosa voz, que ora troa de indignação, ora se espraia com solenidade, ora graceja – mas sempre anímica e de longo fôlego.  
Porém, embora o seu tributo primeiro seja à verdade, não pôde furtar-se, em certo modo, a cair no erro que apontou a outros. Se, como dizia, os afetos (mundanall afeiçom, ampla categoria onde incluía as predisposições e condicionamentos psicológicos, sociais e políticos do homem) levavam os historiadores a legar visões parciais e erróneas da História, ele quis assumir o ónus de remediar aquela tendência e a não rara confusão existente entre as fontes, pretendendo deixar a versão verdadeira, isenta e definitiva dos factos, o que tornou canónica a sua obra. Todavia, o compromisso com a verdade nua foi relativizado em vários momentos. Fernão Lopes criou um discurso hegemónico e comprometido com o sistema, de que surge como influente legitimador e quase como juiz. Sendo um alto oficial do Reino, esperava-se que tecesse a narrativa histórica com exaltações dos feitos da realeza, como era costume. Porém, tais loas, longas e prolixas nas crónicas anteriores, são muito económicas na sua obra, considerando-as retóricas e alheias à tarefa do bom historiador, que deve focar-se no essencial.
Ademais, reconhecia que tais loas eram exageradas não apenas na linguagem, mas também no conteúdo. Por isso, se escusou a apontar, por exemplo, as insuficiências do Mestre de Avis, a quem se confiou, um pouco por acaso, o governo do Reino, embora em muitas passagens a sua apreciação do rei fosse simpática e compassiva, considerando-o como mais uma peça, presa e limitada em vários sentidos, na grande engrenagem do Destino, como todos os outros homens. 
As numerosas situações em que o rei revela pusilanimidade, calculismo, falta de eficácia na guerra e de capacidade de decisão durante a crise, displicência mal disfarçada ante os pequenos, não se incluem no cômputo dos grandes feitos ou das grandes virtudes. São traços da construção da personagem que o cronista vai construindo através da sua escrita inquieta, incluindo vários outros traços a completar-lhe a verosimilhança realista, “como a inteireza da amizade, a camaradagem afetuosa, a pertinácia perante os desaires, a prodigalidade na distribuição das mercês”, como refere Teresa Amado. E a narrativa passa da admiração ao enternecimento e deste à ironia ou à censura.
Não obstante, Dom João terá sido um bom rei, mas o herói da guerra foi o Condestável, como o herói do levantamento popular foi o povo de Lisboa. O Mestre de Avis transita neste período turbulento cumprindo as funções que lhe foram confiadas, com uma certa dignidade, com cuidado em não arriscar demasiado e, sobretudo, com o mérito de saber escolher os seus colaboradores diretos, nomeadamente João das Regras e Nun’Álvares. No entanto, a crónica, dá ao rei uma relação privilegiada com o autor, que tanto absorve o sentimento popular pelo rei que era ‘tão amado do povo’, como o analisa com o seu sólido bom senso e a sua lucidez plebeia.
E há passagens em que o cronista aborda valores do código de ética ideal dos cavaleiros e cortesãos, aproveitando para criticar vícios da aristocracia, como a vanglória, a inveja, a avareza e a gula. A sua descrição histórica era tingida também dum claro posicionamento político e social e dum propósito moralizante. Segundo Teresa Amado, o seu “fracasso” essencial em construir uma narrativa inteiramente “verdadeira” e a contradição entre a teoria e a prática provam-se no confronto entre o que os documentos efetivamente atestam e a narrativa que ele deixou. Assim, se fôramos a selecionar os factos certificáveis, não obteríamos a crónica, mas uma pouco extensa lista de nomes, datas, parentescos e acontecimentos públicos. Ora, porque ele foi um homem ente os homens, sucumbe aos desvios inevitáveis provocados pela mundanall afeiçom, mesmo que tenha porfiado repetidas vezes a sua própria isenção.
Apesar da parcialidade inevitável em todo o historiador, da qual se quis livrar, conseguiu, na sua obra, um controlo muito maior sobre as variáveis que os seus antecessores, revelando uma façanha historiográfica e um enorme pioneirismo em termos de metodologia e de credibilidade. 
Testemunha dum período de transição política e de afirmação da nacionalidade, soube trazê-lo até aos nossos dias e, em hipotipose, pôr-nos diante dos olhos os factos que desencadearam inúmeras transformações em Portugal e no mundo. Não importando se a sua palavra é histórica ou literária, importa saber que permanece. E foi a partir dela que vimos evidenciar-se a ideia da nacionalidade, da identidade coletiva verdadeiramente portuguesa. Teresa Amado diz que as suas crónicas “são atípicas” pela novidade face à evolução e pelo talento, inteligência e subtileza da compreensão “que não se reproduziram nos cronistas que se lhe seguiram”.
***
Por tudo isto, é justo que o enigma de Alandroal se desvende e o cronista seja mais estudado e apreciado!

2018.01.26 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

“Movidos pelo amor que se entrega na Cruz”

É o lema da “caminhada diocesana das Cinzas ao Pentecostes 2018” que as estruturas de topo da diocese do Porto propõem “a todos, famílias, paróquias, comunidades religiosas, instituições, escolas católicas, movimentos e associações”, como “oportunidade de dinamização pastoral e de exercício espiritual”, “simultaneamente, de descida e de subida, como o revela o dinamismo da Cruz, onde Jesus é humilhado e ao mesmo tempo exaltado”.
Assumindo, como Santa Rosa de Lima, a cruz como escada por que subimos para o Céu, propõem a visualização da via do amor de Deus, descendo e subindo os diversos degraus.
Desceremos da Quaresma à Páscoa e subiremos da Páscoa ao Pentecostes pelos degraus da Cruz, sinalizando-os com os atributos do amor, enunciados por Paulo no Hino ao Amor (1 Cor 13), amor que o Papa comentou na Amoris Laetitia (A alegria do amor em família), no capítulo IV, e que está no coração da 1.ª Carta de João, a proclamar como leitura do Apóstolo, no tempo pascal. E a cruz permite a aposição de duas escadas: uma apoiada no braço direito da Cruz, outra no seu braço esquerdo. E “a Cruz do Senhor está firme, enquanto o mundo gira, movido pelo Seu Amor.
Após a caminhada “do Advento à Epifania”, movidos pela Estrela que brilha no amor, é de continuar este movimento, atraídos, movidos e comovidos pela Cruz, onde resplandece a glória do amor de Deus por nós: Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o seu Filho Unigénito” (cf Jo 3,14-21).
Assim, a diocese sugere elementos de reflexão e ações práticas, “a acolher e a aplicar, de forma criativa e adaptada às circunstâncias” e que aqui se condensam.
1. Fora da cruz, não há escada por onde se suba ao céu
Com as palavras “vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51), aludindo à escada de Jacob, apresentou-Se a Natanael e aos primeiros discípulos Jesus como “o Mediador entre o Céu e a Terra, ficando o Céu aberto à humanidade”.
A nova aliança é feita com o Filho do homem, o Deus encarnado. E, ao longo da história, muitos autores espirituais e artistas viram na imagem da escada a figura antecipada da Cruz, na linha da revelação de Jesus a Nicodemos: “Ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do Homem” (Jo 3,14). E recorda-no-lo o Catecismo da Igreja Católica:
A cruz é o único sacrifício de Cristo, mediador único entre Deus e os homens. Mas porque, na sua pessoa divina encarnada, Ele Se uniu, de certo modo, a cada homem, a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal, por um modo só de Deus conhecido.”.
E acrescenta a imagem de Santa Rosa de Lima: “Há uma só escada verdadeira para o paraíso; fora da cruz, não há outra escada por onde se suba ao céu” (CIC, n.º 618).
As preditas escadas, apostas à Cruz ajudarão “a representar e a viver” o mistério pascal de Jesus, tomando “esta escada do amor, que Se entrega na Cruz, como imagem da nossa caminhada”. Com efeito, a Cruz é, simultaneamente, a escada por onde Jesus desce e é humilhado e por onde sobe para ser exaltado. Por ela, o cristão aprende de Cristo e assemelha-se a Ele, que “sobe descendo” e que “desce subindo”. E a aposição das duas escadas na Cruz ajuda a deixarmo-nos atrair (cf Jo 12,32) movidos pelo amor de Deus, que resplandece na Cruz, pois “o amor de Cristo nos impele, ao pensarmos que um só morreu por todos” (2 Cor 5,14).

2. O acento simbólico pascal da Quaresma e o tema do Amor no Ano B
O lecionário dominical do Ano B, para a Quaresma, mostra que o acento não se põe tanto na via de preparação para o Batismo, como no Ano A, nem na penitência, como via de purificação e renovação batismal, como no Ano C. Esta Quarema incide sobretudo “na compreensão e vivência do mistério pascal”, aliás a finalidade primeira deste tempo, como se reza na oração coleta do 1.º domingo: “que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho”.
Nos domingos centrais da Quaresma (3.º, 4.º e 5.º), com o Evangelho de João, a Igreja propõe o caminho de Jesus para a Sua exaltação e oferece três catequeses sobre o mistério pascal, com as imagens da elevação de Cristo na Cruz, prefigurada na serpente elevada no poste como sinal de salvação (3.º domingo), do templo destruído e reconstruído em três dias (4.º domingo) e do grão de trigo caído à terra que, graças à morte, frutifica (5.º domingo). Deste modo, nos símbolos da serpente, do templo e do grão de trigo, “Cristo oferece-nos o dinamismo da morte/ressurreição, da fecundidade, que passa pela autonegação e pela exaltação na Cruz.
Pode então sintetizar-se o sentido da Quaresma assim: introduz-nos na celebração do mistério pascal de Cristo, o grande acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, “como única e maior intervenção salvadora do poder de Deus, na história da humanidade”. 
O mistério pascal que celebramos é o do caminho de Jesus para a Sua Páscoa, que se converte, na celebração e na vida da Igreja, em itinerário de conversão e iluminação do cristão.
João oferece-nos a visão da Cruz como árvore da vida nova, que Jesus veio oferecer: “Quando elevardes o Filho do Homem, então sabereis quem Eu sou. E ainda: “Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 8,28; 12,32-33). 
De facto, o evangelista vê a Cruz como árvore da vida, da glorificação de Cristo e de cura dos que O aceitam. Ora, no deserto, para ser curado do veneno das serpentes, era necessário “olhar”; agora, para “ter a vida eterna”, é preciso “crer” em Jesus, que está levantado e é elevado na Cruz, isto é, subiu à condição divina, pela escada da árvore da Cruz (cf Jo 8,28; 12,32-34).
Por seu turno, o tempo pascal, no Ano B, oferece-nos a possibilidade de aprofundar o nosso lema pastoral “Movidos pelo amor de Deus”, sobretudo a partir 2.ª leitura, da 1.ª Carta de João, que desenvolve com particular profundidade a revelação de Deus como Amor e, em resposta permanente a este amor, a prática do mandamento novo.
O segredo desta “descida” ao abismo da Cruz e da morte, pela qual o Filho de Deus é exaltado na glória, é o amor de Deus: “Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o Seu Filho Unigénito”, assim escutaremos no Evangelho do 3.º domingo (cf Jo 3,14-21).
            3. A escada como símbolo da cruz, caminho do Amor
A Bíblia fornece prefigurações da Cruz de Jesus na coluna de fogo e na nuvem e, sobretudo, na escada de Jacob, por onde desciam e subiam os anjos do céu (Gn 28,12). E, na perspetiva de João, Jesus, suspenso da Cruz, entre o Céu e a Terra, ao tornar-Se o mediador entre Deus e a humanidade pecadora, faz da Cruz a Sua escada de subida e descida até nós. Mediante ela, Deus comunica-Se com a humanidade; comunica à humanidade toda a riqueza do Seu amor.
Os grandes autores espirituais e místicos serviram-se da imagem da “escada” como símbolo da Cruz de Cristo e do caminho do amor, em que são necessárias purificações e amadurecimentos, ou do caminho da vida espiritual, nas suas diversas etapas, expressões ou degraus. É, de facto, significativo que a Cruz, enquanto “caminho do amor e a exigência da vida cristã” se compare ao subir ou descer os degraus duma escada. Pode-se tropeçar na subida porque os primeiros degraus estão na escuridão, mas, no cimo, há uma luz infinita, que se atinge com o archote da esperança e com o desejo da procura.
            4. A imagem da escada na nossa caminhada
Movidos pelo amor de Deus” aprendemos esta via de perfeição, que ultrapassa tudo (1 Cor 12,31), na medida em que permanecermos unidos e atraídos à Cruz de Cristo e ao seu amor por nós. Assim, Paulo, na 2.ª leitura do domingo de Ramos, refere o mistério da Cruz de Cristo: “Sendo de condição divina, aniquilou-Se a Si próprio; aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de Cruz; por isso Deus O exaltou” (cf Fl 2,6-11). A “subida que se faz descendo e esta descida que se faz subindo”, movidos pelo amor de Deus, pode representar-se nos sete degraus duma e doutra escadas, apostas junto à Cruz, como acontece em tantas imagens alusivas quer à elevação do Corpo de Cristo para ser pregado na Cruz, quer à descida do Corpo morto de Jesus, para a deposição e sepultura.
Pode, em alternativa, usar-se a mesma escada, na Quaresma e no Tempo Pascal, usando os seus dois lados, para a descida (Quaresma) e para a subida (tempo pascal). O que importa é destacar a Cruz e a “sua envolvência no espaço litúrgico”.
Em cada degrau, semana a semana, colocamos os atributos do amor, como nos são apresentados no célebre Hino ao amor (1 Cor 13), que é a “Magna Carta de todo o serviço eclesial” e que o Papa Francisco comenta, em perspetiva familiar e conjugal, no 4.º Capítulo da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris Laetitia (A alegria do amor), como se disse acima.
É um belo texto a inspirar a caminhada, desde o 1.º domingo da Quaresma à plenitude da Páscoa, no domingo de Pentecostes. Sugere-se para cada domingo, o primeiro dia da semana, os atributos do amor, que parecem “combinar” com algum pensamento retirado dos textos da liturgia dominical.
Propõe-se a leitura comentada dos números correspondentes a partir da Amoris Laetitia e, a partir do referido Hino ao Amor, um exame de consciência e algumas preces para invocar e agradecer a alegria do amor.
***
Da Quarema à Páscoa:
O Amor é paciente (1.º domingo: Deus esperava com paciência a construção da arca – 2.ª leitura); não é interesseiro (2.º domingo: Deus não poupou o Filho – 2.ª leitura); não é invejoso (3.º domingo: Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem coisa algo que lhe pertença – 1.ª leitura); é amável (4.º domingo: Quis mostrar a riqueza da sua bondade para connosco – 2.ª leitura); não é arrogante nem orgulhoso (5.º domingo: Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento – 2.ª leitura); tudo suporta (Semana Santa e Tríduo Pascal).
Da Amoris laetitia (por semana): 1 – A paciência é uma qualidade do Deus da aliança (AL 91-92); 2 – O amor não procura o que é seu. Procura mais amar que ser amado (AL 101-102); 3 – Trata-se de cumprir o que pedem os dois últimos mandamentos (AL 95-96); 4 – Para se predispor para um verdadeiro encontro requer-se um olhar amável pousado nele (AL 99-100); 5 – É indispensável curar o orgulho e cultivar a humildade (AL 97-98); 6 – É preciso cultivar esta força do amor que permite lutar contra o mal que o ameaça (AL 118-119).
Da Páscoa ao Pentecostes:
Tudo crê (2.º domingo: Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé – 2.ª leitura); tudo desculpa (3.º domingo: Se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, como advogado junto do Pai – 2.ª leitura); não se irrita nem guarda ressentimento (4.º domingo: Ele é a pedra que vós rejeitastes e que veio a tornar-se pedra angular – 1.ª leitura); é prestável (5.º domingo: Não amemos com palavras e com a língua – 2.ª leitura); rejubila com a verdade (6.º domingo: Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós – Evangelho); tudo espera (Ascensão: “Porque estais a olhar para o Céu? – 1.ª leitura); o amor não acaba nunca (Pentecostes: O amor de Deus foi derramado em nossos corações – 2.ª leitura).
 Da Amoris laetitia (por semana): 1 – Esta confiança reconhece a luz acesa por Deus, que se esconde por trás da escuridão (AL 114-115); 2 – Aceita com simplicidade que todos somos uma complexa combinação de luzes e sombras (AL 111-113); 3 – Lutar contra o mal, mas sem violência interior. Não te deixes vencer pelo mal (AL 103-104); 4 – O amor mostra a sua bondade nas ações. Amar é fazer o bem (AL 93-94); 5 – Alegra-se com o bem do outro, quando se reconhece a sua dignidade (AL 109-110); 6 – Não desesperar do futuro. Aguardar aquela plenitude que, embora hoje não seja visível, há de receber um dia no Céu (AL 116-117); 7 – Este amor forte, derramado pelo Espírito Santo, é reflexo da aliança indestrutível entre Cristo e a humanidade que culminou na entrega até ao fim na Cruz. (AL 120). É preciso pôr de lado as ilusões e aceitá-lo como é: inacabado, chamado a crescer, em caminho (AL 218).
***
Das propostas feitas, destacam-se: o exame de consciência – a nível pessoal, familiar, grupal ou comunitário – de confronto da vida com as caraterísticas do amor acima enunciadas, bem como preces em consonância com o desejo de se configurar com elas; valorização do ato penitencial na linha do confronto com as marcas do amor; oração e meditação a partir do Hino ao Amor e a partir da Amoris laetitia; ações voluntárias de privação e partilha; celebração da Reconciliação; e participação na celebração da Eucaristia (Vale a pena adquirir os materiais).
***
Hino ao Amor - 1 Cor 13,1-7.13

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver amor, sou como um bronze que soa
ou um címbalo que retine.

Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver amor, nada sou.

Ainda que eu distribua todos os meus bens
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver amor, de nada me aproveita.

O amor é paciente, o amor é prestável,
não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso,
 nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita nem guarda ressentimento.
Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará.

(…)

Agora permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor;
mas a maior de todas é o amor.

2017.01.25 – Louro de Carvalho